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A Relquia
Ea de Queirs
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A Relquia
Ea de Queirs
1
Decidi compor, nos vagares deste vero, na minha quinta do
Mosteiro (antigo solar dos condes de Lindoso), as memrias da
minha vida - que neste sculo, to consumindo pelas incertezas
da inteligncia e to angustiado pelos tormentos do dinheiro,
encerra, penso eu e pensa meu cunhado Crispim, uma lio lcida
e forte.
Em 1875, nas vsperas de Santo Antonio, uma desiluso de
incomparvel amargura abalou o meu ser; por esse tempo minha
tia, D. Patrocnio das Neves, mandou-me do Campo de
Santana onde morvamos, em romagem a Jerusalm; dentro
dessas santas muralhas, num dia abrasado do ms de Nizam,
sendo Poncio Pilatos procurador da Judia, lio Lama, Legado
Imperial da Sria, e J. Cairs, Sumo Pontfice, testemunhei,
miraculosamente, escandalosos sucessos; depois voltei, e uma
grande mudana se fez nos meus bens e na minha moral.
So estes casos, espaados e altos numa existncia de bacharel
como, em campo de erva ceifada, fortes e ramalhosos sobreiros
cheios de sol e murmrio, que quero traar, com sobriedade e
com sinceridade, enquanto no meu telhado voam as andorinhas,
e as moutas de cravos vermelhos perfumam o meu pomar.
Esta jornada  terra do Egito e  Palestina permanecer sempre
como a glria superior da minha carreira; e bem desejaria que
dela ficasse nas letras, para a posteridade, um monumento airoso
e macio. Mas hoje, escrevendo por motivos peculiarmente
espirituais, pretendi que as pginas ntimas, em que a relembro,
se no assemelhassem a um Guia Pitoresco do Oriente. Por isso
(apesar das solicitaes da vaidade), suprimi neste manuscrito
suculentas, resplandecentes narrativas de runas e de costumes...
De resto esse pas do Evangelho, que tanto fascina a humanidade
sensvel, e bem menos interessante que o meu seco e paterno
Alentejo; nem me parece que as terras, favorecidas por uma
presena messinica, ganhem jamais em graa ou esplendor.
Nunca me foi dado percorrer os lugares santos da ndia em que
o Buda viveu, arvoredos de Migadaia, outeiros de Veluvana, ou
esse doce vale de Rajgria, por onde se alongavam os olhos
adorveis do Mestre perfeito, quando um fogo rebentou nos
juncais, e Ele ensinou, em singela parbola, como a ignorncia 
uma fogueira que devora o homem, alimentada pelas enganosas
sensaes de vida, que os sentidos recebem das enganosas
aparncias do mundo. Tambm no visitei a caverna de Hira,
nem os devotos arcais entre Meca e Medina, que tantas vezes
trilhou Maom, o profeta excelente, lento e pensativo sobre o
seu dromedrio. Mas, desde as figueiras de Betnia at as
guas coladas de Galilia, conheo bem os stios onde habitou
esse outro intermedirio divino, cheio de enternecimento e de
sonhos, a quem chamamos Jesus Nosso Senhor; e s neles
achei bruteza, secura, sordidez, soledade e entulho.
Jerusalm  uma vila turca, com vielas andrajosas, acaapada
entre muralhas cor de lodo, e fedendo ao sol sob o badalar de
sinos tristes.
O Jordo, fio de gua barrento e peco que se arrasta entre
arcais, nem pode ser comparado a esse claro e suave Lima que
l baixo, ao fundo do Mosteiro, banha as razes dos meus
amieiros; e todavia vede! Estas meigas guas portuguesas no
correram jamais entre os joelhos de um Messias, nem jamais as
roaram as asas dos anjos, armados e rutilantes, trazendo do
cu a terra as ameaas do Altssimo!
Entretanto, como h espritos insaciveis que, lendo de uma jornada
pelas terras da Escritura, anelam conhecer desde o tamanho
das pedras at ao preo da cerveja, eu recomendo a obra
copiosa e luminosa do meu companheiro de romagem, o alemo
Topsius, doutor pela Universidade de Bonn e membro do
Instituto Imperial de Escavaes Histricas. So sete volumes in
quarto, atochados, impressos em Leipzig, com este titulo fino e
profundo - JERUSALM PASSEADA E COMENTADA.
Em cada pgina, desse slido itinerrio, o douto Topsius fala de
mim, com admirao e com saudade. Denomina-me sempre o
ilustre fidalgo lusitano; e a fidalguia do seu camarada, que ele faz
remontar aos Barcas, enche manifestamente o erudito plebeu de
delicioso orgulho. Alem disso o esclarecido Topsius aproveitame,
atravs desses repletos volumes, para pendurar, ficticiamente,
nos meus lbios e no meu crnio, dizeres e juzos ensopados
de beata e babosa credulidade - que ele logo rebate e
derroca com sagacidade e facndia! Diz, por exemplo: - Diante
de tal runa, do tempo da Cruzada de Godofredo, o ilustre
fidalgo lusitano pretendia que Nosso Senhor, indo um dia com a
Santa Vernica... - E logo alastra a tremenda, trgida argumentao
com que me deliu. Como, porm, as arengas que me atribui
no so inferiores, em sbio chorume e arrogncia teolgica,
as de Bossuet, eu no denunciei numa nota  Gazeta de Colnia
- por que tortuoso artifcio a afiada razo da Germnia se enfeita,
assim, de triunfos, sobre a romba f do Meio-Dia.
H, porm, um ponto de JERUSALM PASSEADA que no
posso deixar sem enrgica contestao. E quando o doutssimo
Topsius alude a dous embrulhos de papel, que me acompanharam
e me ocuparam, na minha peregrinao, desde as vielas de
Alexandria at as quebradas do Carmelo. Naquela forma
rotunda que caracteriza a sua eloquncia universitria, o Doutor
Topsius diz: o ilustre fidalgo lusitano transportava ali restos dos
seus antepassados, recolhidos por ele, antes de deixar o solo
sacro da ptria, no seu velho solar torreado!... Maneira de dizer
singularmente falaz e censurvel! Porque faz supor, a Alemanha
erudita, que eu viajava pelas terras do Evangelho - trazendo
embrulhados num papel pardo os ossos dos meus avs!
Nenhuma outra imputao me poderia tanto desaprazer e
desconvir. No por me denunciar  Igreja, como um profanador
leviano de sepulturas domsticas; menos me pesam a mim,
comendador e proprietrio, as fulminaes da Igreja, que as
folhas secas que s vezes caem sobre o meu guarda-sol de cima
de um ramo morto; nem realmente a Igreja, depois de ter
embolsado os seus emolumentos por enterrar um molho de ossos,
se importa que eles para sempre jazam resguardados sob a
rgida paz de um mrmore eterno, ou que andem chocalhados
nas dobras moles de um papel pardo. Mas a afirmao de
Topsius desacredita-me perante a burguesia liberal; e s da burguesia
liberal, onipresente e onipotente, se alcanam, nestes
tempos de semitismo e de capitalismo, as cousas boas da vida,
desde Os empregos nos bancos at as comendas da Conceio.
Eu tenho filhos, tenho ambies. Ora, a burguesia liberal
aprecia, recolhe, assimila com alacridade um cavalheiro ornado
de avoengos e solares;  o vinho precioso e velho que vai apurar
o vinho novo e cru; mas com razo detesta o bacharel, filho
de algo, que passeie por diante dela, enfunado e teso, com as
mos carregadas de ossos de antepassados - como um sarcasmo
mudo aos antepassados e aos ossos que a ela lhe faltam.
Por isso, intimo o meu douto Topsius (que, com os seus penetrantes
culos, viu formar os meus embrulhos, j na terra do
Egito, j na terra de Cana), a que na edio segunda de JERUSALM
PASSEADA, sacudindo pudicos escrpulos de
acadmico e estreitos desdns de filsofo, divulgue  Alemanha
cientfica e  Alemanha sentimental qual era o recheio que continham
esses papis pardos  to francamente como eu o revelo
aos meus concidados nestas pginas de repouso e de frias,
onde a realidade sempre vive, ora embaraada e tropeando
nas pesadas roupagens da Histria, ora mais livre e saltando
sob a caraa vistosa da Farsa.
1
Meu av foi o Padre Rufino da Conceio, licenciado em teologia,
autor de uma devota Vida de Santa Filomena, e prior da
Amendoeirinha. Meu pai, afilhado de Nossa Senhora da Assuno,
chamava-se Rufino da Assuno Raposo, e vivia em vora
com minha av, Filomena Raposo, por alcunha a Repolhuda,
doceira na Rua do Lagar dos Dzimos. o pap tinha um emprego
no correio, e escrevia por gosto no Farol do Alentejo.
Em 1853, um eclesistico lustre, D. Gaspar de Lorena, bispo
de Corazim (que  em Galilia), velo passar o So Joo a
vora, a casa do Cnego Pita, onde o pap muitas vezes a noite
costumava ir tocar violo. Por cortesia com os dous sacerdotes,
o pap publicou no Farol uma crnica laboriosamente
respigada no Peclio de Pregadores, felicitando vora pela
dita de abrigar em seus muros o insigne prelado D. Gaspar,
lume fulgente da Igreja, e preclarssima torre de santidade. O
bispo de Corazim recortou este pedao do Farol, para o meter
entre as folhas do seu brevirio; e tudo no pap lhe comeou a
agradar, at o asseio da sua roupa branca, at a graa chorosa
com que de cantava, acompanhando-se no violo, a xcara do
Conde Ordonho. Mas quando soube que este Rufino da Assuno,
to moreno e simptico, era o afilhado carnal do seu
velho Rufino da Conceio, camarada de estudos no bom seminrio
de So Jos e nas veredas teolgicas da Universidade, a
sua afeio pelo pap tomou-se extremosa. Antes de partir de
vora, deu-lhe um relgio de prata; e, por influncia dele, o
pap, depois de arrastar alguns meses a sua madraaria pela
alfndega do Porto, como aspirante, foi nomeado, escandalosamente,
diretor da alfndega de Viana.
As macieiras cobriam-se de flor, quando o pap chagou s
veigas suaves de Entre-Minho-e-Lima; e logo nesse julho conheceu
um cavalheiro de Lisboa, o Comendador G. Godinho,
que estava passando o vero com duas sobrinhas, junto ao rio,
numa quinta chamada o Mosteiro, antigo solar dos condes de
Lindoso. A mais velha destas senhoras, D. Maria do Patrocnio,
usava culos escuros, e vinha todas as manhs da quinta a cidade,
num burrinho, com o criado de farda, ouvir missa a Santana.
A outra, D. Rosa, gordinha e trigueira, tocava harpa, sabia de
cor os versos do Amor e Melancolia, e passava horas, a beira
da gua, entre a sombra dos amieiros, rojando o vestido branco
pelas relvas, a fazer raminhos silvestres.
O pap comeou a freqentar o Mosteiro. Um guarda da alfndega
levava-lhe o violo; e enquanto o comendador e outro
amigo da casa, o Margaride, doutor delegado, se embebiam
numa partida de gamo, e D. Maria do Patrocnio rezava em
cima o tero - o pap, na varanda, ao lado de D. Rosa, defronte
da lua, redonda e branca sobre o rio, fazia gemer no silncio
os bordes e dizia as tristezas do Conde Ordonho. Outras vezes
jogava de a partida de gamo: D. Rosa sentava-se ento ao
p do titi, com uma flor nos cabelos, um livro cado no regao;
e o pap, chocalhando os dados, sentia a carcia prometedora
dos seus olhos pestanudos.
Casaram. Eu nasci numa tarde de sexta-feira de Paixo; e a
mam morreu, ao estalarem, na manh alegre, os foguetes da
Aleluia. Jaz, coberta de goivos, no cemitrio de Viana, numa rua
junto ao muro, mida da sombra dos chores, onde ela gostava
de ir passear nas tardes de vero, vestida de branco, com a sua
cadelinha felpuda que se chamava Traviata.
O comendador e D. Maria no voltaram ao Mosteiro. Eu cresci,
tive o sarampo; o pap engordava; e o seu violo dormia,
esquecido ao canto da sala, dentro de um saco de baeta verde.
Num julho de grande calor, a minha criada Gervasia vestiu-me o
fato pesado de veludilho preto; o pap ps um fumo no chapu
de palha; era o luto do Comendador G. Godinho, a quem o
pap muitas vezes chamava, por entre dentes, malandro.
Depois, numa noite de entrudo, o pap morreu de repente, com
uma apoplexia, ao descer a escadaria de pedra da nossa casa,
mascarado de urso, para ir ao baile das Senhoras Macedos.
Eu fazia ento sete anos; e lembro-me de ter visto, ao outro dia,
no nosso ptio, uma senhora alta e gorda, com uma mantilha
rica de renda negra, a soluar diante das manchas de sangue do
pap, que ningum lavara, e j tinham secado nas lajes. A porta
uma velha esperava, rezando, encolhida no seu mantu de
baetilha.
As janelas da frente da casa foram fechadas; no corredor escuro,
sobre um banco, um candeeiro de lato ficou dando a sua
luzinha de capela, fumarenta e mortal. Ventava e chovia. Pela
vidraa da cozinha, enquanto a Mariana, choramingando, abanava
o fogareiro, eu vi passar, no Largo da Senhora da Agonia,
o homem que trazia s costas o caixo do pap. No alto frio do
monte a capelinha da Senhora, com a sua cruz negra, parecia
mais triste ainda, branca e nua entre os pinheiros, quase a sumir-
se na nvoa; e adiante, onde esto as rochas, gemia e rolava,
sem descontinuar, um grande mar de inverno.
 noite, no quarto de engomar, a minha criada Gervsia sentoume
no cho, embrulhado num saiote. De quando em quando,
rangiam no corredor as botas do Joo, guarda da alfndega,
que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me
uma fatia de po-de-l. Adormeci; e logo achei-me a caminhar
 beira de um rio claro, onde os choupos, j muito velhos, pareciam
ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um
homem nu, com duas chagas nos ps, e duas chagas nas mos,
que era Jesus, Nosso Senhor.
Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela
do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente
como um prenncio de cousa santa. Ao lado da cama, um
sujeito, risonho e gordo, fazia-me ccegas nos ps com ternura
e chamava-me brejeirote. A Gervsia disse-me que era o Senhor
Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia
Patrocnio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa,
olhava espantado para as meias rotas que me calara a
Gervsia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do pap; o
Joo, guarda da alfndega, trouxe-me ao colo at  porta da
rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado.
Comeamos ento a caminhar por compridas estradas. Mesmo
adormecido, eu sentia as lentas campainhas dos machos; e o
Senhor Matias, defronte de mim, fazia-me de vez em quando
uma festinha na cara, e dizia: Ora c vamos. Uma tarde, ao
escurecer, paramos de repente num stio ermo, onde havia um
lamaal; o liteireiro, furioso, praguejava, sacudindo o archote
aceso. Em redor, dolente e negro, rumorejava um pinheiral. O
Senhor Matias, enfiado, tirou o relgio da algibeira e escondeuo
no cano da bota.
Uma noite, atravessamos uma cidade, onde os candeeiros da
rua tinham uma luz jovial, rara e brilhante como eu nunca vira,
da forma de uma tulipa aberta. Na estalagem em que apeamos,
o criado, chamado Gonalves, conhecia o Senhor Matias; e
depois de nos trazer os bifes, ficou familiarmente encostado 
mesa, de guardanapo ao ombro, contando cousas do senhor
baro, e da inglesa do senhor baro. Quando recolhamos ao
quarto, alumiados pelo Gonalves, passou por ns, bruscamente,
no corredor, uma senhora, grande e branca, com um rumor
forte de sedas
claras, espalhando um aroma de almscar. Era a inglesa do senhor
baro. No meu leito de ferro, desperto pelo barulho das
seges, eu pensava nela, rezando Ave-Marias. Nunca roara
corpo to belo, de um perfume to penetrante; ela era cheia de
graa, o Senhor estava com ela, e passava, bendita entre as
mulheres, com um rumor de sedas claras...
Depois, partimos num grande coche, que tinha as armas do rei e
rolava a direito por uma estrada lisa, ao trote forte e pesado de
quatro cavalos gordos. O Senhor Matias, de chinelas nos ps e
tomando a sua pitada, dizia-me, aqui e alm, o nome de uma
povoao aninhada em torno de uma velha igreja, na frescura
de um vale. Ao entardecer, por vezes, numa encosta, as janelas
de uma calma vivenda faiscavam com um fulgor de ouro novo.
O coche passava; a casa ficava adormecendo entre as rvores;
atravs dos vidros embaciados, eu via luzir a estrela de Vnus.
Alta noite tocava uma cometa; e entrvamos, atroando as caladas,
numa vila adormecida, defronte do porto da estalagem,
moviam-se silenciosamente lanternas mortias. Em cima, numa
sala aconchegada, com a mesa cheia de talheres, fumegavam as
terrinas; os passageiros, arrepiados, bocejavam, tirando as luvas
grossas de l; e eu comia o meu caldo de galinha,
estremunhado e sem vontade, ao lado do Senhor Matias, que
conhecia sempre algum moo, perguntava pelo doutor delegado,
ou queria saber como iam as obras da cmara.
Enfim, num domingo de manh, estando a chuviscar, chegamos
a um casaro, num largo cheio de lama. O Senhor Matias disseme
que era Lisboa; e, abafando-me no meu xale-manta, sentoume
num banco, ao fundo de uma sala mida, onde havia bagagens
e grandes balanas de ferro. Um sino lento tocava  missa;
diante da porta passou uma companhia de soldados, com as
armas sob as capas de oleado. Um homem carregou os nossos
bas, entramos numa sege, eu adormeci sobre o ombro do Senhor
Matias. Quando ele me ps no cho, estvamos num ptio
triste, lajeado de pedrinha mida, com assentos pintados de
preto; e na escada uma moa gorda cochichava com um homem
de opa escarlate, que trazia ao colo o mealheiro das almas.
Era a Vicncia, a criada da tia Patrocnio. O Senhor Matias subiu
os degraus conversando com ela, e levando-me ternamente
pela mo. Numa sala forrada de papel escuro, encontramos
uma senhora muito alta, muito seca, vestida de preto, com um
grilho de ouro no peito; um leno roxo, amarrado no queixo,
caa-lhe num bioco lgubre sobre a testa; e no fundo dessa
sombra, negrejavam dous culos defumados. Por trs dela, na
parede, uma imagem de Nossa Senhora das Dores olhava para
mim, com o peito trespassado de espadas.
- Esta  a Titi - disse-me o Senhor Matias. - E necessrio gostar
muito da Titi... E necessrio dizer sempre que sim  Titi!
Lentamente, a custo, ela baixou o caro chupado e
esverdinhado. Eu senti um beijo vago, de uma frialdade de pedra;
e logo a Titi recuou, enojada.
- Credo, Vicncia! Que horror! Acho que lhe puseram azeite no
cabelo!
Assustado, com o beicinho j a tremer, ergui os olhos para ela,
murmurei:
- Sim, Titi.
Ento o Senhor Matias gabou o meu gnio, o meu propsito na
liteira, a limpeza com que eu comia a minha sopa  mesa das
estalagens.
- Est bem - rosnou a Titi secamente. - Era o que faltava, portar-
se mal, sabendo o que eu fao por ele... V, Vicncia, leveo
l para dentro... lave-lhe essa ramela; veja se ele sabe fazer o
sinal da cruz...
O Senhor Matias deu-me dous beijos repenicados. A Vicncia
levou-me para a cozinha.
 noite vestiram-me o meu fato de veludilho; e a Vicncia, sria,
de avental lavado, trouxe-me pela mo a uma sala em que
pendiam cortinas de damasco escarlate, e os ps das mesas
eram dourados como as colunas de um altar. A Titi estava sentada
no meio do canap, vestida de seda preta, toucada de rendas
pretas, com os dedos resplandecentes de anis. Ao lado,
em cadeiras tambm douradas, conversavam dous eclesisticos.
Um, risonho e ndio, de cabelinho encaracolado e j branco,
abriu os braos para mim, paternalmente. O outro, moreno e
triste, rosnou s boas noites. E da mesa, onde folheava um
grande livro de estampas, um homenzinho, de cara rapada e
colarinhos enormes, cumprimentou, atarantado, deixando escorregar
a luneta do nariz.
Cada um deles vagarosamente me deu um beijo. O padre triste
perguntou-me o meu nome, que eu pronunciava Tedrico. O outro,
amorvel, mostrando os dentes frescos, aconselhou-me que
separasse as slabas e dissesse Te-o-do-ri-co. Depois acharamme
parecido com a mam, nos olhos. A Titi suspirou, deu louvores
a Nosso Senhor de que eu no tinha nada do Raposo. E
o sujeito de grandes colarinhos fechou o livro, fechou a luneta, e
timidamente quis saber se eu trazia saudades de Viana. Eu murmurei,
atordoado:
- Sim, Titi.
Ento o padre mais idoso e ndio chegou-me para os joelhos,
recomendou-me que fosse temente a Deus, quietinho em casa,
sempre obediente  Titi...
- O Teodorico no tem ningum seno a Titi... E necessrio dizer
sempre que sim  Titi...
Eu repeti, encolhido:
- Sim, Titi.
A Titi, severamente, mandou-me tirar o dedo da boca. Depois
disse-me que voltasse para a cozinha, para a Vicncia, sempre
a seguir pelo corredor...
- E quando passar pelo oratrio, onde est a luz e a cortina verde,
ajoelhe, faa o seu sinalzinho da cruz...
No fiz o sinal da cruz. Mas entreabri a cortina; e o oratrio da
Titi deslumbrou-me, prodigiosamente. Era todo revestido de
seda roxa, com painis enternecedores em caixilhos floridos,
contando os trabalhos do Senhor; as rendas da toalha do altar
roavam o cho tapetado; os santos de marfim e de madeira,
com aurolas lustrosas, viviam num bosque de violetas e de camlias
vermelhas. A luz das velas de cera fazia brilhar duas salvas
nobres de prata, encostadas  parede, em repouso, como
broquis de santidade; e erguido na sua cruz de pau preto, sob
um dossel, Nosso Senhor Jesus Cristo era todo de ouro, e reluzia.
Cheguei-me devagar at junto da almofada de veludo verde,
pousada diante do altar, cavada pelos piedosos joelhos da Titi.
Ergui para Jesus crucificado os meus lindos olhos negros. E fiquei
pensando que no cu os anjos, os santos, Nossa Senhora
e o Pai de todos, deviam ser assim, de ouro, cravejados talvez
de pedras; o seu brilho formava a luz do dia; e as estrelas eram
os pontos mais vivos do metal precioso, transparecendo atravs
dos vus negros, em que os embrulhava  noite, para dormirem,
o carinho beato dos homens.
Depois do ch, a Vicncia foi-me deitar numa alcovinha pegada
ao seu quarto. Fez-me ajoelhar em camisa, juntou-me as mos,
e ergueu-me a face para o cu. E ditou os Padre-Nossos que
me cumpria rezar pela sade da Titi, pelo repouso da mam, e
por alma de um comendador que fora muito bom, muito santo e
muito rico o que se chamava Godinho.
Apenas completei nove anos, a Titi mandou-me fazer camisas,
um fato de pano preto, e colocou-me, como interno, no colgio
dos Isidoros, ento em Santa Isabel.
Logo nas primeiras semanas liguei-me ternamente com um rapaz,
Crispim, mais crescido que eu, filho da firma Teles, Crispim
& Cia. donos da fbrica de fiao  Pampulha. O Crispim ajudava
 missa aos domingos; e, de joelhos, com os seus cabelos
compridos e louros, lembrava a suavidade de um anjo. As vezes
agarrava-me no corredor e marcava-me a face, que eu tinha
feminina e macia, com beijos devoradores;  noite, na sala de
estudo,  mesa onde folhevamos os sonolentos dicionrios,
passava-me bilhetinhos a lpis chamando-me seu idolatrado e
prometendo-me caixinhas de penas de ao...
A quinta-feira era o desagradvel dia de lavarmos os ps. E trs
vezes por semana o sebento Padre Soares vinha, de palito na
boca, interrogar-nos em doutrina e contar-nos a vida do Senhor.
- Ora, depois pegaram, e levaram-no de rastos a casa de
Caifs... Ol, o da pontinha do banco, quem era Caifs?...
Emende! Emende adiante!... Tambm no! Irra, cabeudos!
Era um judeu e dos piores... Ora diz que, l num stio muito feio
da Judia, h uma rvore toda de espinhos, que  mesmo de
arrepiar...
A sineta do recreio tocava; todos, a um tempo e de estalo, fechvamos
a cartilha.
O tristonho ptio de recreio, areado com saibro, cheirava mal
por causa da vizinhana das latrinas; e o regalo para os mais
crescidos era tirar uma fumaa do cigarro, s escondidas, numa
sala trrea onde aos domingos o mestre de dana, o velho
Cavinetti, frisado e de sapatinhos decotados, nos ensinava
mazurcas.
Cada ms a Vicncia, de capote e leno, me vinha buscar depois
da missa para ir passar um domingo com a Titi. Isidoro
Jnior, antes de eu sair, examinava-me sempre os ouvidos e as
unhas; muitas vezes, mesmo na bacia dele, dava-me uma
ensaboada furiosa, chamando-me baixo sebento. Depois traziame
at  porta, fazia-me uma carcia, tratava-me de seu querido
amiguinho, e mandava pela Vicncia os seus respeitos  senhora
D. Patrocnio das Neves.
Ns morvamos no Campo de Santana. Ao descer o Chiado,
eu parava numa loja de estampas, diante do lnguido de uma
mulher loura, com peitos nus, recostada numa pele de tigre, e
sustentando na ponta dos dedos, mais finos que os do Crispim,
um pesado fio de prolas. A claridade daquela nudez fazia-me
pensar na inglesa do senhor baro; e esse aroma, que tanto me
perturbara no corredor da estalagem, respirava-o outra vez,
finamente espalhado, na rua feita de sol, pelas sedas das senhoras
que subiam para a missa do Loreto, espartilhadas e graves.
A Titi, em casa, estendia-me a mo a beijar; e toda a manh eu
ficava folheando volumes do Panorama Universal, na saleta
dela, onde havia um sof de riscadinho, um armrio rico de pau
preto, e litografias coloridas, com ternas passagens da vida
purssima do seu favorito santo, o patriarca So Jos. A Titi, de
leno roxo carregado para a testa, sentada  janela por dentro
dos vidros, com os ps embrulhados numa manta, examinava
solicitamente um grande caderno de contas.
s trs horas enrolava o caderno; e de dentro da sombra do
leno, comeava a perguntar-me doutrina. Dizendo o Credo,
desfiando os Mandamentos, com os olhos baixos, eu sentia o
seu cheiro acre e adocicado a rap e a formiga.
Aos domingos vinham jantar conosco os dous eclesisticos. O
de cabelinho encaracolado era o Padre Casimiro, procurador
da Titi; dava-me abraos risonhos; convidava-me a declinar
arbor, arboris; currus, curri; proclamava-me com afeto
talentao. E o outro eclesistico elogiava o colgio dos
Isidoros, formosssimo estabelecimento de educao, como no
havia nem na Blgica. Esse chamava-se Padre Pinheiro. Cada
vez me parecia mais moreno, mais triste. Sempre que passava
por diante de um espelho, deitava a lngua de fora, e ali se esquecia
a estic-la, a estud-la, desconfiado e aterrado.
Ao jantar o Padre Casimiro gostava de ver o meu apetite.
- Vai mais um bocadinho de vitelinha guisada? Rapazes queremse
alegres e bem comidos! ...
E Padre Pinheiro, palpando o estmago:
- Felizes idades! Felizes idades em que se repete a vitela!
Ele e a Titi falavam ento de doenas. Padre Casimiro,
coradinho, com o guardanapo atado ao pescoo, o prato cheio
o copo cheio, sorria beatificamente.
Quando, na praa, entre as rvores, comeavam a luzir os candeeiros
de gs, a Vicncia punha o seu xale velho de xadrez e ia
levar-me ao colgio. A essa hora, nos domingos, chegava o
sujeitinho de cara rapada e vastos colarinhos, que era o Senhor
Jos Justino, secretrio da confraria de So Jos, e tabelio da
Titi, com cartrio a So Paulo . No ptio, tirando j o seu palet,
fazia-me uma festa no queixo, e perguntava  Vicncia pela
sade da senhora a D. Patrocnio. Subia; ns fechvamos o pesado
porto. E eu respirava consoladamente - me entristecia
aquele casaro com os seus damascos vermelhos, os santos
inumerveis, e o cheirinho a capela.
Pelo caminho a Vicncia falava-me da Titi, que a trouxera, havia
seis anos, da Misericrdia. Assim eu fui sabendo que ela padecia
do fgado; tinha sempre muito dinheiro em ouro numa bolsa
de seda verde; e o Comendador Godinho, tio dela e da minha
mam? deixara-lhe duzentos contos em prdios, em papis, e a
quinta do Mosteiro ao p de Viana, e pratas e louas da ndia...
Que rica que era a Titi! Era necessrio ser bom, agradar sempre
 Titi!
 porta do colgio a Vicncia dizia Adeus, amorzinho, e
dava-me um grande beijo. Muitas vezes, de noite, abraado ao
travesseiro, eu pensava na Vicncia, e nos braos que lhe vira
arregaados, gordos e brancos como leite. E assim foi nascendo
no meu corao, pudicamente, uma paixo pela Vicncia.
Um dia, um rapaz j de buo chamou-me no recreio lambisgia.
Desafiei-o para as latrinas, ensanguentei-lhe l a face toda, com
um murro bestial. Fui temido. Fumei cigarros. O Crispim sara
dos Isidoros; eu ambicionava saber jogar a espada. E o meu
alto amor pela Vicncia desapareceu um dia, insensivelmente,
como uma flor que se perde na rua.
E os anos assim foram passando; pelas vsperas de Natal acendia-
se um braseiro no refeitrio; eu envergava o meu casaco
forrado de baeta e ornado de uma gola de astrac; depois chegavam
as andorinhas aos beirais do nosso telhado; e no oratrio
da Titi, em lugar de camlias, vinham braadas dos primeiros
cravos vermelhos perfumar os ps de ouro de Jesus; depois era
o tempo dos banhos de mar, e o Padre Casimiro mandava  Titi
um gigo de uvas da sua quinta de Torres... Eu comecei a estudar
retrica.
Um dia, o nosso bom procurador disse-me que eu no voltaria
mais para os Isidoros, indo acabar os meus preparatrios em
Coimbra, na casa do Doutor Roxo, lente de teologia. Fizeramme
roupa branca. A Titi deu-me num papel a orao que eu
diariamente devia rezar a So Lus Gonzaga, padroeiro da mocidade
estudiosa, para que ele conservasse em meu corpo a
frescura da castidade, e na minha alma o medo do Senhor. O
Padre Casimiro foi-me levar  cidade graciosa, onde dormita
Minerva.
Detestei logo o Doutor Roxo. Em sua casa sofri vida dura e
claustral; e foi um inefvel gosto quando, no meu primeiro ano
de Direito, o desagradvel eclesistico morreu miseravelmente
de um antraz. Passei ento para a divertida hospedagem das
Pimentas, e conheci logo, sem moderao, todas as independncias,
e as fortes delicias da vida. Nunca mais rosnei a
delambida orao a So Lus Gonzaga, nem dobrei o meu joelho
viril diante de imagem benta que usasse aurola na nuca;
embebedei-me com alarido nas Camelas; afirmei a minha
robustez, esmurrando sanguinolentamente um marcador do
Trony; fartei a carme com saborosos amores no Terreiro da
Erva; vadiei ao luar, ganindo fados; usava moca; e como a barba
me vinha, basta e negra, aceitei com orgulho a alcunha de
Raposo. Todos os quinze dias, porm escrevia  Titi, na minha
boa letra, uma carta humilde e piedosa, onde lhe contava a severidade
dos meus estudos, o recato dos meus hbitos, as copiosas
rezas e os rgidos jejuns, os sermes de que me nutria, os
doces desagravos ao Corao de Jesus  tarde, na S, e as
novenas com que consolava a minha alma em Santa-Cruz no
remanso dos dias feriados...
Os meses de vero em Lisboa eram depois dolorosos. No
podia sair, mesmo a espontar o cabelo, sem implorar da Titi
uma licena servil. No ousava fumar ao caf. Devia recolher
virginalmente,  noitinha; e, antes de me deitar, tinha de rezar
com a velha um longo tero no oratrio. Eu prprio me condenara
a esta detestvel devoo!
- Tu l nos teus estudos costumas fazer o teu tero? - perguntara-
me, com secura, a Titi.
E eu, sorrindo abjetamente:
- Ora essa.  que nem posso adormecer sem ter rezado o meu
rico tero...
Aos domingos continuavam as partidas. O Padre Pinheiro, rnais
triste, queixava-se agora do corao, e um pouco tambm da
bexiga. E havia outro comensal, velho amigo do Comendador
Godinho, fiel visita das Neves, o Margaride, o que fora delegado
em Viana, depois juiz em Mangualde. Pico por morte de seu
mano Abel, secretrio da Cmara Patriarcal, o doutor aposentara-
se, farto dos autos, e vivia em cio, lendo os peridicos,
num prdio seu na Praa da Figueira. Como conhecera o pap,
e muitas vezes o acompanhara ao Mosteiro, tratou-me logo
com autoridade e por voc.
Era um homem corpulento e solene, j calvo, com um caro
lvido, onde desatacavam as sobrancelhas cerradas, densas e
negras como carvo. Raras vezes penetrava na sala da Titi sem
atirar, logo da porta, uma notcia pavorosa. ento, no sabem?
Um incndio medonho, na Baixa! Apenas uma fumaraa numa
chamin. Mas o bom Margaride, em novo, num sombrio acesso
de imaginao, compusera duas tragdias; e dai lhe ficara este
gosto mrbido de exagerar e de impressionar. Ningum como
eu, dizia ele, saboreia o grandioso...
E, sempre que aterrava a Titi e os sacerdotes, sorvia gravemente
uma pitada.
Eu gostava do Doutor Margaride. Camarada do pap em
Viana, muitas vezes lhe ouvira cantar, ao violo, a xcara do
Conde Ordonho. Tardes inteiras vagueara com de poeticamente,
pela beira da gua, no Mosteiro, quando a mam fazia
raminhos silvestres  sombra dos amieiros. E mandou-me as
amndoas mal eu nasci,  noitinha, em sexta-feira da Paixo.
Alm disso, mesmo na minha presena ele gabava francamente
 Titi o meu intelecto, e a circunspeco dos meus modos.
- O nosso Teodorico, D. Patrocnio,  moco para deleitar uma
tia... Vossa Excelncia, minha rica senhora, tem aqui um
Telmaco!
Eu corava, modesto.
Ora, foi justamente passeando com ele no Rossio, num dia de
agosto, que eu conheci um parente nosso, afastado, primo do
Comendador G. Godinho. O Doutor Margaride apresentoumo,
dizendo apenas: - o Xavier, teu primo, moo de grandes
dotes. Era um homem enxovalhado, de bigode louro, que fora
galante e desbaratara furiosamente trinta contos, herdados de
seu pai, dono de uma cordoaria em Alcntara. O Comendador
G. Godinho, meses antes de morrer da sua pneumonia, tinha-o
recolhido por caridade  Secretaria da Justia, com vinte milris
por ms. E o Xavier agora vivia com uma espanhola chamada
Crmen, e trs filhos dela, num casebre da Rua da F.
Eu fui l num domingo. Quase no havia mveis; a bacia da
cara, a nica, estava entalada no fundo roto da palhinha de uma
cadeira. O Xavier toda a manh deitara escarros de sangue pela
boca. E a Crmen, despenteada, em chinelas, arrastando uma
bata de fusto manchada de vinho, embalava sorumbaticamente
pelo quarto uma criana embrulhada num trapo e com a
cabecinha coberta de feridas.
Imediatamente o Xavier, tratando-me por tu, faiou-me da tia
Patrocnio... Era a sua esperana, naquela sombria misria, a tia
Patrocnio! Serva de Jesus, proprietria de tantos prdios, ela
no podia deixar um parente, um Godinho, definhar-se ali naquele
casebre, sem lenis, sem tabaco, com os filhos em redor,
esfarrapados, a chorar por po. Que custava a tia Patrocnio
estabelecer-lhe, como j fizera o Estado, uma mesadinha de
vinte mil-ris?
- Tu  que lhe devias falar, Teodorico! Tu  que lhe devias dizer...
Olha para essas crianas. Nem meias tm... Anda c,
Rodrigo, dize aqui ao tio Teodorico. Que comeste hoje ao almoo?...
Um bocado de po de ontem! E sem manteiga, sem
mais nada! E aqui est a nossa vida, Teodorico! Olha que 
duro, menino!
Enternecido, prometi falar  Titi.
Falar  Titi! Eu nem ousaria contar  Titi que conhecia o Xavier
e que entrava nesse casebre impuro onde havia uma espanhola,
emagrecida no pecado.
E para que eles no percebessem o meu ignbil terror da Titi,
no voltei  Rua da F.
No meado de setembro, no dia da Natividade de Nossa Senhora,
soube pelo Doutor Barroso que o primo Xavier, quase a
morrer, me queria falar em segredo.
Fui l, de tarde, contrariado. Na escada cheirava a febre. A
Crmen, na cozinha, conversava por entre soluos com outra
espanhola, magrita, de mantilha preta e corpetezinho triste de
cetim cor de cereja. os pequenos, no cho, rapavam um tacho
de acorda. E na alcova o Xavier, enrodilhado num cobertor,
com a bacia da cara ao lado, cheia de escarros de sangue, tossia,
despedaadamente:
- s tu, rapaz?
- Ento que  isso, Xavier?
Ele exprimiu, num termo obsceno, que estava perdido. E estirando-
se de costas, com um brilho seco nos olhos, falou-me
logo da Titi. Escrevera-lhe uma carta linda, de rachar o corao;
a fera no respondera. E, agora, ia mandar para o Jornal
de Notcias um anncio, a pedir uma esmola, assinando Xavier
Godinho, primo do rico Comendador G. Godinho. Queria ver
se D. Patrocnio das Neves deixaria um parente, um Godinho,
mendigar assim, publicamente, na pgina de um jornal.
- Mas  necessrio que tu me ajudes, rapaz; que a enterneas!
Quando ela ler o anncio, conta-lhe esta misria! Desperta-lhe
o brio. Dize-lhe que  uma vergonha ver morrer ao abandono
um parente, um Godinho. Dize-lhe que j se rosna! Olha, se
hoje pude tomar um caldo,  que essa rapariga, a Lolita, que
est em casa da Benta Bexigosa, nos trouxe a quatro coroas...
V tu a que eu cheguei!
Ergui-me, comovido.
- Conta comigo, Xavier.
- Olha, se tens a cinco tostes que te no faam falta, d-os 
Crmen.
Dei-lhos a ele; e sai, jurando que ia falar  Titi, solenemente, em
nome dos Gordinhos e em nome de Jesus!
Depois do almoo, ao outro dia, a Titi, de palito na boca, e vagarosa,
desdobrou o jornal de Notcias. E decerto achou logo o
anncio do Xavier, porque ficou longo tempo fitando o canto da
terceira pgina onde ele negrejava, aflitivo, vergonhoso, medonho.
Ento pareceu-me ver, voltados para mim, l do fundo nu do
casebre, os olhos aflitos do Xavier; a face amarela da Crmen,
lavada de lgrimas; as pobres mozinhas dos pequenos, magras,
 espera da cdea de po... E todos aqueles desgraados
ansiavam pelas palavras que eu ia lanar  Titi, fortes, tocantes,
que os deviam salvar, e dar-lhes o primeiro pedao de carne
daquele vero de misria. Abri os lbios. Mas j a Titi, recostando-
se na cadeira, rosnava com um sorrisinho feroz:
- Que se agente...  o que sucede a quem no tem temor de
Deus e se mete com bbedas... No tivesse comido tudo em
relaxaes... C para mim, homem perdido com saias, homem
que anda atrs de saias, acabou... No tem o perdo de Deus,
nem tem o meu! Que padea, que padea, que tambm Nosso
Senhor Jesus Cristo padeceu!
Baixei a cabea, murmurei:
- E ainda ns no padecemos bastante... Tem a Titi razo. Que
se no metesse com saias!
Ela ergueu-se, deu as graas ao Senhor. Eu fui para o meu
quarto, fechei-me l, a tremer, sentindo ainda, regeladas e ameaadoras,
as palavras da Titi, para quem os homens acabavam
quando se metiam com saias. Tambm eu me metera com saias,
em Coimbra, no Terreiro da Erva! Ali, no meu ba, tinha eu
documentos do meu pecado, a fotografia da Teresa dos Quinze,
uma fita de seda, e uma carta dela, a mais doce, em que me
chamava nico afeto da sua alma e me pedia dezoito tostes!
Eu cozera estas dentro do forro de um colete de pano, receando
as incessantes rebuscas da Titi, por entre a minha roupa ntima.
Mas l estavam, no ba de que ela guardava a chave, dentro
do colete, fazendo uma dureza de carto que qualquer dia
poderiam palpar os seus dedos desconfiados... E eu acabava
logo para Titi!
Abri devagarinho o ba, descosi o forro, tirei a carta deliciosa
da Teresa, a fita que conservara o aroma da sua pele, e a sua
fotografia, de mantilha. Na pedra da varanda, sem piedade,
queimei tudo, amabilidades e feies; e sacudi desesperadamente
para o saguo as cinzas da minha ternura.
Nessa semana no ousei voltar  Rua da F. Depois, um dia
que chuviscava, fui l, ao escurecer, encolhido sob o meu guarda-
chuva. Um vizinho, vendo-me espreitar de longe as janelas
negras e mortas do casebre, disse-me que o Senhor Godinho,
coitado, fora para o hospital numa maca.
Desci triste, ao comprido das grades do Passeio. E, no crepsculo
mido, tendo roado bruscamente por outro guarda-chuva,
ouvi de repente o meu nome de Coimbra, lanado com alegria.
- Oh, Raposo!
Era o Silvrio, por alcunha o Rincho, meu condiscpulo, e
companheiro de casa das Pimentas. Estivera passando esse ms
no Alentejo, com seu tio, ricao ilustre, o Baro de Alconchel.
E agora, de volta, ia ver uma Ernestina, rapariguita loura, que
morava no Salitre, numa casa cor-de-rosa, com roseirinhas 
varanda.
- Queres tu vir c um bocado, o Raposo? Est l outra rapariga
bonita, a Adlia... Tu no conheces a Adlia? Ento, que
diabo, vem ver a Adlia...  um mulhero!
Era um domingo, noite de partida da Titi; eu devia recolher religiosamente
s oito horas. Cocei a barba, indeciso. O Rincho
falou da brancura dos braos da Adlia; e eu comecei a caminhar
ao lado do Rincho, enfiando as luvas pretas.
Munidos de um cartucho de pastis e de uma garrafa de Madeira,
encontramos a Ernestina a coser um elstico nas suas
botinas de duraque. E a Adlia, estendida num sof, de
chambre e em saia branca, com os chinelos cados no tapete,
fumava um cigarro lnguido. Eu sentei-me ao lado dela, comovido
e mono, com o meu guarda-chuva entre os joelhos. S
quando o Silvrio e a Ernestina correram dentro  cozinha,
abraados, a buscar copos para o Madeira, ousei perguntar 
Adlia, corando:
- Ento a menina de onde ?
damasco, os culos da Titi, mais negros, assanhados, esperando
por mim e fuzilando. Ainda Era de Lamego. E eu, novamente
acanhado, s pude gaguejar que era tristonho aquele tempo
de chuva. Ela pediu-me outro cigarro, cortesmente, dizendo-me
- o cavalheiro. Apreciei estes modos. As mangas largas do seu
roupo, escorregando, descobriam braos to brancos e macios,
que entre eles a morte mesma deveria ser deleitosa.
Fui eu que lhe ofereci o prato, onde a Ernestina colocara os
pastis. Ela quis saber o meu nome. Tinha um sobrinho que
tambm chamava Teodorico; e isto foi como um fio sutil e forte
que veio, do seu corao, enrodilhar-se no meu.
- Por que  que o cavalheiro no pe o guarda-chuva ali a um
canto? - disse-me ela, rindo.
O brilho picante dos seus dentinhos midos fez desabrochar,
dentro em mim, uma flor de madrigal.
-  para no me tirar daqui de ao p da menina nem um instantinho
que seja.
Ela fez-me uma ccega lenta no pescoo. Eu, aboborado de
gozo bebi o resto do Madeira que ela deixara no clice.
A Ernestina, potica, e cantando o fado, aninhou-se nos joelhos
do Rincho. Ento a Adlia, revirando-se languidamente, puxou-
me a face - e os meus lbios encontraram os seus no beijo
mais srio, mais sentido, mais profundo que at a abalara o
meu ser.
Nesse doce instante, um relgio medonho, com o mostrador
fingindo uma face de lua, e que parecia espreitar-me de sobre o
mrmore de uma mesa de mogno, dentre dous vasos sem flores,
comeou a dar dez horas, fanhoso, irnico, pachorrento.
Jesus! Era a hora do ch em casa da Titi! Com que terror eu
trepei, esbaforido, sem mesmo abrir o guarda-chuva, as vielas
escuras e infindveis que levam ao Campo de Santana! Em
casa, nem tirei as botas enlameadas. Enfiei pela sala; e vi logo,
l ao fundo, no sof de balbuciei:
- Titi...
Mas j ela gritava, esverdinhada de clera, sacudindo os punhos:
- Relaxaes em minha casa no admito! Quem quiser viver
aqui h de estar s horas que eu marco! L deboches e porcarias,
no, enquanto eu for viva! E quem no lhe agradar, rua!
Sob a rajada estridente da indignao da senhora D. Patrocnio,
Padre Pinheiro e o tabelio Justio tinham dobrado a cabea,
embaados. o Doutor Margaride, para apreciar conscienciosamente
a minha culpa, puxou o seu pesado relgio de ouro. E foi
o bom Casimiro que interveio, como sacerdote, como procurador,
influente e suave.
- D. Patrocnio tem razo, tem muita razo em querer ordem em
casa... Mas talvez o nosso Teodorico se tivesse demorado um
pouco mais no Martinho, a ouvir falar de estudos, de compndios...
Exclamei amargamente:
- Nem isso, Padre Casimiro! Nem no Martinho estive! Sabe
onde estive? No convento da Encarnao!  verdade, encontrei
um
condiscpulo meu, que ia l buscar a irm. Hoje era festa, a irm
tinha ido passar o dia com uma tia, uma comendadeira... Estivermos
 espera, a passear no ptio... A irm vai casar, ele andou
a contar-me do noivo, e do enxoval, e do apaixonada que
ela est... Eu morto por me safar, mas com cerimnia do rapaz,
que sobrinho do Baro de Alconchel... E ele zs, zs, a falar da
irm, e do namoro, e das cartas...
A tia Patrocnio uivou de furor.
- Olha que conversa! Que porcaria de conversa! Que indecente
conversa para o ptio de uma casa de religio! Cala-te, alma
perdida, que at devias ter vergonha!... E fique entendendo!
Para outra vez que venha a estas horas, no me entra em casa!
Fica na rua, como um co..
Ento o Doutor Margaride estendeu a mo pacificadora e solene:
- Est tudo explicado! O nosso Teodorico foi imprudente, mas
o stio onde esteve  respeitvel... E eu conheo o Baro de
Alconchel.  um cavalheiro da maior circunspeco, e um dos
mais abastados do Alentejo... Talvez mesmo um dos mais ricos
proprietrios de Portugal... o mais rico, direi!... Mesmo l fora
no haver fortuna territorial que lhe exceda. Nem que se lhe
compare!... S em porcos! S em cortia! Centenares de contos!
Milhes!
Erguera-se; o seu vozeiro empolado rolava serras de ouro. E o
bom Casimiro murmurava, ao meu lado, com brandura:
- Tome o seu chazinho, Teodorico, v tomando o seu chazinho.
E creia que a tia no deseja seno o seu bem...
Puxei, com a mo a tremer, a minha chvena de ch; e, remexendo
desfalecidamente o fundo de acar, pensava em abandonar
para sempre a casa daquela velha medonha, que assim
me ultrajava diante da Magistratura e da Igreja, sem considerao
pela barba que me comeava a nascer, forte, respeitvel e
negra.
Mas, aos domingos, o ch era servido nas pratas do
Comendador G. Godinho. Eu via-as, macias e resplandecentes,
diante de mim; o grande bule, terminando em bico de pato;
o aucareiro cuja asa tinha a forma de uma cobra assanhada; e
o paliteiro gentil, em figura de macho trotando sob os seus
alforjes. E tudo pertena  Titi. Que rica que era a Titi! Era necessrio
ser bom, agradar sempre A Titi!
Por isso, mais tarde, quando ela penetrou no oratrio para
cumprir o tero, j eu l estava, de rojos, gemendo, martelando
o peito, e suplicando ao Cristo de ouro que me perdoasse ter
ofendido a Titi.
Um dia enfim cheguei a Lisboa, com as minhas cartas de doutor
metidas num canudo de lata. A Titi examinou-as reverente,
achando um sabor eclesistico As linhas em latim, s
paramentosas fitas vermelhas, e ao selo dentro do seu relicrio.
- Est bom, - disse ela - ests doutor. A Deus Nosso Senhor o
deves; v no lhe faltes...
Corri logo ao oratrio, com o canudo na mo, agradecer ao
Cristo de ouro o meu glorioso grau de bacharel.
Na manh seguinte, estando ao espelho, a espontar a barba
que, agora, tinha cerrada e negra, o Padre Casimiro entrou-me
pelo quarto, risonho e a esfregar as mos.
- Boa nova vos trago aqui, senhor Doutor Teodorico!
E depois de me acaridar, segundo o seu afetuoso costume, com
palmadinhas doces nos rins, o santo procurador revelou-me que
a Titi, satisfeita comigo, decidira comprar-me um cavalo para eu
dar honestos passeios, e espairecer por Lisboa.
- Um cavalo! Oh, Padre Casimiro!
Um cavalo. E alem disso, no querendo que seu sobrinho, j
barbado, j letrado, sofresse um vexame, por lhe faltar s vezes
um troco para deitar na salva de Nossa Senhora do Rosrio, a
Titi estabelecia-me uma mesada de trs moedas.
Abracei com calor o Padre Casimiro. E desejei saber se a
amorvel inteno da Titi era que eu no tivesse outra ocupao,
alm de cavalgar por Lisboa, e lanar pratinhas na salva de
Nossa Senhora.
- Olhe, Teodorico, eu parece-me que a Titi no quer que voc
tenha outro mister, seno temer a Deus... o que lhe digo  que o
amigo vai pass-la boa e regalada... E agora, ande, v-lhe l
dentro agradecer, e diga-lhe uma cousinha mimosa.
Na saleta, onde brilhavam pelas paredes os feitos piedosos do
patriarca So Jos, a Titi, sentada a um canto do sof de
riscadinho, fazia meia, com um xale de Tonquim pelos ombros.
- Titi - murmurei eu encolhido - venho aqui agradecer...
- Est bom, vai com Deus.
Ento, devotamente, beijei-lhe a franja do xale. A Titi gostou.
Eu fui com Deus.
Comeou da, farta e regalada, a minha existncia de sobrinho
da senhora D. Patrocnio das Neves. As oito horas, pontualmente,
vestido de preto, ia com a Titi  Igreja de Santana, ouvir
a missa do Padre Pinheiro. Depois do almoo, tendo pedido
licena  Titi, e rezadas no oratrio trs Gloria Patri contra as
tentaes, saa a cavalo, de cala clara. Quase sempre a Titi me
dava alguma incumbncia beata: passar em So Domingos, e
dizer a orao pelos trs santos mrtires do Japo; entrar na
Conceio Velha, e fazer o ato de desagravo pelo Sagrado Corao
de Jesus...
E eu receava tanto desagradar-lhe, que nunca deixava de dar
estes ternos recados, que ela mandava  casa do Senhor.
Mas era este o momento desagradvel do meu dia: s vezes, ao
sair, sorrateiro, do porto da igreja, topava com algum
condiscpulo republicano, dos que me acompanhavam em
Coimbra, nas tardes de procisso, chasqueando o Senhor da
Cana-Verde.
- Oh, Raposo! pois tu agora...
Eu negava, vexado:
- Ora essa! No me faltava mais nada! Sou mesmo l de carolices...
Qual! Entrei aqui por causa de uma rapariga... Adeus,
tenho a gua  espera.
Montava, e de luva preta, a perna bem colada  sela, um
botozinho de camlia no peito, ia caracolando, em cio e luxo,
at ao Largo do Loreto. Outras vezes deixava a gua no Arco
do Bandeira, e gozava uma manh regalada no bilhar do Montanha.
Antes do jantar, em chinelas, no oratrio com a Titi, eu fazia a
jaculatria a So Jos, aio de Jesus, custdio de Maria e
amorosssimo patriarca.  mesa. adornada apenas por
compoteiras de doce de calda em torno de uma travessa de
aletria. eu contava  Titi o meu passeio, as igrejas em que me
deleitara, e quais os altares alumiados. A Vicncia escutava com
devoo, perfilada no seu lugar costumado, entre as duas janelas,
onde um retrato do nosso santo padre Pio IX enchia a tira
de parede verde, tendo por baixo, pendente de um cordo, um
velho culo de alcance, relquia do Comendador G. Godinho.
Depois do caf a Titi, lentamente, cruzava os braos; e o seu
caro sumia-se, dormente e pesado, na sombra do leno roxo.
Eu ia enfiar as botas; e, autorizado agora por ela a recrear-me
fora de casa at s nove e meia, corria ao fim da Rua da
Madalena, ao p do Largo dos Cadas. A, com resguardo, encolhido
na gola do meu sobretudo, cosido com o muro, como
se o candeeiro de gs que ali havia, fosse olho inexorvel da Titi
- penetrava sofregamente na escadinha da Adlia...
Sim, da Adlia! Porque nunca mais me esquecera, desde a noite
em que o Rincho me levou ao Salitre, o beijo que ela me
dera, lnguida e branca, sobre o sof. Em Coimbra procurara
mesmo fazer-lhe versos; e esse amor dentro do meu peito foi,
no ltimo ano de Universidade, no ano de direito eclesistico,
como um maravilhoso lrio que ningum via e que perfumava a
minha vida... Apenas a Titi me estabeleceu a mesada das trs
moedas, corri em triunfo ao Salitre; l havia as roseirinhas  janela,
mas a Adlia j l no estava. E foi ainda o prestante
Rincho que me mostrou esse primeiro andar, junto ao Largo
dos Cadas, onde ela agora vivia patrocinada por Eleutrio Serra,
da firma Serra Brito & Cia. com loja de fazendas e modas
na Conceio Velha. Mandei-lhe uma carta ardente e seria,
pondo reverentemente no alto: Minha senhora. Ela respondeu,
com dignidade: - o cavalheiro pode vir aqui ao meio-dia. Levei-
lhe uma caixinha de pastilhas de chocolate, atada com uma
fita de seda azul; pisando comovido a esteira nova da sala eu
antevia, pela engomada brancura das bambinelas, a frescura das
suas saias; e o rgido alinho dos mveis revelava-me a retido
dos seus sentimentos. Ela entrou, um pouco constipada, com
um xale vermelho pelos ombros. Reconheceu logo o amigo do
Rincho; falou da Ernestina, com severidade, chamando-lhe
porcalhona. E a sua voz enrouquecida, o seu defluxo, davamme
o desejo de a curar nos meus braos, de um longo dia de
agasalho e sonolncia, sob o peso dos cobertores, na penumbra
mole da sua alcova. Depois ela quis saber se eu era empregado
ou estava no comrcio... Eu contei-lhe com orgulho a riqueza
da Titi, os seus prdios, as suas pratas. Disse-lhe, com as suas
mos grossas presas nas minhas:
- Se a Titi agora rebentasse, eu  que lhe punha a menina uma
casa chic!
Ela murmurou, banhando-me todo na negra doura do seu
olhar:
- Ora! o cavalheiro, se apanhasse o bago, no se importava
mais comigo!
Ajoelhei sobre a esteira, trmulo, esmagando o peito contra os
seus joelhos, ofertando-me como uma rs; ela abriu o seu xale;
aceitou-me misericordiosamente.
Agora,  noitinha (enquanto Eleutrio, no clube da Rua Novado-
Carmo, jogava a manilha), eu tinha ali na alcova da Adlia a
radiante festa da minha vida. Levara para l um par de chinelas,
era o eleito do seu seio. As nove e meia, despenteada, envolta 
pressa num roupo de flanela, com os ps nus, acompanhavame
pela escadinha de trs, colhendo em cada degrau, nos meus
lbios, um beijo lento e saudoso.
- Adeus, Delinha!
- Agasalha-te, riquinho!
E eu recolhia devagar ao Campo de Santana, ruminando o meu
gozo!
O vero passou, languidamente. Os primeiros ventos de outono
levaram as andorinhas e as folhagens do Campo de Santana; e
logo nesse outubro, de repente, a minha vida se tomou mais
fcil, mais larga. A Titi mandara-me fazer uma casaca; e eu estreei-
a, com permisso dela, indo ouvir a So Carlos o Poliuto -
pera que o Doutor Margaride recomendara, como repassada
de sentimentos religiosos e cheia de elevada lio. Fui com de,
de luvas brancas, frisado. Depois, no outro dia, ao almoo,
contei  Titi o devoto enredo, os dolos derrubados, os
cnticos, as fidalgas que estavam nos camarotes, e de que lindo
veludo vestia a rainha.
- E sabe quem me veio falar, Titi? O Baro de Alconchel, o ricao,
tio daquele rapaz que foi meu condiscpulo. Veio apertarme
a mo; esteve um bocado comigo no salo... Tratou-me
com muita considerao.
A Titi gostou desta considerao.
Depois, tristemente, como um moralista magoado, queixei-me
do ndio decote de uma senhora imodesta, nua nos braos, nua
no peito, mostrando toda essa carne, esplndida e irreligiosa,
que  a desolao do justo e a angstia da Igreja.
- Jesus, Senhor, que vexame! Acredite a Titi, estava com nojo!
A Titi gostou deste nojo.
E passados dias, depois do caf, quando eu me dirigia, ainda de
chinelas, ao oratrio, a fazer uma curta petio s chagas do
nosso Cristo de ouro - a Titi, j de braos cruzados e sonolenta,
disse-me dentre a sombra do leno:
- Est bom, se queres, volta hoje a So Carlos... E l quando te
apetecer, no te acanhes, tens licena, podes ir gozar um bocado
de msica... Agora que ests um homem, e que parece que
tens propsito, no me importa que fiques fora, at s onze ou
onze e meia... Em todo o caso a essa hora quero estar j de
porta fechada, e tudo pronto, para comearmos o tero.
Ela no viu o triunfante lampejar dos meus olhos. Eu murmurei,
requebrado, a babar-me de gosto devoto:
- L o tero, Titi, l o meu querido tero no perdia eu, nem
pelo maior divertimento... Nem que El-Rei me convidasse para
um chazinho no pao!
Corri, delirante a enfiar a casaca. E este foi o comeo dessa
anelada liberdade que eu conquistara laboriosamente, vergando
o espinhao diante da Titi, macerando o peito diante de Jesus!
Liberdade bem-vinda, agora que Eleutrio Serra partira para
Paris, fazer os seus fornecimentos, e deixara a Adlia s, solta,
bela, mais jovial, mais fogosa!
Sim, decerto, eu ganhara a confiana da Titi com os meus modos
pontuais, sisudos, servis e beatos! Mas o que a levara a
alargar assim, com generosidade as minhas horas de honesto
recreio, fora (como ela disse confidencialmente ao Padre
Casimiro) a certeza de que eu me portava com religio e no
andava atrs de saias.
Porque para a tia Patrocnio todas as aes humanas, passadas
por fora dos portais das igrejas, consistiam em andar atrs de
calas ou andar atrs de saias; e ambos estes doces impulsos
naturais lhe eram igualmente odiosos!
Donzela, e velha, e ressequida como um galho de sarmento; no
tendo jamais provado na lvida pele seno os bigodes do
Comendador G. Godinho, paternais e grisalhos; resmungando
incessantemente, diante de Cristo nu, essas jaculatrias das horas
de piedade, soluantes de amor divino, a Titi entranhara-se,
pouco a pouco, de um rancor invejoso e amargo a todas as formas
e a todas as graas do amor humano.
E no lhe bastava reprovar o amor como cousa profana; a senhora
D. Patrocnio das Neves fazia uma carantonha, e varria-o
como cousa suja. Um moo grave, amando seriamente, era
para ela uma porcaria! Quando sabia de uma senhora que
tivera um filho, cuspia para o lado, rosnava - que nojo! E
quase achava a natureza obscena por ter criado dous sexos.
Rica, apreciando o conforto, nunca quisera em casa um escudeiro
- para que no houvesse na cozinha, nos corredores, saias
a roar com calas. E apesar de irem embranquecendo os cabelos
da Vicncia, de ser decrpita e gaga a cozinheira, de no
ter dentes a outra criada chamada Eusbia, andava-lhes sempre
remexendo desesperadamente nos bas, e at na palha dos enxerges,
a ver se descobria fotografia de homem, carta de homem,
rasto de homem, cheiro de homem.
Todas as recreaes moas: um passeio gentil com senhoras,
em burrinhos; um boto de rosa orvalhado oferecido na ponta
dos dedos; uma decorosa contradana em jucundo dia de Pscoa;
outras alegrias, ainda mais cndidas, pareciam  Titi perversas,
cheias de sujidade, e chamava-lhes relaxaes. Diante
dela j os sisudos amigos da casa no ousavam mencionar dessas
comoventes histrias, lidas nas gazetas, e em que
transparecem motivos de amor - porque isso a escandalizava
como o desbragamento de uma nudez.
- Padre Pinheiro! - gritou ela um dia furiosa, com os culos
chamejantes para o desventuroso eclesistico, ao ouvi-lo narrar
de uma criada que em Frana atirara o filho  sentina. - Padre
Pinheiro! Faa favor de me respeitar... No  l pela latrina! 
pela outra porcaria!
Mas era ela prpria que sem cessar aludia a desvarios e a pecados
da carne - para os vituperar, com dio; atirava ento o
novelo de linha para cima da mesa, espetando-lhe raivosamente
as agulhas de meia - como se trespassasse ali, tornando-o para
sempre frio, o vasto e inquieto corao dos homens. E quase
todos os dias, com os dentes rilhados, repetia (referindo-se a
mim) que se uma pessoa do seu sangue, e que comesse o seu
po, andasse atrs de saias, ou se desse a relaxaes, havia de
ir para a rua, escorraado a vassoura, como um co.
Por isso agora as minhas precaues eram to apuradas que,
para evitar me ficasse na roupa ou na pele o delicioso cheiro da
Adlia, eu trazia na algibeira bocados soltos de incenso. Antes
de galgar a triste escadaria da casa, penetrava sutilmente na cavalaria
deserta, ao fundo do ptio; queimava no tampo de uma
barrica vazia um pedao da devota resina; e ali me demorava,
expondo ao aroma purificador as abas do jaqueto e as minhas
barbas viris... Depois subia; e tinha a satisfao de ver logo a
Titi farejar, regalada:
- Jesus, que rico cheirinho a igreja!
Modesto, e com um suspiro, eu murmurava:
- Sou eu, Titi...
Alm disso, para melhor a persuadir da minha indiferena por
saias, coloquei um dia, no soalho do corredor, como perdida
uma carta com selo - certo que a religiosa D. Patrocnio, minha
senhora e tia, a abriria logo, vorazmente. E abriu, e gostou. Era
escrita por mim a um condiscpulo de Arraiolos: e dizia, em letra
nobre, estas cousas edificantes: Sabers que fiquei de mal com
o Simes, o de filosofia, por ele me ter convidado a ir a uma
casa desonesta. No admito destas ofensas. Tu lembras-te bem
como j em Coimbra eu detestava tais relaxaes. E parece-me
ser uma grandssima cavalgadura aquele que, por causa de uma
distrao que  fogo-viste-lingia, se arrisca a penar, por todos
os sculos e sculos, amm, nas fogueiras de Satans, salvo
seja! Ora, numa dessas refinadssimas asneiras no  capaz de
cair o teu do C. - Raposo.
A Titi leu, a Titi gostou. E agora eu vestia a minha casaca, dizialhe
que ia ouvir a Norma, beijava com uno os ossos dos seus
dedos; e corria, ao Largo dos Cadas,  alcova da Adlia, a
afundar-me perdidamente nas beatitudes do pecado. Ali,  meia
luz que dava atravs da porta envidraada o candeeiro de
petrolina da sala, os cortinados de cambraia e as saias dependuradas
tomavam brancuras celestes de nuvem; o cheiro dos
ps-de-arroz excedia em doura o olor dos junquilhos msticos;
eu estava no cu, eu era So Teodorico; e sobre os ombros nus
da minha amada, desenrolavam-se as madeixas do seu cabelo
negro, forte e duro como a cauda de um corcel de guerra.
Numa dessas noites, eu saia de uma confeitaria do Rossio, de
comprar trouxas de ovos para levar  minha Adlia, quando
encontrei o Doutor Margaride que me anunciou, depois do seu
abrao paternal, que ia So Carlos ver o Profeta.
- E voc, vejo-o de casaca, naturalmente tambm vem...
Fiquei varado. Com efeito vestira a casaca, dissera  Titi que ia
gozar o Profeta, pera de tanta virtude como uma santa instrumental
de igreja.. E agora tinha de sofrer o Profeta, deveras,
entalado numa cadeira da geral, roando o joelho do douto magistrado,
em vez de preguiar num colcho amoroso, vendo a
minha deusa, em camisa, comer o seu docinho de ovos.
- Sim, com efeito, tambm eu ia daqui para o Profeta - murmurei
aniquilado. - Diz que  uma musicazinha de muita virtude... A
Titi gostou muito que eu viesse.
Com o meu intil cartucho de trouxas de ovos, l fui subindo,
melancolicamente, ao lado do Doutor Margaride, a Rua Novado-
Carmo.
Ocupamos as nossas cadeiras. E na sala resplandecente, branca
e com tons de ouro, eu pensava saudosamente na alcova sombria
da Adlia, e no desalinho das suas saias - quando reparei
que de uma frisa ao lado uma senhora loura e madura, uma
ceres outonal vestida de seda cor de palha, voltava para mim, a
cada doce arcada das rebecas, os seus olhos claros e srios.
Perguntei logo ao Doutor Margaride se conhecia aquela dama
que eu costumava encontrar s sextas na Igreja da Graa, visitando
o Senhor dos Passos com uma devoo, um fervor...
- O sujeito que est por trs, a abrir a boca,  o Visconde
Souto Santos. E ela ou  a mulher, a Viscondessa de Souto
Santos, ou a cunhada, a Viscondessa de Vilar-o-Velho...
 sada, a viscondessa (de Souto Santos ou de Vilar-o-Velho)
ficou um momento  porta esperando a sua carruagem, embrulhada
numa capa branca que uma penugem orlava, delicadamente;
a sua cabea pareceu-me mais altiva, incapaz de rolar,
tonta e plida, num travesseiro de amor; a cauda cor de palha
alastrava-se sobre as lajes; era esplndida, era viscondessa; e
outra vez me procuraram, me trespassaram os seus olhos claros
e srios.
A noite estava estrelada. E, descendo o Chiado em silncio ao
lado do Doutor Margaride, eu pensava que, quando todo o
ouro da Titi fosse meu e dourasse a minha pessoa, eu poderia
ento conhecer uma viscondessa de Souto Santos ou de Vilaro-
Velho, no na sua frisa, mas na minha alcova, j cada a grande
capa branca, despidas j as sedas cor de palha, alva s do
brilho da sua nudez, e fazendo-se pequenina entre os meus braos...
Ai, quando chegaria a hora, doce entre todas, de morrer
a Titi?
- Quer voc vir tomar o seu ch ao Martinho? - perguntou-me
o Doutor Margaride ao desembocarmos no Rossio. - No sei
se voc conhece a torrada do Martinho... E a melhor torrada de
Lisboa.
No Martinho, j silencioso, o gs ia adormecendo entre os espelhos
baos; e havia apenas numa mesa do fundo um moo
triste, com a cabea enterrada entre os punhos, diante de um
capil.
O Margaride encomendou o ch, e vendo-me olhar com inquietao
os ponteiros do relgio, afirmou-me que eu chegaria 
casa ainda a horas de fazer a minha tocante devoo com a Titi.
- A Titi agora - disse eu - no se importa que eu esteja at mais
tarde... A Titi agora, louvado seja Deus, tem mais confiana em
mim.
- E voc merece-o... Faz-lhe a vontade,  sisudo... Ela pouco a
pouco tem-lhe ganho amizade, segundo me diz o Casimiro...
Ento lembrei-me da velha afeio que ligava o Doutor
Margaride ao Padre Casimiro, procurador da tia Patrocnio e
seu zeloso confessor. E, arrebatando a oportunidade, dei um
leve suspiro, abri o meu corao ao magistrado, largamente,
como a um pai.
- E verdade, a Titi tem-me amizade... Mas acredite Vossa Excelncia,
Doutor Margaride, que o meu futuro inquieta-me s
vezes... Olhe que tenho pensado mesmo em ir a um concurso
para delegado. At j indaguei se seria difcil entrar como despachante
na alfndega. Porque enfim a Titi  rica,  muito rica;
eu sou seu sobrinho, nico parente, nico herdeiro; mas...
E olhei ansiosamente para o Doutor Margaride, que, pelo loquaz
Padre Casimiro, conhecia talvez o testamento da Titi... O
silncio grave em que ele ficou, com as mos cruzadas sobre a
mesa, pareceu-me sinistro; e nesse instante o criado trouxe a
bandeja do ch, sorrindo, e felicitando o magistrado por o ver
melhor do seu catarro.
- Deliciosa torrada! - murmurou o doutor.
- Excelente torrada! - suspirei eu cortesmente.
De vez em quando o Doutor Margaride esfuracava um queixal;
depois limpava a face, os dedos; e recomeava a mastigar devagar,
com delicadeza e com religio.
Eu arrisquei outra palavra tmida.
- A Titi,  verdade, tem-me amizade...
- A Titi tem-lhe amizade - atalhou com a boca cheia o magistrado
- e voc  o seu nico parente... Mas a questo  outra,
Teodorico. E que voc tem um rival.
- Rebento-o! - gritei eu, irresistivelmente, com os olhos em chamas,
esmurrando o mrmore da mesa.
O moo triste, l ao fundo, ergueu a face de cima do seu capil.
E o Doutor Margaride reprovou com severidade a minha violncia.
- Essa expresso  imprpria de um cavalheiro, e de um moo
comedido. Em geral no se rebenta ningum... E alm disso o
seu rival no  outro, Teodorico, seno Nosso Senhor Jesus
Cristo!
Nosso Senhor Jesus Cristo? E s compreendi, quando o esclarecido
jurisconsulto, j mais calmo, me revelou que a Titi, ainda
no ltimo ano da minha formatura, tencionava deixar a sua fortuna,
terras e prdios, a irmandades da sua simpatia e a padres
da sua devoo.
- Estou perdido! - murmurei.
Os meus olhos, casualmente, encontraram, l ao fundo, o moo
triste diante do seu capil. E pareceu-me que ele se assemelhava
a mim como um irmo, que era eu prprio, Teodorico, j
deserdado, srdido, com as botas cambadas, vindo ali ruminar
as dores da minha vida,  noite, diante de um capil.
Mas o Doutor Margaride acabara a torrada. E estendendo regaladamente
as pernas, consolou-me, de palito na boca, afvel
e perspicaz.
- Nem tudo est perdido, Teodorico. No me parece que esteja
tudo perdido... E possvel que a senhora sua tia tenha mudado
de idia... Voc  bem comportado, amima-a, l-lhe o jornal,
reza o tero com ela... Tudo isto influi. Que  necessrio
diz-lo, o rival  forte!
Eu gemi:
- E de arromba!
- E forte. E devo acrescentar, digno de todo o respeito... Jesus
Cristo padeceu por ns,  religio do Estado, no h seno curvar
a cabea... Olhe, quer voc a minha opinio? Pois a a tem,
franca e sem rebuo, para lhe servir de guia... Voc vem a herdar
tudo, se D. Patrocnio, sua tia e minha senhora, se convencer
que deixar-lhe a fortuna a voc  como deix-la  Santa
Madre Igreja...
O magistrado pagou o ch, nobremente. Depois, na rua, ia abafado
no seu palet, ainda me disse baixinho:
- Com franqueza, que tal a torrada?
- No h melhor torrada em Lisboa, Doutor Margaride.
Ele apertou-me a mo com afeto, e separamo-nos, quando estava
dando a meia-noite no velho relgio do Carmo.
Estugando o passo pela Rua Nova-da-Palma, eu sentia agora
bem claramente, bem amargamente, o erro da minha vida...
Sim, o erro! Porque at a, essa minha devoo complicada,
com que eu procurara agradar  Titi e ao seu ouro, fora sempre
regular, mas nunca fora fervente. Que importava murmurar com
correo o tero diante de Nossa Senhora do Rosrio? Diante
de Nossa Senhora em todas as suas encarnaes, e bem em
evidncia para comover a Titi, eu devia mostrar habilmente uma
alma ardendo em labaredas de amor beato, e um corpo pisado,
penitente, ferido pelos picos dos cilcios... At ai a Titi podia
dizer com aprovao:  exemplar. Era-me preciso, para herdar,
que ela exclamasse um dia, babada, de mos postas: E
santo!
Sim! Eu devia identificar-me tanto com as cousas eclesisticas e
submergir-me nelas de tal sorte, que a Titi, pouco a pouco, no
pudesse distinguir-me claramente desse conjunto ranoso de
cruzes, imagens, ripanos, opas, tochas, bentinhos, palmitos,
andores, que era para ela a religio e o cu; e tomasse a minha
voz pelo santo ciciar dos latins de missa; e a minha sobrecasaca
preta lhe parecesse j salpicada de estrelas, e difana como a
tnica de bem-aventurana. Ento, evidentemente, ela testaria
em meu favor - certa que testava em favor de Cristo e da sua
doce Madre Igreja!
Porque agora, eu estava bem decidido a no deixar ir para Jesus,
filho de Maria, a aprazvel fortuna do Comendador G.
Godinho. Pois qu! No bastavam ao Senhor os seus tesouros
incontveis; as sombrias catedrais de mrmore, que atulham a
terra e a entristecem; as inscries, os papis de crdito que a
piedade humana constantemente averba em seu nome; as ps
de ouro que os Estados, reverentes, lhe depositam aos ps trespassados
de pregos; as alfaias, os clices, e os botes de punho
de diamantes que ele usa na camisa, na sua Igreja da Graa? E
ainda voltava, do alto do madeiro, os olhos vorazes para um
bule de prata, e uns inspidos prdios da Baixa! Pois bem! disputaremos
esses mesquinhos, fugitivos haveres, tu,  filho do
carpinteiro, mostrando  Titi a chaga que por ela recebeste, uma
tarde, numa cidade brbara da sia, e eu adorando essa chaga,
com tanto rudo e tanto fausto, que a Titi no possa saber onde
est o mrito, se em ti que morreste por nos amar de mais, se
em mim que quero morrer por no te saber amar bastante!...
Assim pensava, olhando de travs o cu, no silncio da Rua de
So Lzaro.
Quando cheguei  casa, senti que a Titi estava no oratrio, sozinha,
a rezar. Enfiei para o meu quarto, sorrateiramente; descalcei-
me; despi a casaca; esguedelhei o cabelo; atirei-me de joelhos
para o soalho, e fui assim, de rastos, pelo corredor, gemendo,
carpindo, esmurrando o peito, clamando desoladamente
por Jesus, meu Senhor...
Ao ouvir, no silncio da casa, estas lgubres lamentaes de
arrastada penitncia, a Titi veio  porta do oratrio, espavorida.
- Que  isso, Teodorico, filho, que tens tu?...
Abati-me sobre o soalho, aos soluos, desfalecido de paixo
divina.
- Desculpe, Titi... Estava no teatro com o Doutor Margaride
estivemos ambos a tomar ch, a conversar da Titi... E vai de
repente, ao voltar para casa, ali na Rua Nova-da-Palma, comeo
a pensar que havia de morrer, e na salvao da minha alma,
e em tudo o que Nosso Senhor padeceu por ns, e d-me uma
vontade de chorar... Enfim, a Titi faz favor, deixa-me aqui um
bocadinho s, no oratrio, para aliviar...
Muda, impressionada, ela acendeu reverentemente, uma a uma,
todas as velas do altar. Chegou mais para a borda uma imagem
de So Jos, favorito da sua alma, para que fosse ele o primeiro
a receber a ardente rajada de preces que ia escapar-se, em tumulto,
do meu corao cheio e ansioso. Deixou-me entrar, de
rastos. Depois, em silncio, desapareceu, cerrando o reposteiro
com recato. E eu ali fiquei, sentado na almofada da Titi, coando
os joelhos, suspirando alto, e pensando na Viscondessa de
Souto Santos ou de Vilar-o-Velho, e nos beijos vorazes que lhe
atiraria por aqueles ombros maduros e suculentos, se a pudesse
ter s um instante, ali mesmo que fosse, no oratrio, aos ps de
ouro de Jesus, meu Salvador!
Corrigi ento a minha devoo e tornei-a perfeita. Pensando
que o bacalhau das sextas-feiras no fosse uma suficiente mortificao,
nesses dias, diante da Titi, bebia asceticamente um
copo de gua e trincava uma cdea de po; o bacalhau comiao
 noite, de cebolada, com bifes  inglesa, em casa da minha
Adlia. No meu guarda-roupa, nesse duro inverno, houve apenas
um palet velho, to renunciado me quis mostrar aos culpados
regalos da carne; mas orgulhava-me de ter l, purificando
os cheviotes profanos, a minha opa roxa de irmo do Senhor
dos Passos, e o devoto hbito cinzento da Ordem Terceira de
So Francisco. Sobre a cmoda ardia uma lamparina perenal,
diante da litografia colorida de Nossa Senhora do Patrocnio; eu
punha todos os dias rosas dentro de um copo, para lhe perfumar
o ar em redor; e a Titi, quando vinha remexer nas minhas
gavetas, ficava a olhar a sua padroeira, desvanecida, sem saber
se era  Virgem, ou se era a ela, indiretamente, que eu dedicava
aquele preito da luz e o louvor dos aromas. Nas paredes dependurei
as imagens dos santos mais excelsos, como galeria de
antepassados espirituais, de quem tirava o constante exemplo
nas difceis virtudes; mas no houve de resto no cu, santo, por
mais obscuro, a quem eu no ofertasse um cheiroso ramalhete
de Padre-Nossos em flor. Fui eu que fiz conhecer  Titi So
Telsforo, Santa Secundina, o beato Antnio Estroncnio, Santa
Restituta, Santa Umbelina, irm do gro So Bernardo, e a
nossa dileta e suavssima patrcia Santa Basilisca, que  solenizada
juntamente com So Hipcio, nesse festivo dia de agosto
em que embarcam os crios para a Atalaia.
Prodigiosa foi ento a minha atividade devota! Ia a matinas, ia a
vsperas. Jamais falhei a igreja ou ermida, onde se fizesse a
adorao ao Sagrado Corao de Jesus. Em todas as exposies
do Santssimo eu l estava, de rojos. Partilhava sofregamente
de todos os desagravos ao Sacramento. Novenas em
que eu rezei, contam-se pelos lumes do cu. E o Setenrio das
Dores era um dos meus doces cuidados.
Havia dias em que, sem repousar, correndo pelas ruas, esbaforido,
eu ia  missa das sete a Santana, e  missa das nove da
Igreja de So Jos, e  missa do meio-dia na ermida da
Oliveirinha. Descansava um instante a uma esquina, de ripano
debaixo do brao, chupando  pressa o cigarro; depois voava
ao Santssimo exposto na paroquial de Santa Engrcia,  devoo
do tero no convento de Santa Joana,  bno do Sacramento
na capela de Nossa Senhora, s Picoas,  novena das
Chagas de Cristo, na sua igreja, com msica. Tomava ento a
tipia do Pingalho, e ainda visitava, ao acaso, de fugida, os
Mrtires e So Domingos, a igreja do convento do Desagravo e
a Igreja da Visitao das Salsias, a capela de Monserrate, s
Amoreiras e a Glria ao Cardal da Graa, as Flamengas e as
Albertas, a Pena, o Rato, a S!
 noite, em casa da Adlia, estava to derreado, mono e mole
ao canto do sof, que ela atirava-me murros pelos ombros, e
gritava, furiosa:
- Esperta, morco!
Ai de mim! Um dia veio, porm, em que a Adlia, em vez de
me chamar morco, quando, esfalfado no servio do Senhor, eu
mal podia ajud-la a desatacar o colete, passou, sempre que os
meus lbios insaciveis se colavam demais ao seu colo, a empurrar-
me, a chamar-me carraa... Foi isto pelas alegres vsperas
de Santo Antnio, ao aparecerem os primeiros manjerices,
no quinto ms da minha devoo perfeita.
A Adlia comeara a andar pensativa e distrada. Tinha s vezes,
quando eu lhe falava, uni modo de dizer hem?, com o
olhar incerto e disperso, que era um tormento para o meu corao.
Depois um dia deixou de me fazer a carcia melhor, que eu
mais apetecia, a penetrante e a regaladora beijoca na orelha.
Sim, decerto permanecia terna... Ainda dobrava maternalmente
o meu palet; ainda me chamava riquinho; ainda me acompanhava
ao patamar em camisa, dando, ao descolar do nosso
abrao, esse lento suspiro que era para mim a mais preciosa
evidncia da sua paixo; mas j me no favorecia com a
beijoquinha na orelha.
Quando eu entrava abrasado, encontrava-a por vestir, por pentear,
mole, estremunhada e com olheiras. Estendia-me a mozinha
desamorvel, bocejava, colhia preguiosamente a viola;
enquanto eu, a um canto, chupando cigarros mudos, esperava
que se abrisse a portinha envidraada da alcova que dava para
o cu, a desumana Adlia, estirada no sof, de chinelas cadas,
beliscava os bordes, murmurando, por entre longos ais, cantigas
de estranha saudade...
Num arranco de ternura, eu ia ajoelhar-me  beira do seu peito.
E l vinha logo a dura, a regelada palavra:
- Est quieto, carraa!
E recusava-me sempre o seu carinho. Dizia-me: no posso,
estou com azia . Dizia-me: adeus, tenho a dor na ilharga.
Eu sacudia os joelhos, recolhia ao Campo de Santana - espoliado,
misrrimo, chorando na escurido da minha alma pelos tempos
inefveis em que ela me chamava morco!
Uma noite de julho, macia como um veludo preto e pespontada
de estrelas, chegando mais cedo  casa dela, encontrei a portinha
aberta. O candeeiro de petrolina, pousado no soalho do
patamar, enchia a escada de luz; e dei com a Adlia, em saia
branca, falando a um rapaz de bigodinho louro, embrulhado
pelintramente numa capa  espanhola. Ela empalideceu, ele encolheu,
quando eu surgi, grande e barbudo, com a minha bengala
na mo. Depois a Adlia, sorrindo, sem perturbao, vera
e lmpida, apresentou-me seu sobrinho Adelino. Era filho da
mana Ricardina, a que vivia em Viseu, e irmo do
Teodoriquinho... Tirando o chapu, apertei na palma larga e leal
os dedos fugidios do Senhor Adelino:
- Estimo muito conhec-lo, cavalheiro. Sua mam, seu mano,
bons?
Nessa noite a Adlia, resplandecente, tornou a chamar-me
morco, restituiu-me o beijinho na orelha. E toda essa semana
foi deliciosa como a de um noivado, O vero ardia; e comeara
na Conceio Velha a novena de So Joaquim. Eu saa de casa
 hora repousante em que se regam as ruas, mais contente que
os pssaros chalrando nas rvores do Campo de Santana. Na
salinha clara, com todas as cadeiras cobertas de fusto branco,
encontrava a minha Adlia de chambre, fresca de se ter lavado,
cheirando a gua-de-colnia, e aos lindos cravos vermelhos que
a toucavam; e depois das manhs calorosas, nada havia mais
idlico, mais doce que as nossas merendas de morangos na cozinha,
ao ar da janela, contemplando bocadinhos verdes de
quintais e ceroulas humildes a secar em cordas... Ora, uma tarde
que assim nos aprazamos, ela pediu-me oito libras.
Oito libras!... Descendo  noite a Rua da Madalena, eu ruminava
quem mas poderia emprestar sem juro e rasgadamente. O
bom Casimiro estava em Torres, o prestante Rincho estava em
Paris... E pensava j no Padre Pinheiro, (cujas dores de rins eu
lamentava sempre com afeto) quando avistei a escapar-se, todo
encolhido, todo sorrateiro, de uma dessas vielas impuras onde
Vnus Mercenria arrasta os seus chinelos - o Jos Justino, o
nosso Jos Justino, o piedoso secretrio da confraria de So
Jos, o virtuosssimo tabelio da Titi!
Gritei logo: boas noites, Justininho! E regressei ao Campo de
Santana, tranqilo, gozando j a repenicada beijoca que me
daria a Delinha, quando eu risonho lhe estendesse na mo as
oito rodelas de ouro. Ao outro dia, cedo, corri ao cartrio do
Justino, a So Paulo, contei-lhe a pranteada histria de um
condiscpulo meu, tsico, miservel, arquejando sobre uma enxerga,
numa ftida casa de hspedes, ao p do Largo dos Cadas.
 uma desgraa, Justino! Nem dinheiro tem para um caldinho...
Eu  que o ajudo; mas que diabo, estou a tinir... Fao-lhe companhia,
 o que posso; leio-lhe oraes, e exerccios da vida
crist. Ontem  noite vinha eu de l... E acredite voc, Justino,
que nem gosto de andar por aquelas ruas, to tarde... Jesus,
que ruas, que indecncia, que imoralidade!... Aqueles becos de
escadinhas, hem?... Eu ontem bem percebi que voc ia horrorizado;
eu tambm... De sorte que esta manh estava no oratrio
da Titi, a rezar pelo meu condiscpulo, a pedir a Nosso Senhor
que o ajudasse, e que lhe desse algum dinheiro e vai, pareceume
ouvir uma voz l de cima da cruz a dizer: entende-te com o
Justino; fala ao nosso Justininho; ele que te d oito libras para o
rapaz... Fiquei to agradecido a Nosso Senhor! De modo que
aqui venho, Justino, por ordem dEle.
O Justino escutava-me, branco como os seus colarinhos, dando
estalinhos tristes nos dedos; depois, em silncio, estendeu-me
uma a uma sobre a carteira, as oito moedas de ouro. Assim eu
servi a minha Adlia.
Fugaz foi porm a minha glria!
Da a dias, estando no Montanha, regalado, a gozar uma
carapinhada, o criado veio avisar-me que uma mocinha trigueira
e de xale, a Senhora Mariana, esperava por mim  esquina...
Santo Deus! A Mariana era a criada da Adlia. E corri, a tremer,
certo de que a minha bem-amada ficara sofrendo da sua
abominvel dor na sua branca ilharga. Pensei mesmo em comear
o rosrio das dezoito aparies de Nossa Senhora de
Lurdes, que a Titi considera eficacssimo em casos de pontada
ou de touros tresmalhados...
- H novidade, Mariana?
Ela levou-me para dentro de um ptio onde cheirava mal; e a,
com os olhos vermelhos, destraando furiosamente o xale, rouca
ainda da bulha que tivera com a Adlia, rompeu a contar-me
cousas torpes, execrandas, srdidas. A Adlia enganava-me! O
Senhor Adelino no era sobrinho; era o querido, o chulo. Apenas
eu saa, ele entrava; a Adlia dependurava-se-lhe do pescoo,
num delrio; e chamavam-me ento o carraa, o carola, o
bode, vituprios mais negros, cuspindo sobre o meu retrato. As
oito libras tinham sido para o Adelino comprar fato de vero; e
ainda sobrara para irem  feira de Belm, em tipia descoberta,
e de guitarra... A Adlia adorava-o com pieguice e com furor;
cortava-lhe os calos; e os suspiros da sua impacincia, quando
ele tardava, lembravam o bramar das cervas, nos matos quentes,
em maio!... Duvidava eu? Queria uma evidncia? Que fosse
nessa noite, tarde, depois de uma hora, bater  portinha da
Adlia!
Lvido, apoiado ao muro, eu mal sabia se o cheiro que me sufocava
vinha do canto escuro do ptio, se das imundcies que
borbulhavam da boca da Mariana, como de um cano de esgoto
rebentado. Limpei o suor, murmurei, a desfalecer:
- Est bom Mariana, obrigadinho; eu verei; v com Deus...
Cheguei  casa to sombrio, to murcho, que a Titi perguntoume,
com um risinho, se eu malhara abaixo da gua.
- Da gua?... No, Titi, credo! Estive na Igreja da Graa...
- E que vens to enfiado, assim com as pernas moles... E ento
o Senhor hoje estava bonito?
- Ai, Titi, estava rico!... Mas no sei por que, pareceu-me to
tristinho, to tristinho... At eu disse ao Padre Eugnio: O
Eugeninho, o Senhor hoje tem desgosto! E disse-me ele: Que
quer voc, amigo? E que v por esse mundo tanta patifaria! E
olhe que v, Titi! V muita ingratido, muita falsidade, muita
traio!
Rugia, enfurecido; e cerrara o punho como para o deixar cair,
punidor e terrvel, sobre a vasta perfdia humana. Mas contiveme,
abotoei devagar a quinzena, recalquei um soluo.
- Pois  verdade, Titi... Fez-me tanta impresso aquela tristeza
do Senhor, que fiquei assim um bocado amarfanhado... E de
mais a mais tenho tido um desgosto; est um condiscpulo meu
muito mal, coitadinho, a espichar...
E outra vez, como diante do Justino (aproveitando reminiscncias
do Xavier e da Rua da F), estirei a carcaa de um
condiscpulo sobre a podrido de uma enxerga. Disse as bacias
de sangue, disse a falta de caldos... Que misria, Titi, que misria!
E ento um moo, to respeitador das cousas santas, que
escrevia to bem na Nao!...
- Desgraas - murmurou a tia Patrocnio, meneando as agulhas
da meia.
- E verdade, desgraas, Titi. Ora, como ele no tem famlia e a
gente da casa  desleixada, ns os condiscpulos  que vamos
por turnos servir-lhe de enfermeiros. Hoje toca-me a mim. E
queria ento que a Titi me desse licena para eu ficar fora, at
cerca das duas horas... Depois vem outro rapaz, muito instrudo,
que  deputado.
A tia Patrocnio permitiu; e at se ofereceu para pedir ao patriarca
So Jos que fosse preparando ao meu condiscpulo uma
morte sonolenta e ditosa...
- Isso  que era um grande favor, Titi! Ele chama-se Macieira...
O Macieira vesgo. E para So Jos saber.
Toda a noite vagueei pela cidade, adormecida na moleza do luar
de julho. E por cada rua me acompanharam sempre, flutuantes
e transparentes, duas figuras, uma em camisa, outra de capa 
espanhola, enroscadas, beijando-se furiosamente, e s desligando
os beijos pisados para rirem alto de mim e para me chamarem
carola.
Cheguei ao Rossio quando batia uma hora no relgio do
Carmo. Ainda fumei um cigarro, indeciso, por debaixo das rvores.
Depois voltei os passos para a casa da Adlia, vagaroso,
e com medo. Na sua janela vi uma luz enlanguescida e dormente.
Agarrei a grossa aldraba da porta, mas hesitei com terror da
certeza que vinha buscar, terminante e irreparvel... Meu Deus!
Talvez a Mariana, por vingana, caluniasse a minha Adlia! Ainda
na vspera ela me chamara riquinho, com tanto ardor! No
seria mais sensato e mais proveitoso acreditar nela, tolerar-lhe
um fugitivo transporte pelo Senhor Adelino, e continuar a receber
egostamente o meu beijinho na orelha?
Mas ento  idia lacerante de que ela tambm beijava na orelha
o Senhor Adelino, e que o Senhor Adelino tambm dizia ai!
ai! como eu - assaltou-me o desejo ferino de a matar, com desprezo
e a murros, ali, nesses degraus onde tantas vezes arrulhara
a suavidade dos nossos adeuses. E bati na porta com um
punho bestial como se fosse j sobre o seu frgil, ingrato peito.
Senti correr desabridamente o fecho da vidraa. Ela surgiu em
camisa, com os seus belos cabelos revoltos:
- Quem  o bruto?
Sou eu, abre.
Reconheceu-me, a luz dentro desapareceu; e foi como se aquela
torcida de candeeiro, apagando-se, deixasse tambm a minha
alma em escurido, fria para sempre e vazia. Senti-me
regeladamente S, vivo, sem ocupao e sem lar. Do meio da
rua olhava as janelas negras, e murmurava: ai, que eu rebento!
Outra vez a camisa da Adlia alvejou na varanda.
- No posso abrir, que ceei tarde e estou com sono!
- Abre! - gritei erguendo os braos desesperadamente. - Abre
ou nunca mais c volto!...
- Pois  fava, e recados  tia.
- Fica-te, bbeda!
Tendo-lhe atirado, com uma pedrada, este urro severo, desci a
rua muito teso, muito digno. Mas  esquina alui de dor, para
cima de um portal, a soluar, escoado em pranto, delido.
Pesada foi ento ao meu corao a lenta melancolia dos dias de
estio... Tendo contado  Titi que andava a escrever dous artigos,
piamente destinados ao Almanaque da Imaculada Conceio
para 1878, encerrava-me no quarto, toda a manh, em
quanto faiscavam ao sol as pedras da minha varanda. A, arrastando
as chinelas sobre o soalho regado, remoa, entre suspiros,
recordaes da Adlia; ou diante do espelho contemplava o
lugar macio da orelha em que ela costumava dar-me o beijo...
Depois sentia um rudo de vidraa, e o seu prfido, e seu
afrontoso brado  fava! Ento, perdido, esguedelhado, machucava
o travesseiro com os murros que no podia vibrar ao
peito magro do Senhor Adelino.
 tardinha, quando refrescava, ia espalhar para a Baixa. Mas
cada janela aberta s aragens da tarde, cada cortina de cassa
engomada me lembrava a intimidade da alcovinha da Adlia;
num simples par de meias, esticado na vitrina de uma loja, eu
revia com saudade a perfeio da sua perna; tudo o que era
luminoso me sugeria o seu olhar; e at o sorvete de morango,
no Martinho, me fazia repassar nos lbios o adocicado e gostoso
sabor dos seus beijos.
 noite, depois do ch, refugiava-me no oratrio, como numa
fortaleza de santidade, embebia os meus olhos no corpo de
ouro de Jesus, pregado na sua linda cruz de pau preto. Mas
ento o brilho fulvo do metal precioso ia, pouco a pouco,
embaciando, tomava uma alva cor de carne, quente e tenra; a
magreza de Messias triste, mostrando os ossos, arredondava-se
em formas divinamente cheias e belas; por entre a coroa de espinhos,
desenrolavam-se lascivos anis de cabelos crespos e
negros; no peito, sobre as duas chagas, levantavam-se, rijos,
direitos, dous esplndidos seios de mulher, com um botozinho
de rosa na ponta; e era ela, a minha Adlia, que assim estava no
alto da cruz, nua, soberba, risonha, vitoriosa, profanando o altar,
com os braos abertos para mim!
Eu no via nisto uma tentao do demnio; antes me parecia
uma graa do Senhor. Comecei mesmo a misturar aos textos
das minhas rezas as queixas do meu amor. O cu  talvez grato;
e esses inumerveis santos, a quem eu prodigalizara novenas e
coroinhas, desejariam talvez recompensar a minha amabilidade,
restituindo-me as carcias que me roubara o homem cruel da
capa  espanhola. Pus mais flores sobre a cmoda diante de
Nossa Senhora do Patrocnio, contei-lhe as angustias do meu
corao. Por trs do lmpido vidro do seu caixilho, com os
olhos baixos e magoados, ela foi a confidente do tormento da
minha carne; e todas as noites, em ceroulas, antes de me deitar,
eu lhe segredava, com ardor.
-  minha querida Senhora do Patrocnio, faze que a Adelinha
goste outra vez de mim!
Depois utilizei o valimento da Titi com os santos seus amigos, o
amorosssimo e perdoador So Jos, So Lus Gonzaga, to
benvolo para a juventude. Pedia-lhe que fizesse uma petio
por certa necessidade minha, secreta e toda pura. Ela acedia,
com alacridade; e eu, espreitando pelo reposteiro do oratrio,
regalava-me de ver a rgida senhora, de joelhos, contas na mo,
em splicas aos patriarcas castssimos, para que a Adlia me
desse outra vez a beijoquinha na orelha.
Uma noite, cedo, fui experimentar se o cu escutara to valiosas
preces. Cheguei  porta da Adlia; e bati, tremendo todo, uma
argoladinha humilde. O Senhor Adelino assomou  janela, em
mangas de camisa.
- Sou eu, Senhor Adelino - murmurei abjetamente e tirando o
chapu. - Queria falar  Adeliazinha.
Ele rosnou para dentro, para a alcova, o meu nome. Creio mesmo
que disse o carola. E l do fundo, dentre os cortinados,
onde eu a pressentia toda desalinhada e formosa, a minha
Adlia gritou com furor:
- Atira-lhe para cima dos lombos o balde da gua suja!
Fugi.
No fim de setembro, o Rincho chegou de Paris; e um domingo,
 noitinha,  volta da novena de So Caetano, entrando no
Martinho, encontrei-o, rodeado de rapazes, contando ruidosamente
os seus feitos de amor e de gentil audcia em Paris.
Tristonho, puxei um banco e fiquei a ouvir o Rincho. Com uma
ferradura de rubis na gravata, o monculo pendente de uma fita
larga, uma rosa amarela no peito, o Rincho impressionava,
quando por entre o fumo do charuto esboava traos do seu
prestgio:
Uma noite no Caf de la Paix, estando eu a cear com a Cora,
com a Valtesse, e com um rapaz muito chic, um prncipe... O
que o Rincho tinha visto! o que o Rincho tinha gozado! Uma
condessa italiana, delirante, parente do Papa, e chamada
Popotte amara-o, levara-o aos Campos Elsios na sua vitria -
cujo velho braso eram dous chavelhos encruzados. Jantara em
restaurantes onde a luz vinha de serpentinas de ouro, e os criados,
macilentos e graves, lhe chamavam respeitosamente Mr. le
Comte. E o Alczar, com festes de gs entre as rvores, e a
Paulina cantando, de braos nus, o Chourio de Marselha -
revelara-lhe a verdade, a grandeza da civilizao.
- Viste Vtor Hugo?  perguntou um rapaz de lunetas pretas,
que roa as unhas.
- No, nunca andava c na roda chic!
Toda essa semana, ento, a idia de ver Paris brilhou incessantemente
no meu esprito, tentadora e cheia de suaves promessas...
E era menos o apetite desses gozos do orgulho e da carne,
com que se abarrotara o Rincho, que a ansiedade de deixar
Lisboa, onde igrejas e lojas claro rio e claro cu, s me
lembravam a Adlia, o homem amargo de capa  espanhola, o
beijo na orelha perdido para sempre... Ah! se a Titi abrisse a
sua bolsa de seda verde, me deixasse mergulhar dentro as
mos, colher ouro, e partir para Paris!..
Mas, para a senhora D. Patrocnio, Paris era uma regio
ascorosa, cheia de mentira, cheia de gula. onde um povo sem
santos, com as mos maculadas do sangue dos seus arcebispos,
est perpetuamente, ou brilhe o sol, ou luza o gs, cometendo
uma relaxao. Como ousaria eu mostrar  Titi o desejo
imodesto de visitar esse lugar de sujidade e de treva moral?...
Logo no domingo, porm, jantando no Campo de Santana os
amigos diletos, aconteceu falar-se, ao cozido, de um sbio
condiscpulo do Padre Casimiro, que recentemente deixara a
quietao da sua cela no Varatojo, para ir esposar, entre foguetes,
a trabalhosa S de Lamego. O nosso modesto Casimiro
no compreendia esta cobia de uma mitra, cravejada de pedras
vs; para ele, a plenitude de uma vida eclesistica era estar
assim aos sessenta anos, so e sereno, sem saudades e sem
temores, comendo o arrozinho do forno da senhora D. Patrocnio
das Neves...
- Porque deixe-me dizer-lhe, minha respeitvel senhora, que
este seu arroz est um primor!... E a ambio de ter sempre um
arroz destes, e amigos que o apreciem, parece-me a mais legtima
e a melhor para uma alma justa...
E assim se veio a discursar das acertadas ambies que, sem
agravo do Senhor, cada um podia nutrir no seu corao. A do
tabelio Justino era uma quintazinha no Minho, com roseiras e
com parreiras, onde ele pudesse acabar a velhice, em mangas
de camisa, e quietinho.
- Olhe, Justino - disse a Titi - uma cousa que lhe havia de fazer
falta era a sua missa na Conceio Velha... Quando a gente se
acostuma a uma missinha, no h outra que console... A mim,
se me tirassem a de Santana, parece-me que comeava a definhar...
Era o Padre Pinheiro que a celebrava; a Titi, enternecida, colocou-
lhe no prato outra asa de galinha; e Padre Pinheiro revelou
tambm a ambio que o pungia. Era elevada e santa. Queria
ver o Papa restaurado nesse trono forte e fecundo, em que resplandecera
Leo X...
- Se ao menos houvesse mais caridade com ele! - exclamou a
Titi. - Mas o Santssimo Padre, o vigariozinho de Nosso Senhor,
assim numa masmorra, em farrapos, sobre palha...  de
Caifases,  de judeus!
Bebeu um gole da sua gua morna, e recolheu-se ao retiro da
sua alma - a rezar a Ave-Maria que sempre ofertava pela sade
do Pontfice e pelo termo do seu cativeiro.
O Doutor Margaride consolou-a. No acreditava que o Pontfice
dormisse sobre palhas. Viajantes esclarecidos afianavamlhe
at que o Santo Padre, querendo, podia ter carruagem.
- No  tudo; est longe de ser tudo o que compete a quem usa
a tiara; mas uma carruagem, minha senhora,  uma grandssima
comodidade...
Ento o nosso Casimiro, risonho, desejou saber (j que todos
patenteavam as suas ambies) qual era a do douto, do eminente
Doutor Margaride.
- Diga l a sua, Doutor Margaride diga l a sua! - clamaram
todos, com afeto.
Ele sorria, grave.
- Deixe-me Vossa Excelncia primeiro, D. Patrocnio, minha
senhora, servir-me dessa lngua guisada, que marcha para ns e
que me parece preciosa.
Depois de fornecido, o venervel magistrado confessou que
apetecia ser par do Reino. No por alarde de honras, nem pelo
luxo da farda; mas para defender o princpio sacro da autoridade...
- S por isto - acrescentou com energia. - Porque desejava
tambm, antes de morrer, poder dar, se Vossa Excelncia, D.
Patrocnio, me permite a expresso, uma cacheirada mortal no
atesmo e na anarquia. E dava-lha!
Todos declararam fervorosamente o Doutor Margaride digno
desses fastgios sociais. Ele agradeceu, serissimo. Depois volveu
para mim a face majestosa e lvida:
- E o nosso Teodorico? O nosso Teodorico ainda no nos disse
qual era a sua ambio.
Corei; e Paris logo rebrilhou ao fundo do meu desejo, com as
suas serpentinas de ouro, as suas condessas primas dos Papas,
as espumas do seu champagne - fascinante, embriagante, e
adormentando toda a dor... Mas baixei os olhos; e afirmei que
s aspirava a rezar minhas coroas, ao lado da Titi, com proveito
e com descanso...
O Doutor Margaride, porm, pousara o talher, insistia. No lhe
parecia um desapego de Deus, nem uma ingratido com a Titi,
que eu, inteligente, saudvel, bom cavaleiro e bacharel, nutrisse
uma honesta cobia...
Nutro! - exclamei ento decidido como aquele que arremessa
um dardo. - Nutro, Doutor Margaride, Gostava muito de ver
Paris.
- Cruzes! - gritou a senhora D. Patrocnio, horrorizada. - Ir a
Paris!...
- Para ver as igrejas, Titi!
- No  necessrio ir to longe para ver bonitas igrejas - replicou
ela, rispidamente. - E l em festas com rgo, e um
Santssimo armado com luxo, e uma rica procisso na rua, e
boas vozes, e respeito, imagens de dar gosto, ningum bate c
os nossos portugueses!...
Calei-me, esmagado. E o esclarecido Doutor Margaride aplaudiu
o patriotismo eclesistico da Titi. Decerto, no era numa
repblica sem Deus que se deviam procurar as magnificncias
do culto...
- No, minha senhora, l para saborear cousas grandiosas da
nossa santa religio, se eu tivesse vagares, no era a Paris que
ia... Sabe Vossa Excelncia onde eu ia, senhora D. Maria do
Patrocnio?
- O nosso doutor - lembrou o Padre Pinheiro - corria direito a
Roma...
- Upa, Padre Pinheiro! Upa, minha cara senhora!
Upa? Nem o bom Pinheiro nem a Titi compreendiam o que
houvesse de superior a Roma pontifical! O Doutor Margaride
ento ergueu solenemente as sobrancelhas, densas e negras
como bano.
- Ia  Terra Santa, D. Patrocnio! Ia  Palestina, minha senhora!
Ia ver Jerusalm e o Jordo! Queria eu tambm estar um momento,
de p, sobre o Glgota, como Chateaubriand, com o
meu chapu na mo, a meditar, a embeber-me, a dizer salve!
E havia de trazer apontamentos, minha senhora, havia de publicar
impresses histricas. Ora a tem Vossa Excelncia onde eu
ia... Ia a Sio!
Servira-se o lombo assado; e houve, por sobre os pratos, um
recolhimento reverente a esta evocao da terra sagrada onde
padeceu o Senhor. Eu parecia-me ver l muito longe, na Arbia,
ao fim de arquejantes dias de jornada sobre o dorso de um camelo,
um monto de runas em torno de uma cruz; um rio sinistro
corre ao lado entre oliveiras; o cu arqueia-se mudo e triste
como a abbada de um tmulo. Assim devia ser Jerusalm.
- Linda viagem! - murmurou o nosso Casimiro, pensativo.
- Sem contar - rosnou Padre Pinheiro, baixo e como ciciando
uma orao - que Nosso Senhor Jesus Cristo v com grande
apreo, e muito agradece, essas visitas ao seu Santo Sepulcro.
- At quem l vai - disse o Justino - tem perdo de pecados.
No  verdade, Pinheiro? Eu assim li no Panorama... Vem-se
de l limpinho de tudo!
Padre Pinheiro (tendo recusado, com mgoa, a couve-flor, que
considerava indigesta) deu esclarecimentos. Quem ia  Terra
Santa, numa devota peregrinao, recebia sobre o mrmore do
Santo Sepulcro, das mos do Patriarca de Jerusalm, e pagando
os rituais emolumentos, as suas indulgncias plenrias...
- No s para si, segundo tenho ouvido dizer - acrescentou o
instrudo eclesistico, - mas para uma pessoa querida de famlia,
piedosa, e comprovadamente impedida de fazer a jornada...
Pagando, j se v, emolumentos dobrados.
- Por exemplo! - exclamou o Doutor Margaride inspirado, batendo-
me com fora nas costas. - Assim para uma boa Titi uma
Titi adorada, uma Titi que tem sido um anjo, toda virtude, toda
generosidade!...
- Pagando, j se v - insistiu Padre Pinheiro - os emolumentos
dobrados!
A Titi no dizia nada; os seus culos, girando do sacerdote para
o magistrado, pareciam estranhamente dilatados, e brilhando
mais com o claro interior de uma idia; um pouco de sangue
subira  sua face esverdinhada. A Vicncia ofereceu o arrozdoce.
Ns rezamos as graas.
Mais tarde no meu quarto, despindo-me, senti-me triste, infinitamente.
Nunca a Titi me deixaria visitar a terra imunda de
Frana; e aqui ficaria enclausurado nesta Lisboa onde tudo me
era tortura, e as mais rumorosas ruas me agravavam o ermo do
meu corao, e at a pureza do fino cu de estio me recordava
a torva perfdia dessa que fora, para mim, estrela e rainha da
graa... Depois, nesse dia, ao jantar, a Titi parecera-me mais
rija, slida ainda, duradoura, e por longos anos dona da bolsa
de seda verde, dos prdios e dos contos do Comendador G.
Godinho... Ai de mim! Quanto tempo mais teria de rezar com a
odiosa velha o fastiento tero, de beijar o p do Senhor dos
Passos, sujo de tanta boca fidalga, de palmilhar novenas, e de
magoar os joelhos diante do corpo de um Deus, magro e cheio
de feridas? Oh vida entre todas amargurosa! E j no tinha,
para me consolar do enfadonho servio de Jesus, os macios
braos da Adlia...
De manh, aparelhada a gua, e j de esporas, fui saber se minha
Titi tinha algum pio recado para So Roque, por ser esse o
seu milagroso dia. Na saleta votada s glrias de So Jos, a
Titi, ao canto do sof, com o xale de Tonquim cado dos ombros,
examinava o seu grande caderno de contas, aberto sobre
os joelhos; e, defronte, calado, com as mos cruzadas atrs das
costas, o bom Casimiro sorria pensativamente s flores do tapete.
- Ora venha c, venha c! - disse ele, mal eu assomei curvando
o espinhao. - Oua l a novidade! Que voc  uma jia,
respeitador de velhos, e tudo merece de Deus e da senhora sua
tia. Chegue-se c, venha de l esse abrao!
Sorri, inquieto. A Titi enrolava o seu caderno.
- Teodorico! - comeou ela, cruzando os braos, empertigada.
- Teodorico! Tenho estado aqui a consultar com o senhor Padre
Casimiro. E estou decidida a que algum que me pertena, e
que seja do meu sangue, v fazer por minha inteno uma peregrinao
 Terra Santa...
- Hem, felizo! - murmurou Casimiro, resplandecendo.
- Assim - prosseguiu a Titi - est entendido e ficas sabendo que
vais a Jerusalm e a todos os divinos lugares. Escusas de me
agradecer;  para meu gosto, e para honrar o tmulo de Jesus
Cristo, j que eu l no posso ir... Como, louvado seja Nosso
Senhor, no me faltam os meios, hs de fazer a viagem com todas
as comodidades; e para no estar com mais dvidas, e pela
pressa de agradar a Nosso Senhor, ainda hs de partir neste
ms... Bem, agora vai, que eu preciso conversar com o senhor
Padre Casimiro. Obrigado, no quero nada para o senhor So
Roque; j me entendi com ele.
Balbuciei: muito agradecido, Titi; adeusinho, Padre Casimiro.
E segui pelo corredor, atordoado.
No meu quarto corri ao espelho a contemplar, pasmado, este
rosto e estas barbas, onde em breve pousaria o p de Jerusalm...
Depois, cal sobre o leito.
- Olha que tremenda espiga!
Ir a Jerusalm! E onde era Jerusalm? Recorri ao ba que continha
os meus compndios e a minha roupa velha; tirei o atlas, e
com ele aberto sobre a cmoda, diante da Senhora do Patrocnio,
comecei a procurar Jerusalm l para o lado onde vivem os
infiis, ondulam as escuras caravanas, e uma pouca de gua
num poo  como um dom precioso do Senhor.
O meu dedo errante sentia j o cansao de uma longa jornada;
e parei  beira tortuosa de um rio, que devia ser o devoto
Jordo. Era o Danbio. E de repente o nome de Jerusalm surgiu,
negro, numa vasta solido branca, sem nomes, sem linhas,
toda de areias, nua, junto ao mar. Ali estava Jerusalm. Meu
Deus! Que remoto, que ermo, que triste!
Mas ento comecei a considerar que, para chegar a esse solo
de penitncia, tinha de atravessar regies amveis, femininas e
cheias de festa. Era primeiro essa bela Andaluzia, terra de Maria
Santssima, perfumada de flor de laranjeira, onde as mulheres
s com meter dous cravos no cabelo, e traando um xale
escarlate, amansam o corao mais rebelde, bendita sea su
gracia! Era adiante Npoles - e as suas ruas escuras, quentes,
com retbulos da Virgem, e cheirando a mulher, como os corredores
de um lupanar. Era depois mais longe ainda a Grcia;
desde a aula de retrica, ela aparecera-me sempre como um
bosque sacro de loureiros, onde alvejam frontes de templos, e,
nos lugares de sombra em que arrulham as pombas, Vnus de
repente surge, cor de luz e cor-de-rosa, oferecendo a todo o
lbio, ou bestial ou divino, o mimo dos seus seios imortais.
Vnus j no vivia na Grcia; mas as mulheres tinham conservado
l o esplendor da sua forma e o encanto do seu impudor...
Jesus! O que eu podia gozar! Um claro sulcou-me a alma. E
gritei, com um murro sobre o atlas, que fez estremecer a
castssima Senhora do Patrocnio e todas as estrelas da sua coroa:
- Caramba, vou fartar o bandulho!
Sim, fart-lo! E mesmo, receando que a Titi, por avareza do seu
ouro ou desconfiana da minha piedade, renunciasse  idia
desta peregrinao to prometedora de gozos, resolvi lig-la
supernaturalmente por uma ordem divina. Fui ao oratrio; desmanchei
o cabelo, como se por entre ele tivesse passado um
sopro celeste; e corri ao quarto da Titi, esgazeado, com os braos
a tremer no ar.
-  Titi! Pois no quer saber? Estava agora no oratrio, a rezar
de satisfao, e vai de repente pareceu-me ouvir a voz de Nosso
Senhor, de cima da cruz, a dizer-me baixinho, sem se mexer
Fazes bem, Teodorico, fazes bem em ir visitar o meu Santo
Sepulcro... E estou muito contente com a tua tia... Tua tia  das
minhas!...
Ela juntou as mos, num fogoso transporte de amor:
- Louvado seja o seu santssimo nome!... Pois disse isso? Ai,
era bem capaz, que Nosso Senhor sabe que  para o honrar
que eu l te mando... Louvado seja outra vez o seu santssimo
nome! Louvado seja em terra e cu! Anda, filho, vai, reza-lhe...
No te fartes, no te fartes!
Eu ia, murmurando uma ave-maria. Ela correu ainda  porta,
numa efuso de simpatia:
- E olha, Teodorico, v l a respeito de roupa branca... Talvez
te sejam necessrias mais ceroulas... Encomenda, filho, encomenda,
que graas a Nossa Senhora do Rosrio tenho posses,
e quero que vs com decncia e te apresentes bem l na
sepulturazinha de Deus!...
Encomendei; e, tendo comprado um Guia do Oriente e um capacete
de cortia, informei-me sobre o modo mais deleitoso de
chegar a Jerusalm, com Benjamim Sarrosa & Cia., judeu sagaz,
que ia todos os anos, de turbante, comprar bois a Marrocos.
Benjamim marcou-me, miudamente, num papel, o meu
grandioso itinerrio. Embarcaria no Mlaga, vapor da Casa
Jadley que, por Gibraltar, e depois por Malta, me levaria, num
mar sempre azul,  velha terra do Egito. A um repouso sensual
na festiva Alexandria. Depois no paquete do Levante, que sobe
a costa religiosa da Sria, aportaria a Jafa, a de verdejantes pomares;
e de l, seguindo uma estrada macadamizada, ao chouto
de uma gua doce, veria, ao fim de um dia e ao fim de uma noite,
surgirem, negras entre colinas tristes, as muralhas de Jerusalm!
- Diabo, Benjamim... Parece-me muito mar, muito paquete. Ento
nem um bocadinho de Espanha?  menino, olhe que eu
quero refestelar-me.
- Refestela-se em Alexandria. Tem l tudo. Tem o bilhar, tem a
tipia, tem a batota, tem a mulherinha... Tudo do bom. E l que
voc se refestela!
No entanto, j no Montanha e na tabacaria do Brito se falava
da minha santa empresa. Uma manh, li, escarlate de orgulho,
no Jornal das Novidades, estas linhas honorficas: Parte brevemente
a visitar Jerusalm, e todos os sacros lugares em que padeceu
por ns
o Redentor, o nosso amigo Teodorico Raposo, sobrinho da
Excelentssima D. Patrocnio das Neves, opulenta proprietria,
e modelo de virtudes crists. Boa viagem! A Titi, desvanecida,
guardou o jornal no oratrio, debaixo da peanha de So Jos; e
eu jubilei, por imaginar o despeito da Adlia (leitora fiel do Jornal)
ao ver-me assim abalar desprendido dela, atestado de
ouro, para essas terras muulmanas, onde a cada passo se topa
um serralho, mudo e cheirando a rosa entre sicmoros...
A vspera da partida, na sala dos damascos, teve elevao e
solenidade. O Justino contemplava-me, como se contempla
uma figura histrica.
- O nosso Teodorico... Que viagem!... O que se vai falar nisto!
E Padre Pinheiro murmurava com uno:
- Foi uma inspirao do Senhor! E que bem que lhe h de fazer
 sade!
Depois mostrei o meu capacete de cortia. Todos o admiraram.
O nosso Casimiro, todavia, depois de coar pensativamente o
queixo, observou que me daria talvez mais seriedade um chapu
alto...
A Titi acudiu, aflita:
- E o que eu lhe disse! Acho de pouca cerimnia, para a cidade
em que morreu Nosso Senhor...
-  Titi, mas j lhe expliquei! Isto  s para o deserto!... Em
Jerusalm, est claro, em todos aqueles santos lugares, ando de
chapu alto...
- Sempre  mais de cavalheiro - afirmou o Doutor Margaride.
Padre Pinheiro quis saber, solicitamente, se eu ia prevenido com
remdios para o caso de um contratempo intestinal nesses descampados
bblicos...
- Levo tudo. O Benjamim deu-me a lista... At linhaa, at
arnica!...
O pachorrento relgio do corredor comeou a gemer as dez; eu
devia madrugar; e o Doutor Margaride, comovido, agasalhava
j o pescoo no seu leno de seda. Ento, antes dos abraos,
perguntei aos meus leais amigos que lembranazinha desejavam
dessas terras remotas onde vivera o Senhor. Padre Pinheiro
queria um frasquinho de gua do Jordo. Justino (que j me
pedira no vo da janela um pacote de tabaco turco), diante da
Titi s apetecia um raminho de oliveira, do Monte Olivete. O
Doutor Margaride contentava-se com uma boa fotografia do
sepulcro de Jesus Cristo, para encaixilhar...
Com a carteira aberta, depois de alistar estas piedosas incumbncias
- voltei-me para a Titi, risonho, carinhoso, humilde...
- C por mim - disse ela do meio do sof como de um altar,
tesa nos seus cetins de domingo - o que desejo  que faas essa
viagem com toda a devoo, sem deixar pedra por beijar, nem
perder novena, nem ficar lugarzinho em que no rezes ou o tero
ou a coroa... Alm disso, tambm estimo que tenhas sade.
Eu ia depor na sua mo, brilhante de anis, um beijo gratssimo.
Ela deteve-me, mais aprumada e seca:
- At aqui tens sido apropositado; no tens faltado aos preceitos,
nem te tens dado a relaxaes... Por isso te vais regalar de
ver as oliveiras onde Nosso Senhor suou sangue, e de beber no
Jordozinho... Mas se eu soubesse que nesta passeata tinhas
tido maus pensamentos, e praticado uma relaxao, ou andado
atrs de saias, fica certo que, apesar de seres a nica pessoa do
meu sangue, e teres visitado Jerusalm, e gozar indulgncias,
havias de ir para a rua, sem uma cdea, como um co!
Curvei a cabea, apavorado. E a Titi, depois de roar o leno
de rendas pelos beios sumidos, prosseguiu com mais autoridade,
e uma emoo crescente que lhe punha, sob o corpete raso,
como o fugitivo arfar de um peito humano:
- E agora quero dizer-te, para teu governo, uma s cousa!
Todos de p, e reverentes, logo percebemos que a Titi se preparava
a proferir uma palavra suprema. Nessa hora de separao,
rodeada dos seus sacerdotes, rodeada dos seus magistrados,
D. Patrocnio das Neves ia decerto revelar qual fora o seu
ntimo motivo, em me mandar, como sobrinho e como romeiro,
 cidade de Jerusalm. Eu ia saber enfim, e to indubitavelmente
como se ela mo escrevesse num pergaminho, qual deveria ser o
mais precioso dos meus cuidados, velando ou dormindo nas
terras do Evangelho!
- Aqui est! - declarou a Titi. - Se entendes que mereo alguma
cousa, pelo que tenho feito por ti, desde que morreu tua me, j
educando-te, j vestindo-te, j dando-te gua para passeares,
j cuidando da tua alma, ento traze-me desses santos lugares
uma santa relquia uma relquia milagrosa que eu guarde, com
que me fique sempre apegando nas minhas aflies e que cure
as minhas doenas.
E pela vez primeira, depois de cinqenta anos de aridez, uma
lgrima breve escorregou no caro da Titi, por sob os seus culos
sombrios.
O Doutor Margaride rompeu para mim. arrebatadamente:
- Teodorico, que amor que lhe tem a Titi! Rebusque essas runas,
esquadrinhe esses sepulcros! Traga uma relquia  Titi!
Eu bradei, exaltado:
- Titi, palavra de Raposo que lhe hei de trazer uma tremenda
relquia!
Pela severa sala de damascos transbordou, ruidosa e tocante, a
comoo dos nossos coraes. Eu achei-me com os beios do
Justino, ainda moles da torrada, colados  minha barba...
Cedo, na manh de domingo, 6 de setembro e dia de Santa
Libnia, fui bater, devagar, ao quarto da Titi, ainda adormecida
no seu leito castssimo. Senti, por sobre o tapete, aproximar-se
o som mole dos seus chinelos. Entreabriu pudicamente a porta;
e, decerto em camisa, estendeu-me, atravs da fenda, a sua
mo escamada, lvida, cheirando a rap. Apeteceu-me mordla;
depus nela um beijo baboso; a Titi murmurou:
- Adeus, menino... D muitas saudades ao Senhor!
Desci a escadaria, j de capacete, sobraando o meu Guia do
Oriente. Atrs, a Vicncia soluava.
A minha mala nova de couro, o meu repleto saco de lona enchiam
o cup do Pingalho. Ainda as andorinhas retardadas cantavam
no beiral dos telhados; na capela de Santana tocava para a
missa. E um raio de sol, vindo do Oriente, vindo l da Palestina
ao meu encontro, banhou-me a face, acolhedor e risonho, como
uma carcia do Senhor.
Fechei a tipia, estirei-me, gritei: Larga, Pingalho!
E, romeiro abastado, soprando  brisa o fumo do meu cigarro,
assim deixei o porto de minha tia, em caminho para Jerusalm!
2
Foi num domingo e dia de S. Jernimo que meus ps latinos
pisaram, enfim, no cais de Alexandria a terra do Oriente, sensual
e religiosa. Agradeci ao Senhor da Boa-Viagem. E o meu
companheiro, o ilustre Topsius, Doutor alemo pela Universidade
de Bonn, scio do Instituto Imperial de Escavaes Histricas,
murmurou, grave como numa invocao, desdobrando o
seu vastssimo guarda-sol verde:
- Egito! Egito! Eu te sado, negro Egito! E que me seja em ti
propcio o teu Deus Ft, Deus das Letras, Deus da Histria,
inspirador da obra de arte e da obra de verdade!...
Atravs deste zumbido cientfico, eu sentia-me envolvido num
bafo morno como o de uma estufa, amolecedoramente tocado
de aromas de sndalo e rosa. No cais faiscante, entre fardos de
l, estirava-se, banal e sujo, o barraco da alfndega. Mas alm
as pombas brancas voavam em torno aos minaretes brancos; o
cu deslumbrava. Cercado de severas palmeiras, um lnguido
palcio dormia a beira da gua; e ao longe perdiam-se os areais
da antiga Lbia, esbatidos numa poeirada quente, livre, e da cor
de um leo.
Amei logo esta terra de indolncia, de sonho e de luz. E saltando
para a caleche forrada de chita, que nos ia levar ao Hotel
das Pirmides, invoquei as divindades, como o ilustrado doutor
de Bonn:
- Egito, Egito! Eu te sado, negro Egito! E que me seja propcio...
- No! Que vos seja propcia, D. Raposo, sis, a vaca amorosa!
- acudiu o eruditssimo homem, risonho, e abraado  minha
chapeleira.
No compreendi, mas venerei. Eu conhecera Topsius em Malta,
numa fresca manh, estando a comprar violetas a uma
ramalheteira que tinha j nos olhos grandes um langor muulmano;
ele andava medindo consideradamente com o seu guardasol
as paredes marciais e monsticas do palcio do gro-mestre.
Persuadido que era um dever espiritual e doutoral, nestas terras
do Levante, cheias de histria, medir os monumentos da antigidade,
tirei o meu leno e fui-o gravemente passeando, esticado
como um cvado, sobre as austeras cantarias...Topsius
dardejou-me logo, por cima dos culos de ouro, um olhar desconfiado
e ciumento. Mas tranquilizado, decerto, pela minha
face jucunda e material, pelas minhas luvas almiscaradas, pelo
meu ftil raminho de violetas, ergueu cortesmente de sobre o
longo cabelo, corredio e cor de milho, o seu bonezinho de seda
preta. Eu saudei com o meu capacete de cortia; e comunicamos.
Disse-lhe o meu nome, a minha ptria, os santos motivos
que me levavam a Jerusalm. Ele contou-me que nascera na
gloriosa Alemanha; e ia tambm  Judeia, depois  Galilia,
numa peregrinao cientfica, colher notas para a sua formidvel
obra, a Histria dos Herodes. Mas demorava-se em Alexandria
a amontoar os pesados materiais de outro livro monumental, a
Histria dos Lgidas... Porque estas duas turbulentas famlias,
os Herodes e os Lgidas, eram propriedade histrica do
doutssimo Topsius.
- Ento, ambos com o mesmo roteiro, podamos acamaradar,
Doutor Topsius!
Ele espigado, magrssimo e pernudo, com uma rabona curta de
lustrina, enchumaada de manuscritos, cortejou gostosamente:
- Pois acamarademos, D. Raposo! Ser uma deleitosa economia!
Encovado na gola, de guedelha cada, o nariz agudo e pensativo,
a cala esguia, o meu erudito amigo parecia-me uma cegonha,
risvel e cheia de letras, com culos de ouro na ponta do
bico. Mas j a minha animalidade reverenciava a sua
intelectualidade; e fomos beber cerveja.
A sabedoria neste moo era dom hereditrio. Seu av materno,
o naturalista Shlock, escreveu um famoso tratado em oito volumes
sobre a Expresso fisionmica dos Lagartos, que assombrou
a Alemanha. E seu tio, o decrpito Topsius, o memorvel
egiptlogo, aos setenta e sete anos, ditou da poltrona, onde o
prendia a gota, esse livro genial e fcil a Sntese Monotesta da
Teogonia Egpcia, considerada nas relaes do Deus Ft e do
Deus Imhotep com as Trades dos Nomos.
O pai de Topsius, desgraadamente, atravs desta alta cincia
domstica, permanecia figle numa charanga, em Munique; mas
o meu camarada, reatando a tradio, logo aos vinte e dous
anos tinha esclarecido, radiantemente, em dezenove artigos publicados
no Boletim Hebdomadrio de Escavaes Histricas,
a questo, vital para a civilizao, de uma parede de tijolo
erguida pelo Rei Pi-Sibkm, da vigsima primeira dinastia, em
torno do templo de Ramss II, na lendria cidade de Tnis. Em
toda a Alemanha cientfica, hoje, a opinio de Topsius, acerca
desta parede, brilha com a irrefutabilidade do sol.
S conservo de Topsius recordaes suaves ou elevadas. J
sobre as guas bravias do Mar de Tiro; j nas ruas fuscas de
Jerusalm; j dormindo lado a lado, sob a tenda, junto aos destroos
de Jeric; j pelas estradas verdes de Galilia, encontreio
sempre instrutivo, servial, paciente e discreto. Raramente
compreendia as suas sentenas, sonoras e bem cunhadas, tendo
a preciosidade de medalhas de ouro; mas, como diante da porta
impenetrvel de um santurio, eu reverenciava, por saber que
l dentro, na sombra, refulgia a essncia pura da Idia. Por vezes,
tambm o Doutor Topsius rosnava uma praga imunda; e
ento uma grata comunho se estabelecia, entre ele e o meu
singelo intelecto de bacharel em leis. Ficou-me a dever seis moedas;
mas esta diminuta migalha de pecnia, desaparece na copiosa
onda de saber histrico, com que fecundou o meu esprito.
Uma cousa apenas, alm do seu pigarro de erudito, me desagradava
nele, o hbito de se servir da minha escova de dentes.
Era tambm intoleravelmente vaidoso da sua ptria. Sem cessar,
erguendo o bico, sublimava a Alemanha, me espiritual dos povos;
depois ameaava-me com a irresistibilidade das suas armas.
A oniscincia da Alemanha! A onipotncia da Alemanha!
Ela imperava, vasto acampamento entrincheirado de in-flios,
onde ronda e fala do alto a Metafsica armada! Eu, brioso, no
gostava destas jactncias. Assim, quando no Hotel das Pirmides
nos apresentaram um livro, para nele registrarmos nossos
nomes e nossas terras, o meu douto amigo traou o seu
Topsius, ajuntando por baixo, altivamente, em letras tesas e disciplinadas
como galuchos: - DA IMPERIAL ALEMANHA.
Arrebatei a pena; e recordando o barbudo Joo de Castro,
Ormuz em chamas; Adamastor; a capela de So Roque, o Tejo
e outras glrias, escrevi largamente, em curvas mais enfunadas
que velas de galees: RAPOSO, PORTUGUS, DAQUM
E DALM-MAR. E logo, do canto, um moo magro e murcho,
murmurou, suspirando e a desfalecer:
- Em o cavalheiro necessitando alguma cousa, chame pelo
Alpedrinha.
Um patrcio! Ele contou-me a sua sombria histria,
desafivelando a minha maleta. Era de Trancoso e desgraado.
Tivera estudos; compusera um necrolgio; sabia ainda mesmo
de cor os versos mais doloridos do nosso Soares de Passos.
Mas apenas sua mamazinha morrera, tendo herdado terras,
correra  fatal Lisboa, a gozar; conheceu logo na Travessa da
Conceio uma espanhola deleitosssima, do adocicado nome
de Dulce; e largou com ela para Madri, num idlio. A o jogo
empobreceu-o; a Dulce traiu-o; um chulo esfaqueou-o. Curado
e macilento passou a Marselha; e durante anos arrastou-se,
como um frangalho social, atravs de misrias inenarrveis. Foi
sacristo em Roma. Foi barbeiro em Atenas. Na Moria, habitando
uma choa junto a um pntano, empregara-se na pavorosa
pesca das sanguessugas; e de turbante, com odres negros ao
ombro, apregoou gua pelas vielas de Esmirna. O fecundo Egito
atrara-o sempre, irresistivelmente... E ali estava no Hotel das
Pirmides, moo de bagagens e triste.
- E se o cavalheiro trouxesse por a algum jornal da nossa Lisboa,
eu gostava de saber como vai a poltica.
Concedi-lhe generosamente todos os Jornais de Notcias que
embrulhavam os meus botins.
O dono do hotel era um grego de Lacedemnia, de bigodes
ferozes, e que hablaba un poquitito el castellano. Respeitosamente
ele prprio, teso na sua sobrecasaca preta ornada de
uma condecorao, nos conduziu  sala do almoo - la mas
preciosa, sin duda, de todo el Oriente, caballeros!
Sobre a mesa murchava um ramo grosso de flores escarlates;
no frasco do azeite flutuavam familiarmente cadveres de moscas;
as chinelas do criado topavam a cada instante um velho
Jornal dos Debates, manchado de vinho, rojando ali desde a
vspera, pisado por outras chinelas indolentes; e no teto, a
fumaraa ftida dos candeeiros de lato juntara nuvens pretas
as nuvens cor-de-rosa, onde esvoaavam anjos e andorinhas.
Por baixo da varanda uma rabeca e, uma harpa tocavam a
Mandolinata. E em quanto Topsius se alagava de cerveja, eu
sentia, estranhamente, crescer o meu amor por esta terra de
preguia e de luz.
Depois do caf, o meu sapientssimo amigo, com o lpis dos
apontamentos na algibeira da rabona, abalou a rebuscar
antigualhas e pedras do tempo dos Ptolomeus. Eu, acendendo
um charuto, reclamei Alpedrinha; e confiei-lhe que desejava,
sem tardana, ir rezar e ir amar. Rezar era por inteno da tia
Patrocnio, que me recomendara uma jaculatria a So Jos,
apenas pisasse esse solo do Egito, tomado, desde a fuga da
Santa Famlia em cima do seu burrinho, cho devoto como o de
uma S. Amar era por necessidade do meu corao, ansioso e
ardido. Alpedrinha, em silncio, ergueu as persianas, e mostroume
uma clara praa, ornamentada ao centro por um heri de
bronze, cavalgando um corcel de bronze; uma aragem quente
levantava poeiradas lentas por sobre dous tanques secos; e em
redor perfilavam-se no azul altos prdios, hasteando cada um a
bandeira da sua ptria, como cidadelas rivais sobre um solo
vencido. Depois o triste Alpedrinha indicou-me, a uma esquina,
onde uma velha vendia canas-de-acar. Na tranqila Rua das
Duas-Irms. A (murmurou ele) eu veria, pendurada sobre a
porta de uma lojinha discreta, uma pesada mo de pau, tosca e
roxa, e por cima, em tabuleta negra, estes dizeres convidativos
a ouro: MISS MARY, LUVAS E FLORES DE CERA. Era
esse o refgio que ele aconselhava ao meu corao. Ao fundo
da rua, junto de uma fonte chorando entre rvores, havia uma
capela nova, onde a minha alma acharia consolao e frescura.
- E diga o cavalheiro a Miss Mary que vai de mandado do Hotel
das Pirmides.
Pus uma rosa ao peito, e sa, ovante. Logo da entrada das
Duas-Irms avistei a ermidinha virginal, dormindo castamente
sob os pltanos, ao rumor meigo da gua. Mas o amantssimo
patriarca So Jos estava certamente, a essa hora, ocupado em
receber jaculatrias mais instantes, e evoladas de lbios mais
nobres; no quis importunar o bondosssimo santo; e parei diante
da mo de pau, pintada de roxo, que parecia estar ali esperando,
alongada e aberta, para empolgar o meu corao.
Entrei, comovido. Por trs do balco envernizado, junto a um
vaso de rosas e magnlias, ela estava lendo o seu Times, com
um gato branco no colo. O que me prendeu logo foram os seus
olhos azuis-claros, de um azul que s h nas porcelanas, simples,
celestes, como eu nunca vira na morena Lisboa. Mas encanto
maior ainda tinham os seus cabelos, crespos, frisadinhos
como uma carapinha de ouro, to doces e finos que apetecia
ficar eternamente e devotamente, a mexer-lhe com os dedos
trmulos; e era irresistvel o profano nimbo luminoso, que eles
punham em torno da sua face gordinha, de uma brancura de
leite onde se desfez carmesim, toda tenra e suculenta. Sorrindo,
e baixando com sentimento as pestanas escuras, perguntou-me
se eu queria pelica ou Sucia.
Eu murmurei, roando-me sofregamente pelo balco:
- Trago-lhe recadinhos do Alpedrinha.
Ela escolheu entre o ramo um tmido boto de rosa, e deu-mo
na ponta dos dedos. Eu trinquei-o, com furor. E a voracidade
desta carcia pareceu agradar-lhe, porque um sangue mais
quente veio afoguear-lhe a face, e chamou-me baixo,
mauzinho! Esqueci So Jos e a sua jaculatria, e as nossas
mos, um momento unidas para ela me calar a luva clara, no
se desenlaaram mais, nessas semanas que passei, na cidade
dos Lgidas, em festivas delcias muulmanas!
Ela era de Iorque, esse herico condado da velha Inglaterra,
onde as mulheres crescem fortes e bem desabrochadas, como
as rosas dos seus jardins reais. Por causa da sua meiguice e do
seu riso de ouro quando lhe fazia ccegas, eu pusera-lhe o
nome galante e cacarejante de Maricoquinhas. Topsius, que a
apreciava, chamava-lhe a nossa simblica Clepatra. Ela
amava a minha barba negra e potente; e, s para no me afastar
do calor das suas saias, eu renunciei a ver o Cairo, o Nilo, e a
eterna Esfinge, deitada  porta do deserto, sorrindo da humanidade
v...
Vestido de branco como um lrio, eu gozava manhs inefveis,
encostado ao balco da Mary; amaciando respeitosamente a
espinha do gato. Ela era silenciosa; mas o seu simples sorrir
com os braos cruzados, ou o seu modo gentil de dobrar o Times,
saturava o meu corao de luminosa alegria. Nem precisava
chamar-me seu portuguesinho valente, seu bibichinho. Bastava
que o seu peito arfasse; s para ver aquela doce onda lnguida,
e saber que a levantava assim a saudade dos meus beijos,
eu teria vindo de to longe a Alexandria; iria mais longe, a
p, sem repouso, at onde as guas do Nilo so brancas!
De tarde, na caleche de chita com o nosso doutssimo Topsius,
dvamos lentos, amorosos passeios  beira do Canal Mamudi.
Sob as frondosas rvores, rente aos muros de jardins de
serralho, eu sentia o aroma perturbador de magnlias, e outros
clidos perfumes que no conhecia. Por vezes uma leve flor
roxa ou branca caa-me sobre o regao; com um suspiro eu
roava a barba pelo rosto macio da minha Maricoquinhas; ela,
sensvel, estremecia. Na gua jaziam as barcas pesadas que
sobem o Nilo, sagrado e benfazejo, ancorando junto s runas
dos templos, costeando as ilhas verdes onde dormem os crocodilos.
Pouco a pouco a tarde caia. Vagarosamente, rolvamos
na sombra olorosa. Topsius murmurava versos de Goethe. E as
palmeiras da margem fronteira recortavam-se no poente amarelo,
como feitas em relevo de bronze sobre uma lmina de ouro.
Maricocas jantava sempre conosco no Hotel das Pirmides; e,
diante dela, Topsius desabrochava todo em flores de erudio
amvel. Contava-nos as tardes de festa da velha Alexandria dos
Ptolomeus, no canal que levava a Canpia; ambas as margens
resplandeciam de palcios e de jardins; as barcas, com toldos
de seda, vogavam ao som dos alades; os sacerdotes de Osris,
cobertos de peles de leopardo, danavam sob os laranjais; e
nos terraos, abrindo os vus, as damas de Alexandria bebiam
 Vnus Assria, pelo clice da flor do ltus. Uma
voluptuosidade esparsa amolecia as almas. Os filsofos mesmo
eram frascrios.
- E - dizia Topsius requebrando o olho - em toda a Alexandria
s havia uma dama honesta, que comentava Homero e era tia
de Sneca. S uma!
Maricoquinhas suspirava. Que encanto, viver nessa Alexandria,
e navegar para Canpia, numa barca toldada de seda!
- Sem mim? - gritava eu, ciumento.
Ela jurava que, sem o seu portuguesinho valente, no queria
habitar nem o cu!
Eu, regalado, pagava o champagne.
E os dias assim foram passando, leves, flcidos, gostosos, repicados
de beijos - at que chegou a vspera sombria de partirmos
para Jerusalm.
- O cavalheiro - dizia-me nessa manh Alpedrinha engraxando
os meus botins - o que devia era ficar aqui na Alexandriazinha,
a refocilar...
Ah! se pudesse! Mas irrecusveis eram os mandados da Titi! E,
por amor do seu ouro, l tinha de ir  negra Jerusalm, ajoelhar
diante de oliveiras secas, desfiar rosrios piedosos ao p de
frios sepulcros...
- Tu j estiveste em Jerusalm, Alpedrinha? - perguntei, enfiando
desconsoladamente as ceroulas.
- No senhor, mas sei... Pior que Braga!
-Irra!
A nossa ceia com Maricocas,  noite, no meu quarto, foi cortada
de silncios, de suspiros; as velas tinham a melancolia de
tochas; o vinho anuviava-nos como aquele que se bebe nos funerais.
Topsius ofertava consolaes generosas.
- Bela dama, bela dama, o nosso Raposo h de voltar... Estou
mesmo certo que trar da ardente terra da Sria, da terra da
Vnus e da esposa dos Cantares, uma chama no seu corao
mais fogosa e mais moa...
Eu mordia o beio, sufocado:
- Pois est visto! - Ainda havemos de andar de caleche pelo
Mamudi... Isto  s ir rezar uns padre-nossos ao Calvrio...
At me faz bem... Volto como um touro.
Depois do caf fomos encostar-nos  varanda a olhar, calados,
aquela suntuosa noite do Egito. As estrelas eram como uma
grossa poeirada de luz que o bom Deus levantava l em cima,
passeando sozinho pelas estradas do cu. O silncio tinha uma
solenidade de sacrrio. Nos escuros terraos, embaixo, uma
forma branca movendo-se por vezes, de leve, mostrava que
outras criaturas estavam ali, como ns, deixando a alma embeber-
se mudamente no esplendor sideral; e nesta difusa religiosidade,
igual  de uma multido pasmando para os lumes de um
altar-mor, eu sentia subir aos lbios, irresistivelmente, a doura
de uma ave-maria...
Ao longe o mar dormia. E,  quente irradiao dos astros, eu
podia distinguir, num pontal de areia, mergulhando quase na
gua, uma casa deserta, pequenina, toda branca e potica entre
duas palmeiras... Ento comecei a pensar que, mal a Titi morresse
e fosse meu o seu ouro, eu poderia comprar esse doce
retiro, forr-lo de lindas sedas, e viver ao lado da minha luveira,
vestido de turco, fresco, sereno, livre de todas as inquietaes
da civilizao. Desagravos ao Sagrado Corao de Jesus serme-
iam to indiferentes, como as guerras que entre si travassem
os reis. Do cu s me importaria a luz anilada, que banhasse a
minha vidraa; da terra s me importariam as flores abertas no
meu jardim, para aromatizar a minha alegria. E passaria os dias
numa fofa preguia oriental, fumando o puro lataki, tocando
viola francesa, e recebendo perpetuamente essa impresso de
felicidade perfeita, que a Mary me dava s com deixar arfar o
seio e chamar-me seu portuguesinho valente.
Apertei-a contra mim num desejo de a sorver. Junto  sua orelha,
de uma brancura de concha branca balbuciei nomes inefveis;
disse-lhe rechonchudinha; disse-lhe riquinha. Ela estremeceu,
ergueu os olhos magoados para a poeirada de ouro.
- Que de estrelas! Deus queira que amanh o mar esteja manso!
Ento,  idia dessas longas ondas que me iam levar a rspida
terra do Evangelho, to longe da minha Mary, um pesar infinito
afogou-me o peito, e irreprensivelmente se me escapou dos lbios,
em gemidos entoados, queixosos e requebrados... Cantei.
Por sobre os terraos adormecidos da muulmana Alexandria
soltei a voz dolorida, voltado para as estrelas; e roando os dedos
pelo peito do jaqueto onde deviam estar os bordes da
viola, fazendo os meus ais bem chorosos - suspirei o fado mais
sentido da saudade portuguesa:
Coa minhalma aqui te ficas,
Eu parto s com os meus ais,
E tudo me diz, Maricas,
Que no te verei nunca mais.
Parei, abafado de paixo. O erudito Topsius quis saber se estes
doces versos eram de Lus de Cames. Eu, choramingando,
disse-lhe que estes, ouvira-os no Dafundo ao Calcinhas.
Topsius recolheu a tomar uma nota do grande poeta Calcinhas.
Eu fechei a vidraa; e depois de ir ao corredor fazer s escondidas
um rpido sinal da cruz, vim desapertar sofregamente, e
pela vez derradeira, os atacadores do colete da minha saborosa
bem-amada.
Breve, avaramente breve, foi essa noite estrelada do Egito!
Cedo, amargamente cedo, veio o grego de Lacedemnia avisar-
me que j fumegava na baa, spera e cheia de vento, el
paquete, ferozmente chamado o Caimo, que me devia levar
para as tristezas de Israel.
El seor D. Topsius, madrugador, j estava embaixo a almoar
pachorrentamente os seus ovos com presunto, a sua vasta caneca
de cerveja. Eu tomei apenas um gole de caf, no quarto, a
um canto da cmoda, em mangas de camisa, com os olhos vermelhos
sob a nvoa das lgrimas. A minha slida mala de couro
atravancava o corredor, fechada e afivelada; mas Alpedrinha
estava ainda acomodando,  pressa, a roupa suja dentro do
saco de lona. E Maricoquinhas, sentada desoladamente  borda
do leito, com o seu gentil chapu enfeitado de papoulas e as
olheirinhas pisadas, contemplava aquele enfardelar de flanelas,
como se fossem bocados do seu corao atirados para o fundo
do saco, para partirem e no voltarem mais!
Levas tanta roupa suja, Teodorico!
Balbuciei, dilacerado:
- Manda-se lavar em Jerusalm, com a ajuda de Nosso Senhor!
Deitei os meus bentinhos ao pescoo. Nesse instante Topsius
assomava  porta, cachimbando, com a barraca do seu guardasol
fechada sobre o brao, de galochas anchas para a umidade
do tombadilho, e um volume da Bblia enchumaando-lhe a
rabona de alpaca. Ao ver-me sem colete, repreendeu a minha
amorosa preguia.
- Mas compreendo, bela dama, compreendo! - acudiu ele, s
cortesias a Mary, esgrouviado e onduloso, de culos na ponta
do bico. E doloroso deixar os braos de Clepatra... J Antnio
por eles perdeu Roma e o mundo... Eu mesmo, todo absorvido
na minha misso, com recantos crepusculares da histria a
alumiar, levo gratas memrias destes dias de Alexandria...
Deliciosssimos os nossos passeios pelo Mamudi!... Permitame
que apanhe a sua luva, bela dama!... E se voltar jamais a
esta terra dos Ptolomeus, no me esquecer a Rua das Duas-
Irms... Miss Mary, luvas e flores de cera. Perfeitamente.
Consentir que lhe mande, quando completa, a minha Histria
dos Lgidas... H detalhes muito picantes... Quando Clepatra
se apaixonou por Herodes, o rei da Judia...
Mas Alpedrinha, da beira do leito, gritava., alvoroado:
- Cavalheiro! Ainda h aqui roupa suja!
Rebuscando, entre os cobertores revoltos, descobrira uma longa
camisa de rendas, com laos de seda clara. Sacudia-a; e
espalhava-se um aroma saudoso de violeta e de amor... Ai! Era
a camisa de dormir da Mary; quente ainda dos meus abraos!
- Pertence  senhora D. Mary! E a tua camisinha, amor! gemi
eu, cruzando os suspensrios.
A minha luveirinha ergueu-se, trmula, descorada - e teve um
potico rasgo de paixo. Enrolou a sua camisinha, atirou-me
para os braos, to ardentemente, como se entre as dobras viesse
tambm o seu corao.
- Dou-ta, Teodorico! Leva-a, Teodorico! Ainda est
amarrotada da nossa ternura!... Leva-a para dormires com ela a
teu lado, como se fosse comigo... Espera, espera ainda, amor!
Quero pr-lhe uma palavra, uma dedicatria!
Correu  mesa, onde jaziam restos do papel sisudo em que eu
escrevia  Titi a histria edificativa dos meus jejuns em
Alexandria, das noites consumidas a embeber-me do Evangelho...
E eu, com a camisinha perfumada nos braos, sentindo
duas bagas de pranto rolarem-me pelas barbas, procurava
angustiosamente em redor onde guardar aquela preciosa relquia
de amor. As malas estavam fechadas. O saco de lona estalava,
repleto.
Topsius, impaciente, tirara das profundezas do seio o seu relgio
de prata. O nosso lacedemnio,  porta, rosnava:
- D. Teodorico, es tarde, es mui tarde...
Mas a minha bem-amada j sacudia o papel, coberto das letras
que ela traara, largas, impetuosas e francas como o seu amor:
Ao meu Teodorico, meu portuguesinho possante, em lembrana
do muito que gozamos!
- Oh, riquinha! E onde hei de eu meter isto? Eu no hei de levar
a camisa nos braos, assim nua e ao lu!
J Alpedrinha, de joelhos, desafivelava desesperadamente o
saco. Ento Maricoquinhas, com uma inspirao delicada, agarrou
uma folha de papel pardo; apanhou do cho um nastro vermelho;
e as suas habilidosas mos de luveira fizeram da camisinha
um embrulho redondo, cmodo e gracioso - que eu meti
debaixo do brao, apertando-o com avara, inflamada paixo.
Depois, foi um murmrio arrebatado de soluos, de beijos, de
douras...
- Mary; anjo querido!
- Teodorico, amor! ...
- Escreve-me para Jerusalm...
- Lembra-te da tua bichaninha bonita...
Rolei pela escada, tonto. E a caleche que tantas vezes me passeara,
enlaado com Mary; por sob os arvoredos aromticos
do Mamudi, l partiu, ao trote da parelha branca, arrancandome
a uma felicidade onde o meu corao deitara razes, agora
despedaadas e gotejando sangue no silncio do meu peito. O
douto Topsius, abarracado sob o seu guarda-sol verde, recomeara,
impassvel, a murmurar cousas de velha erudio. Sabia
eu por onde amos rodando? Por sobre a nobre calada dos
Sete-Estados, que o primeiro dos Lgidas construra para comunicar
com a Ilha de Faros, louvada nos versos de Homero!
Nem o escutava, debruado para trs, na caleche, agitando o
leno molhado da minha saudade. A doce Maricoquinhas, 
porta do hotel, ao lado de Alpedrinha, linda sob o chapu florido
de papoulas, fazia esvoaar tambm o seu leno amoroso e
acariciador; e um momento estas duas cambraias brancas sacudiram
uma para a outra, no ar quente, o ardor dos nossos coraes.
Depois eu ca sobre a almofada de chita, como cai um
corpo morto...
Apenas embarcado no Caimo, corri a esconder no beliche a
minha dor. Topsius ainda me agarrou pela manga para me mostrar
stios das grandezas dos Ptolomeus, o porto do Eunotos, a
enseada de mrmore onde ancoravam as galeras de Clepatra.
Fugi; na escada esbarrei, quase rolei sobre uma irm da caridade,
que subia timidamente, com as suas contas na mo. Rosnei
um desculpe, minha santinha. E tombando enfim no catre, deixei
escapar o pranto  larga, por cima do embrulho de papel
pardo; ele era tudo que me restava dessa paixo de incomparvel
esplendor, passada na terra do Egito.
Dous dias e duas noites o Caimo arquejou e rolou nos
vagalhes do Mar de Tiro. Enrodilhado num cobertor, sem largar
do peito o embrulhinho de Mary eu recusava com dio as
bolachas que de vez em quando me trazia o humanssimo
Topsius; e desatento s cousas eruditas que ele
imperturbavelmente me contava destas guas chamadas pelos
egpcios o Grande Verde, rebuscava, debalde, na memria, bocados
soltos de uma orao que ouvira  Titi, para amansar as
vagas iradas.
Mas uma tarde, ao escurecer, tendo cerrado os olhos, pareceume
sentir sob as chinelas um cho firme, cho de rocha, onde
cheirava a rosmaninho; e achei-me incompreensivelmente a subir
uma colina agreste de companhia com a Adlia, e com a
minha loura Mary; que sara de dentro do embrulho, fresca, ntida,
sem ter sequer amarrotado as papoulas do seu chapu! Depois,
por trs de um penedo, surgiu-nos um homem nu, colossal,
tisnado, de cornos; os seus olhos reluziam, vermelhos como
vidros redondos de lanternas; e, com o rabo infindvel, ia fazendo
no cho o rumor de uma cobra irritada que roja por folhas
secas. Sem nos cortejar, impudentemente, ps-se a marchar ao
nosso lado. Eu percebi bem que era o diabo; mas no senti escrpulos,
nem terror. A insacivel Adlia atirava olhadelas oblquas
 potncia dos seus msculos. Eu dizia-lhe, indignado:
Porca, at te serve o diabo?
Assim marchando, chegamos ao alto do monte, onde uma palmeira
se desgrenhava sobre um abismo cheio de mudez e de
treva. Defronte de ns, muito longe, o cu desdobrava-se como
um vasto estofo amarelo; e sobre esse fundo vivo, cor de gema
de ovo, destacava um negrssimo outeiro, tendo cravadas no
alto trs cruzinhas em linha, finas e de um s trao. O diabo,
depois de escarrar, murmurou, travando-me da manga: A do
meio  a de Jesus, filho de Jos, a quem tambm chamam o
Cristo; e chegamos a tempo para saborear a Ascenso. Com
efeito! A cruz do meio, a do Cristo, desarraigada do outeiro,
como um arbusto que o vento arranca, comeou a elevar-se,
lentamente, engrossando, atravancando o cu. E logo de todo o
espao voaram bandos de anjos, a sust-la, apressados como
as pombas quando acodem ao gro; uns puxavam-na de cima,
tendo-lhe amarrado ao meio longas cordas de seda; outros,
debaixo, empurravam-na e ns vamos o esforo entumecido
dos seus braos azulados. Por vezes do madeiro desprendia-se,
como uma cereja muito madura, uma grossa gota de sangue; um
serafim recolhia-a nas mos e ia coloc-la sobre a parte mais
alta do cu onde ela ficava suspensa e brilhando com o resplendor
de uma estrela. Um ancio enorme de tnica branca, a que
mal distinguamos as feies, entre a abundncia da coma revolta
e os flocos de barbas nevadas, comandava, estirado entre
nuvens, estas manobras da Ascenso, numa lngua semelhante
ao latim e forte como o rolar de cem carros de guerra. Subitamente
tudo desapareceu. E o diabo, olhando para mim, pensativo:
Gonsummatum est, amigo! Mais outro deus! Mais outra religio!
E esta vai espalhar em terra e cu um inenarrvel tdio.
E logo, levando-me pela colina abaixo, o diabo rompeu a contar-
me animadamente os cultos, as festas, as religies que floresciam
na sua mocidade. Toda esta costa do grande verde,
ento, desde Biblos at Cartago, desde Elusis at Mnfis, estava
atulhada de deuses. Uns deslumbravam pela perfeio da
sua beleza, outros pela complicao da sua ferocidade. Mas
todos se misturavam  vida humana, divinizando-a; viajavam em
carros triunfais, respiravam as flores, bebiam os vinhos,
defloravam as virgens adormecidas. Por isso eram amados com
um amor que no mais voltar; e os povos, emigrando, podiam
abandonar os seus gados ou esquecer os rios onde tinham bebido,
mas levavam carinhosamente os seus deuses ao colo. O
amigo, perguntou ele, nunca esteve em Babilnia? A todas as
mulheres, matronas ou donzelas, se vinham um dia prostituir nos
bosques sagrados, em honra da deusa Melita. As mais ricas
chegavam em carros marchetados de prata, puxados a bfalos,
e escoltadas de escravas; as mais pobres traziam uma corda ao
pescoo. Umas, estendendo um tapete na erva, agachavam-se
como reses pacientes; outras, erguidas, nuas, brancas, com a
cabea escondida num vu preto, eram como esplndidos mrmores
entre os troncos dos lamos. E todas assim esperavam
que qualquer, atirando-lhe uma moeda de prata, lhes dissesse:
Em nome de Vnus! Seguiam-no ento, fosse um prncipe
vindo de Susa com tiara de prolas, ou o mercador que desce o
Eufrates no seu barco de couro; e toda a noite rugia, na escurido
das ramagens, o delrio da luxria ritual. Depois o diabo
disse-me as fogueiras humanas de Moloque, os mistrios da
boa-deusa em que os lrios se regavam com sangue, e os ardentes
funerais de Adnis...
E parando, risonhamente: o amigo nunca esteve no Egito? Eu
disse-lhe que estivera e conhecera l Maricocas. E o diabo,
corts:
No era Maricocas, era sis! Quando a inundao chegava
at Mnfis, as guas cobriam-se de barcas sagradas. Uma alegria
herica, subindo para o sol, fazia os homens iguais aos deuses.
Osris, com os seus cornos de boi, montava sis; e, entre o
estridor das harpas de bronze, ouvia-se por todo o Nilo o rugir
amoroso da vaca divina.
Depois, o diabo contava-me como brilhavam, doces e belas, na
Grcia, as religies da natureza. A tudo era branco, polido,
puro, luminoso e sereno; uma harmonia saa das formas dos
mrmores, da constituio das cidades, da eloquncia das academias
e das destrezas dos atletas; por entre as ilhas da Jnia,
flutuando na moleza do mar mudo como cestas de flores, as
nereidas dependuravam-se da borda dos navios para ouvir as
histrias dos viajantes; as musas, de p, cantavam pelos vales; e
a beleza de Vnus era como uma condensao da beleza da
Helnia.
Mas aparecera este carpinteiro de Galilia, e logo tudo acabara!
A face humana tornava-se para sempre plida, cheia de
mortificao; uma cruz escura, esmagando a terra, secava o
esplendor das rosas, tirava o sabor aos beijos; e era grata ao
deus novo a fealdade das formas.
Julgando Lcifer entristecido, eu procurava consol-lo: Deixe
estar, ainda h de haver no mundo muito orgulho, muita prostituio,
muito sangue, muito furor! No lamente as fogueiras de
Moloque. H de ter fogueiras de judeus. E ele, espantado:
Eu? Uns ou outros, que me importa, Raposo? Eles passam, eu
fico!
Assim, despercebido, a conversar com Satans, achei-me no
Campo de Santana. E tendo parado, enquanto ele
desenvencilhava os cornos dos ramos de uma das rvores, ouvi
de repente ao meu lado um berro: Olha o Teodorico com o
Porco-Sujo! Voltei-me. Era a Titi! A Titi, lvida, terrvel, erguendo,
para me espancar, o seu livro de missa! Coberto de
suor, acordei.
Topsius gritava,  porta do beliche, alegremente:
- Levante-se, Raposo! Estamos  vista da Palestina!
O Caimo parara; e no silncio eu sentia a gua roando-lhe o
costado, de leve, num murmrio de mansa carcia. Por que sonhara
eu assim, ao avizinhar-me de Jerusalm, com os deuses
falsos, Jesus seu vencedor, e o demnio a todos rebelde? Que
suprema revelao me preparava o Senhor?...
Desenrodilhei-me da manta; atordoado, sujo, sem largar o precioso
embrulho da Mary; subi ao tombadilho, encolhido no meu
jaqueto. Um ar fino e forte banhou-me deliciosamente, trazendo
um aroma de serra e de flor de laranjeira. O mar emudecera,
todo azul, na frescura da manh. E ante meus olhos pecadores
estendia-se a terra da Palestina, arenosa e baixa, com uma cidade
escura, rodeada de pomares, toucada no alto de flechas
de sol irradiando como os raios de um resplendor de santo.
- Jafa! - gritou-me Topsius, sacudindo o seu cachimbo de loua.
- A tem o D. Raposo a mais antiga cidade da sia, a
velhssima Jepo, anterior ao dilvio! Tire o barrete, sade essa
anci dos tempos, cheia de lenda e de histria... Foi aqui que o
borrachssimo No construiu a sua arca!
Cortejei, assombrado.
- Caramba! Ainda agora a gente chega, j lhe comeam a aparecer
cousas de religio!
E conservei-me descoberto, porque o Caimo, ao ancorar diante
da Terra Santa, tomara o recolhimento de uma capela,
cheia de piedosas ocupaes e de uno. Um lazarista, de longa
sotaina, passeava, com os ossos baixos, meditando o seu
brevirio. Sumidas dentro dos capuzes negros de lustrina, duas
religiosas corriam os dedos plidos pelas contas dos seus rosrios.
Ao longo da amurada mida, peregrinos da Abissnia,
hirsutos padres gregos de Alexandria, pasmavam para o casario
de Jafa, aureolado de sol, como para a iluminao de um
sacrrio. E a sineta  popa tilintava, na brisa salgada, com uma
doura devota de toque de missa...
Mas, vendo uma barcaa escura remar para o Caimo, baixei
depressa ao beliche a pr o meu capacete de cortia, calar
luvas pretas, para pisar decorosamente a terra do meu Salvador.
Ao voltar, bem escovado, bem perfumado, achei a lancha
atulhada. E descia, com alvoroo, atrs de um franciscano barbudo,
quando o amado embrulhinho da Mary escapou dos
meus braos carinhosos, rolou em saltos pela escada como uma
pla, raspou a borda do bote... Ia sumir-se nas guas amargas!
Dei um berro! Uma das religiosas apanhou-o, ligeira e cheia de
misericrdia.
Agradecido, minha senhora! - gritei, enfiado. - E um
pacotezinho de roupa! Seja pelo sagrado amor de Maria!
Ela refugiou-se modestamente na sombra do seu capuz; e como
eu me acomodara, mais longe, entre Topsius e o franciscano
barbudo que cheirava a alho - a santa criatura guardou o embrulho
sobre o seu puro regao, deitou-lhe mesmo por cima as
contas do seu rosrio.
O arrais, empunhando o leme, bradou: Al  grande, larga!
Os rabes remaram cantando. O sol surgiu por trs de Jafa. E
eu, encostado ao meu guarda-chuva, contemplava a pudica religiosa
que assim levava, ao colo, para a terra de castidade, a
camisinha da Mary.
Era nova; e entre o bioco triste de lustrina preta parecia de marfim
o seu rosto oval, onde as pestanas longas punham a sombra
de uma dolente melancolia. Os beios tinham perdido toda a
cor e todo o calor, para sempre inteis, destinados somente a
beijar os ps arroxeados do cadver de um deus. Comparada
com Mary; rosa de Iorque aberta e sensual, perfumando
Alexandria, esta pendia como um lrio ainda fechado e j murcho
na umidade de uma capela. Ia certamente para algum hospcio
da Terra Santa. A vida para ela devia ser uma sucesso de
chagas a cobrir de fios e de lenis, a estender por cima de faces
mortas. E era decerto o medo do Senhor que a tornava assim
to plida.
- Bem tola! - murmurei eu.
Pobre e estril criatura! Percebeu ela por acaso o que continha
aquele embrulho pardo? Sentiu ela subir de l, e espalhar-se no
escuro do seu capuz, um perfume estranho e enlanguescedor de
baunilha e de pele amorosa? A quentura do leito revolto, que
ficara nas rendas da camisa, atravessou por acaso o papel e
veio aquecer-lhe brandamente os joelhos? Quem sabe! Durante
um momento pareceu-me que uma gota de sangue novo lhe
roseou a face desmaiada, e que debaixo do hbito, onde brilhava
uma cruz, o seu seio arfou, perturbado; mesmo julguei ver
lampejar, por entre as suas pestanas, um raio fugitivo e assustado,
procurando as minhas barbas cerradas e pretas... Mas foi
s um relance. Outra vez, sob o capuz, o rosto recaiu na sua
frialdade de mrmore santo; e sobre o seio submetido, a cruz
pesou, ciumenta e de ferro. Ao seu lado, a outra religiosa, rechonchuda
e de lunetas, sorria para o verde-mar, sorria para o
sbio Topsius - com um sorriso claro que saa da paz do seu
corao e lhe punha uma covinha no queixo.
Apenas saltamos na areia da Palestina, corri a agradecer, de
capacete na mo, garboso e palaciano.
- Minha irm, estou muito penhorado.. Grande desgosto se se
perdesse o pacotezinbo!... E de minha tia, uma encomenda para
Jerusalm... L lhe contarei... A Titi  muito respeitadora de
cousas santas; pela-se pela caridade...
Muda, no refolho do seu capuz, ela estendeu-me o embrulhinho
com a ponta dos dedos, dbeis e mais transparentes que os de
uma Senhora da Agonia. E os dous hbitos negros sumiram-se,
entre muros faiscantes de cal nova, numa viela em escadas onde
apodrecia o cadver de um co sob o vo dos moscardos. Eu
murmurei ainda: Bem tola!
Quando me voltei, Topsius,  sombra do seu guarda-sol, conversava
com o homem prestante, que foi nosso guia atravs das
terras da Escritura. Era moo, moreno, espigado, com longos
bigodes esvoaando ao vento; usava jaqueta de veludilho e botas
brancas de montar; as coronhas prateadas de duas pistolas,
emergindo de uma faixa de l negra, armavam-lhe heroicamente
o peito forte; e trazia amarrado na cabea, com as pontas e as
franjas atiradas para trs, um leno rutilante de seda amarela. O
seu nome era Paulo Pote; a sua ptria o Montenegro; e toda a
costa da Sria o conhecia pelo alegre Pote. Jesus, que alegre
matalote! A alegria faiscava-lhe na pupila azul-clara; a alegria
cantava-lhe nos dentes incomparveis; a alegria estremecia-lhe
nas mos buliosas; a alegria ressoava-lhe no bater dos taces.
Desde scalon at aos bazares de Damasco, desde o Carmelo
at aos pomares de Engada - ele era o alegre Pote. Estendeume
rasgadamente a bolsa de tabaco perfumado. Topsius maravilhou-
se do seu saber bblico. Eu, com palmadas pelo ventre,
gritei-lhe logo - meu gajo! E, depois de valentes apertos de
mo, fomos para o Hotel de Josafate firmar o nosso contrato,
bebendo vasta cerveja.
O alegrssimo Pote depressa organizou a nossa caravana para a
cidade do Senhor. Um macho levava as bagagens; o arrieiro
rabe, embrulhado num farrapo azul, era to airoso e lindo que
eu, irresistivelmente e sem cessar, procurava o negro afago do
seu olhar de veludo; e, por luxo oriental, como escolta, seguianos
um beduno, velho, catarroso, com o albornoz de l de camelo
listrado de cinzento, e uma forte lana ferrugenta toda enfeitada
de borlas.
Guardei num alforje, desveladamente, o embrulhinho mimoso da
camisinha de Mary; depois, j na sela, alongados os loros do
pernudo Topsius, o festivo Pote, floreando o chicote, lanou o
antigo grito das Cruzadas e de Ricardo-Corao-de-Leo -
Avante, a Jerusalm; Deus o quer! E a trote, com os charutos
em brasa, samos de Jafa pela porta do Mercado -  hora em
que suavemente tocava a vsperas no Hospcio dos Padres Latinos.
Na luminosa meiguice da tarde, a estrada alongava-se atravs
de jardins, hortas, pomares, laranjais, palmeirais, terra de promisso,
resplandecente e amvel. Por entre as sebes de mirtos
perdia-se o fugidio cantar das guas. O ar todo, de uma doura
inefvel, como para nele respirar melhor o povo eleito de Deus,
era um derramado perfume de jasmins e limoeiros. O grave e
pacfico chiar das noras ia adormecendo, ao fim do dia de rega,
entre as romzeiras em flor. Alta e serena no azul, voava uma
grande guia.
Consolados, paramos numa fonte de mrmore vermelho e negro,
abrigada  sombra de sicmoros onde arrulhavam rolas; ao
lado erguia-se uma tenda, com um tapete na relva coberto de
uvas e de malgas de leite; e o velho de barbas brancas que a
ocupava saudou-nos em nome de Al, com a nobreza de um
patriarca. A cerveja tinha-me feito sede; foi uma rapariga bela
como a antiga Raquel, que me deu a beber do seu cntaro de
forma bblica, sorrindo, com o seio descoberto, duas longas
argolas de ouro batendo-lhe a face morena, e um cordeirinho
branco e familiar preso da ponta da tnica.
A tarde descia, muda e dourada, quando penetramos na plancie
de Sron, que a Bblia outrora encheu de rosas. No silncio
tilintavam os chocalhos de um rebanho de cabras negras, que
um rabe ia pastoreando, nu como um So Joo. L ao fundo,
os montes sinistros da Judia, tocados pelo sol oblquo que se
afundava sobre o Mar de Tiro, pareciam ainda formosos, azuis
e cheios de doura de longe, como as iluses do pecado. Depois
tudo escureceu. Duas estrelas de um resplendor infinito
apareceram; e comearam a caminhar adiante de ns para os
lados de Jerusalm.
O nosso quarto, no Hotel do Mediterrneo, em Jerusalm, com
a sua abbada caiada de branco, o cho de tijolo, semelhava
uma rgida cela de rude mosteiro. Mas, fronteira  janela, um
tabique delgado, revestido de papel de ramagens azuis, dividiao
do outro quarto, onde ns sentamos uma voz fresca cantarolar
a Balada do Rei de Tule; e a, exalando conforto e civilizao,
brilhava um guarda-roupa de mogno, que eu abri, como se
abre um relicrio, para encerrar o meu embrulhinho bendito.
Os dous leitozinhos de ferro desapareciam sob as pregas virginais
dos cortinados de cambraia branca; e ao meio havia uma
mesa de pinho, onde Topsius estudava o mapa da Palestina,
enquanto eu, de chinelos, passeava, limando as unhas. Era a
devota sexta-feira em que a cristandade comemora,
enternecida, os santos mrtires de vora. Ns tnhamos chegado
nessa tarde, sob uma chuva triste e mida,  cidade do Senhor;
e de vez em quando Topsius, erguendo os culos de cima
das estradas de Galilia, contemplava-me de braos cruzados e
murmurava com amizade:
- Ora est o amigo Raposo em Jerusalm!
Eu, parando ao espelho, dava um olhar s barbas crescidas, 
face crestada, e murmurava tambm, agradado:
- E verdade, c est o belo Raposo em Jerusalm!
E voltava, insaciado, a admirar atravs dos vidros baos a divina
Sio. Sob a chuva melanclica erguiam-se defronte as paredes
brancas de um convento silencioso, com as persianas verdes
corridas, e duas enormes goteiras de zinco a cada esquina,
uma escoando-se ruidosamente sobre uma viela deserta, a outra
caindo no cho mole de uma horta plantada de couves, onde
omeava um jumento. Desse lado, era uma vastido infindvel de
telhados em terrao, lgubres e cor de lodo, com uma
cupulazinha de tijolo em forma de forno, e longas varas para
secar farrapos; e quase todos decrpitos, desmantelados,
misrrimos, pareciam desfazer-se na gua lenta que os alagava.
Do outro, elevava-se uma encosta atulhada de casebres srdidos,
com verduras de quintal, esfumadas, arrepiadas na nvoa
mida; por entre eles, torcia-se uma viela esgalgada, em escadinhas,
onde constantemente se cruzavam frades de alpercatas
sob os seus guarda-chuvas; sombrios judeus de melenas cadas,
ou algum vagaroso beduno arregaando o seu albornoz... Por
cima pesava o cu pardacento. E assim da minha janela me
aparecia a velha Sio, a bem edificada, brilhante de claridade,
alegria da terra, e formosa entre as cidades.
- Isto  um horror, Topsius! Bem dizia o Alpedrinha! Isto  pior
que Braga, Topsius! E nem um passeio, nem um bilhar, nem um
teatro! Nada! Olha que cidade para viver Nosso Senhor!
- Sim! No tempo dele era mais divertida - resmungou o meu
sapiente amigo.
E logo me props que no domingo partssemos para as margens
do Jordo, onde o reclamavam os seus estudos sobre os
Herodes. A eu poderia ter deleites campestres, banhando-me
nas guas santas, atirando s perdizes, entre as palmeiras de
Jeric. Acedi com gosto. E descemos a comer, chamados por
uma sineta de convento, funerria e badalando na sombra do
corredor.
O refeitrio era tambm abobadado, com uma esteira de
esparto sobre o cho de ladrilho; e estvamos ss, o erudito
investigador dos Herodes e eu, na mesa tristonha, adornada
com flores de papel em vasinhos rachados. Remexendo o macarro
de uma sopa dessaborida, murmurei, sucumbido: Jesus,
Topsius, que grande maada! Mas uma porta de vidraa ao
fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado: Caramba,
Topsius, que grande mulher!
Grande, em verdade! Slida e saudvel como eu; branca, da
alvura do linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por
uma massa ardente de cabelo ondeado e castanho; presa num
vestido de sarja azul que os seios rijos quase faziam estalar, ela
entrou, derramando um fresco cheiro de sabo Windsor e de
gua-de-colnia, e logo alumiou todo o refeitrio com o esplendor
da sua carne e da sua mocidade... O fecundo Topsius comparou-
a  fortssima deusa Cibele.
Cibele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado,
fazendo ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros,
acomodou-se um Hrcules tranqilo, calvo, de espessas
barbas grisalhas - que, no mero gesto de desdobrar o guardanapo,
revelou a onipotncia do dinheiro e o envelhecido hbito
de mandar. Por um yes que ela murmurou, compreendi que era
da terra de Maricocas. E lembrava-me a inglesa do senhor baro.
Ela colocara junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser
de versos; o barbaas, mastigando com o vagar majestoso de
um leo, folheava tambm em silncio o seu Guia do Oriente. E
eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar
devoradamente cada uma das suas perfeies. De vez em
quando ela erguia a franja cerrada das suas pestanas; eu esperava
com nsia o dom desse claro e suave olhar; mas ela derramava-
o pelos muros caiados, pelas flores de papel, e deixava-o
recair, desinteressado e frio, sobre as pginas do seu poema.
Depois do caf beijou a mo cabeluda do barbaas; e desapareceu
pela porta envidraada, levando consigo o aroma, a luz, e
a alegria de Jerusalm. O Hrcules acendeu morosamente o
cachimbo; disse ao moo que lhe mandasse o Ibraim, o guia;
levantou-se, pesado e membrudo. Junto  porta derrubou o
guarda-chuva de Topsius, do venerabilssimo Topsius, glria da
Alemanha, membro do Instituto Imperial de Escavaes Histricas;
e passou, sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.
- Irra, bruto! - rosnei, a borbulhar de furor.
O meu douto amigo, com a sua cobardia social de alemo disciplinado,
apanhou o seu guarda-chuva e escovou-lhe o
paninho, murmurando, j trmulo, que talvez o barbaas fosse
um duque...
- Qual duque! Para mim no h duques! Eu sou Raposo, dos
Raposos do Alentejo... Rachava-o!
Mas a tarde descia - e devamos fazer a nossa visita reverente
ao sepulcro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o
meu chapu alto, como prometera  Titi; e penetrava no corredor
quando vi Cibele abrir a porta, junto da nossa porta, e sair
envolta numa capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam
duas penas de gaivota. O corao bateu-me no delrio de uma
grande esperana. Assim, era ela que cantarolava a Balada do
rei de Tule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados
pelo fino, frgil tabique coberto de ramarias azuis! Nem procurei
as luvas pretas; desci num alvoroo, certo de que a ia encontrar
no sepulcro de Jesus; e planeava j verrumar no tabique
um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se
nas belezas do seu desalinho.
Ainda chovia, lugubremente. Apenas comeamos a atolar-nos
no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros cor de lodo
- chamei Pote para debaixo do meu guarda-chuva, pergunteilhe
se vira no hotel a minha forte e sardenta Cibele. O jucundo
Pote j a admirara. E pelo Ibraim, seu compadre dileto, sabia
que o barbaas era um escocs, negociante de curtumes...
- A est, Topsius! - gritei eu. - Negociante de curtumes... Qual
duque! E uma besta! Eu rachava-o! Em cousas de dignidade
sou uma fera. Rachava-o!
A filha, a das bastas tranas, dizia Pote, tinha um nome radiante
de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavalos,
era arrojada; na alta Galilia, de onde vinham, matara uma
guia negra...
- Ora aqui tm os cavalheiros a casa de Pilatos...
- Deixa l a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com
Pilatos! E ento que diz mais o Ibraim? Desembucha, Pote!
Ali a Via-Dolorosa estreitava-se, abobadada, como um corredor
de catacumba. Dous mendigos chaguentos roam cascas de
meles, assapados na lama e grunhindo. Um co uivava. E o
risonho Pote contava-me que o Ibraim vira muitas vezes Miss
Ruby enlevada na beleza dos homens da Sria: de noite,  porta
da tenda, em quanto o pap cervejava, ela dizia versos baixinho,
olhando para a palpitao das estrelas. Eu pensava:
Caramba! Tenho mulher!
- Ora aqui esto os cavalheiros diante do Santo Sepulcro...
Fechei o meu guarda-chuva. Ao fundo de um adro, de lajes
descoladas, erguia-se a fachada de uma igreja, caduca, triste,
abatida, com duas portas em arco; uma tapada j a pedregulho
e cal, como suprflua; a outra timidamente, medrosamente entreaberta.
E aos flancos dbeis deste templo soturno, manchado
de tons de runa, colavam-se duas construes desmanteladas,
do rito latino e do rito grego - como filhas apavoradas que a
morte alcanou, e que se refugiam ao seio da me, meio morta
tambm e j fria.
Calcei ento as minhas luvas pretas. E imediatamente, um bando
voraz de homens srdidos envolveu-nos com alarido, oferecendo
relquias, rosrios, cruzes, escapulrios, bocadinhos de
tbuas aplainadas por So Jos, medalhas, bentinhos,
frasquinhos de gua do Jordo, crios, agnus-dei, litografias da
Paixo, flores de papel feitas em Nazar, pedras benzidas, caroos
de azeitona do Monte Olivete, e tnicas como usava a
Virgem Maria! E  porta do sepulcro de Cristo, onde a Titi me
recomendara que entrasse de rastos, gemendo e rezando a coroa
- tive de esmurrar um malandro de barbas de eremita, que
se dependurara da minha rabona, faminto, rbido, ganindo que
lhe comprssemos boquilhas feitas de um pedao da arca de
No!
- Irra, caramba, larga-me, animal!
E foi assim, praguejando, que me precipitei, com o guarda-chuva
a pingar, dentro do santurio sublime onde a cristandade
guarda o tmulo do seu Cristo. Mas logo estaquei, surpreendido,
sentindo um delicioso e grato aroma de tabaco da Sria.
Num amplo estrado, afofado em div, com tapetes da
Caramnia e velhas almofadas de seda, reclinavam-se trs turcos,
barbudos e graves, fumando longos cachimbos de cerejeira.
Tinham dependurado na parede as suas armas. O cho estava
negro dos seus escarros. E, diante, um servo em farrapos
esperava, com uma taa fumegante de caf, na palma de cada
mo.
Pensei que o catolicismo, previdente, estabelecera  porta do
lugar divino uma Loja de bebidas e aguardentes, para conforto
dos seus romeiros. Disse baixo a Pote:
- Grande idia! Parece-me que tambm vou tomar um
cafezinho!
Mas logo o festivo Pote me explicou que esses homens srios,
de cachimbo, eram soldados muulmanos policiando os altares
cristos, para impedir que em torno ao mausolu de Jesus se
dilacerem, por superstio, por fanatismo, por inveja de alfaias,
os sacerdcios rivais que ali celebram os seus ritos rivais - catlicos
como o Padre Pinheiro; gregos ortodoxos para quem a
cruz tem quatro braos; abissnios e armnios, coptas que descendem
dos que outrora em Mnfis adoravam o boi pis;
nestorianos que vm da Caldia; georgianos que vm do Mar
Cspio; maronitas que vm do Lbano, todos cristos, todos
intolerantes, todos ferozes!... Ento saudei com gratido esses
soldados de Maom que, para manter o recolhimento piedoso
em torno do Cristo morto, serenos e armados velam  porta,
fumando.
Logo  entrada paramos diante de uma lpide quadrada, incrustada
nas lajes escuras, to polida e reluzindo com um to doce
brilho de ncar, que parecia a gua quieta de um tanque, onde
se refletiam as luzes das lmpadas. Pote puxou-me a manga,
lembrou-me que era costume beijar aquele pedao de rocha,
santa entre todas, que outrora, no jardim de Jos de
Arimatia...
- Bem sei, bem sei... Beijo, Topsius?
- V beijando sempre - disse-me o prudente historigrafo dos
Herodes. - No se lhe pega nada; e agrada  senhora sua tia.
No beijei. Em fila e calados, penetramos numa vasta cpula,
to esfumada no crepsculo que o crculo de frestas redondas
na cimalha brilhava apenas palidamente, como um aro de prolas
em torno de uma tiara; as colunas que a sustentavam, finas e
juntas como as lanas de uma grade, riscavam a sombra em
redor - cada uma picada pela mancha vermelha e mortal de
uma lmpada de bronze. Ao centro do lajedo sonoro elevavase,
espelhado e branco, um mausolu de mrmore - com
lavores e com flores; um velho pano de damasco cobria-o
como um toldo, recamado de bordados de ouro esvado; e
duas alas de tocheiros faziam-lhe uma avenida de lumes funerrios
at  porta, estreita como uma fenda, tapada por um trao
cor de sangue. Um padre armnio, que desaparecia sob o seu
amplo manto negro, sob o capuz descido, incensava-o, dormente
e mudamente.
Pote puxou-me outra vez pela manga:
- O tmulo!
Oh minha alma piedosa! Oh Titi! A estava pois, ao alcance dos
meus lbios, o tmulo do meu Senhor! - E imediatamente rompi
como um rafeiro, por entre a turba ruidosa de frades e peregrinos,
a buscar um rosto gordinho e sardento e uma gorra com
penas de gaivota! Longamente, errei estonteado... Ora esbarrava
num franciscano cingido na sua corda de esparto; ora me
arredava diante de um padre copta, deslizando como uma sombra
tnue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas
sagradas do tempo de Osris. Aqui topava num monto de roupagens
brancas, cado nas lajes como um fardo, de onde se
escapavam gemidos de contrio; adiante tropeava num negro,
todo nu, estirado ao p de uma coluna, dormindo placidamente.
Por vezes o clamor sacro de um rgo ressoava, rolava pelos
mrmores da nave, morria com um sussurro de vaga espraiada;
e logo mais longe um canto armnio, trmulo e ansioso, batia os
muros austeros como a palpitao das asas de uma ave presa
que quer fugir para a luz. Junto de um altar apartei dous gordos
sacristes, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente
de birbantes, esbraseados, cheirando a cebola; e fui de encontro
a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos
decerto do Cspio, com os ps doloridos embrulhados em trapos,
que no ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo
o barrete de feltro entre as mos, de onde lhes pendiam
grossos rosrios de vidro. Crianas, em farrapos, brincavam na
escurido das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso
sufocava; e padres de cultos rivais puxavam-me pela
rabona para me mostrarem relquias, rivais, hericas ou divinas
- uns as esporas de Godofredo, outros um pedao de cana verde.
Atordoado, enfileirei-me numa procisso penitente - onde eu
julgara entrever, brancas, altivas, entre vus pretos de arrependimento,
as duas penas de gaivota. Uma carmelita,  frente, resmungava
a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados
num assombro devoto,  porta de capelas cavernosas,
dedicadas  paixo - a do Improprio, onde o Senhor foi
flagelado, a da Tnica, onde o Senhor foi despido. Depois subimos,
de tochas na mo, uma escadaria tenebrosa, escavada na
rocha... - E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo,
ululando, carpindo, gemendo, flagelando os peitos, clamando
pelo Senhor, lgubre e delirante. Estvamos sobre a pedra do
Calvrio.
Em torno, a capela que a abriga, resplandecia com um luxo sensual
e pago. No teto azul-ferrete brilhavam sis de prata, signos
do zodaco, estrelas, asas de anjos, flores de prpura; e,
dentre este fausto sideral, pendiam de correntes de prolas os
velhos smbolos da fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros
de Astart e de Baco de ouro. Sobre o altar elevava-se
uma cruz vermelha com um Cristo tosco pintado a ouro, que
parecia vibrar, viver atravs do fulgor difuso dos molhos de lumes,
da faiscao das alfaias, do fumo dos aromticos ardendo
em taas de bronze. Globos espelhados, pousando sobre
peanhas de bano, refletiam as jias dos retbulos, a refulgncia
das paredes revestidas de jaspe, de ncar e de gata. E no
cho, em meio deste claro precioso de pedraria e luz, emergindo
dentre as lajes de mrmore branco, destacava um bocado
de rocha bruta e brava, com uma fenda alargada e polida por
longos sculos de beijos e de afagos beatos. Um arquidicono
grego, de barbas esqulidas, gritou: Nesta rocha foi cravada a
cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kyrie Eleison! Cristo! Cristo!
As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluos. Um
cntico dolente balanava-se, ao ranger dos incensadores.
Kyrie Eleison! Kyrie Eleison! E os diconos perpassavam rapidamente,
sofregamente, com vastos sacos de veludo, onde
tilintavam, se afundavam, se sumiam as oferendas dos simples.
Fugi, aturdido e confuso. O sbio historiador dos Herodes passeava
no adro, sob o seu guarda-chuva, respirando o ar mido.
De novo nos acometeu o bando esfaimado dos vendilhes de
relquias. Repeli-os rudemente; e sa do santo lugar como entrara
- em pecado e praguejando.
No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas
impresses do sepulcro de Jesus; eu fiquei no ptio cervejando
e cachimbando com o aprazvel Pote. Quando subi, tarde, o
meu esclarecido amigo j ressonava, com a vela acesa - e com
um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa
para me recrear no pas do Evangelho, o Homem dos Trs Cales.
Descalando os botins, sujos da lama venervel da Via-
Dolorosa - eu pensava na minha Cibele. Em que sacratssimas
runas, sob que rvores divinizadas por terem dado sombra ao
Senhor, passara ela essa tarde nevoenta de Jerusalm? Fora ao
Vale do Cdron? Fora ao branco tmulo de Raquel?...
Suspirei, amoroso e modo; e abria os lenis bocejando -
quando distintamente, atravs do tabique fino, senti um rudo de
gua despejada numa banheira. Escutei, alvoroado; e logo
nesse silncio negro e magoado que sempre envolve Jerusalm,
me chegou, perceptvel, o som leve de uma esponja arremessada
na gua. Corri, colei a face contra o papel de ramagens
azuis. Passos brandos e nus pisavam a esteira que recobria o
ladrilho de tijolo; e a gua rumorejou, como agitada por um
doce brao despido que lhe experimentava o calor. Ento,
abrasado, fui ouvindo todos os rumores ntimos de um longo,
lento, lnguido banho; o espremer da esponja; o fofo esfregar
da mo cheia de espuma de sabo; o suspiro lasso e consolado
do corpo que se estira sob a carcia da gua tpida, tocada de
uma gota de perfume... A testa, tmida de sangue, latejava-me;
e percorria desesperadamente o tabique, procurando um buraco,
uma fenda. Tentei verrum-lo com a tesoura; as pontas finas
quebraram-se na espessura da calia... Outra vez a gua cantou,
escoando da esponja; e eu, tremendo todo, julgava ver as
gotas vagarosas a escorrer entre o rego desses seios duros e
brancos que faziam estalar o vestido de sarja...
No resisti; descalo, em ceroulas, sa ao corredor adormecido;
e cravei  fechadura da sua porta um olho to esbugalhado, to
ardente - que quase receava feri-la com a devorante chama do
seu raio sangneo... Enxerguei num crculo de claridade uma
toalha cada na esteira, um roupo vermelho, uma nesga do alvo
cortinado do seu leito. E assim agachado, com bagas de suor
no pescoo, esperava que ela atravessasse, nua e esplndida,
nesse disco escasso de luz, quando senti de repente, por trs,
uma porta ranger, um claro banhar a parede. Era o barbaas,
em mangas de camisa, com o seu castial na mo! E eu,
misrrimo Raposo, no podia escapar. De um lado estava ele,
enorme. Do outro, o topo do corredor, macio.
Vagarosamente, calado, com mtodo, o Hrcules pousou a vela
no cho, ergueu a sua rude bota de duas solas, e desmanteloume
as ilhargas... Eu rugi: bruto! Ele ciciou: silncio! E outra
vez, tendo-me ali acercado contra o muro, a sua bota bestial e
de bronze me malhou tremendamente quadris, ndegas, canelas,
a minha carne toda, bem cuidada e preciosa! Depois, tranqilamente,
apanhou o seu castial. Ento eu, lvido, em ceroulas,
disse-lhe com imensa dignidade:
- Sabe o que lhe vale, seu bife? E estarmos aqui ao p do
tmulo do Senhor, e eu no querer dar escndalos por causa da
minha tia... Mas se estivssemos em Lisboa, fora de portas,
num sitio que eu c sei, comia-lhe os fgados! Nem voc sabe
de que se livrou. V com esta; comia-lhe os fgados!
E muito digno, coxeando, voltei ao quarto a fazer pacientes frices
de arnica. Assim eu passei a minha primeira noite em Sio.
Ao outro dia cedo o profundo Topsius foi peregrinar ao Monte
das Oliveiras,  fonte clara de Silo. Eu, dorido, no podendo
montar a cavalo, fiquei no sof de riscadinho com o Homem
dos Trs Cales. E at para evitar o afrontoso barbaas no
desci ao refeitrio, pretextando tristeza e langor. Mas ao mergulhar
o sol no Mar de Tiro - estava restabelecido e vivaz. Pote
preparara para essa noite uma festividade sensual em casa de
Fatm, matrona bem acolhedora, que tinha no bairro dos
Armnios um doce pombal de pombas; e ns amos l contemplar
a gloriosa bailadeira da Palestina, a Flor de Jeric, a saracotear
essa dana da Abelha, que esbraseia os mais frios e deprava
os mais puros...
A recatada portinha da Fatm, ornada de um p de vinha seca,
abria-se ao canto de um muro negro junto  Torre de Davi.
Fatm esperava-nos, majestosa e obesa, envolta em vus brancos,
com fios de corais entre as tranas, os braos nus, tendo
cada um a cicatriz escura de um bubo de peste. Tomou-me
submissamente a mo, levou-a  testa oleosa, levou-a aos lbios
empastados de escarlate, e conduziu-me em cerimnia defronte
de uma cortina preta, franjada de ouro como o pano de
um esquife. E eu estremeci, ao penetrar enfim nos segredos
deslumbradores de um serralho mudo e cheirando a rosa.
Era uma sala caiada de fresco, com sanefas de algodo vermelho
encimando a gelosia; e ao longo das paredes corria um div
amassado, revestido de seda amarela, com remendos de seda
mais clara. Num bocado de tapete da Prsia pousava um braseiro
de lato, apagado, sob o monto de cinzas; a ficara esquecido
um pantufo de veludo estrelado de lentejoulas. Do teto
de madeira alvadia, onde se alastrava uma ndoa de umidade,
pendia, de duas correntes enfeitadas de borlas, um candeeiro
de petrolina. Um bandolim dormia a um canto, entre almofadas.
No ar morno errava um cheiro adocicado e mole a mofo e a
benjoim. Pelos ladrilhos, por baixo dos poiais da gelosia, corriam
carochas.
Sentei-me sisudamente ao lado do historiador dos Herodes.
Uma negra de Dongola, encamisada de escarlate, com braceletes
de prata a tilintar nos braos, veio oferecer-nos um caf
aromtico; e quase imediatamente Topsius apareceu,
descorooado, dizendo que no podamos saborear a famosa
dana da Abelha! A Rosa de Jeric fora bailar diante de um
prncipe de Alemanha chegado nessa manh a Sio, a adorar o
tmulo do Senhor. E Fatm apertava com humildade o corao,
invocava Al, dizia-se nossa escrava! Mas era uma fatalidade!
A Rosa de Jeric fora para o prncipe louro que viera, com cavalos
e com plumas, do pas dos germanos!...
Eu, despeitado, observei que no era um prncipe; mas minha
tia tinha luzidas riquezas; os Raposos primavam pelo sangue no
fidalgo Alentejo. Se Flor de Jeric estava ajustada para regozijar
meus olhos catlicos, era uma desconsiderao t-la cedido
ao romeiro couraado, que viera da herege Alemanha...
O erudito Topsius resmungou, alando o bico com petulncia.
que a Alemanha era a me espiritual dos povos...
- O brilho que sai do capacete alemo, D. Raposo,  a luz que
guia a humanidade!
- Sebo para o capacete! A mim ningum me guia! Eu sou Raposo,
dos Raposos do Alentejo!... Ningum me guia seno
Nosso Senhor Jesus Cristo... E em Portugal h grandes homens!
H Afonso Henriques, h o Herculano... Sebo!
Ergui-me, medonho. O sapientssimo Topsius tremia, encolhido.
Pote acudiu:
- Paz, cristos e amigos, paz!
Topsius e eu recruzamo-nos logo no div, tendo apertado as
mos, galhardamente e com honra.
Fatm, no entanto, jurava que Al era grande e que ela era a
nossa escrava. E, se ns a quisssemos mimosear com sete
piastras de ouro, ela em compensao da Rosa de Jeric, oferecia-
nos uma jia inaprecivel, uma circassiana, mais branca
que a lua cheia, mais airosa que os lrios que nascem em
Galgal.
- Venha a circassiana! - gritei, excitado. - Caramba, eu vim aos
santos lugares para me refocilar,.. Venha a circassiana! Larga as
piastras, Pote! Irra! Quero regalar a carne!
Fatm saiu, recuando; o festivo Pote reclinou-se entre ns,
abrindo a sua bolsa perfumada de tabaco de Alepo. Ento, uma
portinha branca, sumida no muro caiado, rangeu a um canto, de
leve; e uma figura entrou, velada, vaga, vaporosa. Amplos cales
turcos de seda carmesim tufavam com languidez, desde a
sua cinta ondeante at aos tornozelos, onde franziam, fixos por
uma liga de ouro; os seus pezinhos mal pousavam, alvos e alados,
nos chinelos de marroquim amarelo; e atravs do vu de
gaze que lhe enrodilhava a cabea, o peito e os braos - brilhavam
recamos de ouro, centelhas de jias, e as duas estrelas negras
dos seus olhos. Espreguicei-me, tmido de desejo.
Por trs dela Fatm, com a ponta dos dedos, ergueu-lhe o vu
devagar, devagar e dentre a nuvem de gaze surgiu um caro cor
de gesso, escaveirado e narigudo, com um olho vesgo, e dentes
podres que negrejavam no langor nscio do sorriso... Pote pulou
do div, injuriando Fatm, ela gritava por Al, batendo nos
seios, que soavam molemente como odres mal cheios.
E desapareceram, assanhados, levados numa rajada de ira. A
circassiana, requebrando-se, com o seu sorriso ptrido, veio
estender-nos a mo suja, a pedir presentinhos num tom rouco
de aguardente. Repeli-a com nojo. Ela coou um brao, depois
a ilharga; apanhou tranqilamente o seu vu e saiu arrastando as
chinelas.
- Oh, Topsius! - rosnei eu. - Isto parece-me uma grande infmia!
O sbio fez consideraes sobre a voluptuosidade. Ela  sempre
enganadora. Debaixo do sorriso luminoso est o dente
cariado. Dos beijos humanos s resta o amargor. Quando o
corpo se extasia, a alma entristece...
- Qual alma! No h alma! O que h  um eminentssimo desaforo!
Na Rua do Arco-do-Bandeira, esta Fatm tinha j dous
murros na bochecha... Irra!
Sentia-me feroz, com desejos de escavacar o bandolim... Mas
Pote reapareceu, cofiando os bigodes dizendo que por mais
nove piastras de ouro, Fatm consentia em mostrar a sua secreta
maravilha, uma virgem das margens do Nilo, da alta Nbia,
bela como a noite mais bela do Oriente. E ele vira-a, afianavaa,
valia o tributo de uma frtil provncia.
Frgil e liberal, cedi. Uma a uma, as nove piastras de ouro tiniram
na mo gordufa de Fatm.
De novo a porta caiada rangeu, ficou cerrada - e, sobre o tom
alvaiado, destacou, na sua nudez cor de bronze, uma esplndida
fmea, feita como uma Vnus. Durante um momento parou,
muda, assustada pela luz e pelos homens, roando os joelhos
lentamente. Uma tanga branca cobria-lhe os flancos possantes e
geis; os cabelos hirsutos, lustrosos de leo, com cequins de
ouro entrelaados, caam-lhe sobre o dorso, como uma juba
selvagem; um fio solto de contas de vidro azul enroscava-se-lhe
em torno do pescoo e vinha escorregar por entre o rego dos
seios rijos, perfeitos e de bano. De repente saltou convulsamente,
repicando a lngua, uma ululao desolada: Lu! lu! lu! lu!
lu! Atirou-se de bruos para o div; e estirada, na atitude de
uma esfinge, ficou dardejando sobre ns, sria e imvel, os seus
grandes olhos tenebrosos.
- Hem? - dizia Pote, acotovelando-me. - Veja-lhe o corpo...
Olhe os braos! Olhe a espinha como arqueia! E uma pantera!
E Fatm, de olhos em alvo, chilreava beijos na ponta dos dedos
exprimindo os deleites transcendentes que devia dar o amor
daquela nbia... Certo, pela persistncia do seu olhar, que as
minhas barbas fortes a tinham cativado, desenrosquei-me do
div, fui-me acercando, devagar, como para uma presa certa.
Os seus olhos alargavam-se, inquietos e faiscantes. Gentilmente,
chamando-lhe minha lindinha, acariciei-lhe o ombro frio; e
logo ao contato da minha pele branca a nbia recuou, arrepiada,
com um grito abafado de gazela ferida. No gostei. Mas
quis ser amvel. Disse-lhe paternalmente:
- Ah! se tu conhecesses a minha ptria!... E olha que sou capaz
de te levar! Em Lisboa  que ! Vai-se ao Dafundo, ceia-se no
Silva... Isto aqui  uma choldra! E as raparigas como tu so
bem tratadas; d-se-lhes considerao, os jornais falam delas,
casam com proprietrios...
Murmurava-lhe ainda outras cousas profundas e doces. Ela no
compreendia o meu falar; e nos seus olhos esgazeados flutuava
a longa saudade da sua aldeia da Nbia, dos rebanhos de bfalos
que dormem  sombra das tamareiras, do grande rio que
corre eterno e sereno entre as runas das religies e os tmulos
das dinastias...
Imaginando ento despertar o seu corao com a chama do eu,
puxei-a para mim, lascivamente. Ela fugiu; encolheu-se toda a
um canto, a tremer; e deixando cair a cabea entre as mos,
comeou a chorar, longamente.
- Olha que maada! - gritei, embaado.
E agarrei o capacete, abalei, esgarando, quase no meu furor o
pano preto franjado de ouro. Paramos numa cela ladrilhada
onde cheirava mal. E ai bruscamente foi entre Pote e a ndia
matrona Uma bulha ferina sobre a paga daquela radiante festa
do Oriente; ela reclamava mais sete piastras de ouro; Pote, de
bigode eriado, cuspia-lhe injrias em rabe, rudes e chocandose
como calhaus se despenham num vale. E samos daquele lugar
de deleite perseguidos pelos gritos de Fatm, que se babava
de furor, agitava os braos marcados da peste e nos amaldioava,
e a nossos pais, e aos ossos de nossos avs, e a terra que
nos gerara, e o po que comamos, e as sombras que nos cobrissem!
Depois na rua negra dous ces seguiram-nos muito
tempo, ladrando lugubremente.
Entrei no Hotel do Mediterrneo, afogado em saudades da minha
terra risonha; os gozos de que me via privado nesta
lbrega, inimiga Sio, faziam-me ansiar mais inflamadamente
pelos que me daria a fcil, amorvel Lisboa, quando, morta a
Titi, eu herdasse a bolsa sonora de seda verde!... La no encontraria,
nos corredores adormecidos, uma bota severa e bestial!
l nenhum corpo brbaro fugiria, com lgrimas,  carcia
dos meus dedos. Dourado pelo ouro da Titi, o meu amor no
seria jamais ultrajado, nem a minha concupiscncia jamais
repelida. Ah! meu Deus! Assim eu lograsse, pela minha santidade,
cativar a Titi!... E logo, abancando, escrevi  hedionda senhora
esta carta ternssima:
Querida Titi do meu corao! Cada vez me sinto com mais
virtude. E atribuo-a ao agrado com que o Senhor est vendo
esta minha visita ao seu santo tmulo. De dia e de noite passo o
tempo a meditar a sua divina paixo e a pensar na Titi. Agora
mesmo venho da Via-Dolorosa. Ai, que enternecedora que estava!
E uma rua to benta, to benta, que at tenho escrpulo
de a pisar com os botins; e noutro dia no me contive; agacheime,
beijei-lhe as ricas pedrinhas! Esta noite passei-a quase toda
a rezar  Senhora do Patrocnio, que todo o mundo aqui em
Jerusalm respeita muitssimo. Tem um altar muito lindo; ainda
que a este respeito bem razo tinha a minha boa tia (como tem
razo em tudo), quando dizia que l para festas e procisses
no h como os nossos portugueses. Pois esta noite, assim que
ajoelhei diante da capela da Senhora, depois de seis salve-rainhas,
voltei-me para a bela imagem e disse-lhe: - Ai, quem me
dera saber como est a minha tia Patrocnio! - E quer a Titi
acreditar? Pois olhe, a Senhora, com a sua divina boca, disseme
palavras textuais, que at, para no me esquecerem, as escrevi
no punho da camisa: - A minha querida afilhada vai bem,
Raposo, e espera fazer-te feliz! E isto no  milagre extraordinrio,
porque me contam aqui todas as famlias respeitveis com
quem vou tomar ch, que a Senhora e seu divino Filho dirigem
sempre algumas palavras bonitas a quem os vem visitar. Saber
que j lhe obtive certas relquias: uma palhinha do prespio, e
uma tabuinha aplainada por So Jos. O meu companheiro alemo,
que, como mencionei  Titi na minha carta de Alexandria,
 de muita religio e muito sbio, consultou os livros que traz e
afirmou-me que a tabuinha era das mesmas que, segundo est
provado, So Jos costumava aplainar nas horas vagas. Em
quanto  grande relquia, aquela que lhe quero levar para a curar
de todos os seus males e dar a salvao  sua alma e pagarlhe
assim tudo o que lhe devo, essa espero em breve obt-la.
Mas por ora no posso dizer nada... Recados aos nossos amigos,
em quem penso muito e por quem tenho rezado constantemente;
sobretudo ao nosso virtuoso Casimiro. E a Titi deite a
sua bno ao seu sobrinho fiel e que muito a venera e est
chupadinho de saudades e deseja a sua sade - Teodorico. 
P.S. Ai, Titi, que asco que me fez hoje a casa de Pilatos! At lhe
escarrei! E c disse  Santa Vernica que a Titi tinha muita devoo
com ela. Pareceu-me que a senhora santa ficou muito
regalada... E o que eu digo aqui a todos estes eclesisticos e
aos patriarcas:  necessrio conhecer-se a Titi, para se saber o
que  virtude!
Antes de me despir, fui escutar, colada a orelha ao tabique de
ramagens. A inglesa dormia serena, insensvel: eu resmunguei,
brandindo para l o punho fechado:
- Besta!
Depois abri o guarda-roupa, tirei o dileto embrulho da camisinha
da Mary; depus nele o meu beijo repenicado e grato.
Cedo, ao alvorar do outro dia, partimos para o devoto Jordo.
Fastidiosa, modorrenta, foi a nossa marcha entre as colinas de
Jud! Elas sucedem-se, lvidas, redondas como crnios, ressequidas,
escalvadas por um vento de maldio; s a espaos
nalguma encosta rasteja um tojo escasso, que na vibrao
inexorvel da luz parece de longe um bolar de velhice e de
abandono. O cho fasca, cor de cal. O silncio radiante entristece
como o que cai da abbada de um jazigo. No fulgor duro
do cu rondava em torno a ns, lento e negro, um abutre... Ao
declinar do sol erguemos as nossas tendas nas runas de Jeric.
Saboroso foi ento descansar sobre macios tapetes, bebendo
devagar limonada, na doura da tarde. A frescura de um riacho
alegre, que chalrava junto ao nosso acampamento por entre
arbustos silvestres, misturava-se ao aroma da flor que eles davam,
amarela como a da giesta; adiante verdejava um prado de
ervas altas, avivado pela brancura de vaidosos, lnguidos lrios;
junto da gua passeavam aos pares pensativas cegonhas. Do
lado de Jud erguia-se o Monte da Quarentena, torvo, fusco na
sua tristeza de eterna penitncia; e para as bandas de Moabe os
meus olhos perdiam-se na velha, sagrada terra de Cana, areal
cinzento e desolado que se estende, como a alva mortalha de
uma raa esquecida, at s solides do Mar Morto.
Fomos, ao alvorecer, com os alforjes fornidos, fazer essa votiva
romaria. Era ento em dezembro; esse inverno da Sria ia transparentemente
doce; e trotando pela areia fina ao meu lado, o
erudito Topsius contava-me como esta plancie de Cana fora
outrora toda coberta de rumorosas cidades, de brancos caminhos
entre vinhedos, e de guas de rega refrescando os muros
das eiras; as mulheres, toucadas de anmonas, pisavam a uva
cantando; o perfume dos jardins era mais grato ao cu que o
incenso; e as caravanas que entravam no vale pelo lado de
Sgor achavam aqui a abundncia do rico Egito - e diziam que
era este em verdade o vergel do Senhor.
- Depois - acrescentava Topsius sorrindo com infinito sarcasmo
- um dia o Altssimo aborreceu-se e arrasou tudo!.
- Mas por qu? Por qu?
- Birra; mau humor; ferocidade...
Os cavalos relincharam sentindo a vizinhana das guas malditas;
e bem depressa elas apareceram, estendidas at s montanhas
de Moabe, imveis, mudas, faiscando solitrias sob o cu
solitrio. Oh tristeza incomparvel!. E compreende-se que pesa
ainda sobre elas a clera do Senhor, quando se considera que
ali jazem, h tantos sculos, sem uma recrevel vila como
Cascais; sem claras barracas de lona alinhadas  sua beira; sem
regatas, sem pescas; sem que senhoras, meigas e de galochas,
lhe recolham poeticamente as conchinhas na areia; sem que as
alegrem,  hora das estrelas, as rabecas de uma assemblia
toda festiva e com gs - ali mortas, enterradas entre duas serras
como entre as cantarias de um tmulo.
- Alm era a cidadela de Maqueros - disse gravemente o erudito
Topsius, alado sobre os estribos, alongando o guarda-sol
para a costa azulada do mar. - Ali viveu um dos meus Herodes,
Antipas, o tetrarca da Galilia, filho de Herodes, o Grande; ali,
D. Raposo, foi degolado o Batista.
E seguindo a passo para o Jordo (enquanto o alegre Pote nos
fazia cigarros do bom tabaco de Alepo), Topsius contou-me
essa lamentvel histria. Maqueros, a mais altiva fortaleza da
sia, erguia-se sobre pavorosos rochedos de basalto. As suas
muralhas tinham cento e cinqenta cvados de altura; as guias
mal podiam chegar at onde subiam as suas torres. Por fora era
toda negra e soturna; mas dentro resplandecia de marfins, de
jaspes, de alabastros; e nos profundos tetos de cedro os largos
broquis de ouro suspensos faziam como as constelaes de
um cu de vero. No centro da montanha, num subterrneo,
viviam as duzentas guas de Herodes, as mais belas da terra,
brancas como o leite, com crinas negras como o bano, alimentadas
a bolos de mel, e to ligeiras que podiam correr, sem lhes
macular a pureza, por sobre um prado de aucenas. Depois,
mais fundo ainda, num crcere, jazia Iocan - que a Igreja chama
o Batista.
- Mas ento, esclarecido amigo, como foi essa desgraa?
- Pois foi assim, D. Raposo... O meu Herodes conhecera em
Roma, Herodade, sua sobrinha, esposa de seu irmo Filipe,
que vivia na Itlia, indolente e esquecido da Judia, gozando o
luxo latino. Era esplendidamente, sombriamente bela,
Herodade!... Antipas Herodes arrebata-a numa galera para a
Sria; repudia sua mulher, uma moabita nobre, filha do Rei
Aretas, que governava o deserto e as caravanas; e fecha-se
incestuosamente com Herodade nessa cidadela de Maqueros.
Clera em toda a devota Judia, contra este ultraje  lei do Senhor!
E ento Antipas Herodes, arteiro, manda buscar o Batista,
que pregava em vo do Jordo...
- Mas para qu, Topsius?
- Pois para isto, D. Raposo... A ver se o rude profeta acariciado,
amimado, amolecido pelo louvor e pelo bom vinho de
Siqum, aprovava estes negros amores, e pela persuaso da
sua voz, dominante em Judia e Galilia, os tomava aos olhos
dos fiis, brancos como a neve do Carmelo. Mas, desgraadamente,
D. Raposo, o Batista no tinha originalidade. Santo respeitvel,
sim; mas nenhuma originalidade... O Batista imitava em
tudo servilmente o grande profeta Elias; vivia num buraco, como
Elias; cobria-se de peles de feras, como Elias; nutria-se de gafanhotos,
como Elias; repetia as imprecaes clssicas de Elias;
e como Elias clamara contra o incesto de Acabe, logo o Batista
trovejou contra o incesto de Herodade. Por imitao, D. Raposo!
- E emudeceram-no com a masmorra!
- Qual! Rugiu, pior, mais terrivelmente! E Herodade escondia a
cabea no manto para no ouvir esse clamor de maldio, sado
do fundo da montanha.
Eu balbuciei, com uma lgrima a amolentar-me a plpebra:
- E Herodes mandou ento degolar o nosso bom So Joo!
- No! Antipas Herodes era um frouxo, um tbio... Muito
lbrico, D. Raposo, infinitamente lbrico, D. Raposo! Mas que
indeciso!... Alm disso, como todos os galileus, tinha uma secreta
fraqueza, uma irremedivel simpatia por profetas. E depois
arreceava a vingana de Elias, o patrono, o amigo de
Iocan... Porque Elias no morreu, D. Raposo. Habita o cu
vivo, em carne, ainda coberto de farrapos, implacvel,
vociferador e medonho...
- Safa! - murmurei, arrepiado.
- Pois a est... Iocan ia vivendo, ia rugindo. Mas sinuoso e
sutil  o dio da mulher, D. Raposo. Chega, no ms de Esquema,
o dia dos anos de Herodes. H um vasto festim em
Maqueros, a que assistia Vitlio, ento viajando na Sria. D.
Raposo lembra-se do crasso Vitlio que depois foi senhor do
mundo... Pois  hora em que pelo cerimonial das provncias tributrias,
se bebia  sade de Csar e de Roma, entra subitamente
na sala, ao som dos tamborins e danando  maneira de
Babilnia, uma virgem maravilhosa. Era Salom, a filha de
Herodade e de seu marido Filipe, que ela educara
secretamente em Cesaria, num bosque, junto do Templo de
Hrcules. Salom danou, nua e deslumbrante. Antipas
Herodes, inflamado, estonteado de desejo, promete dar tudo o
que ela pedisse pelo beijo dos seus lbios... Ela toma um prato
de ouro, e tendo olhado a me, pede a cabea do Batista.
Antipas, aterrado, oferece-lhe a cidade de Tiberade, tesouros,
as cem aldeias de Genesar... Ela sorriu, olhou a me; e outra
vez, incerta e gaguejando, pediu a cabea de Iocan... Ento
todos os convivas, saduceus, escribas, homens ricos da
Decpola, mesmo Vitlio, e os romanos, gritaram alegremente:
Tu prometeste, tetrarca, tu juraste, tetrarca! Momentos depois,
D. Raposo, um negro de Idumia entrou, trazendo numa
das mos um alfanje, na outra, presa pelos cabelos, a cabea
do profeta. E assim acabou So Joo, por quem se canta e se
queimam fogueiras numa doce noite de junho...
Escutando, embevecidos e a passo, estas cousas to antigas,
avistamos ao longe, na areia fulva, uma sebe de verdura triste e
da cor do bronze. Pote gritou: O Jordo! O Jordo! E arrebatadamente
galopamos para o rio da Escritura.
O festivo Pote conhecia,  beira da corrente batismal, um sitio
deleitosssimo para uma sesta crist; e a passamos as horas
quentes, recostados num tapete, lnguidos, e bebendo cerveja,
depois de bem esfriada nas guas do rio santo. Ele faz ali um
claro, suave remanso, a repousar da lenta, abrasada jornada
que traz, atravs do deserto, desde o Lago de Galilia; e antes
de mergulhar para sempre no amargor do Mar Morto - ali preguia,
espraiado sobre a areia fina; canta baixo e cheio de
transparncia, rolando os seixos lustrosos do seu leito; e dorme
nos stios mais frescos, imvel e verde,  sombra dos
tamarindos... Por sobre ns rumorejavam as folhas dos altos
choupos da Prsia; entre as ervas balanavam-se flores desconhecidas,
das que toucavam outrora as tranas das virgens de
Cana em manhs de vindima; e na escurido fofa das ramagens,
onde j as no vinha assustar a voz terrvel de Jeov, gorjeavam
pacificamente as toutinegras. Defronte, elevavam-se,
azuis e sem mancha, como feitas de um s bloco de pedra preciosa,
as montanhas do Moabe. O cu branco, mudo, recolhido,
parecia descansar deliciosamente do duro tumulto que o
agitou quando ali vivia, entre preces e mortandades, o sombrio
povo de Deus; e onde constantemente batiam as asas dos
serafins, e flutuavam as roupagens dos profetas arrebatados
pelo Altssimo, era calmante ver agora passar apenas uma
revoada de pombos bravos, voando para os pomares de
Engada.
Obedecendo  recomendao da Titi, despi-me, e banhei-me
nas guas do Batista. Ao princpio, enleado de emoo beata,
pisei a areia reverentemente como se fosse o tapete de um altar-
mor; e de braos cruzados, nu, com a corrente lenta a bater-
me os joelhos, pensei em So Joozinho, sussurrei um padre-
nosso. Depois ri, aproveitei aquela buclica banheira entre
rvores; Pote atirou-me a minha esponja; e ensaboei-me nas
guas sagradas, trauteando o fado da Adlia.
Ao refrescar, quando montvamos a cavalo, uma tribo de
bedunos, descendo das colinas de Galgal, trouxe os seus rebanhos
de camelos a beber ao Jordo; as crias brancas e felpudas
corriam, balando; os pastores, de lana alta, soltando gritos
de batalha, galopavam, num amplo esvoaar de albornozes; e
era como se ressurgisse em todo o vale, no esplendor da tarde,
uma pastoral da idade bblica, quando Agar era moa! Teso na
sela, com as rdeas bem colhidas, eu senti um curto arrepio de
herosmo; ambicionava uma espada, uma lei, um deus por quem
combater... Lentamente alargara-se pela plancie sacra um silncio
enlevado. E o mais alto cerro de Moabe cobriu-se de um
fulgor raro, cor-de-rosa e cor de ouro, como se nele de novo,
fugitivamente, ao passar, se refletisse a face do Senhor! Topsius
alou a mo sapiente:
- Aquele cimo iluminado. D. Raposo,  o Mori, onde morreu
Moiss!
Estremeci. E penetrado pelas emanaes divinas dessas guas,
desses montes, sentia-me forte - e igual aos homens fortes do
xodo. Pareceu-me ser um deles, familiar de Jeov, e tendo
chegado do negro Egito com as minhas sandlias na mo.. Esse
aliviado suspiro que trazia a brisa vinha das tribos de Israel,
emergindo enfim do deserto! Pelas encostas alm, seguida de
uma escolta de anjos, a Arca dourada descia balanada sobre
os ombros dos levitas vestidos de linho e cantando. Outra vez,
nas secas areias, reverdecia a terra da promisso, Jeric
branquejava entre as searas; e atravs dos palmares cerrados j
ressoavam, em marcha, os clarins de Josu!
No me contive, arranquei o capacete, soltei por sobre Cana
este urro piedoso:
- Viva Nosso Senhor Jesus Cristo! Viva toda a corte do cu!
Cedo, ao outro dia, domingo, o incansvel Topsius partiu, bem
enlapisado e bem enguarda-solado, a estudar as runas de
Jeric, essa velha cidade das palmeiras que Herodes cobrira de
termas, de templos, de jardins, de esttuas, e onde passaram os
seus tortuosos amores com Clepatra... E eu,  porta da tenda,
escarranchado num caixote, fiquei a tomar o meu caf, olhando
os pacficos aspectos do nosso acampamento. O cozinheiro
depenava frangos; o beduno triste arcava  beira da gua o seu
pacato alfanje; o nosso lindo arrieiro esquecia a rao s guas
para seguir no cu de um brilho de safira, a branca passagem
das cegonhas voando aos pares para Samaria.
Depois pus o capacete, fui vadiar na doura da manh, de mos
nos bolsos, cantarolando um fado meigo. E ia pensando na
Adlia e no Senhor Adelino... Enroscados na alcova, beijandose
furiosamente, estavam-me talvez chamando carola, enquanto
eu passeava ali, nos retiros da Escritura! quela hora a Titi, de
mantelete preto, com o seu ripano, saa para a missa de
Santana; os criados do Montanha, esguedelhados, assobiando,
escovavam o pano dos bilhares; e o Doutor Margaride,  janela,
na Praa da Figueira, pondo os culos, abria o Dia rio de
Notcias.  minha doce Lisboa!... Mas ainda mais perto, para
alm do deserto de Gaza, no verde Egito, a minha
Maricoquinhas nesse instante estava enchendo o vaso do balco
com magnlias e rosas; o seu gato dormia no veludo da
cadeira; ela suspirava pelo seu portuguesinho valente... Suspirei
tambm; mais triste nos lbios se me fez o fado triste.
E de repente, olhando, achei-me, como perdido, num stio de
grande solido e de grande melancolia. Era longe do regato e
dos aromticos arbustos de flor amarela; j no via as nossas
tendas brancas; e diante de mim arredondava-se um ermo rido,
lvido, de areia, fechado todo por penedos lisos, direitos
como os muros de um poo, to lgubres que a luz loura da
quente manh de Oriente desmaiava ali, mortalmente, desbotada
e magoada. Eu lembrava-me de gravuras, assim desoladas,
onde um eremita de longas barbas medita um in-flio junto de
uma caveira. Mas nenhum solitrio aniquilava ali a carne em herica
penitncia. Somente, ao meio do fero recinto, isolada, orgulhosa,
com um ar de raridade e de relquia, como se as
penedias se tivessem amontoado para lhe arranjarem um resguardo
de sacrrio - erguia-se uma rvore to repelente, que
logo me fez morrer nos lbios o resto do fado triste...
Era um tronco grosso, curto, atochado e sem ns de razes, semelhante
a uma enorme moca bruscamente cravada na areia; a
casca corredia tinha o lustre oleoso de uma pele negra; e da sua
cabea entumecida, de um tom de tio apagado, rompiam,
como longas pernas de aranha, oito galhos que contei, pretos,
moles, lanugentos, viscosos, e armados de espinhos... Depois
de olhar em silncio para aquele monstro, tirei devagar o meu
capacete e murmurei:
- Para que viva!
E que me encontrava certamente diante de uma rvore ilustre!
Fora um galho igual (o nono talvez) que, arranjado outrora em
forma de coroa por um centurio romano da guarnio de Jerusalm,
ornara sarcasticamente, no dia do suplcio, a cabea de
um carpinteiro de Galilia, condenado... Sim, condenado por
andar, entre quietas aldeias e nos santos ptios do templo, dizendo-
se filho de Davi e dizendo-se filho de Deus, a pregar
contra a velha religio, contra as velhas instituies, contra a
velha ordem, contra as velhas formas! E eis que esse galho, por
ter tocado os cabelos incultos do rebelde, torna-se divino, sobe
aos altares, e do alto enfeitado dos andores faz prostrar no
lajedo,  sua passagem, as multides enternecidas...
No colgio dos Isidoros, s teras e sbados, o sebento Padre
Soares dizia esfuracando os dentes - que havia, meninos, l
num sitio da Judia... Era ali! ...uma rvore que segundo dizem
os autores  mesmo de arrepiar... Era aquela! Eu tinha,
ante meus frvolos olhos de bacharel, a sacratssima rvore de
espinhos!
E logo uma idia sulcou-me o esprito, com um brilho de
visitao celeste... Levar  Titi um desses galhos, o mais
penugento, o mais espinhoso, como sendo a relquia fecunda em
milagres, a que ela poderia consagrar seus ardores de devota e
confiadamente pedir as mercs celestiais! Se entendes que mereo
alguma cousa pelo que tenho feito por ti, traze-me ento
desses santos lugares uma santa relquia... Assim dissera a senhora
D. Patrocnio das Neves na vspera da minha jornada
piedosa, entronada nos seus damascos vermelhos, diante da
magistratura e da igreja, deixando escapar uma baga de pranto
sob seus culos austeros. Que lhe podia eu oferecer mais sagrado,
mais enternecedor, mais eficaz, que um ramo da rvore
de espinhos, colhido no vale do Jordo, numa clara, rosada manh
de missa?
Mas de repente assaltou-me uma spera inquietao... E se realmente
uma virtude transcendente circulasse nas fibras daquele
tronco? E se a Titi comeasse a melhorar do fgado, a reverdecer,
mal eu instalasse no seu oratrio, entre lumes e flores, um
desses galhos eriados de espinhos?  misrrimo logro! Era eu
pois que lhe levava nesciamente o princpio milagroso da sade,
e a tornava rija, indestrutvel, ininterrvel, com os contos de G.
Godinho firmes na mo avara! Eu! Eu que s comearia a viver,
quando ela comeasse a morrer!
Rondando ento em torno  rvore de espinhos, interroguei-a,
sombrio e rouco: Anda, monstro, dize! s tu uma relquia divina
com poderes sobrenaturais? Ou s apenas um arbusto
grutesco com um nome latino nas classificaes de Lineu? Fala!
Tens tu, como aquele cuja cabea coroaste por escrnio, o dom
de sarar? V l... Se te levo comigo para um lindo oratrio portugus,
livrando-te do tormento da solido e das melancolias da
obscuridade, e dando-te l os regalos de um altar, o incenso
vivo das rosas, a chama louvadora das velas, o respeito das
mos postas, todas as carcias da orao, no  para que tu,
prolongando indulgentemente uma existncia estorvadora, me
prives da rpida herana e dos gozos a que a minha carne moa
tem direito! V l! Se, por teres atravessado o Evangelho, te
embebeste de idias pueris de caridade e misericrdia, vais com
teno de curar a Titi, ento fica-te a, entre essas penedias,
fustigado pelo p do deserto, recebendo o excremento das
aves de rapina, enfastiado no silncio eterno!... Mas se prometes
permanecer surdo s preces da Titi, comportar-te como um
pobre galho seco e sem influncia, e no interromperes a
apetecida decomposio dos seus tecidos, ento vais ter em
Lisboa o macio agasalho de uma capela afofada de damascos,
o calor dos beijos devotos, todas as satisfaes de um dolo, e
eu hei de cercar-te de tanta adorao que no hs de invejar o
deus que os teus espinhos feriram... Fala, monstro.
O monstro no falou. Mas logo senti perpassar-me na alma,
aquietadoramente, com uma consolante fresquido de brisa de
estio, o pressentimento de que breve a Titi ia morrer e apodrecer
na sua cova. A rvore de espinhos mandava, pela comunicao
esparsa da natureza, da sua seiva ao meu sangue, aquele
palpite suave da morte da senhora D. Patrocnio, como uma
promessa suficiente de que, transportado para o oratrio, nenhum
dos seus galhos impediria que o fgado dessa hedionda
senhora inchasse e se desfizesse... E isto foi, entre ns, nesse
ermo, como um pacto taciturno, profundo e mortal.
Mas era esta realmente a rvore de espinhos? A rapidez da sua
condescendncia, fazia-me suspeitar a excelncia da sua divindade.
Resolvi consultar o slido, sapientssimo Topsius.
Corri  fonte de Eliseu, onde ele rebuscava pedras, lascas, lixos,
restos da orgulhosa cidade das palmeiras. Avistei logo o
luminoso historigrafo acocorado junto a uma poa de gua,
com os culos sfregos, escarafunchando um pedao de
pilastra negra, meio enterrada no lodo. Ao lado um burro, esquecido
da erva tenra, contemplava filosoficamente e com melancolia
o af, a paixo daquele sbio, de rastos no cho,  procura
das termas de Herodes.
Contei a Topsius o meu achado, a minha incerteza... Ele ergueuse
logo, servial, zeloso, presto s lides do saber.
- Um arbusto de espinhos? - murmurava, estancando o suor.
H de ser o nabka... Banalssimo em toda a Sria! Hasselquist,
o botnico, pretende que da se fez a coroa de espinhos... Tem
umas folhinhas verdes, muito tocantes, em forma de corao,
como as da hera... Ah, no tem? Perfeitamente, ento  o
lycium spinosum. Foi o que serviu, segundo a tradio latina,
para a coroa da injria... Que, quanto a mim, a tradio  ftil; e
Hasselquist ignaro, infinitamente ignaro... Mas eu vou j aclarar
isso, D. Raposo. Aclarar irrefutavelmente e para sempre!
Abalamos. No ermo, ante a rvore medonha, Topsius, alando
catedraticamente o bico, recolheu um momento aos depsitos
interiores do seu saber, e depois declarou que eu no podia levar
 minha tia devotssima nada mais precioso. E a sua demonstrao
foi faiscante. Todos os instrumentos da crucificao
(disse ele, floreando o guarda-sol), os pregos, a esponja, a cana
verde, um momento divinizados como materiais da divina tragdia,
reentraram pouco a pouco, pelas urgncias da civilizao,
nos usos grosseiros da vida... Assim, o prego no ficou per
eternum na ociosidade dos altares, memorando as chagas
sacratssimas; a humanidade, catlica e comerciante, foi gradualmente
levada a utilizar o prego como uma valiosa ferragem; e
tendo trespassado as mos do Messias, ele hoje segura, laborioso
e modesto, as tampas de caixes impurssimos... Os mais
reverentes irmos do Senhor dos Passos, empregam a cana
para pescar; ela entra na folgante composio do foguete; e o
Estado mesmo (to escrupuloso em matria religiosa), assim a
usa em noites alegres de nova Constituio, ou em festivos delrios
pelas bodas de prncipes... A esponja, outrora embebida
no vinagre de sarcasmo e oferecida numa lana,  hoje aproveitada
nesses irreligiosos cerimoniais da limpeza, que a Igreja
sempre reprovou com dio... At a cruz, a forma suprema, tem
perdido entre os homens a sua divina significao. A cristandade,
depois de a ter usado como lbaro, usa-a como enfeite. A
cruz  broche, a cruz  berloque; pende nos colares, tilinta nas
pulseiras;  gravada em sinetes de lacre,  incrustada em botes
de punho; e a cruz realmente neste soberbo sculo pertence
mais  ourivesaria do que pertence  religio...
- Mas a coroa de espinhos, D. Raposo, essa no tornou a servir
para mais nada!
Sim, para mais nada! A Igreja recebeu-a das mos de um
procnsul romano, e ela ficou isoladamente e para toda a eternidade
na igreja, comemorando o grande ultraje. Em todo este
vrio universo, ela s encontra um lugar congnere na penumbra
das capelas; o seu nico prstimo  persuadir  contrio. Nenhum
joalheiro jamais a imitou em ouro, cravejada de rubis,
para ornar um penteado louro; ela  s instrumento de martrio;
e com salpicos de sangue, sobre os caracis frisados das imagens,
inspira infinitamente as lgrimas... O mais astuto industrial,
depois de a retorcer pensativamente nas mos, restitu-la-ia aos
altares como cousa intil na vida, no comrcio, na civilizao;
ela  s atributo da Paixo, recurso de tristes, enternecedora de
fracos. S ela, entre os acessrios da escritura, provoca sinceramente
a orao. Quem, por mais adorabundo, se prostraria, a
borbulhar de padre-nossos, diante de uma esponja cada numa
tina, ou de uma cana  beira de um regato?... Mas para a coroa
de espinhos, erguem-se sempre as mos crentes; e a sensao
da sua desumanidade passa ainda na melancolia dos misereres!
Que maior maravilha podia eu levar  Titi?...
- Sim, Topsius, meu catita... Os teus dizeres so de ouro puro...
Mas a outra, a verdadeira, a que serviu teria sido tirada daqui,
deste tronco? Hem, amiguinho?
O erudito Topsius desdobrou lentamente o seu leno de quadrados;
e declarou (contra a ftil tradio latina e contra o
ignarssimo Hasselquist) que a coroa de espinhos fora arranjada
de uma silva, fina e flexvel, que abunda nos vales de Jerusalm,
com que se acende o lume, com que se eriam as sebes, e que
d uma florzinha roxa, triste e sem cheiro... Eu murmurei, sucumbido:
- Que pena! A Titi fazia tanto gosto que fosse daqui, Topsius! A
Titi  to rica!...
Ento este sagaz filsofo compreendeu que h razes de famlia
como h razes de Estado, e foi sublime. Estendeu a mo por
cima da rvore, cobrindo-a assim largamente com a garantia da
sua cincia, e disse estas palavras memorveis:
- D. Raposo, ns temos sido bons amigos... Pode pois afianar
 senhora sua tia, da parte de um homem que a Alemanha escuta
em questes de crtica arqueolgica, que o galho que lhe levar
daqui, arranjado em coroa, foi...
- Foi? - berrei ansioso.
- Foi o mesmo que ensangentou a fronte do Rabi Jeschoua
Natzarieh, a quem os latinos chamam Jesus de Nazar, e outros
tambm chamam o Cristo!...
Falara o alto saber germnico! Puxei o meu navalho sevilhano,
decepei um dos galhos. E enquanto Topsius voltava a procurar
pelas ervas midas a cidadela de Cipron e outras pedras de
Herodes, eu recolhi s tendas, em triunfo, com a minha preciosidade.
O prazenteiro Pote, sentado num selim, estava moendo
caf.
- Soberbo galho! - gritou ele. - Quer-se arranjadinho em coroa...
Fica de uma devoo!
E logo, com a sua rara destreza de mos, o jucundo homem
entrelaou o galho rude em forma de coroa santa. E to parecida!
To tocante!...
- S lhe faltam as pinguinhas de sangue! - murmurava eu, enternecido.
- Jesus! O que a Titi se vai babar!
Mas como levaramos para Jerusalm, atravs dos cerros de
Jud, aqueles incmodos espinhos - que, apenas armados na
sua forma passional, pareciam j vidos de rasgar carne inocente?
Para o alegre Pote no havia dificuldades; tirou do fundo do
seu provido alforje uma fofa nuvem de algodo em rama; envolveu
nela delicadamente a coroa do agravo, como uma jia frgil;
depois, com uma folha de papel pardo e um nastro escarlate,
fez um embrulho redondo, slido, ligeiro e ntido... E eu, sorrindo,
enrolando o cigarro, pensava nesse outro embrulho de
rendas e laos de seda, cheirando a violeta e a amor, que ficara
em Jerusalm, esperando por mim e pelo favor dos meus beijos.
- Pote, Pote! - gritei, radiante. - Nem tu sabes que grossa moeda
me vai render esse galhinho, dentro desse pacotinho!
Apenas Topsius voltou da sacra fonte de Eliseu - eu ofereci,
para celebrar o encontro providencial da grande relquia, uma
das garrafas de Champagne, que Pote trazia nos alforjes,
encarapuadas de ouro. Topsius bebeu  cincia! Eu bebi 
religio! E largamente a espuma de Moed et Chandon regou a
terra de Cana.
 noite, para maior festividade, acendemos uma fogueira; e as
mulheres rabes de Jeric vieram danar diante das nossas tendas.
Recolhemos tarde, quando por sobre Moabe, para os lados
de Maqueros, a lua aparecia, fina e recurva, como esse
alfanje de ouro que decepou a cabea ardente de Iocan.
O embrulho da coroa de espinhos estava  beira do meu catre.
O lume apagara-se; o nosso acampamento dormia no infinito
silncio do Vale da Escritura... Tranqilo, regalado, adormeci
tambm.
3
Havia certamente duas horas que assim dormia, denso e estirado
no catre, quando me pareceu que uma claridade trmula,
como a de uma tocha fumegante, penetrava na tenda, e atravs
dela uma voz me chamava, lamentosa e dolente:
- Teodorico, Teodorico, ergue-te, e parte para Jerusalm!
Arrojei a manta, assustado; e vi o doutssimo Topsius, que,  luz
mortal de uma vela, bruxuleando sobre a mesa onde jaziam as
garrafas de Champagne, afivelava no p rapidamente uma velha
espora de ferro. Era ele que me despertava, aodado, fervoroso:
- A p, Teodorico, a p! As guas esto seladas! Amanh 
Pscoa! Ao alvorecer devemos chegar s portas de Jerusalm!
Arredando os cabelos, considerei com pasmo o sisudo, ponderado
doutor:
- Oh Topsius! Pois ns partimos assim, bruscamente, sem os
nossos alforjes, e deixando as tendas adormecidas, como quem
foge espavorido?
O erudito homem alou os seus culos de ouro que resplandeciam
com uma desusada, irresistvel intelectualidade. Uma capa
branca, que eu nunca lhe vira, envolvia-lhe a douta magreza em
pregas graves e puras de toga latina; e lento, esguio, abrindo os
braos, disse, com lbios que pareciam clssicos e de mrmore:
- D. Raposo! Esta aurora que vai nascer, e em pouco tocar os
cimos do Hbron,  a de 15 do ms de Nizam; e no houve em
toda a histria de Israel, desde que as tribos voltaram da
Babilnia, nem haver, at que Tito venha pr o ltimo cerco ao
templo, um dia mais interessante! Eu preciso estar em Jerusalm
para ver, viva e rumorejando, esta pgina do Evangelho! Vamos
pois fazer a santa Pscoa  casa de Gamaliel, que  um amigo
de Hilel, e um amigo meu, um conhecedor das letras gregas,
patriota forte e membro do Sanedrim. Foi ele que disse: para
te livrares do tormento da dvida, impe-te uma autoridade.
Portanto, a p, D. Raposo!
Assim murmurou o meu amigo, ereto e lento. E eu, submissamente,
como perante um mandamento celeste, comecei a enfiar
em silncio as minhas grossas botas de montar. Depois, apenas
me agasalhei no albornoz, ele empurrou-me com impacincia
para fora da tenda, sem mesmo me deixar recolher o relgio e a
faca sevilhana, que todas as noites, cauteloso, eu guardava debaixo
do travesseiro. A luz da vela esmorecia, fumarenta e vermelha...
Devia ser meia-noite. Dous ces ladravam ao longe,
surdamente, como entre frondosos muros de quintas. O ar macio
e ermo cheirava a rosas de vergel e  flor da laranjeira. O
cu de Israel faiscava com desacostumado esplendor; e em
cima do Monte Nebo, um belo astro mais branco, de uma refulgncia
divina, olhava para mim, palpitando ansiosamente, como
se procurasse, cativo na sua mudez, dizer um segredo  minha
alma!
As guas esperavam, imveis sob as longas crinas. Montei. E
ento, enquanto Topsius arranjava laboriosamente os loros,
avistei, para os lados da fonte do Eliseu, uma forma maravilhosa
que me arrepiou de terror transcendente.
Era, ao claro diamantino das estrelas da Sria, como a branca
muralha de uma cidade nova! Frontes de templos alvejavam
palidamente, entre a espessura de bosques sagrados; para as
colinas distantes, fugiam esbatidos os arcos ligeiros de um aqueduto.
Uma chama fumegava no alto de uma torre; mais baixo,
movendo-se, faiscavam pontas de lanas; um som longo de buzina
morria na sombra... E abrigada junto aos basties, uma
aldeia dormia entre palmeiras.
Topsius, na sela, pronto a marchar, embrulhara a mo nas crinas
da gua.
- Aquilo, branco, alm? - murmurei, sufocado.
Ele disse simplesmente:
- Jeric.
Rompeu, galopando. No sei quanto tempo segui, emudecido,
o nobre historiador dos Herodes; era por uma estrada direita,
feita de lajes negras de basalto. Ah! que diferente do spero
caminho por onde tnhamos descido a Cana, faiscante e cor de
cal, atravs de colinas onde o tojo escasso semelhava, na irradiao
da luz, um bolor de velhice e de abandono! E tudo em
redor me parecia diferente tambm: a forma das rochas, o cheiro
da terra quente, at a palpitao das estrelas... Que mudana
se fizera em mim, que mudana se fizera no Universo? Por vezes
uma fasca dura saltava das ferraduras das guas. E sem
descontinuar, Topsius galopava, agarrado s crinas, com as
duas bandas da capa branca batendo como os dous panos de
uma bandeira...
Mas subitamente parou. Era junto de uma casa quadrada, entre
rvores, toda apagada e muda, tendo no topo uma haste sobre
que pousava estranhamente, como recortada numa lmina de
ferro, a figura de uma cegonha.  entrada esmorecia uma fogueira;
remexi as achas; e  curta chama que ressaltou, compreendi
que era uma antiga estalagem  beira de uma antiga estrada.
Por baixo da cegonha, encimando a porta estreita e eriada
de pregos, brilhava em negro, numa lpide branca, a tabuleta
latina - Ad Gruem Majorem; e ao lado, enchendo parte da fachada,
desenrolava-se uma inscrio rudemente entalhada na
pedra, que eu decifrei a custo, e em que Apolo prometia a sade
ao hspede, e Septimano, o hospedeiro, lhe garantia risonha
acolhida, o banho reparador, vinho forte da Campnia, frescos
palhetes de Engada, e todas as comodidades  maneira de
Roma.
Murmurei, desconfiado:
-  maneira de Roma!
Que estranhos caminhos ia eu ento trilhando? Que outros homens,
dessemelhantes de mim, no falar e no traje, bebiam ali,
sobre a proteo de outros deuses, o vinho em nforas do tempo
de Horcio?...
Mas de novo Topsius marchou, esguio e vago, na noite. Agora
findara a estrada de basalto sonoro; e subamos a passo um
brusco caminho, cavado entre rochas, onde grossos pedregulhos
ressoavam, rolavam sobre as patas das guas, como no
leito de uma torrente que um lento agosto secou. O erudito
doutor, sacudido na sela, praguejava roucamente contra o
Sanedrim, contra a hirta lei judaica, oposta indobravelmente a
toda a obra culta que quer fazer o procnsul... Sempre o fariseu
via com rancor o aqueduto romano que lhe trazia a gua, a estrada
romana que o levava s cidades, a romana que lhe curava
as pstulas...
- Maldito seja o fariseu!
Sonolento, rememorando velhas imprecaes do Evangelho, eu
rosnava, encolhido no meu albornoz:
- Fariseu, sepulcro caiado... Maldito seja!
Era a hora calada em que os lobos dos montes vo beber. Cerrei
os olhos; as estrelas desmaiavam.
Breves faz o Senhor as noites macias do ms de Nizam, quando
se come em Jerusalm o anho branco de Pscoa; e bem cedo o
cu se vestiu de alvo do lado do pas de Moabe.
Despertei. J os gados balavam nos cerros. O ar fresco cheirava
a rosmaninho.
E ento avistei, errando por cima dos penedos sobranceiros ao
caminho, um homem estranho, bravio, coberto com uma pele
de carneiro, que me recordou Elias e todas as cleras da Escritura;
o peito, as pernas pareciam de granito vermelho; por entre
a grenha e a barba, rudes, emaranhadas, fazendo-lhe como uma
juba feroz, os olhos refulgiam-lhe desvairadamente... Descobriu-
nos; e logo, estendendo os braos como quem arremessa
pedras, despediu sobre ns todas as maldies do Senhor!
Chamou-nos pagos, chamou-nos ces; gritava: malditas
sejam as vossas mes, secos sejam os peitos que vos criaram!
Cruis e cheios de pressgios caam os seus brados do alto das
rochas; e, retardado pelos passos lentos da gua, Topsius encolhia-
se na capa, como sob uma saraiva inclemente. At que me
enfureci; voltei-me na anca da cavalgadura, chamei-lhe bbedo,
atirei-lhe obscenidades; e via no entanto, sob a chama selvagem
dos seus olhos, a boca clamorosa e negra torcer-se-lhe, babarse
de furor devoto...
Mas, desembocando da ravina, encontramos, larga e lajeada, a
estrada romana que vai a Siqum; e trotando por ela, sentimos
o alvio de penetrar enfim numa regio culta, piedosa, humana e
legal. A gua abundava; sobre as colinas erguiam-se fortalezas
novas; pedras sagradas delimitavam os campos. Nas eiras
brancas, os bois enfeitados de anmonas pisavam o trigo da
colheita de Pscoa; e em vergis, onde a figueira j tinha
enfolhado, o servo na sua torre caiada, cantando com uma vara
na mo, afugentava os pombos bravos. Por vezes, avistvamos
um homem, de p, junto da sua vinha, ou  beira dos canais de
rega, direito, com a ponta do manto atirada por cima da cabea,
e os olhos baixos, dizendo a santa orao do Esquema. Um
oleiro, que espicaava o seu burro, carregado de cntaros de
barro amarelo, gritou-nos: Benditas sejam as vossas mes!
Boa vos seja a Pscoa! E um leproso, que descansava  sombra,
nos olivedos, perguntou-nos, gemendo e mostrando as
chagas, qual era em Jerusalm o Rabi que curava, e aonde se
apanhava a raiz do baraz.
J nos aproximvamos de Betnia. Para dar de beber s guas,
paramos numa linda fonte que um cedro assombreava. E o
douto Topsius, arranjando um loro, admirava-se de no termos
encontrado a caravana, que vem de Galilia celebrar a Pscoa a
Jerusalm - quando soou, adiante, na estrada, um rumor lento
de armas em marcha... E eu vi, assombrado, aparecerem soldados
romanos, desses que tantas vezes amaldioara em estampas
da Paixo!
Barbudos, tostados pelo sol da Sria, marchavam solidamente,
em cadncia, com um passo bovino, fazendo ressoar sobre as
lajes as sandlias ferradas; todos traziam s costas os escudos
envoltos em sacos de lona; e cada um erguia ao ombro uma alta
forquilha, de onde pendiam trouxas encordeladas, pratos de
bronze, ferramentas e cachos de tmaras. Algumas filas, descobertas,
seguravam o capacete como um balde; outras, nas mos
cabeludas, balanavam um dardo curto. O decurio, gordo e
louro, seguido de uma gazela familiar, enfeitada com corais,
dormitava, ao passo mido da gua, embrulhado num manto
escarlate. E atrs, ao lado das mulas carregadas de sacos de
trigo e molhos de lenha, os arrieiros cantavam ao som de uma
flauta de barro, tocada por um negro quase nu, que linha no
peito, em traos vermelhos, o nmero da legio.
Eu recuara para o escuro do cedro. Mas Topsius, logo, como
um germano servil, desmontara, ajoelhando quase no p, ante
as armas de Roma; e no se conteve; berrou, agitando os braos
e a capa:
- Longa vida a Caio Tibrio, trs vezes cnsul, ilrico, pannico,
germnico, imperador, pacificador e augusto!...
Alguns legionrios riram, crassamente. E passaram, cerrados,
com um rumor de ferro - enquanto um pegureiro, ao longe,
arrebanhando as cabras aos brados, fugia para o cimo dos
cerros.
De novo galopamos. A estrada de basalto findou; e penetramos
entre arvoredos, num aroma de pomares, atravs de abundncia
e frescura.
Oh, que diferentes se mostravam estes caminhos, estas colinas,
que eu vira dias antes, em torno  Cidade Santa, dessecadas
por um vento de abstrao, e brancas, da cor das ossadas...
Agora tudo era verde, regado, murmuroso, e com sombras. A
mesma luz perdera o tom magoado, a cor dorida, com que eu
sempre a vira, cobrindo Jerusalm; as folhas dos ramos de abril
desabrochavam num azul, moo, tenro, cheio de esperana
como elas. E a cada instante se me iam os olhos longamente
nesses vergis da Escritura, que so feitos da oliveira, da figueira
e da vinha, e onde crescem silvestres, e mais esplndidos que
o Rei Salomo, os lrios vermelhos dos campos!
Enlevado e cantarolando, eu trotava ao comprido de uma sebe
toda entrelaada de rosas. Mas Topsius deteve-me; mostroume
no alto de um outeiro, sobre um fundo sombrio de ciprestes
e cedros, uma casa abrindo, para o lado do Oriente e da luz, o
seu prtico branco. Pertencia, disse ele, a um romano, parente
de Valrio Grato, antigo Legado Imperial da Sria; e tudo ali
parecia penetrado de paz amvel e de graa latina. Um tapete
vioso, de relva bem lisa, estendia-se em declive at uma lea
de alfazema, tendo ao meio, sobre o verde, desenhadas com
linhas de flores escarlates, as iniciais de Valrio Grato; em redor,
entre canteiros de rosas, de aucenas, orladas de mirto, resplandeciam
nobres vasos de mrmore corntico, onde se enrolavam
folhas de acanto; um servo, de capuz cinzento, talhava um
teixo em forma de urna, ao lado de um buxo alto j talhado sabiamente
em feitio da lira; aves domsticas picavam o cho,
coberto de areia escarlate, numa rua de pltanos onde os braos
de hera faziam, de tronco a tronco, festes como os que
ornam um templo; a rama dos loureiros velava de sombras a
nudez das esttuas. E sob um caramancho de vinha, ao rumor
da gua lenta cantando numa bacia de bronze, um velho de
toga, sereno, risonho, ditoso, lia junto a uma imagem de
Esculpio um longo rolo de papiro, enquanto uma rapariga, com
uma flecha de ouro nas tranas, toda vestida de linho alvo, fazia
uma grinalda com as flores que lhe enchiam o regao... Ao passo
dos nossos cavalos, ela ergueu os olhos claros. Topsius gritou:
Oh, salve, pulquerrma! Eu gritei - Viva la gracia! Os melros
cantavam nas romzeiras em flor.
Mais adiante o facundo Topsius deteve-me ainda, apontandome
outra vivenda de campo, escura e severa entre ciprestes; e
disse-me baixo que era de Osnias, um rico saduceu de Jerusalm,
da famlia pontifical de Boetos, e membro do Sanedrim.
Nenhum ornato pago lhe profanava os muros. Quadrada, fechada,
hirta, ela reproduzia a austeridade da lei. Mas os largos
celeiros, cobertos de colmo, os lagares, os vinhedos, diziam as
riquezas feitas de duros tributos; no ptio dez escravos no bastavam
a guardar os sacos de trigo, odres, carneiros marcados
de vermelho, recolhidos em pagamento do dzimo nesse dia de
Pscoa. Junto  estrada, com uma piedade ostentosa, caiada de
fresco, reluzia, ao sol, entre roseiras, a sepultura domstica.
Assim caminhando chegamos aos palmares onde se aninha
Betfag. E por um atalho virente que Topsius conhecia, comeamos
a subir o Monte das Oliveiras, at o lagar da Moabita -
que  uma paragem de caravanas nessa infinita, vetusta via real
que vem do Egito, seguindo at Damasco, a bem regada.
E foi como um deslumbramento, ao encontrarmos sobre todo o
monte, por entre os olivedos da encosta at ao Cdron, por
entre os pomares do vale at Silo, em meio dos tmulos novos
dos sacrificadores, e mesmo para os lados onde se empoeira a
estrada de Hbron, o despertar rumoroso de todo um povo
acampado! Tendas negras do deserto, feitas de peles de carneiro
e rodeadas de pedras; barracas de lona, da gente da
Idumia, alvejando ao sol entre as verduras; cabanas armadas
com ramos, onde se abrigam os pastores de Ascalon; toldos de
tapetes que os peregrinos de Neftali suspendem em varas de
cedro; era toda a Judia, s portas de Jerusalm, a celebrar a
Pscoa sagrada! E havia ainda, em volta ao casal onde velava
um posto de legionrios, os mercadores gregos da Decpola,
teceles fencios de Tiberade, e a gente pag que, atravs de
Samaria, vem dos lados de Cesaria e do mar.
Fomos marchando, lentos e cautelosos. A sombra das oliveiras
os camelos descarregados ruminavam placidamente; e as guas
da Prea, com as patas entravadas, pendiam a cabea sob a
espessura das longas crinas. Junto s tendas, cujos panos meio
levantados nos deixavam entrever brilhos de armas penduradas,
ou o esmalte de um grande prato, raparigas, com os braos reluzindo
de braceletes, pisavam entre duas pedras o gro do
centeio; outras mungiam as cabras; por toda a parte se acendiam
fogos claros; e com os filhos pela mo, o cntaro esguio ao
ombro, uma fila de mulheres descia cantando para a fonte de
Silo.
As patas dos nossos cavalos prendiam-se nas cordas retesadas
das barracas dos idumeus. Depois estvamos diante de tapetes
alastrados, onde um mercador de Cesaria, com um manto a
cartaginesa, vistoso e bordado de flores, expunha peas de linho
do Egito, estendia sedas de Cs, fazia reluzir armas
marchetadas; ou com um frasco na palma de cada mo, celebrava
as perfeies do nardo da Assria e dos leos doces da
Prtia... Os homens em redor, arredando-se, demoravam em
ns os seus olhos lnguidos e altivos; por vezes murmuravam
uma injria surda; ou por causa dos culos do douto Topsius,
um riso de escrnio mostrava dentes agudos de fera, entre rudes
barbas negras.
Sobre as rvores, encostados aos muros, filas de mendigos ganiam,
mostrando o caco com que rapavam as chagas. Diante de
uma cabana feita de ramos de loureiro, um velho obeso, rubro
como um sileno, apregoava o vinho fresco de Siqum, as favas
novas de abril. Os homens fuscos do deserto apinhavam-se em
torno dos gigos de fruta. Um pastor de scalon, em andas, no
meio de um rebanho de cordeiros brancos, tocava buzina, chamando
os devotos a comprar o anho puro da Pscoa. E por
entre a multido onde constantemente se erguiam paus, em lixas
bruscas, soldados romanos rondavam aos pares, com um ramo
de oliveira no capacete, benignos e paternais.
Assim chegamos junto de dous altos, frondosos cedros, to
cobertos de pombas brancas voando, que eram como duas
grandes macieiras, na primavera, que um vento estivesse
destoucando das flores. Subitamente, Topsius parara, abria os
braos; eu tambm; e com o corao suspenso ali ficamos imveis,
deslumbrados, vendo l embaixo, na luz, resplandecer Jerusalm.
O sol banhava-a, suntuosamente! Uma severa altiva muralha,
guarnecida de torres novas, com portas onde as cantarias se
entremeavam de lavores de ouro, erguia-se sobre a ribanceira
escarpada do Cdron, j seco pelos calores de Nizam, e ia
correndo, cingindo Sio, para o lado de Hnon e at aos cerros
de Garebe. E, dentro, em face aos cedros que nos
assombreavam, o templo, sobre os seus alicerces eternos, parecia
dominar toda a Judia, soberbo em esplendor, murado de
granitos polidos, armado de basties de mrmore, como a refulgente
cidadela de um deus!...
Debruado sobre as crinas, o sapiente Topsius apontava-me o
adro primordial, chamado o Ptio dos Gentlicos, vasto bastante
para receber todas as multides de Israel, todas as da terra
pag; o cho liso rebrilhava como a gua lmpida de uma piscina;
e as colunas de mrmore de Paros que o ladeavam, formando
os prticos de Salomo, profundos e cheios de frescura,
eram mais bastas que os troncos nos cerrados palmares de
Jeric. Em meio desta rea, cheia de ar e de luz, elevava-se, em
escadarias lustrosas como se fossem de alabastro, com portas
chapeadas de prata, arcarias, torrees de onde voavam pombas,
um nobre terrao s acessvel aos fiis da lei, ao povo eleito
de Deus, o orgulhoso Adro de Israel. Da erguia-se ainda,
com outras claras escadarias, outro branco terrao, o trio dos
Sacerdotes; no brilho difuso que o enchia, negrejava um enorme
altar de pedras brutas, enristando a cada ngulo um sombrio
como de bronze; aos lados dous longos fumos direitos, subiam
devagar, mergulhavam no azul com a serenidade de uma prece
perenal. E, ao fundo, mais alto, ofuscante, com os seus recamos
de ouro sobre a alvura dos mrmores, nveo e fulvo, como feito
de ouro puro e neve pura, refulgia maravilhosamente, lanando
o seu claro aos montes em redor, o Heron, o santurio dos
santurios, a morada de Jeov; sobre a porta pendia o vu mstico,
tecido em Babilnia, cor do fogo e cor dos mares; pelas
paredes trepava a folhagem de uma vinha de esmeralda, com
cachos de outras pedrarias; da cpula irradiavam longas lanas
de ouro, que o aureolavam de raios como um sol; e assim, resplandecente,
triunfante, augusto, precioso, ele elevava-se para
aquele cu de festa pascal, ofertando-se todo, como o dom
mais belo, o dom mais raro da terra!
Mas ao lado do templo, mais alto que ele, dominando-o com a
severidade de um amo orgulhoso, Topsius mostrou-me a Torre
Antnia, negra, macia, impenetrvel, cidadela de foras romanas...
Na plataforma, entre as ameias, movia-se gente armada;
sobre um bastio, uma figura forte, envolta num manto vermelho
de centurio, estendia o brao; e toques lentos de buzina pareciam
falar, dar ordens, para outras torres que ao longe se
azulavam no ar lmpido, algemando a Cidade Santa. Csar pareceu-
me mais forte que Jeov!
E mostrou-me ainda, para alm da Antnia, o velho burgo de
Davi. Era um tropel de casas cerradas, caiadas de fresco sobre
o azul, descendo como um rebanho de cabras brancas para um
vale ainda em sombra, onde uma praa monumental se abria
entre arcarias; depois trepava, fendido em ruas tortuosas, a espalhar-
se sobre a colina fronteira de Acra, rica, com palcios, e
cisternas redondas que luziam  luz semelhantes a broquis de
ao. Mais longe ainda, para alm de velhos muros derrocadas,
era o bairro novo de Bezeta, em construo; o circo de
Herodes arredondava a as suas arcarias; e os jardins de
Antipas estiravam-se por um ltimo outeiro, at junto ao tmulo
de Helena, assoalhados, frescos, regados pelas guas doces de
Enrogel.
- Ah Topsius, que cidade! - murmurei maravilhado.
- Rabi Elizer diz que no viu jamais cidade bela, quem no viu
Jerusalm!
Mas ao nosso lado passava gente alegre, correndo para os lados
da verde estrada que sobe de Betnia; e um velho que puxava
 pressa a arreata do seu burro, carregado de molhos de
palmas, gritou-nos que se avistara e vinha chegando a caravana
da Galilia! Ento, curiosos, trotamos at um cmoro, junto a
uma sebe de cactos, onde j se apinhavam mulheres com os
filhos ao colo, sacudindo vus claros, soltando palavras de bno
e de boa acolhida; e logo vimos, numa poeirada lenta que o
sol dourava, a densa fila dos peregrinos que so os derradeiros
a chegar a Jerusalm, vindos de longe, da alta Galilia, desde
Gescala e dos montes. Um rumor de cnticos enchia a estrada
festiva; em torno a um estandarte verde agitavam-se palmas e
ramos floridos de amendoeira; e os grandes fardos, carregando
o dorso dos camelos, balanceavam em cadncia por entre os
turbantes brancos cerrados e movendo-se em marcha.
Seis cavaleiros da guarda babilnica de Antipas Herodes,
tetrarca de Galilia, escoltavam a caravana desde Tiberade;
traziam mitras de felpo, as longas barbas separadas em tranas,
as pernas ligadas em tiras de couro amarelo; e caracolavam 
frente, fazendo estalar numa das mos aoites de corda, com a
outra atirando ao ar e aparando alfanjes que faiscavam. Logo
atrs era uma colegiada de levitas, em coro, a passos largos,
apoiados a bordes enfeitados de flores, com os rolos da lei
apertados sobre o peito, salmodiando rijo os louvores de Sio.
E em tomo moos robustos, com as faces infladas e rubras, sopravam
para o cu furiosamente em trompas recurvas de bronze.
Mas, dentre a gente apertada  beira da estrada, rompeu uma
aclamao. Era um velho, sem turbante, de cabelos soltos, recuando
e danando freneticamente; das mos cabeludas que ele
agitava no ar saa um repique de castanholas; ora arremessava
uma perna, ora outra; e toda a sua face barbuda de rei Davi
ardia com um fulgor inspirado. Atrs dele, raparigas, pulando
compassadamente sobre a ponta ligeira das sandlias, feriam
com dolncia harpas leves; outras, rodando sobre si, batiam do
alto os tamborins - e as suas manilhas de prata brilhavam no p
que os seus ps levantavam, sob a roda das tnicas enfunadas...
Ento, arrebatada, a turba entoou o velho canto das jornadas
rituais e os salmos de peregrinao.
Meus passos vo todos para ti,  Jerusalm! Tu s perfeita!
Quem te ama conhece a abundncia!
E eu bradava tambm, transportado:
- Tu s o palcio do Senhor,  Jerusalm, e o repouso do meu
corao!
Lenta e rumorosa a caravana passava. As mulheres dos levitas,
em burros, veladas e rebuadas, semelhavam grandes sacos
moles; as mais pobres, a p, traziam nas pontas dobradas do
manto frutas e o gro da aveia. Os previdentes, j com a sua
oferenda ao Senhor, arrastavam preso do cinto um cordeiro
branco; os mais fortes seguravam s costas, presos pelos braos,
os doentes, cujos olhos dilatados, nas faces maceradas,
procuravam ansiosamente as muralhas da Cidade Santa, onde
todo o mal se cura.
Entre os peregrinos e a alegre multido que os acolhia, as bnos
cruzavam-se, ruidosas e ardentes; alguns perguntavam pelos
vizinhos, pelas searas ou pelos avs que tinham ficado na
aldeia  sombra da sua vinha; e ouvindo que lhe fora roubada a
pedra do seu moinho, um velho, ao meu lado, com as barbas de
um Abrao, arremessou-se a terra a arrepelar-se e a esfarrapar
a tnica. Mas j, fechando a marcha, passavam as mulas com
guizos carregadas de lenha e de odres de azeite; e atrs uma
turba de fanticos que nos arredores, em Betfag e em Refraim,
se tinham juntado  caravana, apareceu, atirando para os lados
cabaas de vinho j vazias, brandindo facas, pedindo a morte
dos samaritanos e ameaando a gente pag...
Ento seguindo Topsius, trotei de novo atravs do monte, para
junto dos cedros cobertos do vo alvo das pombas; e nesse
instante tambm os peregrinos, emergindo da estrada, avistavam
enfim Jerusalm, que resplandecia l embaixo formosa,
toda branca na luz... Ento foi um santo, tumultuoso, inflamado
delrio! Prostrada, a turba batia as faces na terra dura; um clamor
de oraes subia ao cu puro, por entre o estridor das tubas;
as mulheres erguiam os filhos nos braos, ofertando-os
arrebatadamente ao Senhor! Alguns permaneciam imveis,
como assombrados, ante os esplendores de Sio; e quentes
lgrimas de f, de amor piedoso, rolavam sobre barbas incultas
e feras. Os velhos mostravam com o dedo os terraos do templo,
as ruas antigas, os sacros lugares da histria de Israel: ali 
a porta de Efraim, acol era a torre das Fornalhas; aquelas pedras
brancas, alm, so do tmulo de Raquel... E os que escutavam
em redor, apinhados, batiam as mos, gritavam Bendita
sejas, Sio! Outros, estonteados, com o cinto desapertado,
corriam tropeando nas cordas das tendas, nos gigos de fruta, a
trocar a moeda romana, a comprar o anho da oferta. Por vezes,
dentre as rvores, um canto subia, claro, fino, cndido, e que
ficava tremendo no ar; a terra um momento parecia escutar,
como o cu; serenamente, Sio rebrilhava; do templo os dous
fumos lentos ascendiam, com uma continuidade de prece eterna...
Depois o canto morria; de novo as bnos rompiam, clamorosas;
a alma inteira de Jud abismava-se no resplendor do
santurio; e braos magros erguiam-se freneticamente para estreitar
Jeov.
De repente Topsius colheu-me as rdeas da gua; e quase ao
meu lado um homem, com uma tnica cor de aafro, surgindo
esgazeado detrs de uma oliveira e brandindo uma espada, saltou
para cima de uma pedra e gritou desesperadamente:
- Homens de Galilia, acudi, e vs, homens de Neftali!
Peregrinos correram, erguendo os bastes; e as mulheres saiam
das tendas, plidas, apertando os filhos ao colo. O homem fazia
tremer a espada no ar; todo ele tremia tambm; e outra vez bradou,
desoladamente:
- Homens de Galilia, Rabi Jeschoua foi preso! Rabi Jeschoua
foi levado a casa de Hano, homens de Neftali!
- D. Raposo - disse Topsius ento, com os olhos faiscantes - o
Homem foi preso, e compareceu j diante do Sanedrim!... Depressa,
depressa, amigo, a Jerusalm,  casa de Gamaliel!
E  hora em que no templo se fazia a oferta do perfume, quando
o sol j ia alto sobre o Hbron, Topsius e eu penetramos,
pela porta do Pescado, a passo, numa rua da antiga Jerusalm.
Era ngreme, tortuosa, poeirenta, com casas baixas e pobres de
tijolo; sobre as portas, fechadas por uma correia, sobre as janelas
esguias como fendas gradeadas, havia verduras e palmas
entretecidas, fazendo ornatos de pscoa. Nos terraos, rodeados
de balaustradas, mulheres diligentes sacudiam os tapetes,
joeiravam o trigo; outras, chalrando, penduravam lmpadas de
barro em festes para as iluminaes rituais.
Ao nosso lado ia marchando fatigado um harpista egpcio, com
uma pluma escarlate presa na peruca frisada, um pano branco
envolvendo-lhe a cinta fina, os braos pesados de braceletes, e
a harpa s costas, recurva como uma foice e lavrada em flores
de ltus. Topsius perguntou-lhe se ele vinha de Alexandria. E
ainda se cantavam, nas tabernas do Eunotos, as cantigas da batalha
de cio? O homem, logo mostrando num riso triste os
dentes longos, pousou a harpa, ia ferir os bordes... Picamos as
guas; e assustamos duas mulheres cobertas de vus amarelos,
com casais de pombas enroladas na ponta do manto, que se
apressavam decerto para o templo, airosas, ligeiras, fazendo
retinir os guizos das suas sandlias.
Aqui e alm um lume caseiro ardia no meio da rua, com trempes,
caarolas, de onde saa um cheiro acre de alho; crianas
de ventre enorme que rolavam nuas pela poeira, roendo vorazmente
cascas de abbora crua, ficavam pasmadas para ns,
com grandes olhos ramelosos onde fervilhavam moscas. Diante
de uma forja, um bando hirsuto de pastores de Moabe esperavam,
enquanto dentro, martelando num nimbo de chispas, os
ferreiros lhes batiam ferros novos para as lanas. Um negro,
com um pente em forma de sol toucando-lhe a carapinha, apregoava,
num grito lgubre, bolos de centeio de feitios obscenos.
Calados, atravessamos uma praa, clara e lajeada, que andava
em obras. Ao fundo uma casa de banhos, moderna, uma terma
romana, estendia com ar de luxo e de ociosidade a longa arcada
do seu prtico de granito; no ptio interior, por entre os pltanos
que o refrescavam, cujos ramos suspendiam velrios de
linho alvo, corriam escravos nus, reluzentes de suor, levando
vasos de essncias e braadas de flores; das aberturas gradeadas,
ao rs das lajes, saa um bafo mole de estufa que cheirava
a rosa. E sob uma das colunas vestibulares, onde uma lpide de
nix indicava a entrada das mulheres, estava de p, imvel,
ofertando-se aos votos como um dolo, uma criatura maravilhosa;
sobre a sua face redonda, de uma brancura de lua cheia,
com lbios grossos, rubros de sangue, erguia-se a mitra amarela
das prostitutas da Babilnia; dos ombros fortes, por cima da
tmida rijeza dos seios direitos, caa, em pregas duras de brocado,
uma dalmtica negra radiantemente recamada de ramagens
cor de ouro. Na mo tinha uma flor de cacto; e as suas
plpebras pesadas, as pestanas densas, abriam-se e fechavamse
em ritmo, ao mover onduloso de um leque que uma escrava
preta, agachada a seus ps balanava cantando. Quando os
seus olhos se cerravam, tudo em redor parecia escurecer; e
quando se levantava a negra cortina das suas pestanas, vinha
dessa larga pupila um claro, uma influncia, como a do sol do
meio-dia no deserto, que abrasa e vagamente entristece. E assim
se ofertava, magnfica, com os seus grandes membros de
mrmore, a sua mitra fulva, lembrando os ritos de Astart e de
Adnis, lasciva e pontifical...
Toquei no brao de Topsius, murmurei, plido:
- Caramba! Vou aos banhos!
Seco, empertigado na sua capa branca, ele volveu asperamente:
- Espera-nos Gamaliel, filho de e Simeo. E a sabedoria dos
rabis l disse que a mulher  o caminho da iniquidade!
E bruscamente penetrou numa lobrega viela, toda abobadada;
as patas das guas, ferindo as lajes, acirraram contra ns uivos
de ces, maldies de mendigos, amontoados juntos no escuro.
Depois saltamos por uma brecha da antiga muralha de Ezequi,
passamos uma velha cisterna seca onde os lagartos dormiam; e
trotando pela poeira solta de uma longa rua, entre muros caiados
que reluziam e portas besuntadas de alcatro, paramos no
alto diante de uma entrada mais nobre, em arco, com uma grande
baixa de arame que a defendia dos escorpies. Era a casa
de Gamaliel.
No meio de um vasto ptio ladrilhado, escaldando ao sol, um
limoeiro toldava a gua clara de um tanque. Em volta, sobre
pilastras de mrmore verde, corria uma varanda, silenciosa e
fresca, de onde pendia, aqui e alm, um tapete da Assria com
flores bordadas. Um puro azul brilhava no alto; - e ao canto,
sob um alpendre, um negro, atrelado por cordas como uma
alimria a uma barra de pau, calado de ferraduras, vincado de
cicatrizes, ia fazendo gemer e girar, lentamente, a grande m de
pedra do moinho domstico.
No escuro de uma porta apareceu um homem obeso, sem barba,
quase to amarelo como a tnica lassa que o envolvia todo;
tinha na mo uma vara de marfim e mal podia erguer as plpebras
moles.
- Teu amo? - gritou-lhe Topsius, desmontando.
Entra - disse o homem numa voz fugidia e fina como silvo de
cobra.
Por uma escadaria rica de granito negro chegamos a um patamar,
onde pousavam dous candelabros, espigados como os
arbustos de que reproduziam, em bronze, o tronco sem folhas;
e entre eles estava de p, diante de ns, Gamaliel, filho de
Simeo. Era muito alto, muito magro; e a barba solta, lustrosa,
perfumada, enchia-lhe o peito, onde brilhava um sinete de coral
pendurado de uma fita escarlate. O seu turbante branco, entremeado
de fios de prolas, descobria uma tira de pergaminho
colada sobre a testa e cheia de textos sagrados; sob aquela alvura,
os seus olhos encovados tinham um fulgor frio e duro.
Uma longa tnica azul cobria-o at s sandlias, orlada de compridas
franjas que arrastavam; e cozidas s mangas, enroladas
nos pulsos, tinha ainda outras tiras de pergaminho, onde
negrejavam outras escrituras rituais.
Topsius saudou-o  moda do Egito, deixando cair lentamente a
mo at  joalheira da sua cala de lustrina. Gamaliel alargou os
braos e murmurou, como salmodiando:
- Entrai, sede bem-vindos, comei e regozijai-vos...
E atrs de Gamaliel, pisando um cho sonoro de mosaico, penetramos
numa sala onde se achavam trs homens. Um, que se
afastou da janela para nos acolher, era magnificamente belo,
com longos cabelos castanhos, pendendo em anis doces em
torno de um pescoo forte, macio e branco como um mrmore
corintio; na faixa negra que lhe apertava a tnica brilhava, com
pedrarias, o punho de ouro de uma espada curta. O outro, calvo,
gordo, com uma face balofa sem sobrancelhas, e to lvida
que parecia coberta de farinha, ficara encruzado, embrulhado
no seu manto cor de vinho, sobre um div feito de correias, tendo
uma almofada de prpura debaixo de cada brao; e o seu
gesto de acolhida foi mais distrado e desdenhoso, do que a
esmola que se atira ao estrangeiro. Mas Topsius quase se prostrara,
a beijar os seus sapatos redondos de couro amarelo, atados
por fios de ouro, porque aquele era o venerando Osnias,
da famlia pontifical de Beotos, ainda do sangue real de
Aristbolo! O outro homem no o saudamos, nem ele tambm
nos viu; estava agachado a um canto, com a face sumida no
capuz de uma tnica de linho mais alvo que a neve fresca, como
mergulhado numa orao; e s de vez em quando se movia,
para limpar as mos lentamente a uma toalha da fina brancura
da tnica, que lhe pendia de uma corda, apertada  cintura,
grossa e cheia de ns, como as que cingem os monges.
No entanto, descalando as luvas, eu examinava o teto da sala,
todo de cedro, com lavores retocados de escarlate. O azul liso
e lustroso das paredes era como a continuao daquele cu do
Oriente, quente e puro, que resplandecia atravs da janela,
onde se destacava, pendido do muro, na plena luz, um ramo
solitrio de madressilva. Sobre uma tripea, incrustada de ncar,
num incensador de bronze, fumegava uma resina aromtica.
Mas Gamaliel aproximara-se, e depois de ter olhado duramente
as minhas botas de montar, disse com lentido:
- A jornada do Jordo  longa, deveis vir esfomeados...
Murmurei polidamente uma recusa... E ele, grave como se recitasse
um texto:
- A hora do meio-dia  a mais grata ao Senhor. Jos disse a
Benjamim: tu comers comigo ao meio-dia. Mas a alegria do
hspede  tambm doce ao muito alto, ao muito forte... Estais
fracos, ides comer, para que a vossa alma me abenoe.
Bateu as palmas; um servo, com os cabelos apertados num
diadema de metal, entrou trazendo um jarro cheio de gua tpida
que cheirava a rosa, onde eu purifiquei as mos; outro ofereceu
bolos de mel sobre viosas folhas de parra; outro verteu,
em taas de loua brilhante, um vinho forte e negro de Emas. E
para que o hspede no comesse s, Gamaliel partiu um gomo
de rom, e com as plpebras cerradas levou  beira dos lbios
uma malga, onde boiavam pedaos de gelo entre flores de laranjeira.
- Pois agora - disse eu lambendo os dedos - tenho lastro at ao
meio-dia...
- Que a tua alma se regozije!
Acendi um cigarro, debrucei-me na janela. A casa de Gamaliel
ficava num alto, decerto por trs do templo, sobre a colina de
Orfel; ali o ar era to doce e macio, que s o sentir a sua carcia
enchia de paz o corao. Por baixo corria a muralha nova
erguida por Herodes, o Grande; e para alm floriam jardins e
pomares, dando sombra ao Vale da Fonte, e subindo at  colina,
em que branquejava, calada e fresca, a aldeia de Silo. Por
uma fenda, entre o Monte do Escndalo e a Colina dos
Tmulos, eu via resplandecer o Mar Morto como uma chapa de
prata; as montanhas de Moabe ondulavam depois, suaves, de
um azul apenas mais denso que o do cu; e uma forma branca,
que parecia tremer na vibrao da luz, devia ser a cidadela de
Maqueros sobre o seu rochedo, nos confins da Idumia. No
terrao relvoso de uma casa, ao p das muralhas, uma figura
imvel, abrigada sob um alto guarda-sol franjado de guizos,
olhava como eu para esses longes da Arbia; e ao lado uma
rapariga, ligeira e delgada, com os braos nus e erguidos, chamava
um bando de pombas que esvoaavam em redor. A tnica
aberta descobria-lhe o seiozinho cheio de seiva; e era to
linda, morena e dourada pelo sol, que eu ia, no silncio do ar,
atirar-lhe um beijo... Mas recolhi, ouvindo Gamaliel que dizia,
como o homem do manto cor de aafro no Monte das Oliveiras:
Sim esta noite, em Betnia, Rabi Jeschoua foi preso...
Depois ajuntou, lento, com os olhos semicerrados, erguendo
por entre os dedos os longos fios da barba:
- Mas Pncio teve um escrpulo... No quis julgar um homem
de Galilia, que  sdito de Antipas Herodes... E como o
tetrarca veio  Pscoa a Jerusalm, Pncio mandou o Rabi 
sua morada, a Bezeta...
Os doutos culos de Topsius rebrilharam de espanto.
- Cousa estranha! - exclamou, abrindo os braos magros. -
Pncio escrupuloso, Pncio formalista! E desde quando respeita
Pncio a judicatura do tetrarca? Quantos pobres galileus no
fez ele matar sem licena do tetrarca, quando foi da revolta do
aqueduto, quando espadas romanas, por ordem de Pncio,
misturaram, nos ptios do templo, o sangue dos homens de
Neftali ao sangue dos bois do sacrifcio!
Gamaliel murmurou sombriamente:
- O romano  cruel, mas escravo da legalidade.
Ento Osnias, filho de Beotos, disse com um sorriso mole e
sem dentes, agitando de leve, sobre a prpura das almofadas,
as mos resplandecentes de anis:
- Ou talvez seja que a mulher de Pncio proteja o Rabi.
Gamaliel, surdamente, amaldioou o impudor da romana. E
como os culos de Topsius interrogavam o venerando Osnias,
ele admirou-se que o doutor ignorasse cousas to conversadas
no templo, at pelos pastores que vm da Idumia vender os
cordeiros da oferenda. Sempre que o Rabi pregava no Prtico
de Salomo, do lado da Porta Susa, Cludia vinha v-lo do alto
do terrao da Torre Antnia, s, envolta num vu negro...
Menahem, que guardava no ms de Tebete a escadaria dos
Gentis, vira a mulher de Pncio acenar com o vu ao Rabi. E
talvez Cludia, saciada de Cpreas, de todos os cocheiros do
circo, de todos os histries de Suburra, e dos brinquedos de
Atalanta que fizeram perder a voz ao cantor cio, quisesse provar,
vindo  Sria, a que sabiam os beijos de um profeta de
Galilia...
O homem vestido de linho alvo ergueu bruscamente a face, sacudindo
o capuz de sobre os cabelos revoltos; o seu largo olhar
azul fulgurou por toda a sala, num relmpago, e apagou-se logo,
sob a humildade grave das pestanas que se baixaram... Depois
murmurou, lento e severo:
- Osnias, o Rabi  casto!
O velho riu, pesadamente. Casto, o Rabi! E ento essa galilia
de Magdala, que vivera no bairro de Bezeta, e nas festas do
Prurim se misturava com as prostitutas gregas s portas do teatro
de Herodes?... E Joana, a mulher de Cosna, um dos cozinheiros
de Antipas? E outra de Efraim, Susana, que uma noite,
a um gesto do Rabi, a um aceno do seu desejo, deixara o tear,
deixara os filhos, e com o peclio domstico, escondido na
ponta do manto, o seguira at Cesaria?...
- Oh Osnias! - gritou, batendo palmas folgazs, o homem formoso
que tinha uma espada com pedrarias. - Oh filho de
Beotos, como tu conheces, uma a uma, as incontinncias de um
Rabi galileu, filho das ervas do cho e mais miservel que elas!
Nem que se tratasse de lio Lama, nosso legado imperial, que
o Senhor cubra de males!
Os olhos de Osnias, miudinhos como duas contas de vidro
negro, reluziram de agudeza e malcia.
- Oh Manasss! E para que vs outros, os patriotas, os puros
herdeiros de Judas de Galauntida, no nos acuseis sempre, a
ns saduceus, de saber s o que se passa no trio dos sacerdotes
e nos eirados da casa de Hano...
Uma tosse rouca reteve-o um espao, sufocando, sob a ponta
do manto em que vivamente se embuara. Depois, mais quebrado,
com laivos roxos na face farinhenta:
- Que em verdade foi justamente na casa de Hano que ouvimos
isto a Menahem, passeando todos debaixo da vinha... E
mesmo nos contou ele que esse Rabi de Galilia chegava, no
seu impudor, a tocar fmeas pags, e outras mais impuras que o
porco... Um levita viu-o, na estrada de Siqum, erguer-se
afogueado, detrs da borda de um poo, com uma mulher de
Samaria!
O homem coberto de alvo linho ergueu-se de um salto, todo
direito e trmulo; e no grito que lhe escapou, havia o horror de
quem surpreendeu a profanao de um altar!
Mas Gamaliel, com uma seca autoridade, cravou nele os olhos
duros:
- Oh Gade, aos trinta anos o Rabi no  casado! Qual  o seu
trabalho? Onde est o campo que lavra? Algum jamais conheceu
a sua vinha? Vagabundeia pelos caminhos e vive do que lhe
ofertam essas mulheres dissolutas! E que outra cousa fazem esses
moos sem barba de Sibris e de Lesbos, que passeiam
todo o dia na Via Judiciria, e que vs outros, essnios,
abominais de tal sorte, que correis a lavar as vestes numa cisterna,
se um deles roa por vs?... Tu ouviste Osnias, filho de
Beotos... S Jeov  grande! E em verdade te digo que, quando
Rabi Jeschoua, desprezando a lei, d  mulher adltera um
perdo que tanto cativa os simples, cede  frouxido da sua
moral e no  abundncia da sua misericrdia!
Com a face abrasada, e atirando os braos ao ar, Gade bradou:
- Mas o Rabi faz milagres!
E foi o famoso Manasss, com um sereno desdm, que respondeu
ao essnio:
- Sossega, Gade, outros tm feito milagres! Simo de Samaria
fez milagres. F-los Apolnio, e f-los Gabieno... E que so os
prodgios do teu galileu comparados aos das filhas do Gro-
Sacerdote nio, e aos do sbio Rabi Quequin?
E Osnias escarnecia a simpleza de Gade:
- Em verdade, que aprendeis vs outros, essnios, no vosso
osis de Engada? Milagres! Milagres at os pagos os fazem!
Vai a Alexandria, ao porto do Eunotos, para a direita, onde esto
as fbricas de papiros, e vs l magos fazendo milagres por
uma dracma, que  o preo de um dia de trabalho. Se o milagre
prova a divindade, ento  divino o peixe Oanes, que tem barbatanas
de ncar e prega nas margens do Eufrates, em noites de
lua cheia!
Gade sorria com altivez e doura. A sua indignao expirara
sob a imensido do seu desdm. Deu um passo vagaroso, depois
outro, e considerando, apiedadamente, aqueles homens
enfatuados, endurecidos e cheios de irriso:
- Vs dizeis, vs dizeis, vos  maneira de moscardos que zumbem!
Vs dizeis, e vs no o ouvistes! Em Galilia, que  bem
frtil, bem verde, quando ele falava era como se corresse uma
fonte de leite em terra de fome e secura: at a luz parecia um
bem maior! As guas, no Lago de Tiberade, amansavam para o
escutar; e aos olhos das crianas que o rodeavam, subia a gravidade
de uma f j madura... Ele falava; e como pombas que
desdobram as asas e voam da porta de um santurio, ns vamos
desprender-se dos seus lbios, irem voar por sobre as naes
do mundo, toda a sorte de cousas nobres e santas, a caridade,
a fraternidade, a justia, a misericrdia, e as formas novas,
belas, divinamente belas, do amor!
A sua face resplandecia, enlevada para os cus, como seguindo
o vo dessas novas divinas. Mas j do lado, Gamaliel, doutor
da lei, o rebatia com uma dura autoridade:
Que h de original e de individual em todas essas idias, homem?
Pensas que o rabi as tirou da abundncia do seu corao?
Est cheia delas a nossa doutrina!... Queres ouvir falar de
amor, de caridade, de igualdade? L o livro de Jesus, filho de
Sidr... Tudo isso o pregou Hilel; tudo isso o disse Esquemaia!
Cousas to justas se encontram nos livros pagos que so, ao
p dos nossos, como o lodo ao p da gua pura de Silo!...
Vs mesmos, os essnios, tendes preceitos melhores!... Os
rabis de Babilnia, de Alexandria, ensinaram sempre leis puras
de justia e de igualdade! E ensinou-as o teu amigo Iocan, a
quem chamais o Batista, que l acabou to miseravelmente num
ergstulo de Maqueros.
- Iocan! - exclamou Gade, estremecendo, como rudemente
acordado da suavidade de um sonho.
Os seus olhos brilhantes umedeceram. Trs vezes, curvado para
o cho, com os braos abertos, repetiu o nome de Iocan,
como chamando algum dentre os mortos. Depois, com duas
lgrimas rolando pela barba, murmurou muito baixo, numa confidncia
que o enchia de terror e de f:
- Fui eu que subi a Maqueros a buscar a cabea do Batista! E
quando descia o caminho, com ela embrulhada no meu manto,
ainda a outra, Herodade, estirada por sobre a muralha como a
fmea lasciva do tigre, rugia e me gritava injrias!... Trs dias e
trs noites segui pelas estradas de Galilia, levando a cabea do
justo pendurada pelos cabelos... s vezes, detrs de um rochedo,
um anjo surgia todo coberto de negro, abria as asas e punha-
se a caminhar ao meu lado...
De novo a cabea lhe pendeu, os seus duros joelhos ressoaram
nas lajes; e ficou prostrado, orando ansiosamente, com os braos
estendidos em cruz.
Ento Gamaliel adiantou-se para o sbio Topsius; e, mais direito
que uma coluna do templo, com os cotovelos colados  cinta,
as mos magras espalmadas para fora:
- Ns temos uma lei; a nossa lei  clara. Ela  a palavra do Senhor;
e o Senhor disse: Eu sou Jeov, o eterno, o primeiro e o
ltimo; o que no transmite a outros nem o seu nome, nem a sua
glria; antes de mim no houve deus algum, no existe deus algum
ao meu lado, no haver deus algum depois de mim...
Esta  a voz do Senhor. E o Senhor disse ainda: Se pois entre
vs aparecer um profeta, um visionrio que faa milagres e
queira introduzir outro deus e chame os simples ao culto desse
deus, esse profeta e visionrio morrer! Esta  a lei, esta  a
voz do Senhor. Ora, o Rabi de Nazar proclamou-se deus em
Galilia, nas sinagogas, nas ruas de Jerusalm, nos ptios santos
do templo... O Rabi deve morrer.
Mas o famoso Manasss, cujo lnguido olhar entenebrecia
como um cu onde vai trovejar, interps-se entre o doutor da
Lei e o historiador dos Herodes. E nobremente repeliu a letra
cruel da doutrina:
No, no! Que importa que a lmpada de um sepulcro diga que
 o sol? Que importa que um homem abra os braos e grite que
 um deus? As nossas leis so suaves; por to pouco no se vai
buscar o carrasco ao seu covil a Garebe...
Eu, caridoso, ia louvar Manasss. Mas j ele bradava, com violncia
e fervor.
- Todavia, esse Rabi de Galilia deve decerto morrer, porque 
um mau cidado e um mau judeu! No o ouvimos ns aconselhar
que se pague o tributo a Csar? O Rabi estende a mo a
Roma; o romano no  o seu inimigo. H trs anos que prega, e
ningum jamais lhe ouviu proclamar a necessidade santa de expulsar
o estrangeiro. Ns esperamos um messias que traga uma
espada e liberte Israel, e este, nscio e verboso, declara que
traz s o po da verdade! Quando h um pretor romano em
Jerusalm; quando so lanas romanas que velam s portas do
nosso Deus, a que vem esse visionrio falar do po do cu e do
vinho da verdade? A nica verdade til  que no deve haver
romanos em Jerusalm!...
Osnias, inquieto, olhou a janela cheia de luz, por onde as ameaas
de Manasss se evolavam, vibrantes e livres. Gamaliel sorria
friamente. E o discpulo ardente de Judas de Gamala clamava,
arrebatado na sua paixo:
- Oh! Em verdade vos digo, embalar as almas na esperana do
reino do cu,  fazer-lhes esquecer o dever forte para com o
reino da terra, para esta terra de Israel que est em ferros, e
chora e no quer ser consolada! O Rabi  traidor  Ptria! O
Rabi deve morrer!
Trmulo, agarrara a espada; e o seu olhar alargava-se, com uma
fulgurao de revolta, como chamando avidamente os combates
e a glria dos suplcios.
Ento Osnias ergueu-se apoiado a um basto que rematava
numa pinha de ouro. Um penoso cuidado parecia agora anuviar
a sua velhice leviana. E comeou a dizer, de manso e tristemente,
como quem atravs do entusiasmo e da doutrina aponta o
mandato iniludvel da necessidade:
- Decerto, decerto, pouco importa que um visionrio se diga
messias e filho de Deus; ameace destruir a lei e destruir o templo.
O Templo e a Lei podem bem sorrir e perdoar, certos da
sua eternidade... Mas, oh Manasss, as nossas leis so suaves;
e no creio que se deva ir acordar o carrasco a Garebe, porque
um Rabi de Galilia, que se lembra dos filhos de Judas de
Gamala pregados na cruz, aconselha prudncia e malcia nas
relaes com o romano!  Manasss, robustas so as tuas
mos; mas podes tu, com elas, desviar a corrente do Jordo, da
terra de Cana para a terra da Tracauntida? No. Nem podes
tambm impedir que as legies de Csar, que cobriram as cidades
da Grcia, venham cobrir o pas de Jud! Sbio e forte era
Judas Macabeu, e fez amizade com Roma... Porque Roma 
sobre a terra como um grande vento da natureza; quando ele
vem, o insensato oferece-lhe o peito e  derrubado; mas o homem
prudente recolhe  sua morgada e est quieto. Indomvel
era a Galcia; Filipe e Perseu tinham exrcitos na plancie;
Antoco, o Grande comandava cento e vinte elefantes e carros
de guerra inumerveis... Roma passou; deles que resta? Escravos,
pagando tributos...
Curvara-se, pesadamente, como um boi sob o jugo. Depois,
fixando sobre ns os olhos midos que dardejavam um brilho
inexorvel e frio, prosseguiu, sempre de manso e sutil:
- Mas em verdade vos digo, que esse Rabi de Galilia deve
morrer! Porque  o dever do homem que tem bens na terra e
searas, apagar depressa com a sandlia, sobre as lajes da eira,
a fagulha que ameaa inflamar-lhe a meda... Com o romano em
Jerusalm, todo aquele que venha e se proclame Messias, como
o de Galilia,  nocivo e perigoso para Israel. O romano no
compreende o reino do cu que ele promete; mas v que essas
prdicas, essas exaltaes divinas, agitam sombriamente o povo
dentro dos prticos do templo... E ento diz: na verdade este
templo, com o seu ouro, as suas multides, e tanto zelo,  um
perigo para a autoridade de Csar na Judia... E logo, lentamente,
anula a fora do templo diminuindo a riqueza, os privilgios
do seu sacerdcio. J para nossa humilhao, as vestes
pontificais so guardadas no errio da Torre Antnia; amanh
ser o candelabro de ouro! J o pretor usou, para nos empobrecer,
o dinheiro do Corb! Amanh os dzimos da colheita, o
dos gados, o dinheiro da oferenda, o bolo das trombetas, os
tributos rituais, todos os haveres do sacerdcio, at as viandas
dos sacrifcios, nada ser nosso, tudo ser do romano! E s nos
ficar o bordo para irmos mendigar nas estradas de Samaria, 
espera dos mercadores ricos da Decpola... Em verdade vos
digo, se quisermos conservar as e os tesouros, que so nossos
pela antiga lei, e que fazem o esplendor de Israel, devemos
mostrar ao romano, que nos vigia, um templo quieto, policiado,
submisso, contente, sem fervores e sem Messias!... O Rabi
deve morrer!
Assim diante de mim falou Osnias, filho de Beotos, e membro
de Sanedrim.
Ento o magro historiador dos Herodes, cruzando com reverncia
as mos sobre o peito, saudou trs vezes aqueles homens
facundos. Gade, imvel, orava. No azul da janela uma abelha
cor de ouro zumbia, em tomo da flor de madressilva. E Topsius
dizia com pompa:
- Homens que me haveis acolhido! A verdade abunda nos vossos
espritos, como a uva abunda nas videiras! Vs sois trs
torres que guardais Israel entre as naes; uma defende a unidade
da religio; outra mantm o entusiasmo da ptria; e a terceira,
que s tu, venerando filho de Beotos, cauto e ondeante
como a serpente que amava Salomo, protege uma cousa mais
preciosa, que  a ordem!... Vs sois trs torres; e contra cada
uma o Rabi de Galilia ergue o brao e lana a primeira pedrada!
Mas vs guardais Israel e o seu Deus e os seus bens, e no
vos deveis deixar derrocar!... Em verdade, agora o reconheo,
Jesus e o judasmo nunca poderiam viver juntos.
E Gamaliel, com o gesto de quem quebra uma vara frgil, disse,
mostrando os dentes brancos:
- Por isso o crucificamos!
Foi como uma faca acerada que, lampejando e salvando, se
viesse cravar no meu peito! Arrebatei, sufocado, a manga do
douto historiador:
- Topsius! Topsius! Quem  esse Rabi que pregava em Galilia
e faz milagres e vai ser crucificado?
O sbio doutor arregalou os olhos com tanto pasmo, como se
eu lhe perguntasse qual era o astro que, dalm d9s montes, traz
a luz da manh. Depois, secamente:
- Rabi Jeschoua bar Joseph, que veio de Nazar em Galilia, a
quem alguns chamam Jesus e outros tambm chamam o Cristo.
- O nosso! - gritei, vacilando, como um homem atordoado. E
os meus joelhos catlicos quase bateram as lajes, num impulso
de ficar ali cado, enrodilhado no meu pavor, rezando desesperadamente
e para sempre. Mas logo como uma labareda chamejou
por todo o meu ser o desejo de correr ao seu encontro e
pr os meus olhos mortais no corpo do meu Senhor, no seu
corpo humano e real, vestido do linho de que os homens se
vestem, coberto com o p que levantam os caminhos humanos!...
E ao mesmo tempo, mais do que treme a folha num spero
vento, tremia a minha alma num terror sombrio, o terror do
servo negligente diante do amo justo! Estava eu bastante purificado,
com jejuns e teros, para afrontar a face fulgurante do
meu Deus? No! Oh mesquinha e amarga deficincia da minha
devoo! Eu no beijara jamais, com suficiente amor, o seu p
dorido e roxo na sua Igreja da Graa! Ai de mim! Quantos domingos,
nesses tempos carnais em que a Adlia, sol da minha
vida, me esperava na Travessa dos Cadas, fumando e em camisa,
no maldissera eu a lentido das missas e a monotonia
dos septenrios! E sendo assim, do crnio  sola dos ps uma
crosta de pecado, como poderia meu corpo no tombar, j rprobo,
j tisnado, quando os dous globos dos olhos do Senhor,
como duas metades do cu, se voltassem vagarosamente para
mim?
Mas ver Jesus! Ver como eram os seus cabelos, que pregas
fazia a sua tnica, e o que acontecia na terra quando os seus
lbios se abriam!... Para alm desses eirados onde as mulheres
atiravam gros s pombas; numa dessas ruas de onde me chegava
claro e cantado o prego dos vendedores de pes zimos,
ia passando talvez, nesse temeroso instante, entre barbudos,
graves soldados romanos, Jesus, meu Salvador, com uma corda
amarrada nas mos. A lenta aragem que balanava na janela o
ramo de madressilva, e lhe avivava o aroma, acabava talvez de
roar a fronte do meu Deus, j ensangentada de espinhos! Era
s empurrar aquela porta de cedro, atravessar o ptio onde
gemia a m do moinho domstico, e logo, na rua, eu poderia
ver, presente e corpreo, o meu Senhor Jesus to realmente e
to bem como o viram So Joo e So Mateus. Seguiria a sua
sacra sombra no muro branco - onde cairia tambm a minha
sombra. Na mesma poeira que as minhas solas pisassem - beijaria
a pegada ainda quente dos seus ps! E abafando com
ambas as mos o barulho do meu corao, eu poderia surpreender,
sado da sua boca inefvel, um ai, um soluo, um queixume,
uma promessa! Eu saberia ento uma palavra nova do
Cristo, no escrita no Evangelho; e s eu teria o direito
pontifical de a repelir s multides prostradas. A minha autoridade
surgia, na Igreja, como a de um testamento novssimo. Eu
era uma testemunha indita da paixo. Tomava-me S.
Teodorico Evangelista!
Ento, com uma desesperada ansiedade, que espantou aqueles
orientais de maneiras mesuradas, eu gritei:
- Onde o posso ver? Onde est Jesus de Nazar, meu Senhor?
Nesse momento um escravo, correndo na ponta leve das sandlias,
veio cair de bruos nas lajes, diante de Gamaliel; beijava-
lhe as franjas da tnica; as suas costelas magras arquejavam;
por fim murmurou, exausto:
- Amo, o Rabi est no Pretrio!
Gade emergiu da sua orao com um salto de fera, apertou em
torno dos rins a corda de ns, e correu arrebatadamente, com o
capuz solto, espalhando em redor o sulco louro dos seus cabelos
revoltos. Topsius traara a sua capa branca, com essas pregas
de toga latina que lhe davam a solenidade de um mrmore;
e tendo comparado a hospitalidade de Gamaliel  de Abrao,
bradou-me triunfantemente:
- Ao Pretrio!
Muito tempo segui Topsius atravs da antiga Jerusalm, numa
caminhada ofegante, todo perdido no tumulto dos meus pensamentos.
Passamos junto a um jardim de rosas, do tempo dos
profetas, esplndido e silencioso que dous levitas guardavam
com lanas douradas. Depois foi uma rua fresca, toda
aromatizada pelas lojas dos perfumistas, ornadas de tabuletas
em forma de flores e de almofarizes; um toldo de esteiras finas
assombreava as portas; o cho estava regado e juncado de
erva-doce e de folhas de anmonas; e pela sombra
preguiavam moos lnguidos, de cabelos frisados em cachos,
de olheiras pintadas, mal podendo erguer, nas mos pesadas de
anis, as sedas roagantes das tnicas cor de cereja e cor de
ouro. Alm dessa rua indolente abria-se uma praa, que escaldava
ao sol, com uma poeira grossa e branca, onde os ps se
enterravam; solitria, no meio, uma vetusta palmeira arqueava o
seu penacho, imvel e como de bronze; e ao fundo, negrejavam
na luz as colunatas de granito do velho palcio de Herodes. A
era o Pretrio.
Defronte do arco de entrada, onde rondavam, com plumas pretas
no elmo reluzente, dous legionrios da Sria - um bando de
raparigas, tendo detrs da orelha, uma rosa e no regao coifas
de esparto, apregoavam os pes zimos. Sob um enorme guarda-
sol de penas, cravado no cho, homens de mitra de feltro,
com tbuas sobre os joelhos e balanas, trocavam a moeda
romana. E os vendedores de gua, com os seus odres felpudos,
lanavam um grito trmulo. Entramos: e logo um terror me envolveu.
Era um claro ptio, aberto sob o azul, lajeado de mrmore, tendo
de cada lado uma arcada, elevada em terrao, com parapeito,
fresca e sonora como um claustro de mosteiro. Da arcaria
ao fundo, encimada pela frontaria austera do palcio, estendiase
um velrio, de um estofo escarlate franjado de ouro, fazendo
uma sombra quadrada e dura; dous mastros de pau de
sicmoro sustentavam-no, rematados por uma flor de ltus.
A apertava-se um magote de gente - onde se confundiam as
tnicas dos fariseus orladas de azul, o rude saio de estamenha
dos obreiros apertado com um cinto de couro, os vastos
albornozes listrados de cinzento e branco dos homens de
Galilia, e a capa carmesim de grande capuz dos mercadores
de Tiberade; algumas mulheres, j fora do abrigo do velrio,
alavam-se na ponta das chinelas amarelas, estendendo por
cima do rosto contra o sol uma dobra do manto ligeiro; e daquela
multido saa um cheiro morno de suor e de mirra. Para
alm, por cima dos turbantes alvos apinhados, brilhavam pontas
de lana. E ao fundo, sobre um slio, um homem, um magistrado,
envolto nas pregas nobres de uma toga pretexta, e mais
imvel que um mrmore, apoiava sobre o punho forte a barba
densa e grisalha; os seus olhos encovados pareciam indolentemente
adormecidos; uma fita escarlate prendia-lhe os cabelos; e
por trs, sobre um pedestal que fazia espaldar  sua cadeira
curul, a figura de bronze da loba romana abria de travs a goela
voraz. Perguntei a Topsius quem era aquele magistrado melanclico.
- Um certo Pncio, chamado Pilatos, que foi prefeito em
Batvia.
Lentamente caminhei pelo ptio, procurando, como num templo,
fazer mais sutil e respeitoso o rudo das minhas solas. Um
grave silncio caa do cu rutilante; s, por vezes, rompia do
lado dos jardins, spero e triste, o gritar dos paves. Estendidos
no cho, junto  balaustrada do claustro, negros dormitavam
com a barriga ao sol. Uma velha contava moedas de cobre,
acocorada diante do seu gigo de fruta. Em andaimes, postos
contra uma coluna, havia trabalhadores compondo o telhado.
E crianas, a um canto, jogavam com discos de ferro que
tiniam de leve nas lajes.
Subitamente, algum familiar tocou no ombro do historiador dos
Herodes. Era o formoso Manasss; e com ele vinha um velho
magnfico, de uma nobreza de pontfice, a quem Topsius beijou
filialmente a manga da samarra branca, bordada de verdes folhas
de parra. Uma barba de neve, lustrosa de leo, caa-lhe at
 faixa que o cingia; e os ombros largos desapareciam sob a
esparsa abundncia dos cabelos alvos, saindo do turbante
como uma pura romeira de arminhos reais. Uma das mos,
cheia de anis, apoiava-se a um forte basto de marfim; e a outra
conduzia uma criana plida, que tinha os olhos mais belos
que estrelas, e semelhava, junto ao ancio, um lrio  sombra de
um cedro.
- Subi  galeria - disse-nos Manasss. - Tereis l repouso e
frescura...
Seguimos o patriota; e eu perguntei cautelosamente a Topsius
quem era o outro to velho, to augusto.
- Rabi Rob - murmurou com venerao o meu douto amigo. -
Uma luz do Sanedrim, facundo e sutil entre todos, e confidente
de Caifs...
Reverente, saudei trs vezes Rabi Rob - que se sentara num
banco de mrmore, pensativo, aconchegando, sobre o seu vasto
peito ancestral, a cabea da criana mais loura que os milhos
de Jop. Depois continuamos devagar pela galeria sonora e clara
na sua extremidade brilhava uma porta suntuosa de cedro
com chapas de prata lavradas; um pretoriano de Cesaria guardava-
a, sonolento, encostado ao seu alto escudo de vime. A,
comovido, caminhei para o parapeito; e logo os meus olhos
mortais encontraram l embaixo a forma encarnada do meu
Deus!
Mas, oh rara surpresa da alma varivel; no senti xtase nem
terror! Era como se de repente me tivessem fugido da memria
longos, laboriosos sculos de histria e de religio. Nem pensei
que aquele homem seco e moreno fosse o remidor da humanidade...
Achei-me inexplicavelmente anterior nos tempos. Eu j
no era Teodorico Raposo, cristo e bacharel; a minha individualidade
como que a perdera,  maneira de um manto que escorrega,
nessa carreira ansiosa desde a casa de Gamaliel. Toda a
antigidade das cousas ambientes me penetrara, me refizera um
ser; eu era tambm um antigo. Era Teodoricus, um lusitano, que
viera numa galera das praias ressoantes do Promontrio Magno,
e viajava, sendo Tibrio imperador, em terras tributrias de
Roma. E aquele homem no era Jesus, nem Cristo, nem Messias
- mas apenas um moo de Galilia que, cheio de um grande
sonho, desce da sua verde aldeia para transfigurar todo um
mundo e renovar todo um cu e encontra a uma esquina um
netenim do templo que o amarra e o traz ao pretor, numa manh
de audincia, entre um ladro que roubara na estrada de
Siqum e outro que atirara facadas numa rixa em Em!
Num espao ladrilhado de mosaico, em face do slio onde se
erguia o assento curul do pretor, sob a loba romana - Jesus estava
de p, com as mos cruzadas e frouxamente ligadas por
uma corda que rojava no cho. Um largo albornoz de l grossa,
em riscas pardas, orlado de franjas azuis, cobria-o at aos ps,
calados de sandlias j gastas pelos caminhos do deserto e
atadas com correias. No lhe ensanguentava a cabea essa coroa
inumana de espinhos, de que eu lera nos Evangelhos; tinha
um turbante branco, feito de uma longa faixa de linho enrolada,
cujas pontas lhe pendiam de cada lado sobre os ombros; um
cordel amarrava-lho por baixo da barba encaracolada e aguda.
Os cabelos secos, passados por trs das orelhas, caam-lhe em
anis pelas costas; e no rosto magro, requeimado, sobre sobrancelhas
densas, unidas num s trao, negrejava com uma
profundidade infinita o resplendor dos seus olhos. No se movia,
forte e sereno diante do pretor. S algum estremecimento
das mos presas, traa o tumulto do seu corao; e s vezes
respirava longamente, como se o seu peito, acostumado aos
livres e claros ares dos montes e dos lagos de Galilia, sufocasse
entre aqueles mrmores, sob o pesado velrio romano, na
estreiteza formalista da lei.
A um lado, Sareias, o vogal do Sanedrim, tendo deposto no
cho o seu manto e o seu bculo dourado, ia desenrolando e
lendo uma tira escura de pergaminho, num murmrio cantado e
dormente. Sentado num escabelo, o assessor romano, sufocado
pelo calor j spero do ms de Nizam, refrescava com um leque
de folhas de heras secas, a face rapada e branca como um
gesso; um escriba, velho e ndio, numa mesa de pedra cheia de
tabulrios e de regras de chumbo, aguava miudamente os seus
clamos; e entre ambos o intrprete, um fencio imberbe, sorria
com a face no ar, com as mos na cinta, arqueando o peito
onde trazia pintado, sobre a jaqueta de linho, um papagaio vermelho.
Em torno ao velrio, constantemente voavam pombas. E
foi assim que eu vi Jesus de Galilia preso, diante do Pretor de
Roma...
No entanto Sareias, tendo enrolado em torno  haste de ferro o
pergaminho escuro, saudou Pilatos, beijou um sinete sobre o
dedo, para marcar nos seus lbios o selo da verdade, e imediatamente
encetou uma arenga em grego, com textos, verbosa e
aduladora. Falava do tetrarca de Galilia, o nobre Antipas; louvava
a sua prudncia; celebrava seu pai Herodes, o Grande,
restaurador do templo... A glria de Herodes enchia a terra;
fora terrvel, sempre fiel aos csares; seu filho Antipas era engenhoso
e forte!... Mas reconhecendo a sua sabedoria, ele estranhava
que o tetrarca se recusasse a confirmar a sentena do
Sanedrim, que condenava Jesus  morte... No fora essa sentena
fundada nas leis que dera o Senhor? O justo Hano interrogara
o Rabi, que emudecera, num silncio ultrajante. Era essa
a maneira de responder ao sbio, ao puro, ao piedoso Hano?
Por isso um zeloso, sem se conter, atirara a mo violenta  face
do Rabi... Onde estava o respeito dos antigos tempos, e a venerao
do pontificado?
A sua voz cava e larga, rolava infindavelmente. Eu, cansado,
bocejava. Por baixo de ns, dous homens encruzados nas lajes
comiam tmaras de Betabara, que traziam no saio, bebendo
de uma cabaa. Pilatos, com o punho sob a barba, olhava sonolentamente
os seus borzeguins escarlates, picados de estrelas
de ouro.
E Sareias agora proclamava os direitos do templo. Ele era o
orgulho da nao, a morada eleita do Senhor! Csar Augusto
ofertara-lhe escudos e vasos de ouro... E esse templo, como o
respeitara o Rabi? Ameaando destru-lo! Eu derrocarei o
templo de Jeov e edific-lo-ei em trs dias! Testemunhas puras,
ouvindo esta rude impiedade, tinham coberto a cabea de
cinza, para afastar a clera do Senhor... Ora, a blasfmia atirada
ao santurio, ressaltava at ao seio de Deus!...
Sob o velrio, os fariseus, os escribas, os netenins do templo,
escravos srdidos, sussurravam como arbustos agrestes que um
vento comea a agitar. E Jesus permanecia imvel,
abstraidamente indiferente, com os olhos cerrados, como para
isolar melhor o seu sonho contnuo e formoso, longe das cousas
duras e vs que o maculavam. Ento o assessor romano ergueu-
se, deps no escabelo o seu leque de folhas, traou com
arte o manto forense, orlado de azul, saudou trs vezes o
Pretor, e a sua mo delicada comeou a ondear no ar, fazendo
cintilar uma jia.
- Que diz ele?...
- Cousas infinitamente hbeis - murmurou Topsius. - E um pedante,
mas tem razo. Diz que o Pretor no  um judeu; que
nada sabe de Jeov, nem lhe importam os profetas que se erguem
contra Jeov; e que a espada de Csar no vinga deuses
que no protegem Csar!... O romano  engenhoso!
Ofegando, o assessor recaiu languidamente no escabelo. E logo
Sareias volveu a arengar, sacudindo os braos para a multido
dos fariseus, como a evocar os seus protestos, e refugiando-se
na sua fora. Agora, mais retumbante, acusava Jesus, no da
sua revolta contra Jeov e o templo, mas das suas pretenses
como prncipe da casa de Davi! Toda a gente em Jerusalm o
tinha visto, havia quatro dias, entrar pela Porta de Ouro, num
falso triunfo, entre palmas verdes, cercado de uma multido de
galileus, que gritavam -Hosana ao filho de Davi, hosana ao rei
de Israel!...
- Ele  o filho de Davi, que vem para nos tornar melhores! gritou
ao longe a voz de Gade, cheia de persuaso e de amor.
Mas de repente Sareias colou ao corpo as mangas franjadas,
mudo e mais teso que um conto de lana; o escriba romano, de
p, com os punhos fincados na mesa, vergava o cachao reverente
e ndio; o assessor sorria, atento. Era o Pretor que ia interrogar
o Rabi; e eu, tremendo, vi um legionrio empurrar Jesus,
que ergueu a face...
Debruado de leve para o Rabi, com as mos abertas que pareciam
soltar, deixar cair todo o interesse por esse pleito ritual
de sectrios arguciosos, Pncio murmurou, enfastiado e incerto:
- s tu ento o rei dos judeus?... Os da tua nao trazem-te
aqui!... Que fizeste tu?... Onde  o teu reino?
O intrprete, enfatuado, perfilado junto ao slio de mrmore,
repetiu muito alto estas cousas na antiga lngua hebraica dos
livros santos; e, como o Rabi permanecia silencioso, gritou-as
na fala caldaica que se usa em Galilia.
Ento Jesus deu um passo. Eu ouvi a sua voz. Era clara, segura,
dominadora e serena:
- O meu reino no  daqui! Se por vontade de meu pai eu fosse
Rei de Israel, no estaria diante de ti com esta corda nas
mos... Mas o meu reino no  deste mundo!
Um grito estrugiu, desesperado:
- Tirai-o ento deste mundo!
E logo, como lenha preparada que uma fasca inflama, o furor
dos fariseus e dos serventes do templo irrompeu, crepitando,
em clamores impacientes:
- Crucificai-o! Crucificai-o!
Pomposamente o intrprete redizia em grego ao Pretor os brados
tumultuosos, lanados na lngua siraca que fala o povo em
Judia... Pncio bateu o borzeguim sobre o mrmore. Os dous
lictores ergueram ao ar as varas rematadas numa figura de
guia; o escriba gritou o nome de Caio Tibrio; e logo os braos
frementes se abaixaram, e foi como um terror diante da majestade
do povo romano.
De novo Pncio falou, lento e vago:
- Dizes ento que s rei... E que vens tu fazer aqui?
Jesus deu outro passo para o Pretor. A sua sandlia pousou
fortemente sobre as lajes, como se tomasse posse suprema da
terra. E o que saiu dos seus lbios trmulos pareceu-me fulgurar,
vivo no ar, como o resplendor que dos seus olhos negros
saiu.
- Eu vim a este mundo testemunhar a verdade! Quem desejar a
verdade, quem quiser pertencer  verdade tem de escutar a minha
voz!
Pilatos considerou-o um momento, pensativo; depois, encolhendo
os ombros:
- Mas, homem, o que  a verdade?
Jesus de Nazar emudeceu, e no Pretrio espalhou-se um silncio,
como se todos os coraes tivessem parado, cheios subitamente
de incerteza...
Ento, apanhando devagar a sua vasta toga, Pilatos desceu os
quatro degraus de bronze; e precedido dos lictores, seguido do
assessor, penetrou no palcio, por entre o rumor de armas dos
legionrios que o saudavam, batendo o ferro das lanas sobre o
bronze dos escudos.
Imediatamente elevou-se por todo o ptio um spero e ardente
sussurro, como de abelhas irritadas. Sareias perorava, brandindo
o bculo, entre os fariseus que apertavam as mos num terror.
Outros, afastados, cochichavam sombriamente. Um grande
velho, com um manto negro que esvoaava, corria numa nsia o
Pretrio, por entre os que dormiam ao sol, por entre os vendedores
de pes zimos, gritando: Israel est perdido! E eu vi
levitas fanticos arrancarem as borlas das tnicas, como numa
calamidade pblica.
Gade surgiu diante de ns, erguendo os braos triunfantes:
- O Pretor  justo e liberta o Rabi!...
E, com a face cheia de brilho, revelava-nos a doura da sua
esperana! O Rabi, apenas solto, deixaria Jerusalm - onde as
pedras eram menos duras que os coraes. Os seus amigos
armados esperavam-no em Betnia; e partiriam ao romper da
lua para o osis de Engada! L estavam aqueles que o amavam.
No era Jesus o irmo dos essnios? Como eles o Rabi pregava
o desprezo dos bens terrestres, a ternura pelos que so pobres,
a incomparvel beleza do reino de Deus...
Eu, crdulo, regozijava-me - quando um tumulto invadiu a galeria,
que um escravo viera regar. Era o bando escuro dos
fariseus, em marcha para o banco de pedra, onde Rabi Rob
conversava com Manasss, enrolando docemente nos dedos os
cabelos da criana, mais louros que os milhos. Topsius e eu
corremos para a turba intolerante. J Sareias, no meio, curvado,
mas com a firmeza de quem intima, dizia:
- Rabi Rob,  necessrio que vs falar ao Pretor e salvar a
nossa lei!
E logo, de todos os lados, foi um suplicar ansioso:
- Rabi, fala ao Pretor! Rabi, salva Israel!
Lentamente o velho erguia-se, majestoso como um grande
Moiss. E diante dele um levita, muito plido, vergava os joelhos,
murmurava a tremer:
- Rabi, tu s justo, sbio, perfeito e forte diante do Senhor!
Rabi Rob levantou as duas mos abertas para o cu; e todos
se curvaram como se o esprito de Jeov, obedecendo  muda
invocao, tivesse descido para encher aquele corao justo.
Depois, com a mo da criana na sua, ps-se a caminhar em
silncio atrs a turba fazia um rumor de sandlias lassas, sobre
as lajes de mrmore.
Paramos, amontoados, diante da porta de cedro, onde o
pretoriano cruzara a lana, depois de bater as argolas de prata.
Os pesados gonzos rangeram; um tribuno do palcio acudiu,
tendo na mo um longo galho de vide. Dentro era uma fria sala,
mal alumiada, severa, com os muros forrados de estuques escuros.
Ao centro erguia-se palidamente uma esttua de Augusto,
com o pedestal juncado de coroas de louro e de ramos votivos;
dous grandes tocheiros de bronze dourado reluziam aos cantos,
na sombra.
Nenhum dos judeus entrou - porque pisar em dia pascal um
solo pago, era cousa impura diante do Senhor. Sareias anunciou
altivamente ao tribuno que alguns da nao de Israel, 
porta do palcio de seus pais, estavam esperando o Pretor.
Depois pesou um silncio, cheio de ansiedade...
Mas dous lictores avanaram; e logo atrs, caminhando a passos
largos, com a vasta toga apanhada contra o peito, Pilatos
apareceu.
Todos os turbantes se curvaram, saudando o Procurador da
Judia. Ele parara junto  esttua de Augusto. E, como repetindo
o gesto nobre da figura de mrmore, estendeu a mo que
segurava um pergaminho enrolado, e disse:
- Que a paz seja convosco e com as vossas palavras... Falai!
Sareias, vogal do Sanedrim, adiantando-se, declarou que os
seus coraes vinham em verdade cheios de paz... Mas, tendo
o Pretor deixado o Pretrio, sem confirmar nem anular a sentena
do Sanedrim, que condenava Jesus-ben-Jos - eles se
achavam como o homem que v a uva na vinha, suspensa, sem
secar e sem amadurecer!
Pncio pareceu-me penetrado de eqidade e demncia.
- Eu interroguei o vosso preso - disse ele; e no lhe achei culpa
que deva punir o Procurador da Judia... Antipas Herodes, que
 prudente e forte, que pratica a vossa lei e ora no vosso templo,
interrogou-o tambm e nenhuma culpa nele encontrou...
Esse homem diz apenas cousas incoerentes, como os que falam
em sonhos... Mas as suas mos esto puras de sangue; nem
ouvi que ele escalasse o muro do seu vizinho... Csar no  um
amo inexorvel... Esse homem  apenas um visionrio.
Ento, com um sombrio murmrio, todos recuaram, deixando
Rabi Rob s no limiar da sala romana. Um brilho de jia tremia
na ponta da sua tiara; as suas cs caindo sobre os vastos
ombros, coroavam-no de majestade como a neve faz aos montes;
as franjas azuis do seu manto solto rojavam nas lajes, em
redor. Devagar, sereno, como se explicasse a lei aos seus discpulos,
ergueu a mo e disse:
- Oficial de Csar, Pncio, muito justo e muito sbio! O homem
que tu chamas visionrio, h anos que ofende todas as nossas
leis e blasfema o nosso Deus. Mas quando o prendemos ns,
quando te trouxemos ns? Somente quando o vimos entrar em
triunfo pela Porta de Ouro, aclamado como Rei da Judia. Porque
a Judia no tem outro rei seno Tibrio; e apenas um sedicioso
se proclama em revolta contra Csar, apressamo-nos a
castig-lo. Assim fazemos ns, que no temos mandado de
Csar, nem cobramos do seu errio; e tu, oficial de Csar, no
queres que seja castigado o rebelde a teu amo?
A face larga de Pncio, que uma sonolncia amolecia,
relampeou, raiada vivamente de sangue. Aquela tortuosidade de
judeus que, execrando Roma, apregoavam agora um zelo ruidoso
por Csar para poderem, em nome da sua autoridade,
saciar um dio sacerdotal - revoltou a retido do romano; e a
audaciosa admoestao foi intolervel ao seu orgulho. Desabridamente
exclamou, com um gesto que os sacudia:
- Cessai! Os procuradores de Csar no vm aprender, a uma
colnia brbara da sia, os seus deveres para com Csar!
Manasss que ao meu lado, j impaciente, puxava a barba,
afastou-se com indignao. Eu tremi. Mas o soberbo Rabi
prosseguiu, mais indiferente  ira de Pncio do que ao balar de
um anho que arrastasse s aras:
- Que faria o procurador de Csar, em Alexandria, se um visionrio
descesse de Bubastes, proclamando-se Rei do Egito? O
que tu no queres fazer nesta terra brbara da sia! Teu amo
d-te a guardar uma vinha, e tu deixas que entrem nela e que a
vindimem? Para que ests ento na Judia? Para que est a
sexta legio na Torre Antnia? Mas o nosso esprito  claro, e a
nossa voz  clara e alta bastante, Pncio, para que Csar a
oua!...
Pncio deu um passo lento para a porta. E com os olhos
faiscantes, cravados naqueles judeus que, astutamente, o iam
enlaando na trama sutil dos seus rancores religiosos:
- Eu no receio as vossas intrigas! - murmurou surdamente. Elio
Lama  meu amigo!... E Csar conhece-me bem!
- Tu vs o que no est nos nossos coraes! - disse Rabi
Rob, calmo como se conversasse  sombra do seu vergel. -
Mas ns vemos bem o que est no teu, Pncio! Que te importa
a ti a vida ou a morte de um vagabundo de Galilia?... Se tu no
queres, como dizes, vingar deuses cuja divindade no respeitas,
como podes querer salvar um profeta cujas profecias no
crs?... A tua malcia  outra, romano! Tu queres a destruio
de Jud!
Um estremecimento de clera, de paixo devota, passou entre
os fariseus; alguns palpavam o seio da tnica, como procurando
uma arma. E Rabi Rob continuava denunciando o Pretor, com
serenidade e lentido:
- Tu queres deixar impune o homem que pregou a insurreio,
declarando-se rei numa provncia de Csar, para tentar, pela
impunidade, outras ambies mais fortes e levar, outro Judas de
Gamala, a atacar as guarnies de Samaria! Assim preparas um
pretexto para abater sobre ns a espada imperial, e inteiramente
apagar a vida nacional da Judia. Tu queres uma revolta para
afogares em sangue, e apresentar-te depois a Csar como soldado
vitorioso, administrador sbio, digno de um proconsulado
ou de um governo na Itlia! E a isso que chamais a f romana?
Eu no estive em Roma, mas sei que a isso se chama l a f
pnica... No nos suponhas, porm, to simples como um pastor
de Idumia! Ns estamos em paz com Csar, e cumprimos
o nosso dever, condenando o homem que se revoltou contra
Csar... Tu no queres cumprir o teu, confirmando essa condenao?
Bem! Mandaremos emissrios a Roma, levando a nossa
sentena e a tua recusa, e tendo salvaguardado perante Csar a
nossa responsabilidade, mostraremos a Csar como procede na
Judia aquele que representa a lei do Imprio!... E agora,
Pretor, podes voltar ao Pretrio.
- E lembra-te dos escudos votivos - gritou Sareias. - Talvez
novamente vejas a quem Csar d razo!
Pncio baixara a face, perturbado. Decerto imaginava j ver
alm, num claro terrao junto ao Mar de Cprea, Sejano,
Cesnio, todos os seus inimigos, falando ao ouvido de Tibrio e
mostrando-lhe os emissrios do templo... Csar, desconfiado e
sempre inquieto, suspeitaria logo um pacto dele com esse Rei
dos Judeus, para sublevarem uma rica provinda imperial... E
assim a sua justia e o orgulho em a manter podiam custar-lhe o
proconsulado da Judia! Orgulho e justia foram ento, na sua
alma frouxa, como ondas um momento altas que uma sobre outra
se abatem, se desfazem. Veio at ao limiar da porta, devagar,
abrindo os braos, como trazido por um impulso magnnimo
de conciliao - e comeou a dizer, mais branco que a sua
toga:
- H sete anos que governo a Judia. Encontrastes-me jamais
injusto, ou infiel s promessas juradas?... Decerto, as vossas
ameaas no me movem... Csar conhece-me bem... Mas entre
ns, para proveito de Csar, no deve haver desacordo. Sempre
vos fiz concesses! Mais que nenhum outro procurador,
desde Copnio, tenho respeitado as vossas leis... Quando vieram
os dous homens de Samaria poluir o vosso templo, no os
fiz eu supliciar? Entre ns no deve haver dissenses, nem palavras
amargas...
Um momento hesitou; depois, esfregando lentamente as mos, e
sacudindo-as, como molhadas numa gua impura:
- Quereis a vida desse visionrio? Que me importa? Tomai-a...
No vos basta a flagelao? Quereis a cruz? Crucificai-o... Mas
no sou eu que derramo esse sangue!
O levita macilento bradou com paixo:
- Somos ns, e que esse sangue caia sobre as nossas cabeas!
E alguns estremeceram - crentes de que todas as palavras tm
um poder sobrenatural e tornam vivas as cousas pensadas.
Pncio deixara a sala; o decurio, saudando, cerrou a porta de
cedro. Ento Rabi Rob voltou-se, sereno, resplandecente
como um justo; e adiantando-se por entre os fariseus, que se
baixavam a beijar-lhe as franjas da tnica - murmurava com
uma grave doura:
- Antes sofra um s homem, do que sofra um povo inteiro!
Limpando as bagas de suor de que a emoo me alagara a testa,
ca, trmulo, sobre um banco. E, atravs da minha lassido,
confusamente distinguia no Pretrio dous legionrios, de
cinturo desapertado, bebendo numa grande malga de ferro,
que um negro ia enchendo com o odre suspenso aos ombros;
adiante uma mulher bela e forte, sentada ao sol, com os filhos
pendurados dos dous peitos nus; mais longe um pegureiro envolto
em peles, rindo e mostrando o brao manchado de sangue.
Depois cerrei os olhos; um momento pensei na vela que
deixara na tenda, ardendo junto ao meu catre, fumarenta e vermelha;
por fim roou-me um sono ligeiro... Quando despertei, a
cadeira curul permanecia vazia - com a almofada de prpura em
frente, sobre o mrmore, gasta, cavada pelos ps do Pretor; e
uma multido mais densa enchia, num longo rumor de arraial, o
velho trio de Herodes. Eram homens rudes, com capas curtas
de estamenha, sujas de p, como se tivessem servido de tapetes
sobre as lajes de uma praa. Alguns traziam balanas na
mo, gaiolas de rolas; e as mulheres que os seguiam, srdidas e
macilentas, atiravam de longe, com o brao fremente, maldies
ao Rabi. Outras, no entanto, caminhando na ponta das sandlias,
apregoavam baixo cousas nfimas e ricas, metidas no seio
entre as dobras dos saies - gros de aveia torrada, potes de
ungentos, corais, braceletes de filigrana de Sdron. Interroguei
Topsius; e o meu douto amigo, limpando os culos, explicoume
que eram decerto os mercadores contra quem Jesus, na
vspera de Pscoa, erguendo um basto, reclamara a estreita
aplicao da lei que interdiz trficos profanos no templo, fora
dos prticos de Salomo...
- Outra imprudncia do Rabi, D. Raposo! - murmurou com ironia
o fino historiador.
Entretanto, como cara a sexta hora judaica e findara o trabalho,
vinham entrando obreiros das tinturarias vizinhas, enodoados de
escarlate ou azul; escribas das sinagogas, apertando debaixo
dos braos os seus tabulrios; jardineiros com a fouce a tiracolo,
o ramo de murta no turbante; alfaiates com uma longa agulha
de ferro pendendo da orelha... Tocadores fencios a um canto
afinavam as harpas, tiravam suspiros das flautas de barro; e diante
de ns rondavam duas prostitutas gregas de Tiberade,
com perucas amarelas, mostrando a ponta da lngua e sacudindo
a roda da tnica, de onde voava um cheiro de mangerona.
Os legionrios, com as lanas atravessadas no peito, apertavam
uma cercadura de ferro em torno de Jesus; e eu, agora, mal podia
distinguir o Rabi atravs dessa multido sussurrante, em que
as consoantes speras de Moabe e do deserto se chocavam
por sobre a moleza grave da fala caldaica...
Por baixo da galeria veio tilintando uma sineta triste. Era um
hortelo que oferecia num cabaz de esparto, acamados sobre
folhas de parra, figos rachados de Betfag. Debilitado pelas
emoes, perguntei-lhe, debruado no parapeito, o preo daquele
mimo dos vergis que os evangelhos tanto louvam. E o
homem, rindo, alargou os braos, como se encontrasse o esperado
do seu corao:
- Entre mim e ti,  criatura da abundncia que vens dalm do
mar, que so estes poucos figos? Jeov manda que os irmos
troquem presentes e bnos! Estes frutos colhi-os no horto,
um a um,  hora em que o dia nasce no Hbron; so suculentos
e consoladores; poderiam ser postos na mesa de Hano!... Mas
que valem vs palavras entre mim e ti, se os nossos peitos se
entendem? Toma estes figos, os melhores da Sria, e que o Senhor
cubra de bens aquela que te criou!
Eu sabia que esta oferta era uma cortesia consagrada, em compras
e vendas, desde o tempo dos patriarcas. Cumpri tambm
o cerimonial; declarei que Jeov, o muito forte, me ordenava
que, com o dinheiro cunhado pelos prncipes, eu pagasse os
frutos da terra... Ento o hortelo abaixou a cabea, cedeu ao
mandamento divino; e pousando o cesto nas lajes, tomando um
figo em cada uma das mos negras e cheias de terra:
- Em verdade - exclamou - Jeov  o mais forte! Se ele o manda,
eu devo pr um preo a estes frutos da sua bondade, mais
doces que os lbios da esposa! Justo , pois,  homem abundante,
que por estes dous que me enchem as palmas, to perfumados
e frescos, tu me ds um bom traphik.
Oh Deus magnfico de Jud! O facundo hebreu reclamava por
cada figo um tosto da moeda real da minha ptria! Bradei-lhe:
-Irra, ladro! Depois, guloso e tentado, ofereci-lhe uma
dracma por todos os figos que coubessem no forro largo de um
turbante. O homem levou as mos ao seio da tnica, para a
despedaar na imensidade da sua humilhao. E ia invocar
Jeov, Elias, todos os profetas seus patronos quando o sapiente
Topsius, enojado, interveio secamente, mostrando-lhe uma mida
rodela de ferro que tinha por cunho um lrio aberto:
- Na verdade Jeov  grande! E tu s ruidoso e vazio como o
odre cheio de vento! Pois pelos figos do cesto inteiro te dou eu
este meah. E se no queres, conheo o caminho dos hortos to
bem como o do templo, e sei onde as guas doces de Enrogel
banham os melhores pomares... Vai-te!
O homem logo, trepando ansiosamente at ao parapeito de
mrmore, atulhou de figos a ponta do albornoz que eu lhe estendera,
carrancudo e digno. Depois, descobrindo os dentes
brancos, murmurou risonhamente que ns ramos mais benficos
que o orvalho do Carmelo!
Saborosa e rara me parecia aquela merenda de figos de Betfag
no palcio de Herodes. Mas apenas nos acomodramos com a
fruta no regao, reparei embaixo num velhito magro, que cravava
em ns humildemente uns olhos enevoados, queixosos, cheios
de cansao. Compadecido ia arremessar-lhe figos e uma
moeda de prata dos Ptolomeus - quando ele, mergulhando a
mo trmula nos farrapos que mal lhe velavam o peito cabeludo,
estendeu-me, com um sorriso macerado, uma pedra que
reluzia. Era uma placa oval de alabastro, tendo gravada uma
imagem do templo. E enquanto Topsius doutamente a examinava,
o velho foi tirando do seio outras pedras de mrmore, de
nix, de jaspe, com representaes do tabernculo no deserto,
os nomes das tribos entalhados, e figuras confusas em relevo,
simulando as batalhas dos macabeus... Depois ficou com os
braos cruzados; e no seu nobre rosto, escavado pelos cuidados,
luzia uma ansiedade, como se de ns somente esperasse
misericrdia e descanso.
Topsius deduziu que ele era um desses guebros, adoradores do
fogo e hbeis nas artes, que vo descalos at ao Egito, com
fachos acesos, salpicar sobre a esfinge o sangue de um galo
negro. Mas o velho negou, horrorizado - e tristemente murmurou
a sua histria. Era um pedreiro de Naim, que trabalhara no
templo e nas construes que Antipas Herodes erguia em
Bezeta. O aoute dos intendentes rasgara-lhe a carne; depois a
doena levara-lhe a fora, como a geada seca a macieira. E
agora, sem trabalho, com os filhos de sua filha a alimentar, procurava
pedras raras nos montes - e gravava nelas nomes santos,
stios santos, para as vender no templo aos fiis. Em vspera de
Pscoa, porm, viera um Rabi de Galilia cheio de clera que
lhe arrancava o seu po!...
- Aquele! - balbuciou sufocado, sacudindo a mo para o lado
de Jesus.
Eu protestei. Como lhe poderia ter vindo a injustia e a dor
desse Rabi, de corao divino, que era o melhor amigo dos pobres?
- Ento vendias no templo? - perguntou o terso historiador dos
Herodes.
- Sim - suspirou o velho, - era l, pelas festas, que eu ganhava o
po do longo ano! Nesses dias subia ao templo, ofertava a minha
prece ao Senhor, e junto  porta de Susa, diante do prtico
do rei, estendia a minha esteira e dispunha as minhas pedras que
brilhavam ao sol... Decerto, eu no tinha direito de pr ali tenda;
mas como poderia eu pagar ao templo o aluguer de um
cvado de lajedo, para vender o trabalho das minhas mos!
Todos os que apregoam  sombra, debaixo do prtico, sobre
tabuleiros de cedro, so mercadores ricos que podem satisfazer
a licena; alguns pagam um ciclo de ouro. Eu no podia, com
crianas em casa sem po... Por isso ficava a um canto, fora do
prtico, no pior stio. Ali estava bem encolhido, bem calado;
nem mesmo me queixava quando homens duros me empurravam,
ou me davam com os bastes na cabea. E ao p de mim
havia outros, pobres como eu: Eboim, de Jop, que oferecia um
leo para fazer crescer os cabelos, e Osias, de Ram, que
vendia flautas de barro... Os soldados da Torre Antnia que
fazem a ronda, passavam por ns e desviavam os olhos. At
Menahem, que estava quase sempre de guarda pela Pscoa,
nos dizia: - est bem, ficai, contanto que no apregoeis alto.
Porque todos sabiam que ramos pobres, no podamos pagar
o cvado de laje, e tnhamos nas nossas moradas crianas com
fome... Na Pscoa e nos tabernculos, vm da terra distante
peregrinos a Jerusalm; e todos me compravam uma imagem do
templo para mostrar na sua aldeia, ou uma das pedras da lua
que afugentam o demnio... As vezes, ao fim do dia, tinha feito
trs dracmas; enchia o saio de lentilha e descia ao meu casebre,
alegre, cantando os louvores do Senhor!...
Eu, de enternecido, esquecera a merenda. E o velho desafogava
o seu longo queixume:
- Mas eis que h dias esse Rabi de Galilia aparece no templo,
cheio de palavras de clera, ergue o basto e arremessa-se sobre
ns, bradando que aquela era a casa de seu pai, e que ns
a poluamos!... E dispersou todas as minhas pedras, que nunca
mais vi, que eram o meu po! Quebrou nas lajes os vasos de
leo de Eboim, de Jop, que nem gritava, espantado. Acudiram
os guardas do templo. Menahem acudiu tambm; at, indignado,
disse ao Rabi: - s bem duro com os pobres. Que autoridade
tens tu? E o Rabi falou de seu pai, e reclamou contra
ns a lei severa do templo. Menahem baixou a cabea... E ns
tivemos de fugir, apupados pelos mercadores ricos, que bem
encruzados nos seus tapetes de Babilnia, e com o seu lajedo
bem pago, batiam palmas ao Rabi... Ah! contra esses o Rabi
nada podia dizer; eram ricos, tinham pago!... E agora aqui
ando! Minha filha, viva e doente, no pode trabalhar, embrulhada
a um canto nos seus trapos; e os filhos de minha filha,
pequeninos, tm fome, olham para mim, vem-me to triste e
nem choram. E que fiz eu? Sempre fui humilde, cumpro o sab,
vou  sinagoga de Naim que  a minha, e as raras migalhas, que
sobravam do meu po, juntava-as para aqueles que nem migalhas
tm na terra... Que mal fazia eu vendendo? Em que ofendia
o Senhor? Sempre, antes de estender a esteira, beijava as lajes
do templo; cada pedra era purificada pelas guas lustrais... Em
verdade Jeov  grande, e sabe... Mas eu fui expulso pelo Rabi,
somente porque sou pobre!
Calou-se - e as suas mos magras, tatuadas de linhas mgicas,
tremiam, limpando as longas lgrimas que o alagavam.
Bati no peito, desesperado. E a minha angstia toda era por
Jesus ignorar esta desgraa, que, na violncia do seu
espiritualismo, suas mos misericordiosas tinham
involuntariamente criado, como a chuva benfica por vezes, fazendo
nascer a sementeira, quebra e mata uma flor isolada. Ento
para que no houvesse nada imperfeito na sua vida, nem
dela ficasse uma queixa na terra - paguei a divida de Jesus (assim
seu pai perdoe a minha!), atirando para o saio do velho
moedas considerveis, dracmas, crisos gregos de Filipe, ureos
romanos de Augusto, at uma grossa pea da Cirenaica, que eu
estimava por ter uma cabea de Zeus Amon, que parecia a minha
imagem. Topsius juntou a este tesouro um lepta de cobre -
que tem em Judia o valor de um gro de milho...
O velho pedreiro de Naim empalidecia, sufocado. Depois, com
o dinheiro numa dobra do saio, bem apertado contra o peito,
murmurou tmida e religiosamente, erguendo os olhos ainda molhados
para as alturas:
- Pai, que ests nos cus, lembra-te da face deste homem, que
me deu o po de longos dias!...
E soluando, sumiu-se entre a turba - que, agora, de todo o
trio rumorosamente aflua, se apinhava em torno aos mastros
altos do velrio. O escriba aparecera, mais vermelho e limpando
os beios. Ao lado do Rabi e dos guardas do templo,
Sareias viera perfilar-se encostado ao seu bculo. Depois, entre
um brilho de armas, surgiram as varas brancas dos lictores; e
novamente Pncio, plido e pesado, na sua vasta toga, subiu os
degraus de bronze, retomou o assento curul.
Um silncio caiu, to atento, que se ouviam as buzinas tocando
ao longe na Torre Mariana. Sareias desenrolou o seu escuro
pergaminho, estendeu-o sobre a mesa de pedra entre os
tabulrios; e eu vi as mos gordas e morosas do escriba traarem
uma rubrica, estamparem um selo sob as linhas vermelhas
que condenavam  morte Jesus de Galilia, meu Senhor... Depois
Pncio Pilatos, com uma dignidade indolente, erguendo
apenas de leve o brao nu, confirmou em nome de Csar a
sentena do Sanedrim, que julga em Jerusalm...
Imediatamente Sareias atirou sobre o turbante uma ponta do
manto, ficou orando, com as mos abertas para o cu. E os
fariseus triunfavam; junto a ns, dous muito velhos beijavam-se
em silncio nas barbas brancas; outros sacudiam no ar os bastes,
ou lanavam sarcasticamente a aclamao forense dos
romanos: Bene et belle! Non potest melius!
Mas de sbito o intrprete apareceu em cima de um escabelo,
alteando sobre o peito o seu papagaio flamante. A turba emudecera,
surpreendida. E o fencio, depois de ter consultado com
o escriba, sorriu, gritou em caldaico alargando os braos cercados
de manilhas de coral:
Escutai! Nesta vossa festa de Pscoa, o Pretor de Jerusalm
costuma, desde que Valrio Grato assim o determinou, e com
assenso de Csar, perdoar a um criminoso... O Pretor propevos
o perdo deste... Escutai ainda! Vs tendes tambm o direito
de escolher, vs mesmos, entre os condenados... O Pretor
tem em seu poder, nos ergstulos de Herodes, outro sentenciado
 morte...
Hesitou, e debruado do escabelo, interrogava de novo o
escriba, que remexia numa atarantao os papiros e os
tabulrios. Sareias, sacudindo a ponta do manto que escondia a
sua orao, ficara assombrado para o Pretor, com as mos
abertas no ar. Mas j o intrprete bradava, erguendo mais a
face risonha:
- Um dos condenados  Rabi Jeschoua, que a tendes, e que se
disse filho de Davi...  esse que prope o Pretor. O outro, endurecido
no mal, foi preso por ter morto um legionrio traioeiramente,
numa rixa, ao p do Xisto. O seu nome  Barrabs...
Escolhei!
Um grito brusco e roufenho partiu dentre os fariseus:
- Barrabs!
Aqui e alm, pelo trio, confusamente ressoou o nome de
Barrabs. E um escravo do templo, de saio amarelo, pulando
at aos degraus do slio, rompeu a berrar, em face de Pncio,
com palmadas furiosas nas coxas:
- Barrabs! Ouve bem! Barrabs! O povo s quer Barrabs!
A haste de um legionrio f-lo rolar nas lajes. Mas j toda a
multido, mais leve e fcil de inflamar do que a palha na meda,
clamava por Barrabs; uns com furor, batendo as sandlias e os
cajados ferrados como para aluir o Pretrio; outros de longe,
encruzados ao sol, indolentes e erguendo um dedo. Os vendilhes
do templo, rancorosos, sacudindo as balanas de ferro e
repicando sinetas, berravam, por entre maldies ao Rabi:
Barrabs  o melhor! E at as prostitutas de Tiberade, pintadas
de vermelho como dolos, feriam o ar de gritos silvantes:
- Barrabs! Barrabs!
Raros ali conheciam Barrabs; muitos, decerto, no odiavam o
Rabi - mas todos engrossavam o tumulto prontamente, sentindo,
nessa reclamao do preso que atacara legionrios, um ultraje
ao Pretor romano, togado e augusto no seu tribunal.
Pncio, no entanto, indiferente, traava letras numa vasta lauda
de pergaminho pousada sobre os joelhos. E em torno os clamores
disciplinados retumbavam em cadncia, como malhos numa
eira:
- Barrabs! Barrabs! Barrabs!
Ento Jesus, vagarosamente, voltou-se para aquele mundo duro
e revoltoso que o condenava; e nos seus refulgentes olhos umedecidos,
no fugitivo tremor dos seus lbios, s transpareceu
nesse instante uma mgoa misericordiosa pela opaca inconscincia
dos homens, que assim empurravam para a morte o melhor
amigo dos homens... Com os pulsos presos, limpou uma
gota de suor; depois ficou diante do Pretor, to imperturbado e
quedo, como se j no pertencesse a terra.
O escriba, batendo com uma rgua de ferro na pedra da mesa,
trs vezes bradara o nome de Csar. O tumulto ardente esmorecia.
Pncio ergueu-se; e grave, sem trair impacincia ou clera,
lanou, sacudindo a mo, o mandado final:
- Ide e crucificai-o!
Desceu o estrado; a turba batia ferozmente as palmas.
Oito soldados da coorte siraca apareceram, apetrechados em
marcha, com os escudos revestidos de lona, as ferramentas
entrouxadas, e o largo cantil da posca. Sareias, vogal do
Sanedrim, tocando no ombro de Jesus, entregou-o ao decurio;
um soldado desapertou-lhe as cordas, outro tirou-lhe o
albornoz de l; e eu vi o doce Rabi de Galilia dar o seu primeiro
passo para a morte.
Apressados, enrolando o cigarro, deixamos logo o palcio de
Herodes, por uma passagem que o douto Topsius conhecia,
lbrega e mida, com fendas gradeadas de onde vinha um canto
triste de escravos encarcerados... Samos a um terreiro, abrigado
pelo muro de um jardim todo plantado de ciprestes. Dous
dromedrios deitados no p ruminavam, junto de um monto de
ervas cortadas. E o alto historiador tomava j o caminho do
templo, quando, sob as runas de um arco que a hera cobria,
vimos povo apinhado em torno de um essnio, cujas mangas de
alvo linho batiam o ar como as asas de um pssaro irritado.
Era Gade, rouco de indignao, clamando contra um homem
esgrouviado, de barba rala e ruiva, com grossas argolas de ouro
nas orelhas, que tremia e balbuciava:
- No fui eu, no fui eu...
- Foste tu! - bradava o essnio, estampando a sandlia na terra.
- Conheo-te bem. Tua me  cardadeira em Cafarnaum, e
maldita seja pelo leite que te deu!...
O homem recuava, baixando a cabea, como um animal encurralado
 fora:
- No fui eu! Eu sou Refraim, falho de Elizer, de Ram! Sempre
todos me conheceram so e forte como a palmeira nova!
- Torto e intil eras tu como um sarmento velho de vide, co e
filho de um co! - gritou Gade. - Vi-te bem... Foi em
Cafarnaum, na viela onde est a fonte, ao p da sinagoga, que
tu apareceste a Jesus, Rabi de Nazar! Beijavas-lhe as sandlias,
dizias: Rabi, cura-me! Rabi, v esta mo que no pode trabalhar!
E mostravas-lhe a mo, essa, a direita, seca, mirrada e
negra, como o ramo que definhou sobre o tronco! Era no sab;
estavam os trs chefes da sinagoga, e Elzar, e Simeo. E todos
olhavam Jesus para ver se ele ousaria curar no dia do Senhor...
Tu choravas, de rojo no cho. E por acaso o Rabi repeliu-te?
Mandou-te procurar a raiz do baraz? Ah co, filho de um co!
O Rabi, indiferente s acusaes da sinagoga, e s escutando a
sua misericrdia, disse-te: estende a mo! Tocou-a, e ela reverdeceu
logo como a planta regada pelo orvalho do cu! Estava
s, forte, firme; e tu movias ora um dedo, ora outro, espantado
e tremendo.
Um murmrio de enlevo correu entre a multido maravilhada
pelo doce milagre. E o essnio exclamava, com os braos trmulos
no ar:
- Assim foi a caridade do Rabi! E estendeu-te ele a ponta do
manto, como fazem os rabis de Jerusalm, para que lhe deitasses
dentro um ciclo de prata? No. Disse aos seus amigos que
te dessem da proviso de lentilha... E tu largaste a correr pelo
caminho refeito e gil, gritando para o lado da tua casa: Oh
me, oh me estou curado!... E foste tu, porco e filho de porco,
que h pouco no Pretrio pedias a cruz para o Rabi e gritavas
por Barrabs! No negues, boca imunda; eu ouvi-te; estava
por trs de ti e via incharem-te as cordoveias do pescoo, com
o furor da tua ingratido!
Alguns, escandalizados, gritavam: Maldito! Maldito! Um velho,
com justiceira gravidade, apanhara duas grossas pedras. E
o homem de Cafarnaum, encolhido, esmagado, ainda rosnou
surdamente:
- No fui eu, no fui eu... Eu sou de Ram!
Gade, furioso, agarrou-o pelas barbas:
- Nesse brao, quando o arregaaste diante do Rabi, todos te
viram duas cicatrizes curvas, como de dous golpes de foice!... E
tu vais mostr-las agora, co e filho de um co!
Despedaou-lhe a manga da tnica nova; arrastou-o em redor,
apertado nas suas mos de bronze, como um bode teimoso;
mostrou bem as duas cicatrizes, lvidas no plo ruivo; e assim o
arremessou desprezivelmente para entre o povo - que, levantando
o p do caminho, perseguiu o homem de Cafarnaum com
apupos e com pedradas...
Acercamo-nos de Gade sorrindo, louvando a sua fidelidade a
Jesus. Ele, acalmado, estendera as mos a um vendedor de
gua, que lhas purificava com um largo jorro do seu odre felpudo;
depois, limpando-as  toalha de linho que lhe pendia do
cinto:
- Escutai! Jos de Ramata reclamou o corpo do Rabi; o Pretor
concedeu-lhe... Esperai-me  nona hora romana no ptio de
Gamaliel... Onde ides?
Topsius confessou que amos ao templo, por motivos intelectuais
de arte, de arqueologia...
- Vo  aquele que admira pedras! - rosnou o altivo idealista.
E afastou-se puxando o capuz sobre a face, por entre as bnos
do povo que cr e ama os essnios.
Para poupar, at ao templo, a rude caminhada pelo Tiropeu e
pela ponte do Xisto, tomamos duas liteiras - das que um liberto
de Pncio ultimamente alugava, junto ao Pretrio, a moda de
Roma.
Cansado, estirei-me, com as mos sob a nuca, no colcho de
folhas secas que cheirava a murta; e lentamente comeou a invadir-
me a alma uma inquietao estranha, temerosa, que j no
Pretrio me roara de leve como a asa arrepiada de uma ave
agourenta... Ia eu ficar para sempre nesta cidade forte dos judeus?
Perdera eu irremediavelmente a minha individualidade de
Raposo, de catlico, de bacharel, contemporneo do Times e
do gs - para me tornar um homem da Antigidade clssica,
coevo de Tibrio? E, dado este mirfico retrogresso nos tempos,
se voltasse  minha ptria, que iria eu encontrar  beira do rio
claro...
Decerto encontraria uma colnia romana; na encosta da colina
mais fresca, uma edificao de pedra onde vive o procnsul; ao
lado um templo pequeno de Apolo ou de Marte, coberto de
lousa; nos altos um campo entrincheirado, onde esto os legionrios;
e em redor a vila lusitana, esparsa, com os seus caminhos
agrestes, cabanas de pedra solta, alpendres para recolher
o gado, e estacadas no lodo onde se amarram jangadas... Assim
encontraria a minha ptria. E que faria l, pobre, solitrio?
Seria pastor nos montes? Varreria as escadarias do templo, racharia
a lenha das coortes para ganhar um salrio romano?...
Misria incomparvel!
Mas se ficasse em Jerusalm? Que carreira tomaria nesta sombria,
devota cidade da sia? Tornar-me-ia um judeu, rezando o
Esquema, cumprindo o Sab, perfumando a barba de nardo,
indo preguiar nos trios do templo, seguindo as lies de um
Rabi, e passeando s tardes, com um basto dourado, nos jardins
de Garebe entre os tmulos?... E esta existncia igualmente
me parecia pavorosa!... No! A ficar encarcerado no mundo
antigo com o doutssimo Topsius, ento deveramos galopar
nessa mesma noite, ao erguer da lua, para Jos; de l embarcar
em qualquer trirreme fencia que parasse para Itlia; e ir habitar
Roma, ainda que fosse numa das escuras vielas do Velabro,
numa dessas altas, fumarentas trapeiras, com duzentas escadas
a subir, empestadas pelos guisados de alho e tripa, que escassamente
atravessam duas calendas sem desabar ou arder.
Assim me inquietava quando a liteira parou; descerrei as cortinas;
vi ante mim os vastos granitos da muralha do templo. Penetramos
sob a abbada da porta de Huld; e fomos logo detidos
em quanto os guardas do templo arrancavam a um pegureiro,
teimoso e rude, a clava armada de pregos com que ele queria
atravessar o santurio. O rolante rumor que vinha de longe, dos
trios, j me atemorizava, semelhante ao de uma selva ou de um
grande mar irritado...
E ao emergir enfim da abbada estreita, agarrei o brao magro
do historiador dos Herodes, no deslumbramento que me tomou,
intenso e repassado de terror! Um brilho de neve e ouro vibrava
profusamente no ar mole, irradiado dos claros mrmores,
dos granitos brunidos, dos recamos preciosos banhados pelo
divino sol de Nizam. Os lisos ptios que eu de manh vira desertos,
alvejando como a gua quieta de um lago, desapareciam
agora sob o povo que os atulhava, domado e festivo. Os cheiros
estonteavam, acres, emanados dos estofos tingidos, das
resinas aromticas, da gordura frigindo em brasas. Sobre o
denso rudo passavam roucos mugidos de bois. E perenemente
os fumos votivos se sumiam na refulgncia do cu...
- Caramba! - murmurei, enfiado. - Isto so magnificncias de
entupir!
Fomos penetrando sob os prticos de Salomo, onde ressoava
o profano tumulto de um mercado. Por trs de grossas caixas
gradeadas encruzavam-se os cambistas, com uma moeda de
ouro pendente da orelha entre as melenas srdidas, trocando o
dinheiro sacerdotal do templo pelas moedas pags de todas as
regies, de todas as idades, desde as macias rodelas do velho
Lcio, mais pesadas que broquis, at aos tijolos gravados que
circulam como notas nas feiras da Assria. Adiante, brilhava a
frescura e abundncia de um pomar; as roms, estaladas de
maduras, transbordavam dos gigos; horteles, com um ramo de
amendoeira preso ao carapuo, apregoavam grinaldas de
anmonas ou ervas amargas de Pscoa; jarras de leite puro
pousavam sobre sacos de lentilha; e os cordeiros, deitados nas
lajes, amarrados pelas patas s colunas, balavam tristemente de
sede.
Mas a multido sobretudo apinhava-se, com suspiros de cobia,
em torno aos tecidos e s jias. Mercadores das colnias
fencias, das ilhas gregas, de Trdis, da Mesopotmia, de
Tadmor, uns com soberbas samarras de l bordada, outros com
toscos tabardos de couro pintado, desdobravam os panos azuis
de Tiro, que reproduzem o brilho ardente dos cus do Oriente,
as sedas impudicas de Sheba, de uma transparncia verde que
voa na aragem, e esses estofos solenes de Babilnia que sempre
me extasiavam, negros com largas flores cor de sangue...
Dentro de cofres de cedro, espalhados sobre tapetes da
Galcia, reluziam espelhos de prata simulando a lua e os seus
raios, sinetes de turmalina que os hebreus usam no peito, manilhas
de pedrarias enfiadas em cornos de antlopes, diademas de
sal-gema com que se enfeitam os noivos; e, resguardados mais
preciosamente, talisms e amuletos que me pareciam pueris,
pedaos de razes, pedregulhos negros, couros tisnados e ossos
com letras.
Topsius ainda parou entre as tendas dos perfumistas, apreando
um esplndido basto de Tilos, de uma rara madeira
mosqueada como a pele do tigre, mas logo fugimos ao ardente
cheiro que ali sufocava, vindo das resinas, das gomas dos pases
dos negros, dos molhos de plumas de avestruz, da mirra de
Oronte, das ceras de Cirenaica, dos leos rosados de Csico, e
das grandes coifas de pele de hipoptamo cheias de violetas
secas e de folhas de bcaris...
Entramos ento na galeria chamada Real, toda votada  doutrina
e  lei. A, cada dia, tumultuam rancorosamente as controvrsias
entre saduceus, escribas, soforins, fariseus, sectrios de
Esquemaia, sectrios de Hilel, juristas, gramticos, fanticos de
toda a terra judaica. Junto s colunas de mrmore instalavam-se
os mestres da lei, sobre altos escabelos, tendo ao lado um prato
de metal onde caam os bolos dos fiis; e em torno,
encruzados no cho, com as sandlias ao pescoo, as pelicas
cobertas de letras vermelhas desdobradas nos joelhos, os discpulos,
imberbes ou decrpitos, resmoneavam os ditames, balanando
os ombros lentos. Aqui e alm, no meio de devotos embebidos,
dous doutores disputavam, com as faces assanhadas,
sobre temerosos pontos da doutrina. Pode-se comer um ovo
de galinha posto no dia de Sab? Por que osso da espinha
dorsal comea a Ressurreio? O filosfico Topsius ria, disfarado
numa prega da capa; mas eu tremia quando os doutores,
escaveirados e barbudos, se ameaavam, gritavam racca!
racca! - mergulhando a mo no seio da tnica,  procura de um
ferro escondido.
A cada momento cruzvamos esses fariseus, ressoantes e vazios
como tambores, que vm ao templo assoalhar a sua piedade
- uns com as costas vergadas, esmagadas pela vastido do pecado
humano; outros, tropeando e apalpando o ar, de olhos
fechados, para no ver as formas impuras das mulheres; alguns
mascarados de cinza, gemendo, com as mos apertadas sobre
o estmago - em testemunho dos seus duros jejuns! Depois
Topsius mostrou-me um Rabi, interpretador de sonhos; num
caro lvido e chupado os seus olhos fundos luziam com a tristeza
de lmpadas de sepulcro; e, sentado sobre sacos de l, estendia
por cima de cada devoto, que vinha ajoelhar aos seus
ps nus, a ponta de um vasto manto negro com signos brancos
pintados. Eu, curioso, pensava em o consultar - quando de repente
gritos aflitos ressoaram no trio. Corremos. Eram levitas,
com cordas e vergas, chibatando furiosamente um leproso que,
em estado de impureza, penetrara no ptio de Israel. O sangue
salpicava as lajes. Em torno crianas riam.
Ia caindo a sexta hora judaica, a mais grata ao Senhor, quando
o sol, na sua marcha para o mar, pra sobre Jerusalm a
contempl-la com paixo; e, para nos acercarmos do trio de
Israel, fomos penosamente fendendo a multido que ali
remoinhava, vinda de toda a terra culta e brbara... O rude
saio de peles, dos pegureiros das idumias, roava a clmide
curta dos gregos de face rapada e mais brancos que mrmores.
Havia homens solenes da plancie de Babilnia, com as barbas
metidas dentro de sacos azuis, que uma corrente de prata lhes
prendia s mitras de couro pintado; e havia gauleses ruivos, de
bigodes pendentes como as ervas das suas lagoas, que riam e
parolavam, devorando com a casca os limes doces da Sria.
Por vezes um romano togado passava, to grave como se descesse
de um pedestal. Gente da Dcia e da Msia, com as pernas
enfaixadas em ligaduras de feltro, tropeava deslumbrada
pelo claro esplendor dos mrmores. E no era menos estranho
ir eu, Teodorico Raposo, arrastando ali as minhas botas de
montar, atrs de um sacerdote de Moloque, enorme e sensual
na sua samarra de prpura, que, em meio de um bando de mercadores
de Serepta, desdenhava daquele templo sem imagens,
sem bosques, e mais ruidoso que uma feira fencia...
Assim lentamente nos fomos chegando  porta chamada a
Bela, que dava acesso para o trio sagrado de Israel. Bela em
verdade, preciosa e triunfal, sobre os quatorze degraus de mrmore
verde de Numdia, mosqueado de amarelo; os seus largos
batentes, revestidos de chapas de prata, faiscavam como os de
um relicrio e os dous umbrais, semelhantes a grossos molhos
de palmas, sustentavam uma torre, redonda e branca,
guarnecida de escudos tomados aos inimigos de Jud, brilhantes
no sol como um colar de glria sobre o pescoo forte de um
heri! Mas diante deste dito maravilhoso erguia-se severamente
um pilar, encimado por uma placa negra com letras de ouro,
onde se desenrolava esta ameaa em grego, em latim, em
aramaico, em caldaico: que nenhum estrangeiro aqui penetre,
sob pena de morrer!
Fortunadamente avistamos o magro Gamaliel que se encaminhava
ao santo ptio, descalo, apertando ao peito um molho
de espigas votivas; com ele vinha um homem ndio e risonho,
de face cor de papoula, coroado por uma enorme mitra de l
negra enfeitada de fios de coral... curvados at s lajes, saudamos
o austero doutor da lei. Ele salmodiou logo, de plpebras
cerradas:
- Sede bem-vindos... Esta  a hora melhor para receber a
beno do Senhor. O Senhor disse: sa das vossas habitaes,
vinde a mim com as primcias dos vossos frutos, eu vos abenoarei
em todas as obras das vossas mos... Vs hoje pertenceis
miraculosamente a Israel. Subi  morada do Eterno! Este que
vem a meu lado  Elizer de Silo, benfico e sbio entre todos
nas cousas da natureza.
Deu-nos duas espigas de milho; e atrs dele pisamos, com as
nossas solas gentlicas, o adro interdito de Jud.
Caminhando a meu lado, Elizer de Silo, corts e suave, perguntou-
me se era remota a minha ptria e perigosos os seus
caminhos...
Eu rosnei, vaga e recatadamente:
- Sim... Chegamos de Jeric.
- Boa, por l, a colheita do blsamo?
- Rica! - afiancei, com calor. - Louvado seja o Eterno, que neste
seu ano de graa estamos l abarrotadinhos de blsamos!
Ele pareceu regozijado. E revelou-me ento que era um dos
mdicos que residem no templo - onde os sacerdotes e os
sacrificadores sofrem perenemente dissabores intestinais, por
pisarem suados e descalos as lajes frias dos adros.
- Por isso - murmurou ele com uma fasca alegre no olho benigno
- o povo em Sio nos chama doutores da tripa!
Torci-me de riso, de gozo, com aquela jocosidade assim sussurrada
na austera morada do Eterno... Depois, recordando os
meus dissabores intestinais em Jeric, por muito amar os divinos
e prfidos meles da Sria - perguntei ao amvel fsico se nessas
ocorrncias ele preconizava o bismuto...
O homem magistral abanou cautamente a sua mitra bojuda. Depois,
espetando um dedo no ar, segredou-me esta receita incomparvel:
- Tomai goma de Alexandria, aafro de jardim, uma cebola da
Prsia e vinho negro de Emas... Misturai, cozei... Deixai esfriar
num vaso de prata... Colocai-vos numa encruzilhada, ao nascer
do sol...
Mas emudeceu subitamente, com os braos abertos e a face
pendida para as lajes. Penetramos no soberbo adro, chamado
Ptio das Mulheres; e nesse instante terminavam as bnos
que  sexta hora um sacerdote vem ali derramar, do alto da
porta de Nicanor.
Severa, toda de bronze - ela deixava entrever, l ao fundo, os
ouros, a neve, as pedrarias do santurio, refulgindo com serenidade...
Nos largos degraus, mais lustrosos que alabastro, desenrolavam-
se duas colegiadas de levitas, ajoelhados e vestidos
de branco - uns com uma trompa recurva, outros pousando os
dedos sobre as cordas mudas de liras. E, por entre estas alas
de homens prostrados, um grande velho emaciado vinha descendo
devagar os degraus, com um incensador de ouro na
mo...
A sua tnica justa de biso tinha a fmbria orlada de pinhas de
esmeralda, alternando com guizos, que tiniam finamente; os ps
sem sandlias e tingidos de hen, pareciam de coral; e ao meio
da faixa que lhe cingia as costelas magras brilhava, bordado a
ouro, um grande sol. Os fiis ajoelhados, quedos, sem um murmrio,
quase pousavam nas lajes a cabea escondida sob os
mantos e sob os vus; e com as cores festivas, onde dominava
o vermelho da anmona e o verde da figueira, era como se o
adro estivesse juncado de flores e folhagens, numa manh de
triunfo, para passar Salomo!
Com a barba aguda e dura levantada aos cus - o velho
incensou o lado do Oriente e das areias, depois o lado do ocidente
e dos mares; e o recolhimento era to enlevado que se
ouviam no fundo do santurio os mugidos lentos dos bois. Desceu
ainda, alou mais a mitra salpicada de jias, atirou o
incensador que rangeu faiscando ao sol - e com o fumo branco
veio rolando, tnue e cheirosa, sobre Israel, a bno do Muito-
Forte. Ento os levitas, unissonamente, feriram as cordas das
liras; das trombetas curvas subiu um grito de bronze; e todo o
povo erguido, com os braos ao cu, entoou um salmo celebrando
a eternidade de Jud... E subitamente tudo cessou; os
levitas recolhiam pela escadaria de mrmore sem um rumor dos
ps nus; Elizer de Silo e o rgido Gamaliel tinham desaparecido
sob os prticos; e o claro ptio em redor resplandecia suntuoso
e cheio de mulheres.
Os revestimentos de alabastro eram to lustrosos, que Topsius
mirava neles, como num espelho, as pregas nobres da sua capa;
todos os frutos da sia e as flores dos vergis se entrelaavam,
em copiosos lavores de prata, nas portas das cmaras rituais
onde se perfuma o leo, se consagra a lenha, se purifica a lepra;
entre as colunas pendiam em festes, fios grossos de prolas e
de contas de nix, mais numerosos que no peito de uma noiva;
e nos mealheiros de bronze, semelhantes a trombetas de guerra
colossais, pousadas nas lajes, enrolavam-se, cintilando e reclamando
as ddivas, inscries em relevo de ouro, graciosas
como versos de cnticos - Queimai incensos e nardos; Ofertai
pombas e rolas...
Mas o santo adro resplandecia de mulheres; e meus olhos bem
depressa deixaram metais e mrmores, para cativadamente se
prenderem quelas filhas de Jerusalm, cheias de graa e morenas
como as tendas do Cedar! Todas traziam no templo o rosto
descoberto; ou apenas um fofo vu, de uma musselina leve
como ar,  moda romana, enrodilhado finamente no turbante,
punha em torno das faces uma alvura de espuma, onde os olhos
negros tomavam um quebranto mais mido, enlanguescidos pelas
densas pestanas, alongados pela tintura de cipro. A abundncia
brbara dos ouros, das pedrarias, envolvi-as numa
radincia trmula, desde os peitos fortes at aos cabelos mais
crespos que a l das cabras de Galaade. As sandlias, ornadas
de guizos e de correntes, arrastavam sobre as lajes uma melodia
argentina, tanta era a graa concertada dos seus movimentos
ondulados e graves; e os tecidos bordados, os algodes de
Galcia, os finos linhos de cores que as cingiam, ensopados nas
essncias ardentes de mbar, de malobatro e de bcaris, enchiam
o ar de fragrncia e de moleza a alma dos homens. As mais
ricas caminhavam solenemente entre escravas vestidas de panos
amarelos, que lhes traziam o pra-sol de penas de pavo, os
rolos devotos em que est escrita a lei, sacos de tmaras doces,
espelhos ligeiros de prata. As mais pobres, com uma simples
camisa de algodo de riscadinho multicor, e sem mais jias que
um rude talism de coral, corriam, chalravam, mostrando nus os
braos e o colo cor de medronho mal maduro... E sobre todas
o meu desejo zumbia - como uma abelha que hesita entre flores
de igual doura!
- Ai Topsius, Topsius! - rosnava eu. - Que mulheres! Que mulheres!
Eu estouro, esclarecido amigo! O sbio afirmava, com
desdm, que elas no tinham mais intelectualidade que os paves
dos jardins de Antipas; e que nenhuma decerto ali lera
Aristteles ou Sfocles!... Eu encolhia os ombros. Oh esplendor
dos cus! Por qual destas mulheres, que no lera Sfocles
no daria eu, se fosse Csar, uma cidade de Itlia e toda a
Ibria. Umas entonteciam-me pela sua graa dolente e
macerada de virgens de devoo, vivendo na penumbra constante
dos quartos de cedro, com o corpo saturado de perfumes,
a alma esmagada de oraes. Outras deslumbravam-me pela
suntuosidade slida e suculenta da sua beleza. Que largos, escuros
olhos de dolos! Que claros, macios membros de mrmore!
Que sombria moleza! Que nudezes magnficas, quando 
beira do leito baixo se lhes desenrolassem os cabelos pesados,
e fossem docemente escorregando os vus e os linhos de
Galcia!...
Foi necessrio que Topsius me arrastasse pelo albornoz, para a
escadaria de Nicanor. E ainda estacava a cada degrau, alongando
para trs os olhos esbraseados, resfolgando como um touro
em maio nas lezrias.
- Ai, filhinhas de Sio! Que sois de vos deixar aqui os miolos!
Ao voltar-me, puxado pelo douto historiador, bati no focinho de
um cordeiro branco que um velho conduzia s costas, amarrado
pelas patas e enfeitado de rosas. Em frente corria uma longa
balaustrada de cedro lavrado - onde uma cancela toda de prata,
aberta e lassa nos seus gonzos, se movia em silncio, faiscando.
-  aqui - disse o erudito Topsius - que se do a beber as guas
amargas s mulheres adlteras... E agora, D. Raposo, a tem
Israel adorando o seu Deus.
Era enfim o adro sacerdotal! E eu estremeci diante daquele santurio,
entre todos monstruoso e deslumbrante. Ao meio do
vasto e claro terrado erguia-se, feito de enormes pedras negras,
o altar dos holocaustos; aos seus cantos enristavam-se quatro
cornos de bronze; de um pendiam grinaldas de lrios; de outros
fios de corais; o outro pingava sangue. Da imensa grelha do altar
subia uma fumaa avermelhada e lenta; e em redor apinhavam-
se os sacrificadores, descalos, todos de branco - com
forquilhas de bronze nas mos plidas, espetos de prata, facas
passadas nos cintos cor de cu... No afanoso, severo rumor do
cerimonial sacrossanto, confundia-se o balar de cordeiros, o
som argentino de pratos, o crepitar das lenhas, as pancadas
surdas de malho, o cantar lento da gua em bacias de mrmore,
e o estridor das buzinas. Apesar dos aromticos que ardiam em
caoulas, das longas ventarolas de folhas de palmeira com que
os serventes agitavam o ar, eu pus o leno na face, enjoado
com esse cheiro mole de carne crua, de sangue, de gordura frita
e de aafro, que o Senhor reclamou a Moiss, como o dom
melhor a receber da Terra...
Ao fundo, bois enfeitados de flores, vitelas brancas com os cornos
dourados, sacudiam, mugindo e marrando, as cordas que
os prendiam a fortes argolas de bronze; mais longe, sobre mesas
de mrmore, entre pedaos de gelo, pousavam, vermelhas e
sangrentas, grossas peas de carne, sobre que os levitas balanavam
leques de penas, para afugentar os moscardos. De colunas
rematadas por faiscantes globos de cristal, pendiam cordeiros
mortos, que os netenins, resguardados por aventais de couro
cobertos de textos sagrados, esfolavam com cutelos de prata;
enquanto os vitimrios de saio azul, retesando os braos,
conduziam baldes de onde transbordavam e iam arrastando entranhas.
Coroados por uma mitra redonda de metal, escravos
idumeus constantemente limpavam as lajes com esponjas; alguns
vergavam sob molhos de lenha; outros, agachados, sopravam
fogareiros de pedra.
A cada momento algum velho sacrificador, descalo, marchava
para o altar, trazendo ao colo um anho tenro que no balava,
contente e quente entre os dous braos nus; um tocador de lira
precedia-o; levitas atrs transportavam os jarros de leos aromticos.
Em frente  ara, rodeado de aclitos, o sacrificador
lanava sobre o cordeiro um punhado de sal; depois,
salmodiando, cortava-lhe uma pouca de l entre os cornos. As
buzinas ressoavam; um grito de animal ferido perdia-se no tumulto
sacro; por cima das tiaras brancas, duas mos vermelhas
erguiam-se ao ar, sacudindo sangue; da grelha do altar ressaltava,
avivada pelos leos e pela gordura, uma chama de alegria e
de oferta: e o fumo avermelhado e lento ascendia serenamente
ao azul, levando nos seus rolos o cheiro que deleita o Eterno.
-  um talho! - murmurei eu, aturdido. -  um talho! Topsius,
doutor, vamos outra vez l baixo s mulherinhas...
O sbio olhou para o sol. Depois gravemente, pousando-me no
ombro a mo amiga:
-  quase a nona hora, D. Raposo!... E temos de ir fora da
Porta Judiciria, para alm do Garebe, a um stio agreste que se
chama o Calvrio.
Empalideci. E pareceu-me que nenhuma vantagem espiritual
obteria minha alma, nenhuma inesperada aquisio enriqueceria
o saber de Topsius - por irmos contemplar no alto de um morro,
entre urzes, Jesus atado a um madeiro e sofrendo; era apenas
um tormento para a nossa sensibilidade. Mas, submisso,
segui o meu sapiente amigo pela escadaria das guas, que leva
ao largo lajeado de basalto onde comeam as primeiras casas
de Acra. Vizinhas do santurio, habitadas por sacerdotes, elas
ostentavam uma profusa devoo pascal, em palmas, lmpadas,
alcatifas penduradas dos eirados; e algumas tinham os umbrais
salpicados com sangue fresco de um anho.
Antes de penetrar numa srdida, andrajosa rua que se ia torcendo
sob velhos toldos de esparto, voltei-me para o templo;
agora s via a imensa muralha de granito, com basties no alto,
sombria e inderrubvel; e a arrogncia da sua fora e da sua
eternidade encheu de clera o meu corao. Enquanto sobre
uma colina de morte, destinada aos escravos, o homem de
Galilia incomparvel amigo dos homens, arrefecia na sua cruz,
e para sempre se apagava aquela pura voz de amor e de
espiritualidade - ali ficava o templo que o matava, rutilante e
triunfal, com o balar dos seus gados, o estridor dos seus sofismas,
a usura sob os prticos, o sangue sob as aras, a iniqidade
do seu duro orgulho, a importunidade do seu perene incenso...
Ento, com os dentes cerrados, mostrei o punho a Jeov e 
sua cidadela, e bradei:
- Arrasados sejais!
No descerrei mais os lbios secos at chegarmos  estreita
porta nas muralhas de Ezequi, que os romanos denominavam a
Judiciria. E logo a estremeci, vendo colado num pilar de pedra
um pergaminho com trs sentenas transcritas - a de um ladro
de Betebara, a de um assassino de Em, e a de Jesus de
Galilia! O escriba do Sanedrim, que conforme  lei ali vigiara
para recolher, at que os condenados passassem, algum inesperado
testemunho de inculpabilidade, ia partir, com os seus
tabulrios debaixo do brao, depois de traar sobre cada sentena
um grosso risco vermelho. E aquele corte final, cor de
sangue, passado  pressa por um escriturrio que recolhia contente
 sua morada, a comer o seu anho, comoveu-me mais que
a melancolia dos livros santos.
Sebes de cactos em flor bordavam a estrada; e para alm eram
verdes outeiros onde os muros baixos de pedra solta, vestidos
de rosas bravas, delimitavam os hortos. Tudo ali resplandecia,
festivo e pacfico.  sombra das figueiras, debaixo dos pilares
das parreiras, as mulheres, encruzadas em tapetes, fiavam o
linho ou atavam os ramos de alfazema e mangerona que se oferecem
na Pscoa; e crianas em redor, com o pescoo carregado
de amuletos de coral, balouavam-se em cordas, atiravam 
seta... Pela estrada descia uma fila de lentos dromedrios, levando
mercadorias para Jop; dous homens robustos recolhiam
da caa, com altos coturnos vermelhos cobertos de p, a aljava
batendo-lhes a coxa, uma rede atirada para as costas, e os braos
carregados de perdizes e de abutres amarrados pelas patas;
e diante de ns caminhava devagar, apoiado ao ombro de uma
criana que o conduzia, um velho pobre, de longas barbas, trazendo
presa ao cinto como um bardo a lira grega de cinco cordas,
e sobre a fronte uma coroa de louro...
Ao fundo de um muro, coberto de ramos de amendoeiras, diante
de uma cancela pintada de vermelho, dous servos esperavam,
sentados num tronco cado, com os olhos baixos e as
mos sobre os joelhos. Topsius arou, puxou-me o albornoz:
- E este o horto de Jos de Ramata, um amigo de Jesus, membro
do Sanedrim, homem de esprito inquieto, que se inclina
para os essnios... E justamente, a vem Gade.
Do fundo do horto, com efeito, por uma rua de murta e rosas,
Gade descia correndo com uma trouxa de linho e um cabaz de
vimes enfiados num pau. Paramos.
- O Rabi?  gritou-lhe o alto historiador, transpondo a cancela.
O essnio entregou a um dos escravos a trouxa, e o cesto que
estava cheio de mirra e de ervas aromticas; e ficou diante de
ns um momento, trmulo, sufocado, com a mo fortemente
pousada sobre o corao para lhe serenar a ansiedade.
- Sofreu muito! - murmurou, por fim. - Sofreu quando lhe trespassaram
as mos... Mais ainda ao erguer da cruz... E repeliu
primeiro o vinho de misericrdia, que lhe daria a inconscincia...
O Rabi queria entrar com a alma clara na morte por que chamara!...
Mas Jos de Ramata, Nicodemo, estavam l vigiando.
Ambos lhe lembraram as cousas prometidas uma noite em
Betnia... O Rabi ento tomou a malga das mos da mulher de
Rosmofim, e bebeu.
E o essnio, pregados em Topsius os olhos reluzentes, como
para cravar bem seguramente na sua alma uma recomendao
suprema, recuou um passo e disse com uma grave lentido:
-  noite, depois da ceia, no eirado de Gamaliel...
E outra vez desapareceu na rua fresca do horto, entre a murta e
as roseiras. Topsius deixou logo a estrada de Jop; e estugando
o passo por um atalho agreste, onde o meu largo albornoz se
prendia aos espinhos das piteiras, explicava-me que a bebida
de misericrdia - era um vinho forte de Tarses, com suco de
papoulas e especiarias, fornecido por uma confraria de mulheres
devotas, para insensibilizar os supliciados... Mas eu mal escutava
aquele copioso esprito. No alto de um spero outeiro,
todo de rocha e urze, avistara, destacando duramente no claro
azul do cu liso, um monto de gente parada; e em meio dela
sobrelevavam-se trs pontas grossas de madeiros e moviam-se,
faiscando ao sol, elmos polidos de legionrios. Turbado, encostei-
me  beira do caminho, num penedo branco que escaldava.
Mas vendo Topsius marchar, com a sabia serenidade de quem
considera a morte uma purificadora libertao das formas imperfeitas
- no quis ser menos forte, nem menos espiritual; arranquei
o albornoz que me abafava, galguei intrepidamente a
colina temerosa.
De um lado cavava-se o Vale de Hinom, abrasado e lvido, sem
uma erva, sem uma sombra, juncado de ossos, de carcaas, de
cinzas. E diante de ns o morro ascendia, com manchas leprosas
de tojo negro, e a espaos furado por uma ponta de rocha
polida e branca como um osso. O crrego, onde os nossos
passos espantavam os lagartos, ia perder-se entre as runas de
um casebre de adobe; duas amendoeiras, mais tristes que plantas
crescidas na fenda de um sepulcro, erguiam ao lado a sua
rama rala e sem flor, aonde cantavam asperamente cigarras. E
na sombra tnue, quatro mulheres descalas, desgrenhadas,
com rasges de luto nas tnicas pobres, choravam como num
funeral.
Uma, sem se mover, hirta contra um tronco, gemia surdamente
sob a ponta do manto negro; outra, exausta de lgrimas, jazia
numa pedra, com a cabea cada nos joelhos, e os esplndidos
cabelos louros desmanchados, alastrados at ao cho. Mas as
outras duas deliravam, arranhadas, ensangentadas, batendo
desesperadamente nos peitos, cobrindo a face de terra; depois,
lanando ao cu os braos nus, abalavam o morro com gritos -
oh meu encanto, oh meu tesouro, oh meu sol! E um co, que
farejava entre as runas, abria a goela, uivava tambm, sinistramente.
Espavorido, puxei a capa do douto Topsius - e cortamos pelas
urzes at ao alto, onde se apinhavam, olhando e galrando,
obreiros das oficinas de Garebe, serventes do templo, vendilhes,
e alguns desses sacerdotes miserveis e em farrapos, que
vivem de nigromancia e de esmolas. Diante da branca capa em
que Topsius se togava, dous cambistas, com moedas de ouro
pendentes das orelhas, arredaram-se, murmurando bnos
servis. Uma corda de esparto deteve-nos, presa a postes cravados
no cho para isolar o alto do morro; e, no stio em que
ficramos, enrolada a uma velha oliveira que tinha pendurados,
dos ramos, escudos de legionrios e um manto vermelho.
Ento, ansioso, ergui os olhos... Ergui os olhos para a cruz mais
alta, cravada com cunhas numa fenda de rocha. O Rabi agonizava.
E aquele corpo que no era de marfim nem de prata, e
que arquejava, vivo, quente, atado e pregado a um madeiro,
com um pano velho na cinta, um travesso passado entre as
pernas - encheu-me de terror e de espanto... O sangue que
manchara a madeira nova, enegrecia-lhe as mos, coalhado em
torno aos cravos; os ps quase tocavam o cho, amarrados
numa grossa corda, roxos e torcidos de dor. A cabea, ora
escurecida por uma onda de sangue, ora mais lvida que um
mrmore, rolava de um ombro a outro docemente; e por entre
os cabelos emaranhados, que o suor empastara, os olhos esmoreciam,
sumidos, apagados - parecendo levar com a sua luz,
para sempre, toda a luz e toda a esperana da terra...
O centurio, sem manto, com os braos cruzados sobre a couraa
de escamas, rondava gravemente junto  cruz do Rabi,
cravando por vezes os olhos duros na gente do templo, cheia
de rumores e de risos. E Topsius mostrou-me defronte, rente 
corda, um homem cuja face, amarela e triste, quase desaparecia
entre as duas longas mechas negras de cabelo que lhe desciam
sobre o peito - e que abria e enrolava com impacincia um pergaminho,
ora espiando a marcha lenta do sol, ora falando baixo
a um escravo ao seu lado.
-  Jos de Ramata - segredou-me o douto historiador. - Vamos
ter com ele, ouvir as cousas que convm saber...
Mas nesse instante, dentre o bando srdido dos servos do templo
e dos sacerdotes miserveis que so nutridos pelos sobejos
dos holocaustos, rompeu um rudo mais forte, com o grasnar de
corvos num alto. E um deles, colossal, esqulido, com costuras
de facadas atravs da barba rala, atirou os braos para a cruz
do Rabi, e gritou numa baforada de vinho:
- Tu que s forte, e querias destruir o templo e as suas muralhas,
por que no quebras ao menos o pau dessa cruz?
Em torno estalaram risadas alvares. E outro, espalmando as
mos sobre o peito, curvado com infinito escrnio, saudava o
Rabi:
- Herdeiro de Davi, oh meu prncipe, que te parece esse trono?
- Filho de Deus! Chama teu pai! V se teu pai te vem salvar!
rouquejava a meu lado um magro velho, que tremia e sacudia a
barba, apoiado ao seu bordo.
Alguns vendilhes bestiais apanhavam torres secos a que misturavam
cuspo, para arremessar ao Rabi; uma pedra por fim
passou, ressoou cavamente no madeiro. Ento o centurio correu,
indignado; a folha da sua larga espada lampejou no ar; e o
bando recuou blasfemando - em quanto alguns embrulhavam na
ponta do salo os dedos que escorriam sangue.
Ns acercamo-nos de Jos de Ramata. Mas o sombrio homem
abalou bruscamente, esquivando a importunidade do sbio
Topsius. E, magoados com a sua rudeza, ali ficamos junto de
um tronco de oliveira seca, defronte das outras cruzes.
Os dous condenados tinham acordado do primeiro desmaio,
sob a frescura da aragem da tarde. Um, grosso, peludo, com os
olhos esbugalhados, o peito atirado para diante e as costelas a
estalar, como se num esforo desesperado quisesse arrancar-se
do madeiro - urrava sem descontinuar, medonhamente; o sangue
pingava-lhe em gotas lentas dos ps negros, das mos
esgaradas; e abandonado, sem afeio ou piedade que o assistissem,
era como um lobo ferido que uiva e morre num brejo.
O outro, delgado e louro, pendia sem um gemido, como uma
haste de planta meio quebrada. Defronte dele uma mulher, macilenta
e em farrapos, passando a cada instante o joelho sobre a
corda, estendia-lhe nos braos uma criancinha nua, e gritava, j
rouca: Olha ainda, olha ainda! As plpebras lvidas no se
moviam; um negro, que entrouxava as ferramentas da crucificao,
ia empurr-la com brandura; ela emudecia, apertava desesperadamente
o filho para que lho no levassem tambm, batendo
os dentes, tremendo toda; e a criancinha entre os farrapos
procurava o seio magro.
Soldados, sentados no cho, desdobravam as tnicas dos
supliciados; outros, com o elmo enfiado no brao, limpavam o
suor - ou por uma malga de ferro, a goles lentos, bebiam a
posca. E embaixo, na poeira da estrada, sob o sol mais doce,
passava gente recolhendo pacificamente dos campos e dos
hortos. Um velho picava as suas vacas para o lado da porta de
Gen; mulheres, cantando, carregavam lenha; um cavaleiro trotava,
embrulhado num manto branco. s vezes os que atravessavam
o caminho ou voltavam dos pomares de Garebe avistavam
as trs cruzes erguidas; arregaavam a tnica, subiam a
colina devagar atravs das urzes. O rtulo da cruz do Rabi, escrito
em grego e em latim, causava logo assombro. Rei dos
Judeus! Quem era esse? Dous moos, patrcios e saduceus,
com brincos de prolas nas orelhas e bordaduras de ouro nos
borzeguins, interpelaram o centurio, escandalizados. Por que
escrevera o Pretor - Rei dos Judeus? Era aquele, ali pregado
na cruz, Caio Tibrio? S Tibrio era Rei da Judia! O Pretor
quisera ofender Israel! Mas em verdade s ultrajava Csar!...
Impassvel, o centurio falava a dous legionrios que remexiam
no cho em grossas barras de ferro. E a mulher que acompanhava
os saduceus, uma romana miudinha e morena, com fitas
de prpura nos cabelos empoados de azul, contemplava suavemente
o Rabi e aspirava o seu frasco de essncias - lamentando
decerto aquele moo, rei vencido, rei brbaro, que morria no
poste dos escravos.
Cansado, fui sentar-me com Topsius numa pedra. Era perto da
oitava hora judaica; o sol, sereno como um heri que envelhece,
descia para o mar por sobre as palmeiras de Betnia. Diante de
ns o Garebe verdejava, coberto de jardins. Junto s muralhas,
no bairro novo de Bezeta, grandes panos vermelhos e azuis secavam
em cordas s portas das tinturarias; um lume
vermelhejava no fundo de uma forja; crianas corriam brincando
sobre a borda de uma piscina. Adiante, no alto da torre hpica,
que estendia j a sua sombra sobre o vale de Hinom, soldados
de p na amurada apontavam a seta aos abutres voando no
azul. E para alm, entre arvoredos, surgiam, frescos e rosados
pela tarde, os eirados do palcio de Herodes.
Triste, com o esprito disperso, eu pensava no Egito, nas nossas
tendas, na vela que l me esquecera ardendo, fumarenta e vermelha
- quando avistei, subindo a colina devagar, apoiado ao
ombro da criana que o conduzia, o velho que j cruzramos na
estrada de Jop, com uma lira presa  cintura. Os seus passos
arrastavam-se mais incertos, na fadiga de uma jornada penosa;
uma tristeza abatia-lhe sobre o peito a clara barba ondeante; e
debaixo do manto cor do vinho, que lhe cobria a cabea, as
folhas da coroa de louro pendiam raras e murchas.
Topsius gritou-lhe: Eh, rapsodo! E quando ele, tenteando as
urzes do caminho, se acercou - o douto historiador perguntoulhe
se das doces ilhas do mar trazia algum canto novo. O velho
ergueu a face entristecida; e muito nobremente, murmurou que
uma mocidade imperecvel sorri nos mais antigos cantos da
Helnia. Depois, tendo assentado a sandlia sobre uma pedra,
tomou a lira entre as mos vagarosas; a criana, direita, com as
pestanas baixas, ps  boca uma flauta de cana; e, no resplendor
da tarde que envolvia e dourava Sio, o rapsodo soltou um
canto j trmulo, mas glorioso e repassado de adorao, como
ante a ara de um templo, numa praia da Jnia... E eu percebi
que ele cantava os deuses, a sua beleza, a sua atividade herica.
Dizia o dlfico, imberbe e cor de ouro, afinando os pensamentos
humanos pelo ritmo da sua citara; Atenia, armada e industriosa,
guiando as mos dos homens sobre os teares; Zeus, ancestral
e sereno, dando a beleza s raas, a ordem s cidades; e
acima de todos, sem forma e esparso, o Fado, mais forte que
todos!
Mas subitamente um grito varou o cu no alto da colina, supremo
e arrebatado como o de uma libertao! Os dedos frouxos
do velho emudeceram entre as cordas de metal; com a cabea
descada, a coroa do louro pico meio desfolhada, parecia chorar
sobre a lira helnica, de ora em diante e para longas idades
silenciosa e intil. E ao lado a criana, tirando a flauta dos lbios,
erguia para as cruzes negras os olhos claros - onde subia a
curiosidade e a paixo de um mundo novo.
Topsius pediu ao velho a sua histria. Ele contou-a, com amargura.
Viera de Samnos a Cesaria e tocava o honnor junto ao
templo de Hrcules. Mas a gente abandonava o puro culto dos
heris; e s havia festas e oferendas para a boa deusa da Sria!
Acompanhara depois uns mercadores a Tiberade; os homens a
no respeitavam a velhice, e tinham coraes interesseiros
como escravos. Seguira ento pelas longas estradas, parando
nos postos romanos onde os soldados o escutavam; nas aldeias
de Samaria batia s portas dos lagares; e para ganhar o po
duro, tocara a citara grega nos funerais dos brbaros. Agora
errava ali, nessa cidade onde havia um grande templo, e um
deus feroz e sem forma que detestava as gentes. E o seu desejo
era voltar a Mileto, sua ptria; sentir o fino murmrio das guas
do Meandro; poder palpar os mrmores santos do Templo de
Febo Didimeu - onde ele em criana levara num cesto e cantando,
os primeiros anis dos seus cabelos...
As lgrimas rolavam pela sua face, tristes como a chuva por um
muro em runas. E a minha piedade foi grande por aquele
rapsodo das ilhas da Grcia, perdido tambm na dura cidade
dos judeus, envolto pela influncia sinistra de um deus alheio!
Dei-lhe a minha derradeira moeda de prata. Ele desceu a colina,
apoiado ao ombro da criana, lento e curvado, com a orla esfarrapada
do manto trapejando nas pernas nuas, e muda e mal
segura do cinto a lira herica de cinco cordas.
No entanto, em torno s cruzes, no alto, crescera um rumor de
revolta. E fomos encontrar a gente do templo, com as mos no
ar, mostrando o sol que descia como um escudo de ouro para o
lado do Mar de Tiro, intimando o centurio a que baixasse os
condenados da cruz, antes de soar a hora santa da Pscoa! Os
mais devotos reclamavam que se aplicasse aos crucificados, se
ainda viviam, o crurifrgio romano, quebrando-lhes os ossos
com barras de ferro, arrojando-os ao despenhadeiro de Hinom.
E a indiferena do centurio exasperava o zelo piedoso. Ousaria
ele macular o Sab, deixando um corpo morto no ar? Alguns
enrolavam a ponta do manto para correr, e ir a Acra avisar o
Pretor.
- O sol declina! O sol vai deixar o Hbron! - gritou de cima de
uma pedra um levita, aterrado.
- Acabai-os, acabai-os!
E ao nosso lado, um formoso moo exclamava, requebrando os
olhos lnguidos, movendo os braos cheios de manilhas de
ouro:
- Atirai o Rabi aos corvos! Dai s aves de rapina a sua pscoa!
O centurio, que espreitava o alto da Torre Mariana, onde os
escudos suspensos luziam batidos pelo sol derradeiro - acenou
devagar com a espada. Dous legionrios, lanando
pesadamente ao ombro as barras de ferro, marcharam com ele
para as cruzes. Eu, arrepiado, agarrei o brao de Topsius. Mas
diante do madeiro de Jesus, o centurio parou, erguendo a
mo...
O corpo branco e forte do Rabi tinha a serenidade de um
adormecimento; os ps empoeirados, que h pouco a dor torcia
dentro das cordas, pendiam agora direitos para o cho, como
se o fossem em breve pisar; e a face no se via, tombada para
trs molemente por sobre um dos braos da cruz, toda voltada
para o cu onde ele pusera o seu desejo e o seu reino... Eu
olhei tambm o cu; rebrilhava, sem uma sombra, sem uma nuvem,
liso, claro, mudo, muito alto, e cheio de impassibilidade...
- Quem reclamou o corpo deste homem? - gritou, procurando
para os lados, o centurio.
- Eu, que o amei em vida! - acudiu Jos de Ramata, estendendo
por cima da corda o seu pergaminho.
O escravo que esperava junto dele, deps logo no cho a trouxa
de linho e correu para as runas do casebre, onde as mulheres
choravam entre as amendoeiras.
E por trs de ns, fariseus e saduceus que se tinham juntado,
estranhavam com azedume que Jos de Ramata, um membro
do Sanedrim, assim solicitasse o corpo do Rabi para o perfumar
e lhe fazer soar em tomo as flautas e os prantos de um funeral...
Um deles, corcovado, com esfiadas melenas luzidias de
leo, afirmava que sempre conhecera Jos de Ramata inclinado
para todos os inovadores, todos os sediciosos... Mais de uma
vez o vira falar com esse Rabi junto ao Campo dos
Tintureiros... E com eles estava Nicodemo, homem rico que tem
gados, que tem vinhas, e todas as casas que esto de ambos os
lados da Sinagoga de Cirenaica...
Outro, rubicundo e mole, gemeu:
- Que ser da nao, se os mais considerados se juntam aos
que adulam o pobre, e lhe ensinam que os frutos da terra devem
ser igualmente para todos!...
- Raa de Messias! - bradou o mais moo com furor, atirando
o basto contra as urzes. - Raa de Messias, perdio de Israel!
Mas o saduceu de melenas oleosas ergueu devagar a mo, ligada
em tiras sagradas:
- Sossegai; Jeov  grande; e tudo em verdade determina para
melhor... No templo e no conselho no faltaro jamais homens
fortes que mantenham a velha ordem; e em cima dos calvrios,
felizmente, ho de sempre erguer-se as cruzes!...
E todos sussurraram:
-Amm!
No entanto o centurio, com os soldados atrs levando ao ombro
as barras de ferro, marchava para os outros madeiros onde
os condenados, vivos e cheios de agonia, pediam gua - um
pendido e gemendo; outro torcido, com as mos rasgadas, rugindo
terrivelmente. Topsius, que sorria friamente, murmurou: 
tempo, vamos.
Com os olhos alagados de gua amarga, tropeando nas pedras,
desci ao lado do fecundo crtico a colina de imolao. E
sentia uma densa melancolia entenebrecer a minha alma, pensando
nessas cruzes vindouras, anunciadas pelo conservador de
guedelha oleosa... Assim seria, oh dura misria! Sim! De ora em
diante por todos os sculos a vir, iria sempre recomeando em
torno  lenha das fogueiras, sob a frialdade das masmorras, junto
s escadas das forcas - este afrontoso escndalo de se juntarem
sacerdotes, patrcios magistrados, soldados, doutores e
mercadores para matarem ferozmente, no alto de um morro, o
justo que, penetrado do esplendor de Deus, ensine a adorao
em esprito ou cheio do amor dos homens, proclame o reino da
igualdade!
Com estes pensamentos recolhi a Jerusalm - em quanto as
aves mais felizes que os homens, cantavam nos cedros do
Garebe...
Escurecera e era a hora da ceia pascal, quando chegamos 
casa de Gamaliel; no ptio, preso a uma argola, estava o burro,
albardado de panos pretos, que trouxera o amvel fsico Elizer
de Silo.
Na sala azul, de teto de cedro, perfumada de malobatro, o austero
doutor j nos aguardava estendido no div de correias
brancas, com os ps nus, as largas mangas arregaadas e pregadas
no ombro - e ao lado um bordo de viagem, uma cabaa
de gua e uma trouxa, emblemas rituais da sada do Egito. Defronte
dele, numa mesa incrustada de madreprola, entre vasos
de barro com flores pintadas, aafates de filigrana de prata,
transbordando de fruta e pedaos cintilantes de gelo, erguia-se
um candelabro em forma de arbusto, tendo na ponta de cada
galho uma plida chama azul e, com os olhos perdidos no seu
brilho trmulo, as mos cruzadas no ventre, Elizer, o benigno
doutor da tripa, sorria beatificamente encostado a almofadas de
couro vermelho. Junto dele dous escabelos, recobertos com
tapetes da Assria, esperavam por mim e pelo sagaz historiador.
Sede bem-vindos - rosnou Gamaliel. - Grandes so as maravilhas
de Sio; deveis vir esfomeados...
Bateu de leve as palmas. Os escravos, caminhando sem rudo
nas sandlias de feltro, e precedidos majestosamente pelo homem
obeso de tnica amarela, entraram, erguendo muito alto
largos pratos de cobre que fumegavam.
A um lado tnhamos, para limpar os dedos, um bolo de farinha
branca, fino e mole como um pano de linho; do outro um prato
largo, com cercadura de prolas, onde negrejava, entre ramos
de salsa, um monto de cigarras fritas; no cho jarros com gua
de rosa. Cumprimos as ablues; e Gamaliel, tendo purificado a
boca com um pedao de gelo, murmurou a orao ritual sobre
a vasta travessa de prata, onde o cabrito assado fazia transbordar
o molho de aafro e saumura.
Topsius, bom sabedor das maneiras orientais, arrotou fortemente,
por cortesia, demonstrando fartura e deleite; depois, com
uma febra de anho entre os dedos, afirmou, sorrindo aos doutores,
que Jerusalm lhe parecera magnfica, formosa de claridade,
e bendita entre as cidades...
Elizer de Silo acudiu, com os olhos cerrados de gozo, como se
o acariciassem:
- Ela  uma jia melhor que o diamante, e o Senhor engastou-a
no centro da Terra, para que irradiasse igualmente o seu brilho
em redor...
- No centro da Terra!... - murmurou o historiador, com douto
espanto.
Sim! E, ensopando um pedao de bolo no molho de aafro, o
profundo fsico explicou a Terra. Ela  chata e mais redonda
que um disco; no meio est Jerusalm a santa, como um corao
cheio de amor do Altssimo; em redor a Juda, rica em
blsamos e palmeiras, cerca-a de sombra e de aromas; para
alm ficam os pagos, em regies duras, onde nem o mel nem o
leite abundam; depois so os mares tenebrosos... E por cima o
cu, sonoro e slido.
- Slido!... - balbuciou o meu sapiente amigo, esgazeado.
Os escravos serviam em taas de prata cerveja amarela da Mdia.
Com solicitude Gamaliel aconselhou-me que, para lhe avivar
o sabor, trincasse uma cigarra frita. E Rabi Elizer, sbio
entre todos nas cousas da natureza, revelava a Topsius a divina
construo do cu.
Ele  feito de sete duras, maravilhosas, rutilantes camadas de
cristal; por cima delas constantemente rolam as grandes guas;
sobre as guas flutua, num fulgor, o esprito de Jeov... Estas
lminas de cristal, furadas como um crivo, resvalam umas sobre
as outras com uma msica doce e lenta, que os profetas mais
queridos por vezes ouviam... Ele mesmo, uma noite que orava
no eirado da sua casa em Silo, sentira por um raro favor do
Altssimo essa harmonia, to penetrante e suave, que as lgrimas
uma a uma lhe caam nas mos abertas... Ora, nos meses
de Quisleu e de Teb os furos das lminas coincidem, e por eles
caem sobre a terra as gotas das guas eternas, que fazem crescer
as searas!
- A chuva? - perguntou Topsius, com acatamento.
- A chuva! - respondeu Elizer, com serenidade.
Topsius, mordendo um sorriso, ergueu para Gamaliel os seus
culos de ouro, que faiscavam de sbia ironia; mas o piedoso
filho de Simeo conservava sobre a face, emagrecida no estudo
da lei, uma seriedade impenetrvel. Ento o historiador, remexendo
as azeitonas, desejou saber, do esclarecido fsico, por
que tinham os cristais do cu essa cor azul que enleva a alma...
Elizer de Silo elucidou-o:
Uma grande montanha azul, invisvel at hoje aos homens, ergue-
se a ocidente; ora, quando o sol abate, a sua reverberao
banha o cristal do cu e anila-o. E talvez nessa montanha que
vivem as almas dos justos!...
Gamaliel tossiu brandamente e murmurou: Bebamos, louvando
o Senhor!
Ergueu uma taa cheia de vinho de Siqum, pronunciou sobre
ela uma bno - e passou-ma, chamando a paz sobre o meu
corao. Eu rosnei:  sua, muitos e felizes! E Topsius, recebendo
a taa com venerao, bebeu -  prosperidade de Israel,
 sua fora ao seu saber!
Depois os servos, precedidos pelo homem obeso de tnica
amarela, que fazia ressoar sobre as lajes com pompa a sua vara
de marfim, trouxeram a mais devota comida pascal - as ervas
amargas.
Era uma travessa repleta de alface, agries, chicria, macela,
com vinagre e grossas pedras de sal. Gamaliel mastigava-as
solenemente, como cumprindo um rito. Elas representavam as
amarguras de Israel, no cativeiro do Egito. E Elizer, chupando
os dedos, declarou-as deliciosas, fortificadoras e repassadas de
alta lio espiritual.
Mas Topsius lembrou, fundado nos autores gregos, que todos
os legumes amolecem no homem a virilidade, lhe descoram a
eloqncia, lhe enervam o herosmo; e com torrencial erudio
citou logo Teofrasto, ubulo, Nicandro na segunda parte do seu
Dicionrio, Fnias no seu Tratado das Plantas, Dfilo e
Epicarmo!
Gamaliel, secamente, condenou a inanidade dessa cincia - porque
Hecateu de Mileto, s no primeiro livro da sua Descrio
da sia, encerra cinqenta e trs erros, quatorze blasfmias e
cento e nove omisses... Assim dizia o leviano grego que a tmara,
maravilhoso dom do Altssimo, enfraquece o intelecto!...
- Mas - exclamou Topsius com ardor - a mesma doutrina estabelece
Xenofonte no livro segundo do Anbasis! E Xenofonte...
Gamaliel rejeitou a autoridade de Xenofonte. Ento Topsius,
vermelho, batendo com uma colher de ouro na borda da mesa,
exaltou a eloqncia de Xenofonte, a forte nobreza do seu sentimento,
a sua terna reverncia por Scrates!... E enquanto eu
partia um empado de Comagnia, os dous facundos doutores,
asperamente, romperam debatendo Scrates. Gamaliel afirmava
que as vozes secretas ouvidas por Scrates, e que to divina e
puramente o governavam, eram murmrios distantes que lhe
chegavam da Judia, repercusses miraculosas da voz do Senhor...
Topsius pulava, encolhia os ombros, com desesperado
sarcasmo. Scrates inspirado por Jeov! Ora lrias!
No entanto era certo (insistia Gamaliel, j lvido), que os
gentlicos iam emergindo da sua treva, atrados pela luz forte e
pura que derramava Jerusalm; porque a reverncia pelos deuses
aparecia em squilo, profunda e cheia de terror; em
Sfocles, amvel e cheia de serenidade; em Eurpides, superficial
e cheia de dvida... E cada um dos trgicos dava assim, largamente,
um passo para o Deus verdadeiro!
- Oh Gamaliel, filho de Simeo - murmurou Elizer de Silo -, tu,
que possuis a verdade, para que ds acesso no teu esprito aos
pagos?
Gamaliel respondeu:
- Para os desprezar melhor dentro em mim!
Farto de to clssica controvrsia, acheguei a Elizer um
covilhete de mel do Hbron - e contei-lhe quanto me agradara
o caminho do Garebe entre jardins. Ele concordou que Jerusalm,
cercada de vergis, era doce  vista como a fronte da noiva
toucada de anmonas. Depois estranhou que eu escolhesse,
para me recrear, esses arredores de Gihon, cheios de aougues,
junto ao morro escalvado onde se erguem as cruzes. Mais suave
me teria sido a fragrncia de Silo...
- Fui ver Jesus - atalhei severamente. - Fui ver Jesus, crucificado
esta tarde por mandado do Sanedrim...
Elizer, com oriental cortesia, bateu no peito demonstrando mgoa.
E quis saber se pertencia ao meu sangue, ou partilhara comigo
o po de aliana, esse Jesus que eu fora assistir na sua
morte de escravo.
Eu considerei-o, assombrado:
-  o Messias!
E ele considerou-me mais assombrado ainda, com um fio de
mel a escorrer-lhe na barba.
Oh raridade! Elizer, doutor do templo, fsico do Sanedrim, no
conhecia Jesus de Galilia! Atarefado com os enfermos que,
pela Pscoa, atulham Jerusalm (confessou ele) no fora ao
Xisto, nem  loja do perfumista Cleos, nem aos eirados de
Hano, onde as novas voam mais numerosas que as pombas;
por isso nada ouvira da apario de um Messias...
De resto, acrescentou, no podia ser o Messias! Esse deveria
chamar-se Manahem o consolador, porque traria a consolao
a Israel. E haveria dous Messias: o primeiro, da tribo de
Jos, seria vencido por Gogue; o segundo, filho de Davi e cheio
de fora, venceria Magogue. Antes dele nascer comeariam
sete anos de maravilhas; haveria mares evaporados, estrelas
despregadas do cu, fomes e tais farturas que at as rochas dariam
fruto; no ltimo ano correria sangue entre as naes; enfim
ressoaria uma voz portentosa; e, sobre o Hbron, com uma espada
de fogo, surgiria o Messias!
Dizia estas cousas peregrinas, fendendo a casca de um figo.
Depois com um suspiro:
- Ora, ainda nenhuma dessas maravilhas, meu filho, anunciou a
consolao!...
E atolou os dentes no figo.
Ento fui eu, Teodorico, ibero, de um remoto municpio romano,
que contei a um fsico de Jerusalm, criado entre os mrmores
do templo, a vida do Senhor! Disse as cousas doces e as
cousas fortes; as trs claras estrelas sobre o seu bero; a sua
palavra amansando as guas de Galilia; o corao dos simples
palpitando por ele; o reino do cu que prometia e a sua face
augusta brilhando diante do Pretor de Roma...
- Depois os padres, os patrcios e os ricos crucificaram-no!
Doutor Elizer, volvendo a remexer o aafate de figos murmurou
pensativamente:
Triste, triste!... Todavia. meu filho, o Sanedrim  misericordioso.
Em sete anos, desde que o sirvo, apenas tem lanado trs sentenas
de morte... Sim, decerto o mundo necessita bem escutar
uma palavra de amor e de justia; mas Israel tem sofrido tanto
com inovadores, com profetas!... Enfim, nunca se deveria derramar
o sangue do homem... E a verdade  que estes figos, de
Beftag, no valem os meus de Silo!
Calado, enrolei um cigarro. E nesse instante o douto Topsius,
debatendo ainda com Gamaliel o helenismo e as escolas
socrticas, empinado, de culos na ponta do bico, soltava este
resumo forte:
- Scrates  a semente; Plato a flor; Aristteles o fruto... E
desta rvore, assim completa, se tem nutrido o esprito humano!
Mas Gamaliel subitamente ergueu-se; doutor Elizer tambm,
arrotando com efuso. Ambos tomaram os cajados, ambos gritaram:
- Aleluia! Louvai o Senhor que nos tirou da terra do Egito!
Findara a ceia pascal. O esclarecido historiador, que limpava o
suor da controvrsia, olhou logo vivamente o relgio e rogou a
Gamaliel permisso de subir ao terrao, a refrescar a sua emoo
no ar macio de Ofel... O doutor da lei conduziu-nos  varanda,
alumiada palidamente por lmpadas de mica, mostrounos
a ngreme escada de bano que levava aos eirados; e chamando
sobre ns a graa do Senhor, penetrou com Elizer num
aposento cerrado por cortinas de Mesopotmia - de onde saiu
um aroma, um fino rumor de risos e sons lentos de lira.
Que doce ar no terrao! E que alegre essa noite de Pscoa em
Jerusalm! No cu mudo e fechado como um palcio onde h
luto, nenhum astro brilhava; mas o burgo de Davi e a colina de
Acra, com as suas iluminaes rituais, pareciam salpicadas de
ouro. Em cada eirado, vasos com estopa ardendo em leo lanavam
uma chama ondeante e vermelha. Aqui e alm, nalguma
casa mais alta os fios de luzes, na parede escura, reluziam como
um colar de jias no pescoo de uma negra. O ar estava docemente
cortado dos gemidos de flauta, da dolente vibrao das
cordas do konnor, e em ruas alumiadas por grandes fogueiras
de lenha, vamos esvoaar, claras e curtas, as tnicas de gregos
danando a calabida. S as torres, mais vastas na noite, a Hpica,
a Mariana, a Farsala, se conservavam escuras; e o mugido
das suas buzinas passava por vezes, rouco e rude, como uma
ameaa, sobre a santa cidade em festa.
Mas para alm das muralhas recomeava a alegria da noite
pascal. Havia luzes em Silo. Nos acampamentos, sobre o
Monte .das Oliveiras, ardiam fogos claros; e como as portas
ficavam abertas, filas de tochas fumegavam pelos caminhos, por
entre um rumor de cantares.
S uma colina, alm do Garebe, permanecera em treva. Nessa
hora, por baixo dela, numa ravina entre rochas, alvejavam dous
corpos despedaados, onde os bicos dos abutres, com um rudo
seco de ferros entrechocados, faziam a sua ceia pascal. Ao
menos outro corpo, precioso invlucro de um esprito perfeito,
jazia resguardado num tmulo novo, envolto em linho fino, ungido,
perfumado de canela e de nardo. Assim o tinham deixado
nessa noite, a mais santa de Israel, aqueles que o amavam - e
que desde ento, para todo o sempre, mais entranhadamente o
amariam... Assim o tinham deixado com uma pedra lisa por
cima; e agora entre as casas de Jerusalm, cheias de luzes e
cheias de cantos - alguma havia, escura e fechada, onde corriam
lgrimas sem consolao. A o lar esfriara, apagado; a lmpada
triste esmorecia sobre o alqueire; na bilha no havia gua,
porque ningum fora  fonte; e sentadas na esteira, com os cabelos
cados, aquelas que o tinham seguido de Galilia falavam
dele, das primeiras esperanas, das parbolas contadas por
entre os trigais, dos templos suaves  beira do lago...
Assim eu pensava, debruado sobre o muro, olhando Jerusalm
quando no terrao surgiu, sem rumor, uma forma envolta em
linhos brancos, espalhando um aroma de canela e de nardo.
Pareceu-me que dela irradiava um claro, que os seus ps no
pisavam as lajes - e o meu corao tremeu. Mas dentre os plidos
panos uma bno saiu, grave e familiar:
- Que a paz seja convosco.
- Ah! que alvio! Era Gade.
- Que a paz seja contigo!
O essnio parou diante de ns, calado; e eu sentia os seus olhos
procurarem o fundo da minha alma, para lhe sondar bem a
grandeza e a fora. Por fim murmurou, imvel como uma imagem
tumular nas suas grandes vestes brancas:
- A lua vai nascer... Todas as cousas esperadas se esto cumprindo...
Agora, dizei! Sentis o corao forte para acompanhar
Jesus, e guard-lo at ao osis de Engada?
Ergui-me, atirando os braos ao ar, num terror!... Acompanhar
o Rabi! Ele no jazia pois morto, ligado e perfumado, sob uma
pedra, numa horta do Garebe?... Vivia! Ao nascer da lua, entre
os seus amigos, ia partir para Engada. Agarrei ansiosamente o
ombro de Topsius, amparando-me ao seu saber forte e  sua
autoridade...
O meu douto amigo parecia enleado numa pesada incerteza:
- Sim, talvez... O nosso corao  forte, mas... Alm disso no
temos armas!
- Vinde comigo! - acudiu Gade, ardentemente. - Passaremos
por casa de algum que nos dir as cousas que convm saber, e
que vos dar armas!...
Ainda trmulo, sem me desamparar do sapiente historiador, ousei
balbuciar:
- E Jesus?... Onde est?
- Em casa de Jos de Ramata - segredou o essnio, espreitando
em roda como o avaro que fala de um tesouro. - Para que
nada suspeitasse a gente do templo, mesmo na presena deles
depositamos o Rabi no tmulo novo, que est no horto de Jos.
Trs vezes as mulheres choraram sobre a pedra que, segundo
os ritos, como sabeis, no fechava inteiramente o tmulo, deixando
uma larga fenda por onde se via o rosto do Rabi. Alguns
serventes do templo olharam, e disseram: Est bem. Cada um
recolheu  sua morada... Eu entrei pela porta de Gen, nada
mais vi. Mas, apenas anoitecesse, Jos e outro, fiel inteiramente,
deviam ir buscar o corpo de Jesus, e com as receitas que vm
no livro de Salomo, faz-lo reviver do desmaio em que o deixou
o vinho narcotizado e o sofrimento... Vinde pois, vs que o
amais tambm e credes nele!...
Impressionado, decidido, Topsius traou a sua farta capa; e
descemos, num cauto silncio, pela escada que, do terrao, levava
a um caminho de pedra mida colado  muralha nova de
Herodes.
Longo tempo marchamos na escurido, guiados pelas roupagens
brancas do essnio. Dentre casebres em runas, por vezes
um co saltava uivando. Sobre as altas ameias passavam mortias
lanternas de ronda. Depois uma sombra que tossia ergueuse
de sob uma rvore, triste e mole como se sasse da sua sepultura;
e roando o meu brao, puxando a capa de Topsius,
rogava-nos atravs de gemidos e baforadas de alho que fssemos
dormir ao seu leito que ela perfumara de nardo.
Paramos finalmente diante de um muro, a que uma esteira grossa
de esparto cerrava a entrada. Um corredor que ressumbrava
gua levou-nos a um ptio rodeado por uma varanda, assente
sobre rudes vigas de madeira; o cho mole como lodo abafava
o rumor das nossas solas.
Gade, trs vezes espaadas, soltou o grito dos chacais. Ns
espervamos no meio do ptio,  borda de um poo, coberto
com tbuas; o cu, por cima, guardava a escurido dura e impenetrvel
de um bronze. A um canto, enfim, sob a varanda, um
claro vivo de lmpada surgiu - alumiando a barba negra do
homem que a trazia e que lanara, sobre a cabea, a ponta de
um albornoz pardo de galileu. Mas a luz morreu sob um sopro
forte. E o homem, lentamente, na treva, caminhou para ns.
Gade cortou a desolada mudez:
- Que a paz seja contigo, irmo! Estamos prontos.
O homem pousou devagar a lmpada sobre a tampa do poo, e
disse:
- Tudo est consumado.
Gade, estremecendo, gritou:
- O Rabi?
O homem atirou a mo para abafar o grito do essnio. Depois,
tendo sondado a sombra em redor com olhos inquietos, que
reluziam como os de um animal do deserto:
- So cousas mais altas do que podemos entender. Tudo parecia
certo. O vinho narcotizado fora bem preparado pela mulher
de Rosmofim, que  hbil e conhece os simples... Eu tinha falado
ao centurio, um camarada a quem salvei a vida na
Germnia, na campanha de Pblio. E, quando rolamos a pedra
sobre o tmulo de Jos de Ramata, o corpo do Rabi estava
quente!
Mas calou-se; e, como se o ptio fechado sob o cu negro no
fosse bastante secreto e seguro, tocou no ombro de Gade, e
sem um rumor dos ps nus recolheu  escurido mais densa sob
a varanda, at s pedras do muro. Ns, rente a ele e mudos,
tremamos de ansiedade; e eu senti que uma revelao ia passar,
suprema e prodigiosa, alumiando os mistrios.
- Ao anoitecer - segredou o homem por fim, como um murmrio
triste de gua correndo na sombra - voltamos ao tmulo.
Olhamos pela fenda; a face do Rabi estava serena e cheia de
majestade. Levantamos a pedra, tiramos o corpo. Parecia
adormecido, to belo, como divino, nos panos que o envolviam...
Jos tinha uma lanterna; e levamo-lo pelo Garebe, correndo
atravs do arvoredo. Ao p da fonte encontramos uma ronda
da coorte auxiliar. Dissemos:  um homem de Jop que
adoeceu, e que ns levamos  sua sinagoga. A ronda disse:
passai. Em casa de Jos estava Simeo, o Essnio, que viveu
em Alexandria e sabe a natureza das plantas; e tudo fora preparado,
at  raiz do baraz... Estendemos Jesus na esteira. Demos-
lhe a beber os cordiais, chamamo-lo, esperamos, oramos...
Mas ai! Sentamos, sob as nossas mos, arrefecer-lhe o
corpo!... Um instante abriu lentamente os olhos, uma palavra
saiu-lhe dos lbios. Era vaga, no a compreendemos... Parecia
que invocava seu pai, e que se queixava de um abandono... Depois
estremeceu; um pouco de sangue apareceu-lhe ao canto da
boca... E, com a cabea sobre o peito de Nicodemo, o Rabi
ficou morto!
Gade caiu pesadamente de joelhos, soluando; e o homem,
como se todas as cousas tivessem sido ditas, deu um passo
para buscar a sua lmpada ao poo. Topsius deteve-o, com
avidez:
- Escuta! Preciso toda a verdade. Que fizestes depois?
O homem parou junto a um dos pilares de madeira. Depois,
alargando os braos na escurido e to perto das nossas faces,
que eu sentia o seu bafo quente:
- Era necessrio, para bem da terra, que se cumprissem as profecias!
Durante duas horas Jos de Ramata orou, prostrado.
No sei se o Senhor lhe falou em segredo; mas, quando se ergueu,
resplandecia todo e gritou: Elias veio! Elias veio! Os
tempos chegaram! Depois, por sua ordem, enterramos o Rabi
numa caverna que ele tem, talhada na rocha, por trs do moinho...
Atravessou o ptio, tomou a sua lmpada. E recolhia lentamente,
sem um rumor, quando Gade, erguendo a face, o chamou
atravs dos seus soluos:
- Escuta ainda! Grande  o Senhor, na verdade!... E o outro
tmulo, onde as mulheres de Galilia o deixaram, ligado e envolvidos
em panos, com alos e com nardo?
O homem, sem parar, murmurou, j sumido na treva:
- L ficou aberto, l ficou vazio!...
Ento Topsius arrastou-me pelo brao, to arrebatadamente,
que tropevamos no escuro contra os pilares da varanda. Uma
porta ao fundo abriu-se, com um brusco estrondo de ferros cados...
E vi uma praa, rodeada de plidos arcos, triste e fria,
com erva entre as fendas das lajes dessoldadas, como numa
cidade abandonada. Topsius estacou; os seus culos faiscavam:
- Teodorico, a noite termina; vamos partir de Jerusalm!... A
nossa jornada ao passado acabou... A lenda inicial do cristianismo
est feita, vai findar o mundo antigo!
Eu considerei, assombrado e arrepiado, o douto historiador. Os
seus cabelos ondeavam agitados por um vento de inspirao. E
o que levemente saa dos seus finos lbios retumbava, terrvel e
enorme, caindo sobre o meu corao:
- Depois de amanh, quando acabar o Sab, as mulheres de
Galilia voltaro ao sepulcro de Jos de Ramata, onde deixaram
Jesus sepultado... E encontram-no aberto, encontram-no
vazio!... Desapareceu, no est aqui!... Ento Maria de
Magdala, crente e apaixonada, ir gritar por Jerusalm  ressuscitou,
ressuscitou! E assim o amor de uma mulher muda a
face do mundo, e d uma religio mais  humanidade!
E, atirando os braos ao ar, correu atravs da praa - onde os
pilares de mrmore comeavam a tombar, sem rudo e
molemente. Arquejando, paramos no porto de Gamaliel. Um
escravo, tendo ainda nos pulsos pedaos de cadeias partidas,
segurava os nossos cavalos. Montamos. Com um fragor de pedras
levadas numa torrente, varamos a Porta de Ouro; e galopamos
para Jeric, pela estrada romana de Siqum, to vertiginosamente
que no sentamos as ferraduras ferir as lajes negras
de basalto. Adiante, a capa branca de Topsius torcia-se
aoutada por uma rajada furiosa. Os montes corriam aos lados,
como fardos sobre dorsos de camelos na debandada de um
povo. As ventas da minha gua dardejavam jactos de fumo
avermelhado; e eu agarrava-me s crinas, tonto, como se rolasse
entre nuvens...
De repente avistamos, alargada, cavada at s serras de
Moabe, a plancie de Cana. O nosso acampamento alvejava
junto s brasas dormentes da fogueira. Os cavalos estacaram,
tremendo. Corremos s tendas; sobre a mesa, a vela que
Topsius acendera para se vestir, havia mil e oitocentos anos,
morria num fogacho lvido... E derreado da infinita jornada, atirei-
me para o catre, sem mesmo descalar as botas brancas de
p...
Imediatamente me pareceu que uma tocha fumegante penetrara
na tenda, esparzindo um brilho de ouro... Ergui-me, assustado.
Num largo raio de sol, vindo dos montes de Moabe, o jucundo
Pote entrava, em mangas de camisa, com as minhas botas na
mo!
Arrojei a manta, arredei os cabelos, para verificar melhor a mudana
terrvel que desde a vspera se fizera no universo! Sobre
a mesa jaziam as garrafas do champagne, com que brindramos
 cincia e  religio. O embrulho da coroa de espinhos pousava
 minha cabeceira. Topsius, no seu catre, em camisola, e
com um leno amarrado na testa, bocejava, pondo os culos de
ouro no bico. E o risonho Pote, censurando a nossa preguia,
queria saber se apetecamos nessa manh - tapioca ou caf.
Deixei sair deliciosamente do peito um ruidoso, consolado suspiro.
E no jbilo triunfal de me sentir reentrado na minha individualidade
e no meu sculo, pulei sobre o colcho com a fralda
ao vento, bradei:
- Tapioca, meu Pote! Uma tapioca bem docinha e molezinha,
que saiba bem ao meu Portugal...
4
Ao outro dia, que fora um radioso domingo, levantamos de
Jeric as nossas tendas; e caminhando com o sol para ocidente,
pelo Vale de Querite, comeamos a romagem de Galilia.
Mas ou fosse que a consoladora fonte da admirao houvesse
secado dentro em mim, ou que a minha alma, arrebatada um
momento aos cimos da histria e batida a por speras rajadas
de amoo, no se pudesse j aprazer nestes quietos e ermos
caminhos da Sria - senti sempre indiferena e cansao, do pas
de Efraim ao pas de Zebelon.
Quando nessa noite acampamos em Betel, vinha a lua cheia saindo
por trs dos montes negros de Gileade... O festivo Pote
mostrou-me logo o cho sagrado em que Jac, pastor de
Bersab, tendo adormecido sobre uma rocha, vira uma escada
que faiscava, fincada a seus ps e arrimada s estrelas, por
onde ascendiam e baixavam, entre terra e cu, anjos calados,
com as asas fechadas... Eu bocejei formidavelmente e rosnei: -
Tem seu chic!...
E assim rosnando e bocejando atravessei a terra dos prodgios.
A graa dos vales foi-me to fastidiosa como a santidade das
runas. No poo de Jac, sentado nas mesmas pedras em que
Jesus, cansado como eu da calma destas estradas e como eu
bebendo do cntaro de uma samaritana, ensinara a nova e pura
maneira de adorar; nas encostas do Carmelo, numa cela de
mosteiro, ouvindo de noite ramalhar os cedros que abrigaram
Elias, e gemerem embaixo as ondas, vassalas de Hiro, Rei de
Tiro; galopando com o albornoz ao vento pela plancie de
Esdrelon; remando docemente no Lago de Genesar, coberto
de silncio e de luz - sempre o tdio marchou a meu lado como
companheiro fiel, que a cada passo me apertava ao seu peito
mole, debaixo do seu manto pardo...
s vezes, porm, uma saudade fina e gostosa, vinda do remoto
passado, levantava de leve a minha alma, como uma aragem
lenta faz a uma cortina muito pesada... E ento, fumando diante
das tendas, trotando pelo leito seco das torrentes, eu revia, com
deleite, pedaos soltos dessa Antigidade que me apaixonara: a
terma romana, onde uma criatura maravilhosa de mitra amarela
se ofertava, lasciva e pontifical; o formoso Manasss, levando a
mo  espada cheia de pedrarias; mercadores, no templo, desdobrando
os brocados de Babilnia; a sentena do Rabi com
um trao vermelho, num pilar de pedra,  porta Judiciria; ruas
iluminadas, gregos danando a calabida... E era logo um desejo
angustioso de remergulhar nesse mundo irrecupervel. Cousa
risvel! Eu, Raposo e bacharel, no farto gozo de todos os confortos
da civilizao - tinha saudade dessa brbara Jerusalm,
que habitara num dia do ms de Nizam sendo Pncio Pilatos
procurador da Judia!
Depois estas memrias esmoreciam, como fogos a que falta a
lenha. Na minha alma s restavam cinzas - e, diante das runas
do Monte Ebal, ou sob os pomares que perfumam Siqum, a
levtica, recomeava a bocejar.
Quando chegamos a Nazar, que aparece na desolao da Palestina
como um ramalhete pousado na pedra de uma sepultura
- nem me interessaram as lindas judias, por quem se banhou de
ternura o corao de Santo Antonino. Com a sua cntara vermelha
ao ombro, elas subiam por entre os sicmoros  fonte
onde Maria, me de Jesus, ia todas as tardes, cantando como
estas e como estas vestida de branco... O jucundo Pote, torcendo
os bigodes, murmurava-lhes madrigais; elas sorriam, baixando
as pestanas pesadas e meigas. Era diante desta suave
modstia que Santo Antonino, apoiado ao seu bordo, sacudindo
a sua longa barba, suspirava: Oh virtudes claras, herdadas
de Maria cheia de graa! Eu, por mim, rosnava secamente:
lambisgias!
Atravs de vielas onde a vinha e a figueira abrigam casas humildes,
como convm  doce aldeia daquele que ensinou a humildade,
trepamos ao cimo de Nazar, batido sempre do largo
vento que sopra das idumias. A Topsius tirou o barrete saudando
essas plancies, esses longes, que decerto Jesus vinha
contemplar, concebendo diante da sua luz e da sua graa as
incomparveis belezas do reino de Deus... O dedo do douto
historiador ia-me apontando todos os lugares religiosos - cujos
nomes sonoros caem na alma com uma solenidade de profecia,
ou com um fragor de batalha: Esdrelon, Endor, Sulm, Tabor...
Eu olhava, enrolando um cigarro. Sobre o Carmelo sorria uma
brancura de neve; as plancies da Prea fulguravam, rolando
uma poeira de ouro; o Golfo de Caifa era todo azul; uma tristeza
cobria ao longe as montanhas de Samaria; grandes guias
torneavam sobre os vales... Bocejando, rosnei:
- Vistazinha catita!
Uma madrugada, enfim, recomeamos a descer para Jerusalm.
Desde Samaria a Ram fomos alagados por esses vastos e negros
chuveiros da Sria, que armam logo torrentes rugindo entre
as rochas, sob os aloendros em flor; depois, junto  colina de
Gibe onde outrora no seu jardim, entre o louro e o cipreste,
Davi tangia harpa olhando Sio - tudo se vestiu de serenidade e
de azul. E uma inquietao engolfou-se em minha alma, como
um vento triste numa runa... Eu ia avistar Jerusalm! Mas -
qual? Seria a mesma que vira um dia, resplandecendo suntuosamente
ao sol de Nizam, com as torres formidveis, o templo cor
de ouro e cor de neve, Acra cheia de palcios, Bezeta regada
pelas guas de Enrogel?...
- El-Kurds! El-Kurds! - gritou o velho beduno, com a lana no
ar, anunciando pela sua alcunha muulmana a cidade do Senhor.
Galopei, a tremer... E logo a vi, l embaixo, junto  ravina do
Cdron, sombria, atulhada de conventos e agachada nas suas
muralhas caducas - como uma pobre, coberta de piolhos, que
para morrer se embrulha a um canto nos farrapos do seu
mantu.
Bem depressa, transpassada a Porta de Damasco, as patas dos
nossos cavalos atroaram o lajedo da Rua Crist; rente ao muro
um frade gordo, com o brevirio e o guarda-sol de paninho entalados
sob o brao, ia sorvendo uma pitada estrondosa. Apeamos
no Hotel do Mediterrneo; no esguio ptio, sob um anncio
das Plulas Holloway, um ingls, com um quadrado de
vidro colado ao olho claro, os sapates atirados para cima do
div de chita, lia o Times; por trs de uma varanda aberta, onde
secavam ceroulas brancas com ndoas de caf, uma goela
roufenha vozeava: Cest le beau Nicolas, hol!... Ah! era esta,
era esta, a Jerusalm catlica!... Depois ao penetrar no nosso
quarto, claro e alegrado pelo tabique de ramagens azuis, ainda
um instante me rebrilhou na memria certa sala, com candelabros
de ouro e uma esttua de Augusto, onde um homem
togado estendia o brao e dizia: Csar conhece-me bem!
Corri logo  janela a sorver o ar vivo da moderna Sio. L estava
o convento com as suas persianas verdes fechadas, e as
goteiras agora mudas nesta tarde de sol e doura... Entre
socalcos de jardins, l se torciam as escadinhas, cruzadas por
franciscanos de alpercatas, por judeus magros de sujas melenas...
E que repouso na frescura destas paredes de cela, depois
das estradas abrasadas de Samaria! Fui apalpar a cama fofa.
Abri o guarda-roupa de mogno. Fiz uma carcia leve ao
embrulhinho da camisa de Mary; redondo e gracioso com o seu
nastro vermelho, aninhado entre pegas.
Neste instante o jucundo Pote entrou a trazer-me o precioso
embrulho da coroa de espinhos, redondo e ntido com o seu
nastro vermelho; e alegremente deu-me as novas de Jerusalm.
Colhera-as do barbeiro da Via-Dolorosa e eram considerveis.
De Constantinopla viera um firman exilando o patriarca grego,
pobre velho evanglico, com uma doena de fgado, que socorria
os pobres. O senhor Cnsul Damiani afirmara na loja de relquias
da Rua Armnia, batendo o p, que antes do dia de Reis,
por causa da birra do murro entre os franciscanos e a Misso
Protestante, a Itlia tomaria armas contra a Alemanha. Em
Betlm, na Igreja da Natividade, um padre latino numa bulha,
ao benzer hstias, rachara a cabea de um padre copta com
uma tocha de cera... E enfim, novidade mais jubilosa, abrira-se
para alegria de Sio, ao p da porta de Herodes, deitando sobre
o Vale de Josafate, um caf com bilhares, chamado o Retiro
do Sinai!
Subitamente, saudades dolentes do passado, cinzas que me cobriam
a alma, foram varridas por um fresco vento de mocidade
e de modernidade... Pulei sobre o ladrilho sonoro:
- Viva o belo Retiro! A ele! s iscas!  carambola! Irra! Que
estava morto por me refestelar! E depois s mulherinhas!... Pe
a o embrulho da coroa, belo Pote... Isso significa muito bago!
Jesus, o que a a Titi se vai babar!... Planta-o em cima da cmoda,
entre os castiais... E logo, depois da comidinha,
Potezinho, para o Retiro do Sinai!
Justamente o sbio Topsius entrava esbaforido, com uma formosa
nova histrica! Durante a nossa romagem a Galilia a Comisso
de Escavaes Bblicas encontrara, sob lixos seculares,
uma das lpides de mrmore que, segundo Josefo e Flon e os
talmudes, se erguiam no templo, junto  Porta Bela, com uma
inscrio proibindo a entrada aos gentlicos... E ele instava que
marchssemos, engolida a sopa, a pasmar para essa maravilha...
Um momento ainda me rebrilhou na memria uma porta,
bela em verdade, preciosa e triunfal, sobre os seus quatorze
degraus de mrmore verde de Numdia...
Mas sacudi desabridamente os braos, numa revolta:
- No quero! - gritei. - Estou farto!... Irra! E aqui lho declaro,
Topsius, solenemente; de hoje em diante no torno a ver nem
mais um pedregulho, nem mais um stio de religio... Irra! Tenho
a minha dose; e forte, muito forte, doutor!
O sbio, enfiado, abalou com a rabona colada s ndegas!
Nessa semana ocupei-me em documentar e empacotar as relquias
menores que destinava  tia Patrocnio. Copiosas e bem
preciosas eram elas - e com devotssimo lustre brilhariam no
tesouro da mais orgulhosa S! Alm das que Sio importa de
Marselha em caixotes - rosrios, bentinhos, medalhas,
escapulrios; alm das que fornecem no Santo Sepulcro os vendilhes
- frascos de gua do Jordo, pedrinhas da Via-Dolorosa,
azeitonas do Monte Olivete, conchas do Lago de Genesar
- eu levava-lhe outras raras, peregrinas, inditas... Era uma
tabuinha aplainada por So Jos; duas palhinhas do curral onde
nasceu o Senhor; um bocadinho do cntaro com que a Virgem
ia  fonte; uma ferradura do burrinho em que fugiu a Santa Famlia
para a terra do Egito; e um prego torto e ferrugento...
Estas preciosidades, embrulhadas em papis de cor, atadas
com fitinhas de seda, guarnecidas de tocantes dsticos - foram
acondicionadas num forte caixote, que a minha prudncia fez
revestir de chapas de ferro. Depois cuidei da relquia maior, a
coroa de espinhos, fonte de celestiais mercs para a Titi - e de
sonora pecnia para mim, seu cavaleiro e seu romeiro.
Para a encaixotar, ambicionei uma madeira preclara e santa.
Topsius aconselhava o cedro do Lbano - to belo que, por ele,
Salomo fez aliana com Hiro, Rei de Tiro. O jucundo Pote,
porm, menos arqueolgico, lembrou o honesto pinho de
Flandres benzido pelo patriarca de Jerusalm. Eu diria  Titi que
os pregos para o pregar tinham pertencido  Arca de No; que
um ermito os achara miraculosamente no Monte Arar; que a
ferrugem que neles deixara o lodo primitivo, dissolvida em gua
benta, curava catarros... Tramamos estas cousas considerveis,
cervejando no Sinai.
Durante esta atarefada semana, o embrulho da coroa de espinhos
permanecera na cmoda entre os dous castiais de vidro;
foi s na vspera de deixarmos Jerusalm que o encaixotei com
carinho. Forrei a madeira de chita azul comprada na Via-Dolorosa;
fiz fofo e doce o fundo do caixote, com uma camada de
algodo mais branco que a neve do Carmelo; e coloquei dentro
o adorvel embrulho, sem o remexer, como Topsius o arranjara,
no seu papel pardo e no seu nastro vermelho - porque estas
mesmas dobras do papel vincadas em Jeric, este mesmo n
do nastro atado junto ao Jordo, teriam para a senhora D. Patrocnio
um insubstituvel sabor de devoo... O esguio Topsius
considerava estes piedosos aprestos, fumando o seu cachimbo
de loua.
- Oh Topsius, que chelpa isto me vai render! E diga l amiguinho,
diga l! Ento acha que eu posso afirmar  Titi que esta
coroa de espinhos foi a mesma que...
O doutssimo homem, por entre o fumo leve, soltou uma
solidssima mxima:
- As relquias, D. Raposo, no valem pela autenticidade que
possuem, mas pela f que inspiram. Pode dizer  Titi que foi a
mesma!
- Bendito sejas, doutor!
Nessa tarde, o erudito homem acompanhara aos tmulos dos
reis a Comisso de Escavaes. Eu parti, s, para o Horto das
Oliveiras - porque no havia, em torno a Jerusalm, lugar de
sombra onde mais gratamente, em tardes serenas, gozasse um
pachorrento cachimbo.
Sa pela porta de Santo Estvo; trotei pela ponte do Cdron;
galguei o atalho entre piteiras at ao murozinho, caiado e aldeo,
que cerra o jardim de Getsmani. Empurrei a portinha
verde, pintada de fresco, com a sua aldraba de cobre; e penetrei
no pomar onde Jesus ajoelhou e gemeu sob a folhagem das
oliveiras. Ali vivem ainda essas rvores santas, que ramalharam
embaladoramente sobre a sua cabea fatigada do mundo! So
oito, negras, carcomidas pela decrepitude, escoradas com estacas
de madeira, amodorradas, j esquecidas dessa noite de
Nizam em que os anjos, voando sem rumor, espreitavam atravs
dos seus ramos as desconsolaes humanas do filho de
Deus... Nos buracos dos seus troncos esto guardados enxs e
podes; nas pontas dos galhos raras e tnues folhinhas, de um
verde sem seiva, tremem e mal vivem como os sorrisos de um
moribundo.
E em redor que hortazinha caridosamente regada, estrumada
com devoo! Em canteiros, com sebes de alfena, verdejam
frescas alfaces; as ruazinhas areadas no tm uma folha murcha
que lhes macule o asseio de capela; rente aos muros, onde
rebrilham em nichos doze apstolos de loua, correm alfobres
de cebolinho e cenoura, fechados por cheirosa alfazema... Por
que no floria aqui, em tempos de Jesus, to suave quintal? Talvez
a plcida ordem destes teis legumes calmasse a tormenta
do seu corao!
Sentei-me debaixo da mais velha oliveira. O frade guardio,
risonho santo de barbas sem fim, regava com o hbito arregaado
os seus vasos de rainnculos. A tarde caia com melanclico
esplendor.
E, enchendo o cachimbo, eu sorria aos meus pensamentos.
Sim! Ao outro dia deixaria essa cinzenta cidade, que l embaixo
se agachava entre os seus muros fnebres, como viva que no
quer ser consolada... Depois uma manh, cortando a vaga azul,
avistaria a serra fresca de Sintra; as gaivotas da ptria vinham
dar-me o grito de boa acolhida, esvoaando em torno aos mastros;
Lisboa pouco a pouco surgia, com as suas brancas calias,
a erva nos seus telhados, indolente e doce aos meus olhos...
Berrando oh Titi, oh Titi!, eu trepava as escadas de pedra da
nossa casa em Santana; e a Titi, com fios de baba no queixo,
punha-se a tremer diante da grande relquia que eu lhe oferecia,
modesto. Ento, na presena de testemunhas celestes, de So
Pedro, de Nossa Senhora do Patrocnio, de So Casimiro e de
So Jos, ela chamava-me seu filho, seu herdeiro! E ao outro
dia comeava a amarelecer, a definhar, a gemer... Oh delcia!
De leve, sobre o muro, entre as madressilvas, um pssaro cantou;
e mais alegre que ele cantou uma esperana no meu corao!
Era a Titi na cama, com o leno negro amarrado na cabea,
apalpando angustiosamente as dobras do lenol suado, arquejando
com terror do diabo... Era a Titi a espichar, retesando
as canelas. Num dia macio de maio metiam-na j fria e cheirando
mal, dentro de um caixo bem pregado e bem seguro. Com
tipias atrs, l marchava Dona Patrocnio para a sua cova,
para os bichos. Depois quebrava-se o lacre do testamento na
sala dos damascos, onde eu preparara, para o tabelio Justino,
pastis e vinho do Porto; carregado de luto, amparado ao mrmore
da mesa, eu afogava, num leno amarfanhado, o escandaloso
brilho da minha face; e dentre as folhas de papel selado
senta, rolando com um tinir de ouro, rolando com um sussurro
de searas, rolando, rolando para mim os contos de G.
Godinho!... Oh xtase!
O santo frade pousara o regador, e passeava com o brevirio
aberto numa ruazinha de murta. Que faria eu, na minha casa em
Santana, apenas levassem a ftida velha, amortalhada num hbito
de Nossa Senhora? Uma alta justia; correr ao oratrio,
apagar as luzes, desfolhar os ramos, abandonar os santos  escurido
e ao bolor! Sim, todo eu, Raposo e liberal, necessitava
a desforra de me ter prostrado diante das suas figuras pintadas
como um srdido sacrista, de me ter recomendado  sua influncia
de calendrio, como um escravo crdulo! Eu servira os
santos para servir a Titi. Mas agora, inefvel deleite, ela na sua
cova apodrecia; naqueles olhos, onde nunca escorrera uma lgrima
caridosa, fervilhavam gulosamente os vermes; sob aqueles
beios, desfeitos em lodo, surgiam enfim, sorrindo, os seus velhos
dentes furados que jamais tinham sorrido... Os contos de
G. Godinho eram meus; e libertado da ascorosa senhora, eu j
no devia aos seus santos nem rezas nem rosas! Depois, cumprida
esta obra de justia filosfica, corria a Paris, s
mulherinhas!
O bom frade, risonho na sua barba de neve, bateu-me no ombro,
chamou-me seu filho, lembrou-me que se fechava o santo
horto e que lhe seria grata a minha esmola... Dei-lhe uma placa;
e recolhi regalado a Jerusalm, devagar, pelo Vale de Josafate,
cantarolando um fado meigo.
Ao outro dia de tarde, tocava o sino a novena na Igreja da
Flagelao quando a nossa caravana se formou  porta do Hotel
do Mediterrneo, para partirmos de Jerusalm. Os caixes
das relquias iam sobre o macho, entre os fardos. O beduno,
mais encatarroado, abafara-se num ignbil cachen de sacristo.
Topsius montava outra gua, sria e pachorrenta. E eu, que
por alegria pusera uma rosa vermelha ao peito, resmunguei, ao
pisarmos pela vez derradeira a Via-Dolorosa: - Fica-te, pocilga
de Sio!
J chegvamos  porta de Damasco quando um grito esbaforido
ressoou, no alto da rua,  esquina do convento dos
abissnios:
- Amigo Pote, doutor, cavalheiros!... Um embrulho! Esqueceu
um embrulho...
Era o negro do hotel, em cabelo, agitando um embrulho que
logo reconheci pelo papel pardo e pelo nastro vermelho. A camisinha
de dormir da Mary! E recordei que, com efeito, ao
emalar, eu no o vira no guarda-roupa, no seu ninho de pegas.
Esfalfado, o servo contou que depois de pararmos, varrendo o
quarto, descobrira o embrulhinho entre p e aranhas, detrs da
cmoda; limpara-o carinhosamente; e como fora sempre seu
af servir o fidalgo lusitano, abalara, mesmo sem a jaleca...
- Basta! - rosnei eu, seco e carrancudo.
Dei-lhe as moedas de cobre que me atulhavam as algibeiras. E
pensava: Como rolou ele para trs da cmoda? Talvez o negro
atabalhoado que, arrumando, o tirara do seu ninho de pegas...
Pois antes l permanecesse para sempre, entre o p e as
aranhas! Porque em verdade este pacote era agora audazmente
impertinente.
Decerto! Eu amava a Mary. A esperana que em breve na terra
do Egito seria apertado pelos seus braos gordinhos, ainda me
fazia espreguiar com langor. Mas guardando fielmente a sua
imagem no corao, no necessitava trazer perenemente  garupa
a sua camisinha de dormir. Com que direito pois corria esta
bretanha atrs de mim, pelas ruas de Jerusalm, querendo instalar-
se violentamente nas minhas malas e acompanhar-me  minha
ptria?
E era essa idia de ptria que me torturava em quanto nos afastvamos
das muralhas da Cidade Santa... Como poderia eu
jamais penetrar com este pacote lbrico na casa eclesistica da
tia Patrocnio? Constantemente a Titi se encafuava no meu quarto,
munida de chaves falsas, speras e vida, rebuscando pelos
cantos, nas minhas cartas e nas minhas ceroulas... Que clera a
esverdearia se numa noite de pesquisas ela encontrasse estas
rendas babujadas pelos meus lbios, fedendo a pecado, com a
oferta em letra cursiva Ao meu portuguesinho valente!
Se soubesse que nesta santa viagem te tinhas metido com saias,
escorraava-te como um co! Assim o dissera a Titi, em
vsperas da minha romagem, diante da Magistratura e da Igreja.
E iria eu, pelo luxo sentimental de conservar a relquia de
uma luveira, perder a amizade da velha que to caramente conquistara
com teros, pingos de gua benta e humilhaes da
razo liberal? Jamais!... E, se no afoguei logo o embrulho funesto
na gua de um charco, ao atravessarmos as choas de
Coloni, foi para no revelar ao penetrante Topsius as covardias
do meu corao. Mas decidi que mal penetrssemos com a
noite nas montanhas de Jud, retardaria o passo  gua, e longe
dos culos do historiador, longe das solicitudes de Pote, arrojaria
a um barranco a terrvel camisa de Mary; evidncia do meu
pecado e dano da minha fortuna. E que bem depressa os dentes
dos chacais a rasgassem! Bem depressa os chuveiros do Senhor
a apodrecessem!
J passramos o tmulo de Samuel por trs dos rochedos de
Emas, j para sempre Jerusalm desaparecera aos meus olhos,
quando a gua de Topsius, avistando uma fonte, num vale cavado
junto  estrada, deixou a caravana, deixou o dever - e trotou
para a gua, com impudncia e com alacridade. Estaquei, indignado:
- Puxe-lhe a rdea, doutor! Olhe que descaro de gua! Ainda
agora bebeu... No lhe ceda! Puxe mais! No lhe toque, homem!
Mas debalde o filsofo, com os cotovelos sados, as pernas
esticadas, lhe repuxava brides e crinas. A cavalgadura abalou
com o filsofo.
Corri tambm  fonte, para no abandonar naquele ermo o precioso
homem. Era um fio de gua turva, escorrendo de uma
quelha sobre um tanque escavado na rocha. Ao p
branquejava, j tida, a grande carcaa de um dromedrio. Os
ramos de uma mimosa, ali solitria, tinham sido queimados por
um fogo de caravana. Longe, na espinha escamada de uma colina,
um pastor, negro no cu opalino, ia caminhando devagar
entre as suas ovelhas com a lana pousada ao ombro. E na
sombria mudez de tudo a fonte chorava.
Aquela quebrada era to deserta, que me lembrou deixar ali a
fazer-se, como a ossada do dromedrio, o embrulhinho da
Mary... A gua do historiador beberava com pachorra. E eu
procurava aqui, alm, um barranco ou um charco - quando me
pareceu que, junto da fonte, e misturado ao pranto dela, corria
tambm pranto humano.
Torneei um penedo que avanava soberbamente, como a proa
uma galera - e descobri, agachada e refugiada entre as pedras e
os cardos, uma mulher que chorava, com uma criancinha no
regao; os seus cabelos crespos espalhavam-se pelos ombros e
os braos, que os trapos negros mal cobriam; e sobre o filho,
que dormia no calor do colo, o seu choro corria, mais contnuo,
mais triste que o da fonte, e como se no devesse findar jamais.
Gritei pelo jucundo Pote. Quando ele trotou para ns, agarrando
a coronha prateada da sua pistola, supliquei que perguntasse
 mulher a causa dessas longas lgrimas. Mas ela parecia
entontecida pela misria; falou surdamente de um casebre queimado,
de cavaleiros turcos que tinham passado, do leite que lhe
secava... Depois apertou a criana contra a face - e sufocada,
sob os cabelos esguedelhados, recomeou a chorar.
O festivo Pote deitou-lhe uma moeda de prata; Topsius tomou,
para a sua severa conferncia sobre a Judia Muulmana, um
apontamento daquele infortnio. E eu, comovido, procurava na
algibeira o meu cobre - quando me recordei que o dera num
punhado ao negro do Hotel do Mediterrneo. Mas tive uma til
inspirao. Atirei-lhe o perigoso embrulho da camisinha da
Mary; e a meu pedido o risonho Pote explicou,  desventurada,
que qualquer das pecadoras que habitam junto  Torre de Davi,
a gorda Fatm ou Palmira, a Samaritana, lhe daria duas piastras
de ouro por esse vestido de luxo, de amor e de civilizao.
Trotamos para a estrada. Atrs de ns a mulher lanava-nos,
por entre soluos e beijos ao filho, todas as bnos do seu
corao; e a nossa caravana retomou a marcha - enquanto o
arrieiro adiante, escarranchado sobre as bagagens, cantava 
estrela de Vnus que se erguera esse canto da Sria, spero,
alongado e doente, em que se fala de amor, de Al, de uma batalha
com lanas, e dos rosais de Damasco...
Ao apearmos de manh no Hotel de Josafate, na vetusta Jafa -
prodigiosa foi a minha surpresa vendo, pensativamente sentado
no ptio, com um bojudo turbante branco, o mofino
Alpedrinha!... Fiz-lhe ranger os ossos num abrao voraz. E
quando Topsius e o jucundo Pote partiram, debaixo do guardasol
de paninho, a colher novas do paquete que nos devia levar 
terra do Egito - Alpedrinha contou-me a sua histria, escovando
o meu albornoz.
Fora por tristeza que deixara a Alexandriazinha. O Hotel das
Pirmides, as maletas carregadas, tinham j saturado a sua alma
de um tdio insondvel; e o nosso embarque no Caimo para
Jerusalm dera-lhe a saudade dos mares, das cidades cheias de
histria, das multides desconhecidas... Um judeu de Quech,
que ia fundar uma estalagem em Bagd com bilhar, aliciara-o
para marcador. E ele, metendo num saco as piastras juntas
nas amarguras do Egito, ia tentar essa aventura do progresso
junto s guas lentas do Eufrates, na terra de Babilnia. Mas,
cansado de acarretar fardos alheios, buscava primeiro Jerusalm,
insensivelmente, levado talvez pelo esprito como o apstolo,
para descansar com as mos quietas a uma esquina da Via-
Dolorosa...
- E o cavalheiro recebeu alguns jornais da nossa Lisboa? Gostava
de saber como vai por l a rapaziada...
Enquanto ele assim balbuciava, triste e com o turbante  banda,
eu revia risonhamente a terra quente do Egito, a rua clara das
Duas Irms, a capelinha entre pltanos, as papoulas do chapu
da Mary..
E mais agudo me picava outra vez o desejo da minha loura
luveira. Que doce grito de paixo nos seus beios gordinhos,
quando uma tarde, queimado pelo sol da Sria e mais forte, eu
surgisse diante do seu balco espantando o gato branco! E a
camisinha?... Bem! Contaria que uma noite, junto de uma fonte,
ma tinham roubado cavaleiros turcos com lanas.
- Dize l, Alpedrinha! Tem-la visto, a Maricoquinhas? Que tal
est? Hem? Rechonchudinha?
Ele baixou o rosto murcho, onde um estranho rubor lhe avivara
duas rosas.
- J no est... Foi para Tebas!
- Para Tebas? Onde h umas runas?... Mas isso  no alto Egito!
Isso  em cascos de Nbia! Ora essa!... Que foi ela l fazer?
- Alindar as vistas - murmurou Alpedrinha com desolao.
Alindar as vistas! S compreendi quando o patrcio me contou
que a ingrata rosa de Iorque, adorno de Alexandria, fora levada
por um italiano de cabelos compridos, que ia a Tebas fotografar
as runas desses palcios, onde viviam face a face Ramss, rei
dos homens, e Amon, rei dos deuses... E Maricoquinhas ia
amenizar as vistas, aparecendo nelas  sombra austera dos
granitos sacerdotais, com a graa moderna do seu guardasolinho
fechado e do seu chapu de papoulas...
- Que descarada! - gritei eu, varado. - Ento com um italiano?
E gostando dele? Ou s negcio?... Hem, gostando?
- Babadinha - balbuciou Alpedrinha.
E, com um suspiro, atroou o Hotel de Josafate. Perante este ai,
repassado de tormento e de paixo, relampejou-me na alma
uma suspeita abominvel.
- Alpedrinha, tu suspiraste! Aqui h perfdia, Alpedrinha!
Ele baixou a fronte to contritamente que o turbante lasso rolou
nos ladrilhos. E antes que ele o levantasse j eu lhe empolgara
com sanha o brao mole.
- Alpedrinha, escarra a verdade! A Maricoquinhas, hem? Tambm
petiscaste?
A minha face barbuda chamejava... Mas Alpedrinha era meridional,
das nossas terras palreiras da vanglria e do vinho. O
medo cedeu  vaidade, e revirando para mim o bugalho branco
do olho:
- Tambm petisquei!
Sacudi-lhe o brao para longe, cheio de furor e de nojo. Tambm
aquela - com aquele! Oh, a Terra! A Terra! Que  ela se
no um monto de cousas podres, rolando pelos cus com
basfias de astro?
- E dize l, Alpedrinha, dize l, tambm te deu uma camisa?
- A mim um chambrezinho...
Tambm a ele - roupa branca! Ri, acerbamente, com as mos
nas ilhargas.
- E ouve l... Tambm te chamava seu portuguesinho valente?
- Como eu servia com turcos, chamava-me seu mourozinho
catita.
Ia rebolar-me no div, rasg-lo com as unhas, rir sempre, num
desesperado desprezo de tudo... Mas Topsius e o risonho Pote
apareceram alvoroados.
- Ento?...
Sim, chegara de Esmirna um paquete que levantava nessa tarde
ferro para o Egito, e que era o nosso dileto Caimo!
- Ainda bem! - gritei, atirando patadas ao ladrilho. - Ainda
bem, que estava farto de Oriente!... Irra! Que no apanhei aqui
seno soalheiras, traies, sonhos medonhos e botas pelos quadris!
Estava farto!
Assim eu bramava, sanhudo. Mas nessa tarde, na praia, diante
da barcaa negra que nos devia levar ao Caimo, entrou-me na
alma uma longa saudade da Palestina, e das nossas tendas
erguidas sob o esplendor das estrelas, e da caravana marchando
e cantando por entre as runas de nomes sonoros.
O lbio tremeu-me, quando Pote comovido me estendeu a sua
bolsa, de tabaco de Alepo:
- D. Raposo,  o ltimo cigarro que lhe d o alegre Pote.
E a lgrima rolou por fim quando Alpedrinha, em silncio, me
estendeu os braos magros.
Da barcaa, acocorado sobre os caixes das relquias, ainda o
vi na praia, sacudindo para mim um leno triste de quadrados -
ao lado de Pote que nos atirava beijos, com as grossas botas
metidas na gua. E j no Caimo, debruado na amurada, ainda
o avistei imvel sobre as pedras do molhe, segurando com as
mos, contra a brisa salgada, o seu vasto turbante branco.
Desventuroso Alpedrinha! S eu, em verdade, compreendi a
tua grandeza! Tu eras o derradeiro lusada, da raa dos
Albuquerques, dos Castros, dos vares fortes que iam nas armadas
 ndia! A mesma sede divina do desconhecido te levara,
como eles, para essa terra de oriente, de onde sobem ao
cu os astros que espalham a luz e os deuses que ensinam a lei.
Somente no tendo j, como os velhos lusadas, crenas hericas
concebendo empresas hericas, tu no vais como eles, com
um grande rosrio e com uma grande espada, impor s gentes
estranhas o teu rei e o teu Deus. J no tens Deus por quem se
combata, Alpedrinha! Nem rei por quem se navegue,
Alpedrinha!... Por isso, entre os povos do Oriente, te gastas nas
ocupaes nicas que comportam a f, o ideal, o valor dos modernos
lusadas - descansar encostado s esquinas, ou tristemente
carregar fardos alheios...
As rodas do Caimo bateram a gua. Topsius ergueu o seu
bon de seda - e gravemente gritou para o lado de Jafa, que
escurecia na palidez da tarde, sobre os seus tristes rochedos,
entre os seus pomares verde-negros:
- Adeus, adeus para sempre, terra da Palestina!
Eu acenei tambm com o capacete:
- Adeusinho, adeusinho, cousas de religio!
Afastava-me devagar da amurada, quando roou por mim a
longa capa de lustrina de uma religiosa; e dentre a sombra
pudica do capuz, que se voltou de leve, um fulgor de olhos negros
procurou as minhas barbas potentes. Oh maravilha! Era a
mesma santa irm que levara nos seus castos joelhos, atravs
destas guas da Escritura, a camisa imunda da Mary!
Era a mesma! Por que colocava novamente o destino junto a
mim, no estreito tombadilho do Caimo, este lrio de capela,
ainda fechado e j murcho? Quem sabe! Talvez para que ao
calor do meu desejo ele reverdecesse, desse flor, e no ficasse
para sempre estril e intil, tombado aos ps do cadver de um
deus!... E no vinha agora guardada pela outra religiosa, rechonchuda
e de luneta! A sorte abandonava-ma indefesa, como
a pombinha no ermo.
Rompeu-me ento na alma a fulgurante esperana de um amor
de monja mais forte que o medo de Deus; de um seio magoado
pela estamenha de penitncia caindo, todo a tremer e vencido,
entre os meus braos valentes!... Decidi segredar-lhe logo ali:
Oh minha irmzinha, estou todo lamecha por si! E inflamado,
torcendo os bigodes, caminhei para a doce religiosa, que se
refugiara num banco, passando os dedos plidos pelas contas
do seu rosrio...
Mas, bruscamente, o tabuado do Caimo fugiu sob meus ps
ovantes. Estaquei, enfiado. Oh misria! Humilhao! Era a vaga
enjoadora... Corri  borda; sujei imundamente o azul do Mar de
Tiro; depois rolei para o beliche - e s ergui do travesseiro a
face mortal, quando senti as correntes do Caimo mergulharem
nas calmas guas onde outrora, fugindo de cio, caram  pressa
as ncoras douradas das galeras de Clepatra!
E outra vez, estremunhado e esguedelhado, te avistei, terra baixa
do Egito, quente e da cor de um leo! Em tomo aos finos
minaretes voavam as pombas serenas. O lnguido palcio dormia
 beira da gua entre palmeiras. Topsius sobraava a minha
chapeleira, serrazinando cousas doutssimas sobre o antigo farol.
E a plida religiosa j deixara o Caimo, pomba do ermo
escapada ao milhafre - porque o milhafre no seu vo fechara a
asa, sordidamente enjoado!
Nessa mesma tarde, no Hotel das Pirmides, soube com jbilo
que um vapor de gado, El Cid Campeador, partia de madrugada
para as terras benditas de Portugal! Na caleche de
riscadinho, s com o douto Topsius, dei o derradeiro passeio
nas sombras olorosas do Mamudi. E passei a curta noite numa
rua deleitosa. Oh meus concidados, ide l, se apeteceis conhecer
os deleites speros do Oriente... Os bicos de gs sem globo
assobiam largamente, torcidos ao vento; as casas baixas, de
pau, so apenas fechadas por uma cortina branca, atravessada
de claridade; tudo cheira a sndalo e alho; e mulheres sentadas
sobre esteiras, em camisa, com flores nas tranas, murmuram
suavemente: - Eh mssiu! Eh milord!... Recolhi tarde, exausto.
Ao passar na Rua das Duas Irms, avistei sobre a porta de uma
loja cerrada a mo de pau, pintada de roxo, que empolgara o
meu corao. Atirei-lhe uma bengalada. Este foi o ltimo leito
das minhas longas jornadas.
De manh, o fiel e douto Topsius veio, de galochas, acompanhar-
me ao barraco da alfndega. Enlacei-o longamente nos
braos trmulos:
- Adeus, companheiro, adeus! Escreva... Campo de Santana,
47...
Ele murmurou, estreitado comigo:
- Aqueles trinta mil-ris, l mandarei...
Apertei-o generosamente, para abafar essa explicao de
pecnia. Depois, j com a bota na proa do bote que me ia levar
ao Cid Campeador:
- Ento, posso dizer  Titi que a coroazinha de espinhos  a
mesma...
Ele ergueu as mos, solene como um pontfice do saber:
- Pode dizer-lhe em meu nome que foi a mesmssima, espinho
por espinho...
Baixou o bico de cegonha ornado de culos - e beijamo-nos na
face como dous irmos.
Os negros remaram. Eu levava, pousado sobre os joelhos, o
caixote da suprema relquia. Mas quando o meu bote,  vela,
fendia a gua azul - passou rente de outro bote lento, levado a
remos para o lado do palcio que dormia entre palmeiras. E
num relance vi o hbito negro, o capuz descido... Um largo,
sequioso olhar, pela vez derradeira, procurou as minhas barbas.
De p, ainda gritei: Oh filhinha, oh magana! Mas j o vento
me levara. Ela, no seu bote, sumia a face contrita - e sobre o
delicado peito que ousara arfar, decerto a cruz pesou mais forte,
ciumenta e de ferro!
Fiquei mono... Quem sabe? Era aquele, talvez, em toda a vasta
terra, o nico corao em que o meu poderia repousar, como
num asilo seguro... Mas qu! Ela era s monja, eu s sobrinho.
Ela ia para o seu deus; eu ia para a minha tia. E quando nestas
guas os nossos peitos se cruzavam, e sentindo a sua concordncia,
batiam mudamente um para o outro - o meu barco corria
com vela alegre para Ocidente, e o barco que a levava, lento
e negro, ia a remos para Oriente... Desencontro contnuo das
almas congneres - neste inundo de eterno esforo e de eterna
imperfeio!
5
Duas semanas depois, rolando na tipia do Pingalho pelo Campo
de Santana, com a portinhola entreaberta e a bota estendida
para o estribo, avistei entre as rvores sem folhas o porto negro
da casa da Titi! E, dentro desse duro calhambeque, eu resplandecia
mais que um gordo Csar, coroado de folhagens de
ouro, sobre o seu vasto carro, voltando de domar povos e deuses.
Era decerto em mim o deleite de rever, sob aquele cu de janeiro,
to azul e to fino, a minha Lisboa, com as suas quietas ruas
cor de calia suja, e aqui e alm as tabuinhas verdes descidas
nas janelas, como plpebras pesadas de langor e de sono. Mas
era, sobretudo, a certeza da gloriosa mudana, que se fizera na
minha fortuna domstica e na minha influncia social.
At a, que fora eu em casa da senhora Dona Patrocnio? O
menino Teodorico que, apesar da sua carta de doutor e das
suas barbas de Raposo, no podia mandar selar a gua para ir
espontar o cabelo  Baixa, sem implorar licena  Titi... E agora?
O nosso Doutor Teodorico, que ganhara, no contato santo
com os lugares do Evangelho, uma autoridade quase pontifical!
Que fora eu at a, no Chiado, entre os meus concidados? O
Raposito, que tinha um cavalo. E agora? O grande Raposo, que
peregrinara poeticamente na Terra Santa, como Chateaubriand,
e que, pelas remotas estalagens em que pousara, pelas rolias
circassianas que beijocara, podia parolar com superioridade na
Sociedade de Geografia ou em asa da Benta Bexigosa...
O Pingalho estacou as pilecas. Saltei, com o caixote da relquia
estreitado ao corao... E, ao fundo do ptio triste, lajeado de
pedrinha, vi a senhora Dona Patrocnio das Neves, vestida de
sedas negras, toucada de rendas negras, arreganhando no caro
lvido, sob os culos defumados, as dentuas risonhas para
mim!
- Oh, Titi!
- Oh, menino!
Larguei o caixote santo, ca no seu peito seco; e o cheirinho que
vinha dela a rap, a capela e a formiga, era como a alma
esparsa das ousas domsticas que me envolvia, para me fazer
reentrar na piedosa rotina do lar.
- Ai filho, que queimadinho que vens!...
- Titi, trago-lhe muitas saudades do Senhor...
- D-mas todas; d-mas todas!...
E retendo-me, cingido  dura tbua do seu peito, roou os beios
frios pelas minhas barbas - to respeitosamente como se
fossem as barbas de pau da imagem de So Teodorico.
Ao lado, a Vicncia limpava o olho com a ponta do avental
novo. O Pingalho descarregara a minha mala de couro. Ento,
erguendo o precioso caixote de pinho de Flandres benzido,
murmurei, com uma modstia cheia de uno:
- Aqui est ela, Titi, aqui est ela! Aqui a tem, a lha dou, a sua
divina relquia, que pertenceu ao Senhor!
As emaciadas, lvidas mos da hedionda senhora, tremeram ao
tocar aquelas tbuas que continham o princpio miraculoso da
sua sade e o amparo das suas aflies. Muda, tesa, estreitando
sofregamente o caixote, galgou os degraus de pedra, atravessou
a sala de Nossa Senhora das Sete-Dores, enfiou para o
oratrio. Eu atrs, magnfico, de capacete, ia rosnando: ora
vivam! ora vivam!   cozinheira,  desdentada Eusbia, que
se curvavam no corredor como  passagem do Santssimo.
Depois, no oratrio, diante do altar juncado de camlias brancas,
fui perfeito. No ajoelhei, no me persignei; de longe com
dous dedos, fiz ao Jesus de ouro, pregado na sua cruz, um aceno
familiar - e atirei-lhe um olhar, muito risonho e muito fino,
como a um velho amigo com quem se tem velhos segredos. A
Titi surpreendeu esta intimidade com o Senhor; e quando se
rojou sobre o tapete (deixando-me a almofada de veludo verde),
foi tanto para o seu Salvador como para o seu sobrinho,
que levantou as mos adorabundas.
Findos os padre-nossos de graas pelo meu regresso, ela, ainda
prostrada, lembrou com humildade:
- Filho, seria bom que eu soubesse que relquia , para as velas,
para o respeito...
Acudi, sacudindo os joelhos:
- Logo se ver.  noite  que se desencaixotam as relquias...
Foi o que me recomendou o patriarca de Jerusalm... Em todo
o caso acenda a Titi mais quatro luzes, que at a madeirinha 
santa!
Acendeu-as, submissa; colocou, com beato cuidado, o caixote
sobre o altar; deps-lhe um beijo chilreado e longo; estendeulhe
por cima uma esplndida toalha de rendas... Eu ento, episcopalmente,
tracei sobre a toalha, com dous dedos, uma bno
em cruz.
Ela esperava, com os culos negros postos em mim, embaciados
de ternura:
- E agora, filho, agora?
- Agora o jantarinho, Titi, que tenho a tripa a tinir...
A senhora Dona Patrocnio logo, apanhando as saias, correu a
apressar a Vicncia. Eu fui desafivelar a maleta para o meu
quarto - que a Titi esteirara de novo; as cortinas de cassa
tufavam, tesas de goma; um ramo de violetas perfumava a cmoda.
Longas horas nos detivemos  mesa - onde a travessa de arrozdoce
ostentava as minhas iniciais, debaixo de um corao e de
uma cruz, desenhadas  canela pela Titi. E, inesgotavelmente,
narrei a minha santa jornada. Disse os devotos dias do Egito,
passados a beijar uma por uma as pegadas que l deixara a
Santa Famlia na sua fuga; disse o desembarque em Jafa com o
meu amigo Topsius, um sbio alemo, doutor em teologia, e a
deliciosa missa que l saboreramos; disse as colinas de Jud
cobertas de presepes onde eu, com a minha gua pela rdea, ia
ajoelhar, transmitindo s imagens e s custdias os recados da
tia Patrocnio... Disse Jerusalm, pedra a pedra! E a Titi, sem
comer, apertando as mos, suspirava com devotssimo pasmo:
- Ai que santo! Ai que santo ouvir estas cousas! Jesus, at d
uns gostinhos por dentro!...
Eu sorria, humilde. E cada vez que a considerava de soslaio, ela
me parecia outra Patrocnio das Neves. Os seus fundos culos
negros, que outrora reluziam to asperamente, conservavam um
contnuo embaciamento de ternura mida. Na voz, que perdera
a rispidez silvante, errava, amolecendo-a, um suspiro
acariciador e fanhoso. Emagrecera; mas nos seus secos ossos
parecia correr enfim um calor de medula humana! Eu pensava -
Ainda a hei de pr como um veludo.
E, sem moderao, prodigalizava as provas da minha intimidade
com o cu.
Dizia: - Uma tarde, no Monte das Oliveiras, estando a rezar,
passou de repente um anjo... Dizia: - Tirei-me dos meus cuidados,
fui ao tmulo de Nosso Senhor, abri a tampa, gritei para
dentro...
Ela pendia a cabea, esmagada, ante estes privilgios prodigiosos,
s comparveis aos de Santo Anto ou de So Brs.
Depois enumerava as minhas tremendas rezas, os meus
terrficos jejuns. Em Nazar, ao p da fonte onde Nossa Senhora
enchia o cntaro, rezara mil ave-marias, de joelhos  chuva...
No deserto, onde vivera So Joo, sustentara-me como
ele de gafanhotos...
E a Titi, com baba no queixo:
- Ai que ternura, ai que ternura, os gafanhotinhos!... E que gosto
para o nosso rico So Joo!... Como ele havia de ficar! E
olha, filho, no te fizeram mal?
- Se at engordei, Titi! Nada, era o que eu dizia ao meu amigo
alemo: J que a gente veio a uma pechincha destas,  aproveitar,
e salvar a nossa alminha...
Ela virava-se para a Vicncia - que sorria, pasmada, no seu
pouso tradicional entre as duas janelas, sob o retrato de Pio IX
e o velho culo do Comendador G. Godinho:
- Ai Vicncia, que ele vem cheinho de virtude! Ai que vem mesmo
atochadinho dela!
- Parece-me que Nosso Senhor Jesus Cristo no ficou descontente
comigo! - murmurava eu, estendendo a colher para o
doce de marmelo.
E todos os meus movimentos (at o lamber da calda) os contemplava
a odiosa senhora, venerandamente, como preciosas
aes de santidade.
Depois, com um suspiro:
- E outra cousa, filho... Trazes de l algumas oraes, das boas,
das que te ensinassem por l os patriarcas, os fradezinhos?...
- Trago-as de chupeta, Titi!
E numerosas, copiadas das carteiras dos santos, eficazes para
todos os achaques! Tinha-as para tosses; para quando os
gavetes das cmodas emperram, para vsperas de loteria...
- E ters alguma para cibras? Que eu s vezes, de noite, filho...
- Trago uma que no falha em cibras. Deu-ma um monge meu
amigo a quem costuma aparecer o Menino Jesus...
Disse - e acendi um cigarro.
Nunca eu ousara fumar diante da Titi! Ela detestara sempre o
tabaco, mais que nenhuma outra emanao do pecado. Mas
agora arrastou gulosamente a sua cadeira para mim - como
para um milagroso cofre, repleto dessas rezas que dominam a
hostilidade das cousas, vencem toda a enfermidade, eternizam
as velhas sobre a terra.
- Hs de ma dar, filho... E uma caridade que fazes!
- Oh, Titi, ora essa! - Todas! E diga, diga l... Como vai a Titi
dos seus padecimentos?
Ela deu um ai, de infinito desalento. Ia mal, ia mal... Cada dia se
sentia mais fraca, como se se fosse a desfazer... Enfim, j no
morria sem aquele gostinho de me ter mandado a Jerusalm
visitar o Senhor; e esperava que ele lho levasse em conta, e as
despesas que fizera, e o que lhe custara a separao... Mas ia
mal, ia mal!
Eu desviara a face a esconder o vivo e escandaloso lampejo de
jbilo que a iluminara. Depois animei-a, com generosidade. Que
podia a Titi recear? No tinha ela agora, para se apegar, vencer
as leis da decomposio natural, aquela relquia de Nosso
Senhor?...
- E outra cousa, Titi... Os amiguinhos, como vo?
Ela anunciou-me a desconsoladora nova. O melhor e mais grato,
o delicioso Casimiro, recolhera  cama no domingo com as
perninhas inchadas... Os doutores afirmavam que era uma
anasarca... Ela desconfiava de uma praga que lhe rogara um
galego...
- Seja como for, o santinho l est! Tem-me feito uma falta, uma
falta... Ai filho, nem tu imaginas!... O que me tem valido  o sobrinho,
o Padre Negro...
- O Negro? - murmurei, estranho ao nome.
Ah! Eu no conhecia... Padre Negro vivia ao p de Torres.
Nunca vinha a Lisboa, que lhe fazia nojo, com tanta relaxao...
S por ela, e para a ajudar nos seus negcios,  que o santinho
condescendera em deixar a sua aldeia. E to delicado, to servial...
Ai! Era uma perfeio!
- Tem-me feito uma virtude que nem calculas, filho... S o que
ele tem rezado por ti, para que Deus te protegesse nessas terras
de turcos.. .E a companhia que me faz! Que todos os dias o
tenho c a jantar.. .Hoje no quis ele vir. At me disse uma
cousa muito linda:
no quero, minha senhora, atalhar expanses. Que l isso,
falar bem, e assim cousas que tocam... Ai, no h outro... Nem
imaginas, at regala... E de apetite!
Sacudi o cigarro, secado. Por que vinha aquele padre de Torres,
contra os costumes domsticos, comer todos os dias o cozido
da Titi? Resmunguei com autoridade:
- L em Jerusalm os padres e os patriarcas s vm jantar aos
domingos... Faz mais virtude.
Escurecera. A Vicncia acendeu o gs no corredor; e como
breve chegariam os diletos amigos, avisados pela Titi para saudar
o peregrino, recolhi ao meu quarto a enfiar a sobrecasaca
preta.
A, considerando ao espelho a face requeimada, sorri gloriosamente
e pensei: - Ah Teodorico, venceste!
Sim, vencera! Como a Titi me tinha acolhido! Com que venerao!
Com que devoo!... - E ia mal, ia mal!... Bem depressa
eu sentiria, com o corao sufocado de gozo, as marteladas
sobre o seu caixo. E nada podia desalojar-me do testamento
da senhora Dona Patrocnio! Eu tornara-me para ela So
Teodorico! A hedionda velha estava enfim convencida que deixar-
me o seu ouro - era como do-lo a Jesus e aos apstolos e
a toda a Santa Madre Igreja!
Mas a porta rangeu - a Titi entrou, com o seu antigo xale de
Tonquim pelos ombros. E, caso estranho, pareceu-me ser a D.
Patrocnio das Neves de outro tempo, hirta, agreste,
esverdeada, odiando o amor como cousa suja, e sacudindo de
si para sempre os homens que se tinham metido com saias!
Com efeito! Os seus culos, outra vez secos, reluziam, cravavam-
se desconfiadamente na minha mala... Justos cus! Era a
antiga Dona Patrocnio. L vinham as suas lvidas, aduncas
mos, cruzadas sobre o xale, arrepanhando-lhe as franjas, sfregas
de esquadrinhar a minha roupa branca! L se cavava aos
cantos dos seus lbios sumidos, um rgido sulco de azedume!...
Tremi; mas visitou-me logo uma inspirao do Senhor. Diante
da mala, abri os braos, com candura:
- Pois  verdade!... Aqui tem a Titi a maleta que l andou por
Jerusalm... Aqui est, bem aberta, para todo o mundo ver que
 a mala de um homem de religio! Que  o que dizia o meu
amigo alemo, pessoa que sabia tudo: l isso, Raposo, meu
santinho, quando numa viagem se pecou, e se fizeram relaxaes,
e se andou atrs de saias, trazem-se sempre provas na
mala. Por mais que se escondam, que se deitem fora, sempre l
esquece cousa que cheire a pecado!... Assim mo disse muitas
vezes, at uma ocasio diante de um patriarca... E o patriarca
aprovou. Por isso, eu c,  malinha aberta, sem receio... Podese
esquadrinhar, pode-se cheirar... A que cheira  a religio!
Olhe, Titi, olhe... Aqui esto as ceroulinhas e as peuguinhas.
Isso no pode deixar de ser, porque  pecado andar nu... Mas
o resto, tudo santo! O meu rosrio, o livrinho de missa, os
bentinhos, tudo do melhor, tudo do Santo Sepulcro...
- Tens ali uns embrulhos! - rosnou a asquerosa senhora, estendendo
um grande dedo descarnado.
Abri-os logo, com alacridade. Eram dous frascos lacrados de
gua do Jordo! E muito srio, muito digno, fiquei diante da
senhora Dona Patrocnio com uma garrafinha do lquido divino
na palma de cada mo... Ento ela, com os culos de novo embaciados,
beijou penitentemente os frascos; uma pouca da baba
do beijo escorreu nas minhas unhas. Depois,  porta, suspirando,
j rendida:
- Olha, filho, at estou a tremer... E  destes gostinhos todos!
Saiu. Eu fiquei coando o queixo. Sim ainda havia uma circunstncia
que me escorraaria do testamento da Titi! Seria aparecer
diante dela, material e tangvel, uma evidncia das minhas
relaxaes... Mas como surgiria ela jamais neste lgico universo?
Todas as passadas fragilidades da minha carne eram como
os fumos esparsos de uma fogueira apagada, que nenhum esforo
pode novamente condensar. E o meu derradeiro pecado -
saboreado to longe, no velho Egito, como chegaria jamais 
notcia da Titi? Nenhuma combinao humana lograria trazer, ao
Campo de Santana, as duas nicas testemunhas dele - uma
luveira ocupada agora a encostar as papoulas do seu chapu
aos granitos de Ramss, em Tebas, e um doutor encafuado
numa rua escolstica,  sombra de uma vetusta universidade da
Alemanha, escarafunchando o cisco histrico dos Herodes... E,
a no ser essa flor de deboche e essa coluna de cincia, ningum
mais na terra conhecia os meus culpados delrios, na cidade
amorosa dos Lgidas.
Demais, o terrvel documento da minha juno com a srdida
Mary; a camisa de dormir aromatizada de violeta l cobria agora
em Sio uma lnguida cinta de circassiana ou os seios cor de
bronze de unia nbia de Cscoro; a comprometedora oferta
ao meu portuguesinho valente fora despregada, queimada no
braseiro; j as rendas se iriam esgarando no servio forte do
amor; e rota, suja, gasta, ela bem depressa seria arremessada
ao lixo secular de Jerusalm! Sim, nada se poderia interpor, entre
a minha justa sofreguido e a bolsa verde da Titi. Nada, a
no ser a carne mesma da velha, a sua carcaa rangente, habitada
por uma teimosa chama vital, que se no quisesse extinguir!...
Oh fado horrvel! Se a Titi obstinada, renitente, vivesse
ainda quando abrissem os cravos do outro ano! E ento no me
contive. Atirei a alma para as alturas, gritei desesperadamente,
em toda a nsia do meu desejo:
- Oh Santa Virgem Maria, faze que ela rebente depressa!
Nesse momento soou a grossa sineta do ptio. E foi-me grato
reconhecer, depois da longa separao, as duas badaladas curtas
e tmidas do nosso modesto Justino; mais grato ainda sentir,
logo aps, o repique majestoso do Doutor Margaride. Imediatamente
a Titi escancarou a porta do meu quarto, numa penosa
atarantao:
- Teodorico, filho, ouve! Tem-me estado a lembrar... Pareceme
que para destapar a relquia  melhor esperar at que se vo
logo embora o Justino e o Margaride! Ai, eu sou muito amiga
deles, so pessoas de muita virtude... Mas acho que para uma
cerimnia destas  melhor que estejam s pessoas de igreja...
Ela, pela sua devoo, considerava-se pessoa de igreja. Eu,
pela minha jornada, era quase pessoa do cu.
- No, Titi... O Patriarca de Jerusalm recomendou-me que
fosse diante de todos os amigos da casa, na capela, com velas...
E mais eficaz... E olhe, diga  Vicncia que me venha buscar
as botas para limpar.
- Ai eu lhas dou!... So estas? Esto sujinhas, esto! J c te
vm, filho, j c te vm!
E a senhora Dona Patrocnio das Neves agarrou as botas! E a
senhora Dona Patrocnio das Neves levou as botas!
Ah, estava mudada, estava bem mudada!... E ao espelho cravando
no cetim da gravata uma cruz de coral de Malta, eu pensava
que desde esse dia ia reinar ali, no Campo de Santana, de
cima da minha santidade, e que para apressar a obra lenta da
morte - talvez viesse a espancar aquela velha.
Foi-me doce, ao penetrar na sala, encontrar os diletos amigos,
com casacos srios, de p, alargando para mim os braos extremosos.
A Titi pousava no sof, tesa, desvanecida, com cetins
de festa e com jias. E ao lado, um padre muito magro vergava
a espinha com os dedos enclavinhados no peito - mostrando
numa face chupada dentes afiados e famintos. Era o Negro.
Dei-lhe dous dedos, secamente:
- Estimo v-lo por c...
- Grandssima honra para este seu servo! - ciciou ele, puxando
os meus dedos para o corao.
E, mais vergado o dorso servil, correu a erguer o abajur do
candeeiro - para que a luz me banhasse, e se pudesse ver, na
madureza do meu semblante, a eficcia da minha peregrinao.
Padre Pinheiro decidiu, com um sorriso de doente:
- Mais magro!
Justino hesitou, fez estalar os dedos:
- Mais queimado!
E o Margaride, carinhosamente:
- Mais homem!
O onduloso Padre Negro revirou-se, arqueado para a Titi
como para um sacramento entre os seus molhos de luzes:
- E com um todo de inspirar respeito! Inteiramente digno de ser
o sobrinho da virtuosssima Dona Patrocnio!...
No entanto em torno tumultuavam as curiosidades amigas: E a
saudinha? Ento, Jerusalm? Que tal as comidas?
Mas a Titi bateu com o leque no joelho, num receio que to familiar
alvoroo importunasse So Teodorico. E o Negro acudiu,
com um zelo melfluo:
- Mtodo, meus senhores, mtodo!... Assim todos  uma no
se goza...  melhor deixarmos falar o nosso interessante
Teodorico!...
Detestei aquele nosso; odiei aquele padre. Por que corria tanto
mel no seu falar? Por que se privilegiava ele no sof, roando a
srdida joelheira da cala pelos castos cetins da Titi?
Mas o Doutor Margaride, abrindo a caixa de rap, concordou
que o mtodo seria mais profcuo...
- Aqui nos sentamos todos, fazemos roda, e o nosso Teodorico
conta por ordem todas as maravilhas que viu!
O esgalgado Negro, com uma escandalosa privana, correu
dentro a colher um copo de gua e acar para me lubrificar as
vias. Estendi o leno sobre o joelho. Tossi - e comecei a esboar
a soberba jornada. Disse o luxo do Mlaga; Gibraltar e o
seu morro encarapuado de nuvens; a abundncia das mesas
redondas, com pudins e guas gasosas...
- Tudo  grande,  francesa! - suspirou Padre Pinheiro, com um
brilho de gula no olho amortecido. - Mas naturalmente, tudo
muito indigesto...
- Eu lhe digo, Padre Pinheiro... Sim, tudo  grande, tudo  francesa;
mas cousas saudveis, que no esquentavam os intestinos...
Belo rosbife, belo carneiro...
- Que no valiam decerto o seu franguinho de cabidela,
excelentssima senhora! - atalhou untuosamente o Negro, junto
do ombro agudo da Titi.
Execrei aquele padre! E, remexendo a gua com acar, decidi
em meu esprito que, mal eu comeasse a governar ferreamente
o Campo de Santana - no mais a cabidela da minha famlia
escorregaria na goela aduladora daquele servo de Deus.
No entanto o bom Justino, repuxando o colarinho, sorria para
mim, embevecido. E como passava eu as noites em Alexandria?
Havia uma assemblia, onde espairecesse? Conhecia eu alguma
famlia considerada, com quem tomasse uma chvena de ch?...
- Eu lhe digo, Justino... Conhecia. Mas, a falar verdade, tinha
repugnncia em freqentar casas de turcos... Sempre  gente
que no acredita seno em Mafona!... Olhe, sabe o que fazia 
noite? Depois de jantar ia a uma igrejinha c da nossa bela religio,
sem estrangeirices, onde havia sempre um santssimo de
apetite... Fazia as minhas devoes; depois ia-me encontrar
com o alemo, o meu amigo, o lente, numa grande praa que
dizem l os de Alexandria que  muito melhor que o Rossio...
Maior e mais abrutada talvez seja. Mas no  esta lindeza do
nosso Rossio, o ladrilhinho, as rvores, a esttua, o teatro...
Enfim, para meu gosto, e para um regalinho de vero prefiro o
Rossio... E l o disse aos turcos!
E fica-lhe bem ter levantado assim as cousas portuguesas! observou
o Doutor Margaride, contente e rufando na tabaqueira.
Direi mais...  ato de patriota... Nem de outra maneira procediam
os Gamas e os Albuquerques!
- Pois  verdade... Ia-me encontrar com o alemo; e ento para
espairecer um bocado, porque enfim uma distrao sempre e
necessria quando se anda a viajar, amos tomar um caf... Que
l isso, sim! L caf fazem-no os turcos que  uma perfeio!
- Bom cafezinho, hem? - acudiu Padre Pinheiro, chegando a
cadeira para mim com interesse sfrego. -  forte, forte? Bom
aroma?
Sim, Padre Pinheiro, de consolar! ... Pois tomvamos o nosso
cafezinho; depois vnhamos para o hotel, e a no quarto, com os
santos evangelhos, punhamo-nos a estudar todos aqueles divinos
lugares na Judia onde tnhamos de ir rezar... E como o alemo
era lente e sabia tudo, eu era instruir-me, instruir-me!... At
ele s vezes dizia: Voc, Raposo, com estas noitadas, vai daqui
um chavo... E l isso, o que  de cousas santas e de Cristo,
sei tudo... Pois senhores, assim passvamos  luz do candeeiro
at s dez onze horas... Depois, chazinho, tero e cama.
- Sim senhor, noites muito bem gozadas, noites muito frutuosas!
- declarou, sorrindo para a Titi, o estimvel Doutor Margaride.
- Ai, isso fez-lhe muita virtude! - suspirava a horrenda senhora.
- Foi como se subisse um bocadinho ao cu... At o que ele diz
cheira bem... Cheira a santo.
Modestissimamente, baixei a plpebra lenta.
Mas Negro, com sinuosa perfdia, notou que mais proveitoso
seria, e de maior uno repassar as almas - escutar cousas de
festas, de milagres, de penitncias...
- Estou seguindo o meu itinerrio, senhor Padre Negro repliquei
asperamente.
- Como fez Chateaubriand; como fazem todos os famosos autores!
- confirmou Margaride, aprovando.
E foi com os olhos nele, como no mais douto, que eu disse a
partida de Alexandria numa tarde de tormenta; o tocante momento
em que uma santa irm de caridade (que estivera j em
Lisboa e que ouvira falar da virtude da Titi), me salvara das
guas salgadas um embrulho em que eu trazia terra do Egito, da
que pisara a Santa Famlia; a nossa chegada a Jafa, que, por um
prodgio apenas eu subira ao tombadilho, de chapu alto e pensando
na Titi, se coroara de raios de sol...
- Magnfico! - exclamou o Doutor Margaride. - E diga, meu
Teodorico... No tinham consigo um sbio guia, que lhes fosse
apontando as runas, lhes fosse comentando...
- Ora essa, Doutor Margaride! Tnhamos um grande latinista, o
Padre Pote!
Remolhei o lbio. E disse as emoes da gloriosa noite em que
acampramos junto a Raml, com a lua no cu alumiando
cousas da religio, bedunos velando de lana ao ombro, e em
redor lees a rugir...
Que cena! - bradou o Doutor Margaride, erguendo-se arrebatadamente.
- Que enorme cena! No estar eu l! Parece uma
destas cousas grandiosas da Bblia, do Eurico!  de inspirar! Eu
por mim, se tal visse, no me continha!... No me continha, fazia
uma ode sublime!
O Negro puxou a aba do casaco ao facundo magistrado:
- E melhor deixar falar o nosso Teodorico, para podermos todos
saborear...
Margaride, abespinhado, franziu as sobrancelhas temerosas e
mais negras que o bano:
- Ningum nesta sala, melhor que eu, senhor Padre Negro,
saboreia o grandioso!
E a Titi, insacivel, batendo com o leque:
- Est bem, est bem... Conta, filho, no te fartes! Olha, conta
assim uma cousa que te acontecesse com Nosso Senhor, que
nos faa ternura...
Todos emudeceram, reverentes. Eu ento disse a marcha para
Jerusalm com duas estrelas na frente a guiar-nos, como acontece
sempre aos peregrinos mais finos e de boa famlia; as lgrimas
que derramara, ao avistar, numa manh de chuva, as muralhas
de Jerusalm; e na minha visita ao Santo Sepulcro, de casaca,
com Padre Pote, as palavras que balbuciara diante do
tmulo, por entre soluos e no meio de aclitos  Oh meu Jesus,
oh meu Senhor, aqui estou, aqui venho da parte da Titi!...
E a medonha senhora, sufocada:
- Que ternura que faz!... Diante do tumulozinho!
Ento passei o leno pela face excitada, e disse:
- Nessa noite recolhi ao hotel para rezar... E agora, meus senhores,
h aqui um pontozinho desagradvel...
E contritamente confessei que, forado pela religio, pelo nome
honrado de Raposo, e pela dignidade de Portugal tivera um
conflito no hotel com um grande ingls de barbas.
- Uma bulha! - acudiu com perversidade o vil Negro, ansioso
por empanar o brilho de santidade com que eu deslumbrava a
Titi. Uma bulha, na cidade de Jesus Cristo! Ora essa! Que desacato!
Com os dentes cerrados encarei o torpssimo padre:
- Sim, senhor! Um chinfrim!... Mas fique Vossa Senhoria sabendo
que o senhor Patriarca de Jerusalm me deu toda a razo;
at me bateu no ombro e me disse: Pois Teodorico, parabns;
voc portou-se como um pimpo! Que tem agora Vossa Senhoria
a piar?
Negro curvou a cabea, onde a coroa punha uma lividez
azulada de lua em tempo de peste:
- Se Sua Eminncia aprovou...
- Sim, senhor! E aqui tem a Titi porque foi a bulha!... No quarto
ao lado do meu havia uma inglesa, uma herege, que mal eu me
punha a rezar, a comeava ela a tocar piano, e a cantar fados e
tolices e cousas imorais do Barba-Azul dos teatros... Ora, imagine
a Titi, estar uma pessoa a dizer com todo o fervor e de joelhos:
Oh Santa Maria do Patrocnio, faze que a minha boa Titi
tenha muitos anos de vida - e vir l detrs do tabique uma voz
de excomungada a ganir: Sou o Barba-Azul, ol.! Ser vivo 
o meu fil!... E de encavacar!... De modo que uma noite, desesperado,
no me tenho em mim, saio ao corredor, atiro-lhe
um murro  porta, e grito-lhe para dentro: Faz favor de estar
calada, que est aqui um cristo que quer rezar!...
- E com todo o direito - afirmou o Doutor Margaride. - Voc
tinha por si a lei!
- Assim me disse o patriarca! Pois senhores, como ia contando,
grito isto para dentro  mulher, e ia recolher muito srio ao meu
quarto, quando me sai de l o pai, um grande barbaas, de
bengalrio na mo... Eu fui muito prudente; cruzei os braos e,
com bons modos, disse-lhe que no queria ali escndalos ao p
do tmulo de Nosso Senhor, e o que desejava era rezar em
sossego... E vai, que me h de ele responder? Que se estava
a... Enfim, nem eu posso repetir! Uma cousa indecente contra o
tmulo de Nosso Senhor... E eu, Titi, passa-me uma oura pela
cabea, agarro-o pelo cachao...
- E magoaste-o, filho?
- Escavaquei-o, Titi!
Todos aclamaram a minha ferocidade. Padre Pinheiro citou leis
cannicas autorizando a f a desancar a impiedade. Justino, aos
pulos, celebrou esse John Bull desmantelado a slida murraa
lusitana. E eu, excitado pelos louvores como por clarins de ataque,
bradava de p, medonho:
- L impiedades diante de mim, no! Arrombo tudo,
esborracho tudo! Em cousas de religio sou uma fera!
E aproveitei esta santa clera para brandir, como um aviso, diante
do queixo sumido do Negro, o meu punho cabeludo e
pavoroso. O macilento e esgrouviado servo de Deus encolheu.
Mas nesse instante a Vicncia entrava com o ch, nas pratas
ricas de G. Godinho.
Ento os diletos amigos, com a torrada na mo, romperam em
ardentes encmios:
- Que instrutiva viagem!  como ter um curso!
- E que belo bocadinho de noite aqui se tem passado! Qual So
Carlos! Isto  que  gozar!
- E como ele conta! Que fervor, que memria!...
Lentamente, o bom Justino, com a sua chvena fornecida de
bolos, acercara-se da janela, como a espreitar o cu estrelado e
dentre as franjas das cortinas os seus olhinhos luzidios e gulosos
chamavam-me confidencialmente. Fui, trauteando o Bendito;
ambos mergulhamos na sombra dos damascos; e o virtuoso
tabelio, roando o lbio pelas minhas barbas:
- Oh amiginho, e de mulheres?
Eu confiava no Justino. Segredei para dentro do seu colarinho: -
De deixarem l os miolos, Justininho!
As suas pupilas faiscaram como as de um gato em janeiro; a
xcara ficou-lhe tremelicando na mo.
E eu, pensativo, repenetrando na luz:
- Sim, bonita noite... Mas no so aquelas estrelinhas santinhas
que ns vimos l no Jordo!...
Ento Padre Pinheiro, tomando aos goles cautelosos a sua
chalada, veio timidamente bater-me no ombro ... Lembrara-me
eu, nessas santas terras, com tantas distraes, do seu
frasquinho de gua do Jordo? ...
- Oh Padre Pinheiro, pois est claro!... Trago tudo! E o raminho
do Monte Olivete para o nosso Justino... E a fotografia para o
nosso Margaride ... Tudo!
Corri ao quarto, a buscar essas doces lembrancinhas da Palestina.
E ao regressar, sustentado pelas pontas um leno repleto
de devotas preciosidades, estaquei por trs do reposteiro ao
sentir dentro o meu nome ... Suave gozo! Era o inestimvel
Doutor Margaride que afianava  Titi, com sua tremenda autoridade:
- Dona Patrocnio, eu no lho quis dizer diante dele ... Mas isto
agora  mais do que ter um sobrinho e um cavalheiro! Isto 
Ter, de casa e pucarinho, um amigo ntimo de Nosso Senhor
Jesus Cristo!...
Tossi, entrei. Mas a senhora D. Patrocnio ruminava um escrpulo
ciumento. No lhe parecia delicado para Nosso Senhor
(nem para ela), que se repartissem estas relquias mnimas antes
de lhe ser entregue a ela, como senhora e como tia, na capela, a
grande relquia...
- Porque saibam os meus amigos  anunciou ela com seu
chatssimo peito impando de satisfao  que o meu Teodorico
trouxe-me uma santa relquia, com que eu me vou apegar nas
minhas aflies, e que me vai curar dos meus males!
- Bravssimo! - gritou o impetuoso Doutor Margaride. - Com
qu, Teodorico, seguiu-se o meu conselho? Esgaravataram-se
esses sepulcros?... Bravssimo!  de generoso romeiro!
-  de sobrinho, como j o no h no nosso Portugal! - acudiu
o Padre Pinheiro junto ao espelho, onde estudava a lngua saburrenta...
-  de filho,  de filho! - proclamava o Justino, alado na ponta
dos botins.
Ento o Negro, mostrando os dentes famintos, babujou esta
cousa vilssima:
- Resta saber, cavalheiros, de que relquia se trata.
Tive sede, ardente sede do sangue daquele padre! Trespassei-o
com dous olhares mais agudos e faiscantes do que espetos em
brasa:
- Talvez Vossa Senhoria, se  um verdadeiro sacerdote, se atire
de focinho para baixo a rezar, quando aparecer aquela maravilha!...
E voltei-me para a senhora Dona Patrocnio, com a impacincia
de uma nobre alma ofendida que carece reparao:
-  j, Titi! Vamos ao oratrio! Quero que fique tudo aqui assombrado!
Foi o que disse o meu amigo alemo: Essa relquia,
ao destapar-se,  de ficar uma famlia inteira azabumbada!...
Deslumbrada, a Titi ergueu-se de mos postas. Eu corri a prover-
me de um martelo. Quando voltei, o Doutor Margaride,
grave, calava as suas luvas pretas... E atrs da senhora Dona
Patrocnio, cujos cetins faziam no sobrado um ruge-ruge de
vestes de prelado, penetramos no corredor onde o grande bico
de gs silvava dentro do seu vidro fosco. Ao fundo a Vicncia e
a cozinheira espreitavam com os seus rosrios na mo.
O oratrio resplandecia. As velhas salvas de prata, batidas pelas
chamas das velas de cera, punham no fundo do altar um brilho
branco de glria. Sobre a candidez das rendas lavadas, entre
a neve fresca das camlias - as tnicas dos santos, azuis e
vermelhas, com o seu lustre de seda, pareciam novas, especialmente
talhadas nos guarda-roupas do cu para aquela rara noite
de festa... Por vezes o raio de uma aurola tremia, despedia um
fulgor, como se na madeira das imagens corressem estremecimentos
de jbilo. E na sua cruz de pau preto, o Cristo,
riqussimo, macio, todo de ouro, suando ouro, sangrando
ouro, reluzia preciosamente.
- Tudo com muito gosto! Que divina cena! - murmurou o Doutor
Margaride, deliciado na sua paixo do grandioso.
Com piedosos cuidados coloquei o caixote na almofada de veludo;
vergado, rosnei sobre ele uma Ave; depois, ergui a toalha
que o cobria, e com ela no brao, tendo escarrado solenemente,
falei:
- Titi, meus senhores... Eu no quis revelar ainda a relquia que
vem aqui no caixotinho, porque assim mo recomendou o senhor
Patriarca de Jerusalm... Agora  que vou dizer... Mas antes de
tudo, parece-me bem a pelo explicar que tudo c nesta relquia,
papel, nastro, caixotinho, pregos, tudo  santo! Assim por
exemplo os preguinhos... so da Arca de No... Pode ver, senhor
Padre Negro, pode apalpar! So os da Arca, at ainda
enferrujados... E tudo do melhor, tudo a escorrer virtude! Alm
disso quero declarar diante de todos que esta relquia pertence
aqui  Titi, e que lha trago para lhe provar que em Jerusalm
no pensei seno nela, e no que Nosso Senhor padeceu, e em
lhe arranjar esta pechincha...
- Comigo te hs de ver sempre, filho! - tartamudeou a horrenda
senhora, enlevada.
Beijei-lhe a mo, selando este pacto de que a Magistratura e a
Igreja eram verdicas testemunhas. Depois, retomando o martelo:
E agora, para que cada um esteja prevenido e possa fazer as
oraes que mais lhe calharem, devo dizer o que  a relquia...
Tossi, cerrei os olhos:
-  a coroa de espinhos!
Esmagada, com um rouco gemido, a Titi aluiu sobre o caixote,
enlaando-o nos braos trmulos... Mas o Margaride coava
pensativamente o queixo austero; Justino sumira-se na profundidade
dos seus colarinhos; e o ladino Negro escancarava para
mim uma bocaa negra, de onde saa assombro e indignao!
Justos cus! Magistrados e sacerdotes evidenciavam uma incredulidade
- terrvel para a minha fortuna!
Eu tremia, com suores - quando o Padre Pinheiro, muito srio,
convicto, se debruou, apertou a mo da Titi a felicit-la pela
posio religiosa a que a elevava a posse daquela relquia. Ento,
cedendo  forte autoridade litrgica de Padre Pinheiro, todos,
em fila, numa congratulao, estreitaram os dedos da
babosa senhora.
Estava salvo! Rapidamente, ajoelhei  beira do caixote, cravei o
formo na fenda da tampa, alcei o martelo em triunfo...
- Teodorico! Filho! - berrou a Titi, arrepiada, como se eu fosse
martelar a carne viva do Senhor.
- No h receio, Titi! Aprendi em Jerusalm a manejar estas
cousinhas de Deus!...
Despregada a tbua fina, alvejou a camada de algodo. Ergui-a
com terna reverncia; e ante os olhos extticos, surgiu o
sacratssimo embrulho de papel pardo, com o seu nastrinho vermelho.
- Ai que perfume! Ai! ai, que eu morro! - suspirou a Titi a esvair-
se de gosto beato, com o branco do olho aparecendo por
sobre o negro dos culos.
Ergui-me, rubro de orgulho:
-   minha querida Titi, s a ela, que compete, pela sua muita
virtude, desembrulhar o pacotinho!...
Acordando do seu langor, trmula e plida, mas com a gravidade
de um pontfice, a Titi tomou o embrulho, fez mesura aos
santos, colocou-o sobre o altar; devotamente desatou o n do
nastro vermelho; depois, com o cuidado de quem teme magoar
um corpo divino, foi desfazendo uma a uma as dobras do papel
pardo... Uma brancura de linho apareceu... A Titi segurou-a nas
pontas dos dedos, repuxou-a bruscamente - e sobre a ara, por
entre os santos, em cima das camlias, aos ps da cruz - espalhou-
se, com laos e rendas, a camisa de dormir da Mary!
A camisa de dormir da Mary! Em todo o seu luxo, todo o seu
impudor, enxovalhada pelos meus abraos, com cada prega
fedendo a pecado! A camisa de dormir da Mary! E pregado
nela por um alfinete, bem evidente ao claro das velas, o carto
com a oferta em letra encorpada: - Ao meu Teodorico, meu
portuguesinho possante, em lembrana do muito que gozamos!
Assinado, M. M.... A camisa de dormir da Mary!
Mal sei o que ocorreu no florido oratrio! Achei-me  porta,
enrodilhado na cortina verde, com as pernas a vergar, num desmaio.
Estalando, como achas atiradas a uma fogueira, eu sentia
as acusaes do Negro bradadas contra mim junto  touca da
Titi: -Deboche! Escrnio! Camisa de prostituta! Achincalho 
senhora Dona Patrocnio! Profanao do oratrio! Distingui a
sua bota arrojando furiosamente para o corredor o trapo branco.
Um a um, entrevi os amigos perpassarem, como longas
sombras levadas por um vento de terror. As luzes das velas arquejavam,
aflitas. E, ensopada em suor, entre as pregas da cortina,
percebi a Titi caminhando para mim, lenta, lvida, hirta, medonha...
Estacou. Os seus frios e ferozes culos trespassaramme.
E atravs dos dentes cerrados cuspiu esta palavra:
- Porcalho!
E saiu.
Rolei para o quarto, tombei no leito, esbarrondado. Um rumor
de escndalo acordara o casaro severo. E a Vicncia surgiu
diante de mim, enfiada, com o seu avental branco na mo:
- Menino! Menino! A senhora manda dizer que saia imediatamente
para o meio da rua, que o no quer nem mais um instante
em casa... E diz que pode levar a sua roupa branca e todas as
suas porcarias!
Despedido!
Ergui a face mole da travesseira de rendas. E a Vicncia,
atontada, torcendo o avental:
- Ai, menino! Ai, menino! se no sai j para a rua, a senhora diz
que manda chamar um polcia!
Escorraado!
Atirei os ps incertos para o soalho. Mergulhei na algibeira uma
escova de dentes; topando nos mveis, procurei as chinelas que
embrulhei num nmero da Nao. Sem reparo, agarrei dentre
as malas um caixote com bandas de ferro; e em ponta de botins
desci a escada da Titi, encolhido e rasteiro, como um co
tinhoso vexado da sua tinha.
Mal transpus o ptio, a Vicncia, cumprindo as ordens
sanhudas da Titi, bateu-me nas costas com o porto chapeado
de ferro
- desprezivelmente e para sempre!
Estava s na rua e na vida!  luz dos frios astros contei na palma
o meu dinheiro. Tinha duas libras, dezoito tostes, um duro
espanhol e cobres... E ento descobri que a caixa, apanhada
tontamente entre as malas, era a das relquias menores. Complicado
sarcasmo do destino! Para cobrir meu corpo desabrigado
- nada mais tinha que tabuinhas aplainadas por So Jos, e cacos
de barro do cntaro da Virgem! Meti no bolso o embrulho
das chinelas; e, sem voltar os olhos turvos  casa de minha tia,
marchei a p, com o caixote s costas, na noite cheia de silncio
e de estrelas, para a Baixa, para o Hotel da Pomba de Ouro.
Ao outro dia, descorado e misrrimo  mesa da Pomba, remexia
uma sombria sopa de gro e nabo - quando um cavalheiro,
de colete de veludo negro, veio ocupar o talher fronteiro, junto
de uma garrafa de gua de Vidago, de uma caixa de plulas e de
um nmero da Nao. Na sua testa, imensa e arqueada como
um fronto de capela, torciam-se duas veias grossas; e sob as
ventas largas, enegrecidas de rap, o bigode era um tufo curto
de plos grisalhos, duros como cerdas de escova. O galego, ao
servir-lhe o nabo e gro, rosnou com estima: Ora, seja bem
aparecidinho o Senhor Lino!
Ao cozido este cavalheiro, abandonando a Nao onde percorrera
miudamente os anncios, pousou em mim os olhos
amarelentos de blis e baos, e observou que estvamos gozando
desde os Reis um tempinho de apetite...
- De rosas - murmurei com reserva.
O Senhor Lino entalou mais o guardanapo para dentro do colarinho
lasso:
- E Vossa Senhoria, se no  curiosidade, vem das provindas
do norte?
Passei vagarosamente a mo pelos cabelos:
- No, senhor... Venho de Jerusalm!
De assombrado o Senhor Uno perdeu a garfada de arroz. E
depois de ter ruminado mudamente a sua emoo, confessou
que lhe interessavam muito todos esses lugares santos porque
tinha religio, graas a Deus! E tinha um emprego, graas tambm
a Deus, na Cmara Patriarcal...
- Ah, na Cmara Patriarcal! - acudi eu. - Sim, muito respeitvel...
Eu conheci muito um patriarca... Conheci muito o senhor
Patriarca de Jerusalm. Cavalheiro muito santo, muito catita...
At nos ficamos tratando de tu!
O Senhor Lino ofereceu-me da sua gua de Vidago - e conversamos
das terras da Escritura.
- Que tal Jerusalm, como lojas?...
- Como lojas?... Lojas de modas?
- No, no! - atalhou o Senhor Lino. Quero dizer lojas de santidade,
de reliquiarias, de cousinhas divinas...
- Sim... Menos mau. H o Damiani na Via-Dolorosa que tem
tudo, at ossos de mrtires... Mas o melhor  cada um esquadrinhar,
escavar... Eu nessas cousas trouxe maravilhas!
Uma chama de singular cobia avivou as pupilas amareladas do
Senhor Lino, da Cmara Patriarcal. E de repente, com uma deciso
de inspirado:
- Andrezinho, a pinguinha de Porto... Hoje  brdio!
Quando o galego pousou a garrafa, com a sua data traada 
mo num velho rtulo de papel almao - o Senhor Lio ofertoume
um clice cheio.
- A sua!
- Com a ajuda do Senhor!...  sua!
Por cortesia, rilhado o queijo, convidei aquele homem que graas
a Deus tinha religio, a entrar no meu quarto e admirar as
fotografias de Jerusalm. Ele aceitou, com alvoroo; mas, apenas
transps a porta, correu sem etiqueta e gulosamente ao meu
leito - onde jaziam espalhadas algumas das relquias que eu
desencaixotara essa manh.
- O cavalheiro aprecia? - indaguei, desenrolando uma vista do
Monte Olivete, e pensando em lhe ofertar um rosrio.
Ele revirava em silncio, nas mos gordas e de unhas rodas, um
frasco de gua do Jordo. Cheirou-o, pesou-o, chocalhou-o.
Depois, muito srio, com as veias entumecidas na vastssima
fronte:
- Tem atestado?
Estendi-lhe a certido do frade franciscano, garantindo como
autntica e sem mistura a gua do rio batismal. Ele saboreou o
venerando papel. E entusiasmado:
- Dou quinze tostes pelo frasquinho!
Foi, no meu intelecto de bacharel, como se uma janela se abrisse
e por ela entrasse o sol! Vi inesperadamente, ao seu claro
forte, a natureza real dessas medalhas, bentinhos, guas, lascas,
pedrinhas, palhas, que eu considerara at ento um lixo eclesistico
esquecido pela vassoura da filosofia! As relquias eram
valores! Tinham a qualidade onipotente de valores! Dava-se um
caco de barro - e recebia-se uma rodela de ouro!... E, iluminado,
comecei insensivelmente a sorrir, com as mos encostadas 
mesa como um balco de armazm:
- Quinze tostes por gua pura do Jordo! Boa! Em pouca
conta tem Vossa Senhoria o nosso So Joo Batista... Quinze
tostes! Chega a ser impiedade!... Vossa Senhoria imagina que
a gua do Jordo  como a gua do Arsenal? Ora essa!... Trs
mil-ris recusei eu a um padre de Santa Justa, esta manh, a,
ao p dessa cama...
Ele fez saltar o frasco na palma gorda, considerou, calculou:
- Dou quatro mil-ris.
V l, por sermos companheiros na Pomba!
E quando o Senhor Lino saiu do meu quarto, com o frasco do
Jordo embrulhado na Nao, eu, Teodorico Raposo, achavame
fatalmente, providencialmente, estabelecido vendilho de
relquias!
Delas comi; delas fumei; delas amei, durante dous meses, quieto
e aprazido na Pomba de Ouro. Quase sempre o Senhor Lino
surdia de manh no meu quarto, de chinelos, escolhia um caco
do cntaro da Virgem ou uma palhinha do prespio, empacotava
na Nao, largava a pecnia e abalava assobiando o De
Profundis. E evidentemente o digno homem revendia as minhas
preciosidades com gordo provento - porque bem depressa,
sobre o seu colete de veludo preto, rebrilhou uma corrente de
ouro.
No entanto, muito hbil e fino, eu no tentara (nem com splicas,
nem com explicaes, nem com patrocnios) amansar as
beatas iras da Titi e repenetrar na sua estima. Contentava-me
em ir  Igreja de Santana, todo de negro, com um ripano. No
encontrava a Titi, que tinha agora de manh no oratrio missa
do torpssimo Negro. Mas l me prostrava, batendo
contritamente no peito suspirando para o sacrrio - certo que,
pelo Melchior, sacristo, as novas da minha devoo inaltervel
chegariam  hedionda senhora.
Muito manhoso, tambm no procurara os amigos da Titi - que
deviam prudentemente partilhar as paixes da sua alma para
lograrem os favores do seu testamento; assim poupava embaraos
angustiosos a esses benemritos da Magistratura e da Igreja.
Sempre que encontrava Padre Pinheiro ou Doutor
Margaride, cruzava as mos dentro das mangas, baixava os
olhos, evidencianlo humildade e compuno. E este retraimento
era decerto grato aos amigos, porque uma noite, topando o
Justino perto da casa da Benta Bexigosa, o digno homem segredou
junto da minha barba, depois de se ter assegurado da
solido da rua.
- Ande-me assim, amiguinho!... Tudo se h de arranjar... Que
ela por ora est uma fera... Oh diabo a vem gente!
E abalou.
No entanto, por intermdio do Lino, eu vendilhava relquias.
Bem depressa, porm recordado dos compndios de Economia
Poltica, refleti, que os meus proventos engordariam se, eliminando
o Lino, eu mesmo me dirigisse ousadamente ao consumidor
pio.
Escrevi ento a fidalgas, servas do Senhor dos Passos da Graa,
cartas com listas e preos de relquias. Mandei propostas de
ossos de mrtires a igrejas de provncia. Paguei copinhos de
aguardente a sacristes, para que eles segredassem a velhas
com achaques Para cousas de santidade no h como o senhor
Doutor Raposo que vem fresquinho de Jerusalm!... E
bafejou-me a sorte. A minha especialidade foi a gua do
Jordo, em frascos de zinco, lacrados e carimbados com um
corao em chamas; vendi desta gua para batizados, para comidas,
para banhos; e durante um momento houve um outro
Jordo, mais caudaloso e lmpido que o da Palestina, correndo
por Lisboa, com a sua nascente num quarto da Pomba de
Ouro. Imaginativo, introduzi novidades rendosas e poticas;
lancei no comrcio com eficcia o pedacinho da bilha com que
Nossa Senhora ia  fonte; fui eu que acreditei na piedade nacional
uma das ferraduras do burrinho em que fugira a Santa Famlia.
Agora quando o Lino de chinelos batia  porta do meu
quarto, onde as medas de palhinhas do prespio alternavam
com as palhas de tabuinhas de So Jos, eu entreabria uma fenda
avara e ciciava:
- Foi-se... Esgotadinho!... S para a semana... Vem-me a um
caixotinho da Terra Santa...
As veias frontais do capacssimo homem inchavam, numa indignao
de intermedirio espoliado.
Todas as minhas relquias eram acolhidas com o mais forte fervor
- porque provinham do Raposo, fresquinho de Jerusalm.
Os outros reliquistas no tinham esta esplndida garantia de
uma jornada  Terra Santa. S eu, Raposo, percorrera esse
vastssimo depsito de sanidade. S eu de resto sabia lanar na
folha sebcea de papel que autenticava a relquia - a firma floreada
do senhor Patriarca de Jerusalm.
Mas bem cedo reconheci que esta profuso de reliquilharia saturara
a devoo do meu pais! Atochado, empanturrado de
relquias, este catlico Portugal j no tinha capacidade - nem
para receber um desses raminhos secos de flores de Nazar,
que eu cedia a cinco tostes!
Inquieto, baixei melancolicamente os preos. Prodigalizei, no
Dirio de Notcias, anncios tentadores - Preciosidades da
Terra Santa, em conto, na tabacaria Rego, se diz... Muitas manhs,
com um casaco eclesistico e um cachen de seda disfarando
a minha barba, assaltei  porta das igrejas velhas beatas;
oferecia pedaos da tnica da Virgem Maria, cordis das
sandlias de So Pedro; e rosnava com nsia, roando-me pelos
manteletes e pelas toucas: Baratinhos, minha senhora, baratinhos...
Excelentes para catarros!...
J devia uma carregada conta na Pomba de Ouro; descia as
escadas sorrateiramente, para no encontrar o patro; chamava
com sabujice ao galego - meu Andr, meu catitinha...
E punha toda a minha esperana num renovamento da f! A
menor notcia de festa de igreja me regozijava como um acrscimo
de devoo no povo. Odiava ferozmente os republicanos
e os filsofos que abalam o catolicismo - e portanto diminuem o
valor das relquias que ele instituiu. Escrevi artigos para a Nao,
em que bradava: Se vos no apegais aos ossos dos mrtires,
como quereis que prospere este pas? No caf do Montanha
dava murros sobre mesas: E necessrio religio, caramba!
Sem religio nem o bifezinho sabe! Em casa da Benta
Bexigosa ameaava as raparigas, se elas no usassem os seus
bentinhos e os seus escapulrios, de no voltar ali, de ir  casa
da D. Adelaide!... A minha inquietao pelo po de cada dia
foi mesmo to spera, que de novo solicitei a interveno do
Lino - homem de vastas relaes eclesisticas, parente de
capeles de convento. Outra vez lhe mostrei o meu leito
juncado de relquias. Outra vez lhe disse, esfregando as mos:
Vamos a mais negcio, amiguinho! Aqui tenho sortimento fresco,
chegadinho de Sio!
Mas, do digno homem da Cmara Patriarcal, s recolhi recriminaes
acerbas...
- Essa lria no pega, senhor! - gritou ele, com as veias a estalar
de clera na fronte esbraseada. - Foi Vossa Senhoria que
estragou o comrcio!... Est o mercado abarrotado, j no h
maneira de vender nem um cueirinho do Menino Jesus, uma
relquia que se vendia to bem! O seu negcio com as ferraduras
 perfeitamente indecente... Perfeitamente indecente!  o
que me dizia noutro dia um capelo, primo meu: So ferraduras
de mais ara um pas to pequeno!... Quatorze ferraduras,
senhor!  abusar! Sabe Vossa Senhoria quantos pregos, dos
que pregaram Cristo na cruz, Vossa Senhoria tem impingido,
todos com documentos? Setenta e cinco, senhor!... No lhe
digo mais nada... Setenta e cinco!
E saiu, atirando a porta com furor, deixando-me aniquilado.
Venturosamente, nessa noite, encontrei o Rincho em casa da
Benta Bexigosa, e recebi dele uma considervel encomenda de
relquias. O Rincho ia desposar uma menina Nogueira, filha da
Senhora Nogueira, rica beata de Beja e rica proprietria de
porcos; e ele queria dar um presente catita  carola da velha,
tudo cousinhas da cartilha e do Santo Sepulcro. Arranjei-lhe
um lindo cofre de relquias (a coloquei o meu septuagsimo
sexto prego), ornado das minhas graciosas flores secas de
Galilia. Com a generosa pecnia que me deu o Rincho, paguei
 Pomba de Ouro; e tomei prudentemente um quarto na
casa de hspedes do Pita,  Travessa da Palha.
Assim diminua a minha prosperidade. O meu quarto agora era
nos altos, no quinto andar, com um catre de ferro, e uma poltrona
vetusta cujo miolo de estopa ftida rompia entre a chita
esgarada. Como nico ornato pendia sobre a cmoda, num
caixilho enfeitado de borlas, uma litografia de Cristo crucificado,
a cores; nuvens negras de tormenta rolavam-lhe aos ps; e os
seus olhos claros, arregalados, seguiam e miravam todos os
meus atos, os mais nfimos, mesmo o delicado aparar dos calos.
Havia uma semana que, assim instalado, farejava Lisboa  busca
do po incerto, com botas a que se comeava a romper a
sola, quando uma manh o Andr da Pomba de Ouro me trouxe
uma carta que l fora deixada na vspera, com a marca urgente.
O papel linha tarja preta; o sinete era de lacre negro.
Abri, tremendo. E vi a assinatura do Justino.
Meu querido amigo. E meu penoso dever, que cumpro com
lgrimas, participar-lhe que sua respeitvel tia e minha senhora
inesperadamente sucumbiu...
Caramba! A velha rebentara!
Ansiosamente saltei atravs das linhas, tropeando sobre os
detalhes - congesto dos pulmes... Sacramentos recebidos...
Todos a chorar... O nosso Negro!... E empalidecendo, num
suor que me alagava, avistei, ao fim da lauda, a nova medonha;
do testamento da virtuosa senhora, consta que deixa a seu sobrinho
Teodorico o culo que se acha pendurado na sala de
jantar...
Deserdado!
Agarrei o chapu, corri aos encontres pelas ruas at ao cartrio
do Justino, a So Paulo. Achei-o  banca, com uma gravata
de luto e a pena atrs da orelha, comendo fatias de vitela sobre
um velho Dirio de Notcias.
- Com que, o culo?... - balbuciei, esfalfado, arrimado  esquina
de uma estante.
-  verdade. O culo! - murmurou ele, com a boca atulhada.
Fui tombar, quase desmaiado, sobre o canap de couro. Ele
ofereceu-me vinho de Bucelas. Bebi um clice. E passando a
mo trmula sobre a face lvida:
- Ento dize l, conta l tudo, Justininho...
O Justino suspirou. A santa senhora, coitadinha, deixara-lhe
duas inscries de conto... E, de resto, dispersara no seu testamento
as riquezas de G. Godinho, do modo mais incoerente e
mais perverso. O prdio do Campo de Santana e quarenta contos
de inscries, para o Senhor dos Passos da Graa. As
aes da Companhia do Gs, as melhores pratas, a casa de
Linda-a-Pastora para o Casimiro, que j se no mexia, moribundo.
Padre Pinheiro recebia um prdio na Rua do Arsenal. A
deliciosa quinta do Mosteiro, com o seu pitoresco porto de
entrada, onde se viam ainda as armas dos condes de Lindoso,
as inscries de Crdito Pblico, a moblia do Campo de
Santana, o Cristo de ouro - para o Padre Negro. Trs contos
de ris e o relgio, para o Margaride. A Vicncia tivera as roupas
de cama. Eu - o culo!
- Para ver o resto de longe! - considerou filosoficamente o
Justino, dando estalinhos nos dedos.
Recolhi  Travessa da Palha. E durante horas, em chinelas, com
os olhos chamejantes, revolvi o desejo desesperado de ultrajar
o cadver da Titi - cuspindo-lhe sobre o caro lvido,
esfuracando, com uma bengala, a podrido do seu ventre. Chamei
contra ela todas as cleras da natureza. Pedi s rvores que
recusassem sombra  sua sepultura! Pedi aos ventos que sobre
ela soprassem todos os lixos da terra! Invoquei o demnio:
Dou-te a minha alma se torturares incansavelmente a velha!
Gritei com os braos para as alturas: Deus, se tens um cu,
escorraa-a de l! Planejei quebrar a pedradas o mausolu
que lhe erguessem... E decidi escrever comunicados nos jornais,
contando que ela se prostitua a um galego, todas as tardes, no
sto, de culos negros e em fralda!
Esfalfado de a odiar - adormeci densamente.
Foi o Pita que me acordou, ao anoitecer, entrando com um longo
embrulho. Era o culo. Mandava-mo o Justino, com estas
palavras amigas: A vai a modesta herana!
Acendi uma vela. Com spera amargura tomei o culo, abri a
vidraa - e olhei por ele, como da borda de uma nau que vai
perdida nas guas. Sim, muito sagazmente o afirmara Justino, a
asquerosa Patrocnio deixava-me o culo com rancoroso sarcasmo
- para eu ver atravs dele o resto da herana! E eu via,
apesar da escura noite, nitidamente via o Senhor dos Passos,
sumindo os maos de inscries dentro da sua tnica roxa, o
Casimiro, tocando com as mos moribundas os lavores das
pratas, espalhadas sobre o seu leito; e o vilssimo Negro, de
casaco de cotim e galochas, passeando regalado  beira da
gua, sob os olmos do Mosteiro! E eu ali, com o culo!
Eu ali para sempre, na Travessa da Palha, possuindo na
algibeira de umas calas com fundilhos setecentos e vinte - para
me debater atravs da cidade e da vida! Com um urro atirei o
culo, que foi rolando at junto da chapeleira, onde eu guardava
o capacete de cortia da minha jornada em Terra Santa. Ali
estavam, esse capacete e esse culo, emblemas das minhas
duas existncias - a de esplendor e a de penria! Havia meses,
com aquele capacete na nuca, eu era o triunfante Raposo, herdeiro
da senhora D. Patrocnio das Neves, remexendo ouro nas
algibeiras, e sentindo em torno, perfumadas e  espera de que
eu as colhesse, todas as flores da civilizao! E agora, com o
culo, eu era o pelintrssimo Raposo de botas cambadas, sentindo
em roda, negros e prontos a ferirem-me, todos os cardos
da vida... E tudo isto, por qu? Porque um dia, na estalagem de
uma cidade da sia, se tinham trocado dous embrulhos de papel
pardo!
No houvera jamais zombaria igual da sorte! A uma tia beata,
que odiava o amor como cousa suja e s esperava, para me
deixar prdios e pratas, que eu, desdenhando saias, lhe rebuscasse
em Jerusalm uma relquia - trazia a camisa de dormir de
uma luveira! E num impulso de caridade, designado a cativar o
cu, atirava como pingue esmola a uma pobre em farrapos, com
o filho faminto chorando ao colo - um galho cheio de espinhos!...
Oh Deus, dize-me tu! Dize-me tu, oh demnio, como
se fez, como se fez esta troca de embrulhos - que  a tragdia
da minha vida?
Eles eram semelhantes no papel, no formato, no nastro!... O da
camisa jazia no fundo escuro do guarda-fato; o da relquia
campeava sobre a cmoda, glorioso, entre dous castiais. E
ningum lhes tocara; nem o jucundo Pote; nem o erudito
Topsius; nem eu! Ningum com mos humanas, mos mortais,
ousara mover os dous embrulhos. Quem os movera ento? S
algum com mos invisveis!
Sim, havia algum, incorpreo, todo-poderoso - que por dio
trocara miraculosamente os espinhos em rendas, para que a Titi
me deserdasse e eu fosse precipitado para sempre nas Profundas
Sociais!
E quando assim esbravejava, esguedelhado - encontrei frigidamente
cravados em mim e mais abertos, como gozando a derrota
da minha vida, os olhos claros do Cristo crucificado, dentro
do seu caixilho com borlas...
- Foste tu! - gritei, de repente iluminado e compreendendo o
prodgio. - Foste tu! Foste tu!
E, com os punhos fechados para ele, desafoguei fartamente os
queixumes, os agravos do meu corao:
- Sim, foste tu que transformaste ante os olhos devotos da Titi a
coroa de dor da tua lenda - na camisa suja da Mary!... E por
qu? Que te fiz eu? Deus ingrato e varivel! Onde, quando, gozaste
tu devoo mais perfeita? No acudia eu todos os domingos,
vestido de preto, a ouvir as missas melhores que te oferta
Lisboa? No me atochava eu todas as sextas-feiras, para te
agradar, de bacalhau e de azeite? No gastava eu dias, no
oratrio da Titi, com os joelhos doridos, rosnando os teros da
tua predileo? Em que cartilhas houve rezas que eu no decorasse
para ti? Em que jardins desabrocharam flores com que eu
no enfeitasse os teus altares?
E arrebatado, arrepiando os cabelos, repuxando as barbas, eu
clamava ainda, to perto da imagem que as baforadas da minha
clera lhe embaciavam o vidro:
- Olha bem para mim!... No te recordas de ter visto este rosto,
estes plos, h sculos, num trio de mrmore, sob um
velrio, onde julgava um Pretor de Roma? Talvez te no lembres!
Tanto dista de um deus vitorioso sobre o seu andor a um
Rabi de provncia amarrado com cordas!... Pois bem! Nesse
dia de Nizam, em que no tinhas ainda confortveis lugares no
cu e na bem-aventurana a distribuir aos teus fiis; nesse dia,
em que ainda te no tornaras para ningum fonte de riqueza e
esteio de poder; nesse dia, em que a Titi, e todos os que hoje se
prostram a teus ps, te teriam apupado como os vendilhes do
templo, os fariseus e a populaa de Acra; nesse dia, em que os
soldados que hoje te escoltam com charangas, os magistrados
que hoje encarceram quem te desacate ou te renegue, os proprietrios
que hoje te prodigalizam ouro e festas de igreja - se
teriam juntado com as suas armas e os seus cdigos e as suas
bolsas, para obterem a tua morte como revolucionrio, inimigo
da ordem, terror da propriedade; nesse dia, em que tu eras
apenas uma inteligncia criadora e uma bondade ativa, e portanto
considerado pelos homens srios como um perigo social -
houve em Jerusalm um corao que espontaneamente, sem
engodo no cu, nem terror do inferno, estremeceu por ti. Foi o
meu!... E agora persegues-me. Por qu?...
Subitamente, oh maravilha, do tosco caixilho com borlas irradiaram
trmulos raios, cor de neve e cor de ouro. O vidro abriuse
ao meio com o fragor faiscante de uma porta do cu. E de
dentro o Cristo no seu madeiro, sem despregar os braos, deslizou
para mim serenamente, crescendo at ao estuque do teto,
mais belo em majestade e brilho que o sol ao sair dos montes.
Com um berro ca sobre os joelhos; bati a fronte apavorado no
soalho. E ento senti esparsamente pelo quarto, com um rumor
manso de brisa entre jasmins, uma voz repousada e suave:
- Quando tu ias ao alto da graa beijar no p uma imagem - era
para contar servilmente  Titi a piedade com que deras beijo;
porque jamais houve orao nos teus lbios, humildade no teu
olhar - que no fosse para que a Titi ficasse agradada no seu
fervor de beata. O deus a que te prostravas era dinheiro de G.
Godinho; e o cu para que teus braos trementes se erguiam - o
testamento da Titi... Para lograres nele o lugar melhor, fingiste-te
devoto, sendo incrdulo; casto, sendo devasso; caridoso, sendo
mesquinho; e simulaste a ternura de filho, tendo s a rapacidade
de herdeiro... Tu foste ilimitadamente o hipcrita! Tinhas duas
existncias: uma ostentada diante dos olhos da Titi, toda de rosrios,
de jejuns, de novenas; e longe da Titi, sorrateiramente,
outra, toda de gula, cheia da Adlia e da Benta... Mentiste sempre;
e s eras verdadeiro para o cu, verdadeiro para o mundo,
quando rogavas a Jesus e  Virgem que rebentassem depressa a
Titi. Depois resumiste esse laborioso dolo de uma vida inteira
num embrulho - onde acomodaras um galho, to falso como o
teu corao; e com ele contavas empolgar definitivamente as
pratas e prdios de D. Patrocnio! Mas noutro embrulho parecido
trazias pela Palestina, com rendas e laos, a irrecusvel evidncia
do teu fingimento... Ora, justiceiramente aconteceu que o
embrulho que ofertaste  Titi e que a Titi abriu - foi aquele que
lhe revelava a tua perversidade! E isto prova-te, Teodorico, a
inutilidade da hipocrisia!
Eu gemia sobre as tbuas. A voz sussurrou, mais larga, como o
vento da tarde entre as ramas:
- Eu no sei quem fez essa troca dos teus embrulhos, picaresca
e terrvel; talvez ningum; talvez tu mesmo! Os teus tdios de
deserdado no provem dessa mudana de espinhos em rendas;
mas de vveres duas vidas, uma verdadeira e de iniqidade, outra
fingida e de santidade. Desde que contraditoriamente eras
do lado direito o devoto Raposo e do lado esquerdo o obsceno
Raposo - no poderias seguir muito tempo, junto da Titi, mostrando
s o lado, vestido de casimiras de domingo, onde resplandecia
a virtude; um dia fatalmente chegaria em que ela, espantada,
visse o lado despido e natural onde negrejavam as mculas
do vicio... E a est por que eu aludo, Teodorico,  inutilidade
da hipocrisia.
De rojo eu estendia abjetamente os lbios para os ps do Cristo,
transparentes, suspensos no ar, com pregos que despediam
trmulas radincias de jia. E a voz passou sobre mim, cheia e
rumorosa, como a rajada que curva os ciprestes:
- Tu dizes que eu te persigo! No. O culo, isso a que chamas
Profundas Sociais, so obra das tuas mos - no obra minha.
Eu no construo os episdios da tua vida; assisto a eles e julgoos
placidamente... Sem que eu me mova, nem intervenha influncia
sobrenatural - tu podes ainda descer a misrias mais
torvas, ou elevar-te aos rendosos parasos da terra e ser diretor
de um Banco... Isso depende meramente de ti, e do teu esforo
de homem... Escuta ainda! Perguntavas-me, h pouco, se eu me
no lembrava do teu rosto... Eu pergunto-te agora se no te
lembras da minha voz... Eu no sou Jesus de Nazar, nem outro
deus criado pelos homens... Sou anterior aos deuses transitrios;
eles dentro em mim nascem; dentro em mim duram; dentro
em mim se transformam; dentro em mim se dissolvem; e eternamente
permaneo em torno deles e superior a eles, concebendo-
os e desfazendo-os, no perptuo esforo de realizar fora de
mim o deus absoluto que em mim sinto. Chamo-me conscincia;
sou neste instante a tua prpria conscincia refletida fora de ti,
no ar e na luz, e tomando ante teus olhos a forma familiar, sob a
qual, tu, mal-educado e pouco filosfico, ests habituado a
compreender-me... Mas basta que te ergas e me fites, para que
esta imagem resplandecente de todo se desvanea.
E ainda eu no levantara os olhos - j tudo desaparecera! Ento,
transportado como perante uma evidncia do sobrenatural,
atirei as mos ao cu e bradei:
- Oh meu Senhor Jesus, Deus e filho de Deus, que te
encarnaste e padeceste por ns...
Mas emudeci... Aquela inefvel voz ressoava ainda em minha
alma, mostrando-me a inutilidade da hipocrisia. Consultei a minha
conscincia, que reentrara dentro de mim - e bem certo de
no acreditar que Jesus fosse filho de Deus e de uma mulher
casada de Galilia (como Hrcules era filho de Jpiter e de uma
mulher casada da Arglida) - cuspi dos meus lbios, tornados
para sempre verdadeiros, o resto intil da orao.
Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de So Pedro de
Alcntara - stio que no pisara desde os meus anos de latim. E
mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo
Crispim, filho de Teles Crispim & Cia., com fbrica de fiao
 Pampulha - camarada que no avistara desde o meu grau
de bacharel. Era este o louro Crispim, que outrora no colgio
dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia
 noite bilhetinhos prometendo-me caixas com penas de ao.
Crispim velho morrera; Teles, rico e obeso, passara a Visconde
de So Teles; e este meu Crispim agora era a firma.
Trocado um ruidoso abrao, Crispim & Cia. notou pensativamente
que eu estava muitssimo feio. Depois invejou a minha
jornada  Terra Santa (que ele soubera pelo Jornal das Novidades)
e aludiu, com amigvel regozijo,  grossa maquia que me
devia ter deixado a senhora D. Patrocnio das Neves...
Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Paramos
num banco, junto de uma trepadeira de rosas; e a, no silncio e
no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a relquia no seu
embrulho, o desastre no oratrio, o culo, o meu quarto miservel
na Travessa da Palha...
- De modo, Crispinzinho da minha alma, que aqui me encontro
sem po!
Crispim & Cia., impressionado, torcendo os bigodes louros,
murmurou que em Portugal, graas  Carta e  Religio, todo o
mundo tinha uma fatia de po; o que a alguns faltava era o queijo.
- Ora o queijo dou-to eu, meu velho! - ajuntou alegremente a
firma, atirando-me uma palmada ao joelho. - Um dos empregados
do escritrio l na Pampulha comeou a fazer versos, a meter-
se com atrizes... E muito republicano, achincalhando as
cousas santas... Enfim, um horror, desembaracei-me dele! Ora,
tu tinhas boa letra. Uma conta de somar sempre sabers fazer...
l est a carteira do homem, vai l, so vinte e cinco mil-ris;
sempre  o queijo!...
Com duas lgrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a firma.
Crispim & Cia. murmurou outra vez, com uma careta de
quem sente um gosto azedo:
- Irra! Que ests muitssimo feio!
Comecei ento a servir com desvelo a fbrica de fiao 
Pampulha; e todos os dias  carteira, com mangas de lustrina,
copiava cartas na minha letra de belas curvas e alinhava algarismos
num vasto livro de Caixa... A firma ensinara-me a regra
de trs, e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por
um vento casual a um torro desaproveitado, rompem inesperadamente
plantas teis que prosperam - das lies da firma brotaram,
na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptides
considerveis para o negcio da fiao. J a firma dizia, compenetrada,
na assemblia do Carmo:
- L o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compndios que
lhe meteram no caco, tem dedo para as cousas srias!
Ora, num sbado de agosto,  tarde, quando eu ia fechar o livro
de Caixa, Crispim & Cia. parou diante da minha carteira, risonho
e acendendo o charuto:
- Ouve l,  Raposo, tu a que missa costumas ir?
Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.
- Eu pergunto isto - ajuntou logo a firma - porque amanh vou
com minha irm  Outra Banda, a uma quinta nossa, a Ribeira.
Ora, se tu no ests muito apegado a outra missa, venhas  de
Santos, s nove; amos almoar ao Hotel Tentral, e embarcvamos
de l para Cacilhas. Estou com vontade que conheas minha
irm!...
Crispim & Cia. era um cavalheiro religioso que considerava a
religio indispensvel  sua sade,  sua prosperidade comercial,
e  boa ordem do pas. Visitava com sinceridade o Senhor
dos Passos da Graa, e pertencia  Irmandade de So Jos. O
empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo
intolervel por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins
louvando Renan e ultrajando a eucaristia. Eu ia dizer a Crispim
& Cia. que estava to apegado  missa da Conceio-Nova,
que outra no me podia saber bem... Mas lembrei a voz austera
e salutar da Travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que
j me sujava os lbios - e disse, muito plido e muito firme:
- Olha, Crispim, eu nunca vou  missa... Tudo isso so patranhas...
Eu no posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos
os domingos num pedao de hstia feita de farinha. Deus
no tem corpo, nunca teve.. Tudo isso so idolatrias, so carolices...
Digo-te isto rasgadamente.. Podes fazer agora comigo o
que quiseres. Pacincia!
A firma considerou-me um momento mordendo o beio:
- Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gosto de
gente lisa... O outro velhaco, que estava a a essa carteira, diante
de mim dizia: Grande homem, o Papa! E depois ia para os
botequins e punha o Santo Padre de rastos... Pois acabou-se!
No tens religio, mas tens cavalheirismo... Em todo o caso, s
dez no Central para o almocinho, e  vela depois para a Ribeira!
Assim eu conheci a irm da firma. Chamava-se D. Jesuna; tinha
trinta e dous anos e era zarolha. Mas, desde esse domingo de
rio e de campo, a riqueza dos seus cabelos ruivos como os de
Eva, o seu peito slido e suculento, a sua pele cor de ma madura,
o riso so dos seus dentes claros - tornavam-me pensativo,
quando  tardinha, com o meu charuto, eu recolhia  Baixa
pelo Aterro, olhando os mastros das faluas...
Fora educada nas Salsias; sabia geografia e todos os rios da
China; sabia histria e todos os reis de Frana; e chamava-me
Teodorico-Corao-de-Leo, por eu ter ido  Palestina. Aos
domingos agora eu jantava na Pampulha; D. Jesuna fazia um
prato de ovos queimados; e o seu olho vesgo pousava, com
incessante agrado, na minha face potente e barbuda de
Raposo. Uma tarde ao caf, Crispim & Cia. louvou a famlia
real, a sua moderao constitucional, a graa caridosa da rainha.
Depois descemos ao jardim; e andando D. Jesuna a regar,
e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao
seu ombro: Vossa Excelncia, D. Jesuna,  que estava a calhar
para rainha, se c o Raposinho fosse rei! Ela, corando, deu-me
a ltima rosa do vero.
Em vspera de Natal, Crispim & Cia. chegou  minha carteira,
pousou galhofeiramente o chapu sobre a pgina do livro de
Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braos, com
um riso de lealdade e estima:
- Ento com qu; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga
l o Senhor Raposo. H ai dentro desse peito amor verdadeiro
 mana Jesuina?
Crispim & Cia. admirava a paixo e o ideal. Eu ia j dizer que
adorava a senhora D. Jesuna como a uma estrela remota...
Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha!
Recalquei a mentira sentimental que j me enlanguescia o lbio -
e disse corajosamente:
- Amor, amor, no... Mas acho-a um belo mulhero; gosto-lhe
muito do dote; e havia de ser um bom marido.
- D c essa mo honrada! - gritou a firma.
Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a considerao do meu bairro,
a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo
todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela
minha ilustrao, as minhas considerveis viagens e o meu patriotismo
- me deve o ttulo de Baro do Mosteiro. Porque eu
comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde,  mesa,
anunciou que o horrendo Negro, desejando arredondar as
suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos
condes de Lindoso.
- Ora, aquelas rvores, Teodorico - lembrou o benemrito homem
- deram sombra  senhora sua mam. Direi mais: as mesmas
sombras cobriram seu respeitabilssimo pai, Teodorico!...
Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, no me continha,
comprava o Mosteiro, erguia l um torreo com ameias!
Crispim & Cia. disse, pousando o copo:
- Compra,  cousa de famlia, fica-te bem.
E, numa vspera de Pscoa, assinei no cartrio do Justino, com
o procurador do Negro, a escritura que me tomava enfim, depois
de tantas esperanas e de tantos desalentos, o senhor do
Mosteiro!
- Que faz agora esse maroto desse Negro? - indaguei eu do
bom Justino, apenas saiu o agente do srdido sacerdote.
O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negro pechinchava!
Herdara tudo do Padre Casimiro, que l tinha o seu
corpo no alto de So Joo e a sua alma no seio de Deus. E
agora era o ntimo do Padre Pinheiro que no tinha herdeiros, e
que ele levara para Torres, para o curar. O pobre Pinheiro l
andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos
jantares do Negro, deitando a lngua de fora diante de cada
espelho. E no durava, coitado! De sorte que o Negro vinha a
reunir (com exceo do que fora para o Senhor dos Passos,
que no podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G.
Godinho.
Eu rosnei, plido:
- Que besta!
- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em
Lisboa, tomou a Adlia por conta...
- Que Adlia?
- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutrio... Depois,
esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, no
sei quem...
- Sei eu.
- Pois essa! Tem-na por conta o Negro, com luxo, tapete na
escada, cortinas de damasco, tudo... E est mais gordo. Vi-o
ontem; vinha de pregar... Pelo menos disse-me que saa de
So Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo de um
santo! Que o Negro s vezes  engraado. E tem bons amigos,
lbia, influncia em Torres... Ainda o vemos bispo!
Recolhi  minha famlia, pensativo. Tudo o que eu esperara e
amara (at a Adlia!) o possua agora legitimamente o horrendo
Negro!... Perda pavorosa. E que no proviera da troca dos
meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia.
Agora, pai, comendador, proprietrio, eu tinha uma compreenso
mais positiva da vida; e sentia bem que fora esbulhado dos
contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no
oratrio da Titi - a coragem de afirmar!
Sim! Quando em vez de uma coroa de martrio aparecera, sobre
o altar da Titi, uma camisa de pecado - eu deveria ter gritado,
com segurana: Eis a a relquia! Quis fazer a surpresa...
No  a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa
Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto...
E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita:
Ao meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era
essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. L brilhavam
as suas iniciais - M. M.! L destacava essa clara, evidente
confisso - o muito que gozamos; o muito que eu gozara
em mandar  santa as minhas oraes para o cu, o muito
que a santa gozara no cu em receber as minhas oraes!
E quem o duvidaria? No mostram os santos missionrios de
Braga, nos seus sermes, bilhetes remetidos do cu pela Virgem
Maria, sem selo? E no garante a Nao a divina autenticidade
dessas missivas, que tm nas dobras a fragrncia do paraso?
Os dous sacerdotes, Negro e Pinheiro, cnscios do seu dever,
e na sua natural sofreguido de procurar esteios para a f oscilante
- aclamariam logo na camisa, na carta e as iniciais, um
miraculoso triunfo da Igreja. A tia Patrocnio cairia sobre o meu
peito, chamando-me seu filho e seu herdeiro. E eis-me rico!
Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia
da S. O Papa enviar-me-ia uma bno apostlica, pelos fios
do telgrafo.
Assim ficavam saciadas as minhas ambies sociais. E quem
sabe? Bem poderiam ficar tambm satisfeitas as ambies intelectuais
que me pegara o douto Topsius. Porque talvez a cincia,
invejosa do triunfo da f, reclamasse para si esta camisa de
Maria de Magdala, como documento arqueolgico... ela poderia
alumiar escuros pontos, na histria dos costumes contemporneos
do Novo Testamento - o feitio das camisas na Judia no
primeiro sculo, o estado industrial das rendas da Sria sob a
administrao romana, a maneira de abainhar entre as raas
semticas... Eu surgiria na considerao da Europa, igual aos
Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes
ressuscitadores do passado. A academia logo gritaria - A mim,
o Raposo! Renan, esse heresiarca sentimental, murmuraria -
Que suave colega, o Raposo! Sem demora se escreveriam
sobre a camisa da Mary sbios, ponderosos livros em alemo,
com mapas da minha romagem em Galilia... Eis-me a benquisto
pela Igreja, celebrado pelas universidades, com o meu cantinho
certo na bem-aventurana, a minha pgina retida na histria,
comeando a engordar pacificamente dentro dos contos de
G. Godinho.
E tudo isto perdera! Por qu? Porque houve um momento em
que me faltou esse descarado herosmo de afirmar, que, batendo
na terra com p forte, ou palidamente elevando os olhos ao
cu - cria, atravs da universal iluso, cincias e religies.
Mas emudeci... Aquela inefvel voz ressoava ainda em minha
alma, mostrando-me a inutilidade da hipocrisia. Consultei a minha
conscincia, que reentrara dentro de mim - e bem certo de
no acreditar que Jesus fosse filho de Deus e de uma mulher
casada de Galilia (como Hrcules era filho de Jpiter e de uma
mulher casada da Arglida) - cuspi dos meus lbios, tornados
para sempre verdadeiros, o resto intil da orao.
Ao outro dia, casualmente, entrei no jardim de So Pedro de
Alcntara - stio que no pisara desde os meus anos de latim. E
mal dera alguns passos, entre os canteiros, encontrei o meu antigo
Crispim, filho de Teles Crispim & Cia., com fbrica de fiao
 Pampulha - camarada que no avistara desde o meu grau
de bacharel. Era este o louro Crispim, que outrora no colgio
dos Isidoros me dava beijos vorazes no corredor, e me escrevia
 noite bilhetinhos prometendo-me caixas com penas de ao.
Crispim velho morrera; Teles, rico e obeso, passara a Visconde
de So Teles; e este meu Crispim agora era a firma.
Trocado um ruidoso abrao, Crispim & Cia. notou pensativamente
que eu estava muitssimo feio. Depois invejou a minha
jornada  Terra Santa (que ele soubera pelo Jornal das Novidades)
e aludiu, com amigvel regozijo,  grossa maquia que me
devia ter deixado a senhora D. Patrocnio das Neves...
Amargamente mostrei-lhe as minhas botas cambadas. Paramos
num banco, junto de uma trepadeira de rosas; e a, no silncio e
no perfume, narrei a camisa funesta da Mary, a relquia no seu
embrulho, o desastre no oratrio, o culo, o meu quarto miservel
na Travessa da Palha...
- De modo, Crispinzinho da minha alma, que aqui me encontro
sem po!
Crispim & Cia., impressionado, torcendo os bigodes louros,
murmurou que em Portugal, graas  Carta e  Religio, todo o
mundo tinha uma fatia de po; o que a alguns faltava era o queijo.
- Ora o queijo dou-to eu, meu velho! - ajuntou alegremente a
firma, atirando-me uma palmada ao joelho. - Um dos empregados
do escritrio l na Pampulha comeou a fazer versos, a meter-
se com atrizes... E muito republicano, achincalhando as
cousas santas... Enfim, um horror, desembaracei-me dele! Ora,
tu tinhas boa letra. Uma conta de somar sempre sabers fazer...
l est a carteira do homem, vai l, so vinte e cinco mil-ris;
sempre  o queijo!...
Com duas lgrimas a tremerem-me nas pestanas abracei a firma.
Crispim & Cia. murmurou outra vez, com uma careta de
quem sente um gosto azedo:
- Irra! Que ests muitssimo feio!
Comecei ento a servir com desvelo a fbrica de fiao 
Pampulha; e todos os dias  carteira, com mangas de lustrina,
copiava cartas na minha letra de belas curvas e alinhava algarismos
num vasto livro de Caixa... A firma ensinara-me a regra
de trs, e outras habilidades. E, como de sementes trazidas por
um vento casual a um torro desaproveitado, rompem inesperadamente
plantas teis que prosperam - das lies da firma brotaram,
na minha inculta natureza de bacharel em leis, aptides
considerveis para o negcio da fiao. J a firma dizia, compenetrada,
na assemblia do Carmo:
- L o meu Raposo, apesar de Coimbra e dos compndios que
lhe meteram no caco, tem dedo para as cousas srias!
Ora, num sbado de agosto,  tarde, quando eu ia fechar o livro
de Caixa, Crispim & Cia. parou diante da minha carteira, risonho
e acendendo o charuto:
- Ouve l,  Raposo, tu a que missa costumas ir?
Silenciosamente, tirei a minha manga de lustrina.
- Eu pergunto isto - ajuntou logo a firma - porque amanh vou
com minha irm  Outra Banda, a uma quinta nossa, a Ribeira.
Ora, se tu no ests muito apegado a outra missa, venhas  de
Santos, s nove; amos almoar ao Hotel Tentral, e embarcvamos
de l para Cacilhas. Estou com vontade que conheas minha
irm!...
Crispim & Cia. era um cavalheiro religioso que considerava a
religio indispensvel  sua sade,  sua prosperidade comercial,
e  boa ordem do pas. Visitava com sinceridade o Senhor
dos Passos da Graa, e pertencia  Irmandade de So Jos. O
empregado, cuja carteira eu ocupava, tornara-se-lhe sobretudo
intolervel por escrever no Futuro, gazeta republicana, folhetins
louvando Renan e ultrajando a eucaristia. Eu ia dizer a Crispim
& Cia. que estava to apegado  missa da Conceio-Nova,
que outra no me podia saber bem... Mas lembrei a voz austera
e salutar da Travessa da Palha! Recalquei a mentira beata que
j me sujava os lbios - e disse, muito plido e muito firme:
- Olha, Crispim, eu nunca vou  missa... Tudo isso so patranhas...
Eu no posso acreditar que o corpo de Deus esteja todos
os domingos num pedao de hstia feita de farinha. Deus
no tem corpo, nunca teve.. Tudo isso so idolatrias, so carolices...
Digo-te isto rasgadamente.. Podes fazer agora comigo o
que quiseres. Pacincia!
A firma considerou-me um momento mordendo o beio:
- Pois olha, Raposo, calha-me essa franqueza!... Eu gosto de
gente lisa... O outro velhaco, que estava a a essa carteira, diante
de mim dizia: Grande homem, o Papa! E depois ia para os
botequins e punha o Santo Padre de rastos... Pois acabou-se!
No tens religio, mas tens cavalheirismo... Em todo o caso, s
dez no Central para o almocinho, e  vela depois para a Ribeira!
Assim eu conheci a irm da firma. Chamava-se D. Jesuna; tinha
trinta e dous anos e era zarolha. Mas, desde esse domingo de
rio e de campo, a riqueza dos seus cabelos ruivos como os de
Eva, o seu peito slido e suculento, a sua pele cor de ma madura,
o riso so dos seus dentes claros - tornavam-me pensativo,
quando  tardinha, com o meu charuto, eu recolhia  Baixa
pelo Aterro, olhando os mastros das faluas...
Fora educada nas Salsias; sabia geografia e todos os rios da
China; sabia histria e todos os reis de Frana; e chamava-me
Teodorico-Corao-de-Leo, por eu ter ido  Palestina. Aos
domingos agora eu jantava na Pampulha; D. Jesuna fazia um
prato de ovos queimados; e o seu olho vesgo pousava, com
incessante agrado, na minha face potente e barbuda de
Raposo. Uma tarde ao caf, Crispim & Cia. louvou a famlia
real, a sua moderao constitucional, a graa caridosa da rainha.
Depois descemos ao jardim; e andando D. Jesuna a regar,
e eu ao lado enrolando um cigarro, suspirei e murmurei junto ao
seu ombro: Vossa Excelncia, D. Jesuna,  que estava a calhar
para rainha, se c o Raposinho fosse rei! Ela, corando, deu-me
a ltima rosa do vero.
Em vspera de Natal, Crispim & Cia. chegou  minha carteira,
pousou galhofeiramente o chapu sobre a pgina do livro de
Caixa que eu enegrecia de cifras, e cruzando os braos, com
um riso de lealdade e estima:
- Ento com qu; rainha, se o Raposinho fosse rei?... Ora, diga
l o Senhor Raposo. H ai dentro desse peito amor verdadeiro
 mana Jesuina?
Crispim & Cia. admirava a paixo e o ideal. Eu ia j dizer que
adorava a senhora D. Jesuna como a uma estrela remota...
Mas recordei a voz altiva e pura da Travessa da Palha!
Recalquei a mentira sentimental que j me enlanguescia o lbio -
e disse corajosamente:
- Amor, amor, no... Mas acho-a um belo mulhero; gosto-lhe
muito do dote; e havia de ser um bom marido.
- D c essa mo honrada! - gritou a firma.
Casei. Sou pai. Tenho carruagem, a considerao do meu bairro,
a comenda de Cristo. E o Doutor Margaride, que janta comigo
todos os domingos de casaca, afirma que o Estado, pela
minha ilustrao, as minhas considerveis viagens e o meu patriotismo
- me deve o ttulo de Baro do Mosteiro. Porque eu
comprei o Mosteiro. O digno magistrado uma tarde,  mesa,
anunciou que o horrendo Negro, desejando arredondar as
suas propriedades em Torres, decidira vender o velho solar dos
condes de Lindoso.
- Ora, aquelas rvores, Teodorico - lembrou o benemrito homem
- deram sombra  senhora sua mam. Direi mais: as mesmas
sombras cobriram seu respeitabilssimo pai, Teodorico!...
Eu por mim, se tivesse a honra de ser um Raposo, no me continha,
comprava o Mosteiro, erguia l um torreo com ameias!
Crispim & Cia. disse, pousando o copo:
- Compra,  cousa de famlia, fica-te bem.
E, numa vspera de Pscoa, assinei no cartrio do Justino, com
o procurador do Negro, a escritura que me tomava enfim, depois
de tantas esperanas e de tantos desalentos, o senhor do
Mosteiro!
- Que faz agora esse maroto desse Negro? - indaguei eu do
bom Justino, apenas saiu o agente do srdido sacerdote.
O dileto e fiel amigo deu estalinhos nos dedos. O Negro pechinchava!
Herdara tudo do Padre Casimiro, que l tinha o seu
corpo no alto de So Joo e a sua alma no seio de Deus. E
agora era o ntimo do Padre Pinheiro que no tinha herdeiros, e
que ele levara para Torres, para o curar. O pobre Pinheiro l
andava, mais chupado, empanturrando-se com os tremendos
jantares do Negro, deitando a lngua de fora diante de cada
espelho. E no durava, coitado! De sorte que o Negro vinha a
reunir (com exceo do que fora para o Senhor dos Passos,
que no podia tornar a morrer, esse!) o melhor da fortuna de G.
Godinho.
Eu rosnei, plido:
- Que besta!
- Chame-lhe besta, amiguinho!... Tem carruagem, tem casa em
Lisboa, tomou a Adlia por conta...
- Que Adlia?
- Uma de boas carnes, que esteve com o Eleutrio... Depois,
esteve muito em segredo com um basbaque, um bacharel, no
sei quem...
- Sei eu.
- Pois essa! Tem-na por conta o Negro, com luxo, tapete na
escada, cortinas de damasco, tudo... E est mais gordo. Vi-o
ontem; vinha de pregar... Pelo menos disse-me que saa de
So Roque esfalfado de dizer amabilidades a um diabo de um
santo! Que o Negro s vezes  engraado. E tem bons amigos,
lbia, influncia em Torres... Ainda o vemos bispo!
Recolhi  minha famlia, pensativo. Tudo o que eu esperara e
amara (at a Adlia!) o possua agora legitimamente o horrendo
Negro!... Perda pavorosa. E que no proviera da troca dos
meus embrulhos, nem dos erros da minha hipocrisia.
Agora, pai, comendador, proprietrio, eu tinha uma compreenso
mais positiva da vida; e sentia bem que fora esbulhado dos
contos de G. Godinho simplesmente por me ter faltado no
oratrio da Titi - a coragem de afirmar!
Sim! Quando em vez de uma coroa de martrio aparecera, sobre
o altar da Titi, uma camisa de pecado - eu deveria ter gritado,
com segurana: Eis a a relquia! Quis fazer a surpresa...
No  a coroa de espinhos. E melhor! E a camisa de Santa
Maria Madalena!... Deu-ma ela no deserto...
E logo o provava com esse papel, escrito em letra perfeita:
Ao meu portuguesinho valente, pelo muito que gozamos... Era
essa a carta em que a santa me ofertava a sua camisa. L brilhavam
as suas iniciais - M. M.! L destacava essa clara, evidente
confisso - o muito que gozamos; o muito que eu gozara
em mandar  santa as minhas oraes para o cu, o muito
que a santa gozara no cu em receber as minhas oraes!
E quem o duvidaria? No mostram os santos missionrios de
Braga, nos seus sermes, bilhetes remetidos do cu pela Virgem
Maria, sem selo? E no garante a Nao a divina autenticidade
dessas missivas, que tm nas dobras a fragrncia do paraso?
Os dous sacerdotes, Negro e Pinheiro, cnscios do seu dever,
e na sua natural sofreguido de procurar esteios para a f oscilante
- aclamariam logo na camisa, na carta e as iniciais, um
miraculoso triunfo da Igreja. A tia Patrocnio cairia sobre o meu
peito, chamando-me seu filho e seu herdeiro. E eis-me rico!
Eis-me beatificado! O meu retrato seria pendurado na sacristia
da S. O Papa enviar-me-ia uma bno apostlica, pelos fios
do telgrafo.
Assim ficavam saciadas as minhas ambies sociais. E quem
sabe? Bem poderiam ficar tambm satisfeitas as ambies intelectuais
que me pegara o douto Topsius. Porque talvez a cincia,
invejosa do triunfo da f, reclamasse para si esta camisa de
Maria de Magdala, como documento arqueolgico... ela poderia
alumiar escuros pontos, na histria dos costumes contemporneos
do Novo Testamento - o feitio das camisas na Judia no
primeiro sculo, o estado industrial das rendas da Sria sob a
administrao romana, a maneira de abainhar entre as raas
semticas... Eu surgiria na considerao da Europa, igual aos
Champollions, aos Topsius, aos Lepsius, e outros sagazes
ressuscitadores do passado. A academia logo gritaria - A mim,
o Raposo! Renan, esse heresiarca sentimental, murmuraria -
Que suave colega, o Raposo! Sem demora se escreveriam
sobre a camisa da Mary sbios, ponderosos livros em alemo,
com mapas da minha romagem em Galilia... Eis-me a benquisto
pela Igreja, celebrado pelas universidades, com o meu cantinho
certo na bem-aventurana, a minha pgina retida na histria,
comeando a engordar pacificamente dentro dos contos de
G. Godinho.
E tudo isto perdera! Por qu? Porque houve um momento em
que me faltou esse descarado herosmo de afirmar, que, batendo
na terra com p forte, ou palidamente elevando os olhos ao
cu - cria, atravs da universal iluso, cincias e religies.
FIM

